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Edição 227

O Cinema romance-reportagem de José Louzeiro

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Data de Publicação: 2 de dezembro de 2010
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Sergio Brandão*

Estamos no momento efusivo com o sucesso da franquia policial Tropa de Elite nas salas de cinema. Mais de 10 milhões de espectadores já viram, e temos o gênero policial contando as agruras sociais e violentas da sociedade brasileira, em ebulição constante no cinema nacional. Mas, o que nem todos lembram é da presença de um escritor e roteirista maranhense, o qual já havia participado intimamente de grandes filmes policiais e de denúncia social na história de nossa cinematografia. Seu nome é José Louzeiro.

É necessário repisar a violência incessante pela qual passa o país. Não é novidade a eclosão de mortes, rebeliões em presídios, ataques de traficantes em grandes cidades, tiroteios em morros e ruas das cidades. Tais mostras de terríveis momentos sociais cotidianos estão conosco e alimentam nossa dramaturgia há décadas. Lembrar filmes do passado recente de nossa produção tupiniquim é bom para olharmos o quanto o gênero policial contestador, político-social e documental é rico. Para ser exato, logo antes do golpe militar de 1964. Depois, fundamentalmente, nos anos 70 e 80, esse tipo de cinema substancialmente marcou o que era chamado de relevante cinema político policial engajado na realidade sócio-economica do país, ou a crítica mais feroz ao modelo excludente de sociedade que estávamos criando. Infelizmente, ainda vigente na atualidade. A violência não é maior hoje do que quando os militares estavam no poder e atacavam os desvalidos, excluídos, marginais da pobreza. De fato, algumas coisas melhoraram no Brasil, não é uma ilusão, porém falta muito ainda e os reflexos do que José Louzeiro escreveu e mostrou em reportagens policiais, em romances e no cinema explicam muito da situação ainda sentida no dia a dia de todos.

Louzeiro tem sua importância grifada e creditada na realização de roteiros e na adaptação sua de livros seminais seus do gênero romance-reportagem para nosso glorioso cinema. Em especial, no fim da década de 70, sua colaboração fez renascer e garantir o sucesso dos filmes de denúncia policiais feitos por aqui. Entretanto, antes disso, é bom fazermos um breve recorte no gênero policial construído pela nossa produção cinematográfica. É possível dividirmos num breve quadro histórico os filmes de ação policial brasileiros a partir de Assalto ao trem pagador, de 1962, com direção de Roberto Farias, e Lúcio Flávio, passageiro da agonia, de 1977, de Hector Babenco, até filmes como O Homem da Capa Preta de 1986, dirigido por Sergio Resende e, por fim, observamos as películas atuais produzidas após o enorme sucesso de Cidade de Deus, de 2002, feito por Fernando Meirelles. O dado interessante é a participação direta de José Louzeiro em dois dos filmes mencionados nesse recorte histórico; Lúcio Flávio e o Homem da Capa Preta. Porém, o autor maranhense tem ainda maior contribuição ao nosso cinema, ele é o autor de Infância dos Mortos, livro que deu origem ao roteiro dele, para a produção da obra-prima Pixote, a Lei do mais fraco, o grande filme brasileiro do fim dos anos 70 e até hoje forte candidato a um dos melhores filmes já feitos na terra descoberta por Cabral. José Louzeiro é um dos personagens de qualidade inequívoca na história do cinema brasileiro.

Em 1962, Assalto ao Trem Pagador provocou polêmica e elogios por contar os dramas e as ações violentas do grupo de Tião Medonho, ardiloso, inteligente e perspicaz, socialmente falando, ladrão carioca da época. O filme também conta o lado da marginalidade e coloca a polícia como uma entidade repressora que vai atrás do extermínio dos elementos nocivos à sociedade brasileira conservadora, ou seja, essa produção se mostra mais a favor dos bandidos e inaugura um estilo de escancarar as sofridas desventuras dos excluídos da sociedade e mostra o fim violento deles, o seu pronto extermínio pelo aparelho repressor do estado. Tal estilo e dramaturgia, que envolve o pobre como um elemento sofrido, marginal, acuado, perdido e de pronto morto, é fórmula a ser seguida pelo gênero policial brasileiro após Assalto, e explorar, além de explicitar realisticamente nossas piores chagas sociais, passou a ser a forma de tentar chacoalhar os espectadores que iriam assistir a essas obras renovadoras.

Nos anos 70, com ditadura militar vigorando, a denúncia, o estilo investigativo e a visão a favor do marginalizado estariam presentes no cinema e Louzeiro soube como ninguém contar histórias tristes e pungentes dentro da realidade mais cretina e nojentamente excluída já vista nas telas. Era de apertar o coração.

Um dos melhores policiais de denúncia já feito em qualquer cinematografia mundial foi realizado por nossas paragens e se chamou Lúcio Flávio, o passageiro da agonia, dirigido por Hector Babenco. Essa produção foi corajosa em investigar e por o dedo na ferida na história dos esquadrões da morte e sua estreita relação com bandidos como Lúcio Flávio, que agiam por dentro do aparelho repressor policial dos anos 60 e 70, no Rio de Janeiro.

Ficou famosa uma frase dita pelo bandido e reproduzida no filme por Reginaldo Farias, em atuação marcante: “Bandido é bandido e polícia é polícia, quando os dois se misturam boa coisa não vai dar”. Acima disso o filme é uma joia do cinema de ação com tensão, drama, realismo intenso, personagens bem construídos e um clima de denúncia sem fim com a falta de moral e compromisso da policia em defender o povo do crime, mais precisamente fazendo par com ele e usando de extrema violência para silenciar a população mais desvalida.

Lúcio Flávio é outra produção que joga a favor do bandido. Era preciso antever o verdadeiro inimigo, a ditadura e seu aparelho repressor. Por conta disso os personagens à margem da sociedade significavam uma catarse contra os poderosos que maltratavam o povão. Eram outros tempos e nosso cinema se importava demais com os marginais usados pelo sistema. O mais intragável era o clima de pobreza e falta de perspectiva de justiça no Brasil. Nesse panorama, os roteiros de Louzeiro primavam pela denúncia e pelo choque da violência urbana miserável das grandes cidades. As desigualdades sociais foram utilizadas para fazer as plateias pensarem sobre nossas falhas e nossa letargia politico-social. Não víamos realmente a realidade das ruas das cidades brasileiras e o choque visual era arma do discurso imagético descrito pelo autor.

A realidade do Brasil era o mote dos roteiros de José Louzeiro, um apaixonado pelo estilo do romance-reportagem criado por Truman Capote em A Sangue Frio. Nessa literatura, a realidade mais dura, o crime, os personagens no fio da navalha e a denúncia social eram o guia, o caminho entre uma reportagem pura e simples e o jogo literário da narrativa do romance também separado por uma linha tênue. Louzeiro trabalhava isso como ninguém, seu material vinha das páginas policiais de jornais onde ele apreendeu as técnicas, ao servir por muitos anos como foca e repórter policial em diversos deles, sua envergadura denunciadora dos crimes sociais que perpassavam a sociedade brasileira como alimento para as tramas de seus livros e roteiros mais impactantes.

Um desses livros foi A Infância dos Mortos, como já mencionado, que deu origem ao roteiro de Pixote, a lei do mais fraco, outra parceria com Hector Babenco na direção e um dos maiores filmes da história do cinema no Brasil, uma saga feita em 1980, que chocou todo o mundo e esbofeteou o Brasil com o problema do menor abandonado que se torna infrator e tem sua vida carcomida, jogada ao lixo e a morte nas Febens, Funabens e ruas violentas das cidades. Pixote é o filme “soco na cara”, uma descida aos infernos, uma película pura de tristeza, falta de afeto, sem perspectiva, uma produção sem piedade alguma, a qual legou ao cinema nacional um mártir, o ator Fernando Ramos da Silva, morto sete anos depois, tal como um excluído, um marginalzinho sem chance, retrato vivo do seu Pixote, seu personagem cuja presença iluminada nas telas não foi o bastante para salvar-lhe a própria vida. O Brasil mata até seus astros de cinema.

O filme foi lançado em 1980 e conta a história da infância desvalida de Pixote, nas ruas e instituições. Ele é interpretado por Fernando Ramos da Silva e um grupo de menores infratores perdidos no jogo das drogas e dos aproveitadores maiores de idade, tanto do lado das autoridades, quanto do lado da marginália paulistana e carioca da época. Os garotos tentam sobreviver e vão um a um morrendo e se esvaindo na repelente realidade da rua e da perseguição social. O filme começa com o próprio Babenco apresentando seu astro, vindo direto de uma favela paulista e jogando com um estilo documental de reportagem da realidade do grupo social de alto risco vivido pelos garotos infratores. É um interessante uso do docudrama como parte de um discurso enaltecedor da crítica ao desleixo da situação do menor abandonado no país. E então, daí, partimos para o filme e suas atuações naturalistas ao extremo que são referência até os dias de hoje. Por exemplo ajudaram a compor o material dos meninos atores de Cidade de Deus, e provocaram espontaneidade com total empatia dos espectadores para com os dramas passados pela turma de Pixote.

Grandes atores fizeram parte desses filmes aterradoradamente reais: Jardel Filho, Marília Pêra, Reginaldo Farias, Toni Tornado, Paulo Gracindo e José Wilker. Muitos tiveram nessas obras roteirizadas por José Louzeiro suas melhores atuações. E em Pixote a estrela da companhia foi Marília Pêra, atriz brilhante na pele da protistuta que, de certa forma, “adota” Pixote.

Em 1980, Pixote causou furor, ganhou inúmeros prêmios internacionais, possibilidades de oscar, festivais e mais festivais, aplausos mil e muita polêmica tal qual Lúcio Flávio, pouco anos antes. A dura realidade era mal deglutida pelos poderosos e a ditadura não gostava de se observar nas telas como uma vilã, cuja força residia na perpetuação das injustiças sociais do Brasil e na venda posta nos olhos da sociedade encastelada num delírio de democracia racial conjuntamente com a mentira do país festivo, cordial, afetivo, o qual adorava se ver nas festas e a tudo batia palmas. Trágico, éramos uns iludidos, até hoje ainda somos.

Essa veracidade da vida cotidiana num Brasil com problemas sociais sérios foi matéria-prima para Louzeiro, em especial, no ano de 1979, com o laçamento de Amor Bandido, dirigido por Bruno Barreto, cuja ótica retratar a marginalidade pelo viés de um romance tresloucado entre uma protistuta e um assassino, espécie de serial killer que mata taxistas. Perpassa também a força de personagens no limite, com uma vida sem futuro, uma pressa em viver, sem respeitar fronteiras, o que lhes resta. Um contraponto é a visão da polícia nessa obra, onde a presença de Paulo Gracindo, como pai da prostituta, revela a cara da repressão e o conflito entre o dever para com o órgão retaliador e a missão de pai, relegada pelo fim do afeto.

Amor Bandido é um dos mais pesados filmes sobre um caso de amor entre desvalidos marginais, sem qualquer redenção. José Louzeiro mostra, sem rodeios, a vida pregressa dos amantes marginais. E Bruno Barreto carrega na sexualidade, na linguagem vulgar e na estupenda interpretação do elenco, no qual outro destaque está em Paulo Guarnieri, filho do grande ator Gianfrancesco Guarnieri. Nessa obra, o jovem Guarnieri fazia sua estreia e domava todos os sentidos do jovem matador louco de paixão por sua prostituta. Para alguns Amor Bandido é um dos filmes de amor mais duros já feitos no Brasil.

Outra face do trabalho de roteiros feita pelo autor maranhense pode ser vista em filmes como: Caso Cláudia, ficção calcada em um rumoroso caso real de assassinato de uma jovem pelo tráfico, no Rio de Janeiro dos anos 70 e O Homem da Capa Preta, uma cinebiografia do controvertido e violento político fluminense Tenório Cavalcanti, no Rio dos anos 50 e 60.

No primeiro exemplo, José Louzeiro conduz com maestria um típico filme reportagem que altera nomes e dados dos acontecimentos nunca tão bem revelados sobre o assassinato da jovem Cláudia Lessin por playboys da zona sul, envolvidos com o tráfico, num Rio de Janeiro dominado pela polícia e militares.

A política do acobertamento, a corrupção em alto escalão, o mundo político, o uso de jovens pelo tráfico, a burguesia financiadora das festas e regabofes cheias de drogas, o mundo das redações de coberturas policiais pela imprensa e o trabalho da polícia mais engajada, até mesmo mais heroica, foram enquadrados num enfoque com dureza, cujo hiper-realismo não permitiu nenhuma concessão. Mais uma vez a ditadura não gostou do modo como essas verdades foram abordadas e, no ano de 1979, esse filme polemizou.

No entanto, Caso Cláudia foi uma obra de menor repercussão dentro do espectro de histórias escritas por Louzeiro, talvez por contar com um diretor menos maduro, Miguel Borges, que não entendeu e não aprofundou as várias possibilidades de tensão e crítica social à burguesia proposta no roteiro. Ao fim, O Caso Cláudia se escora na boa atuação de Roberto Bonfim, no papel do delegado que investiga o caso e na participação de Carlos Eduardo Dolabella que traduz com vigor a missão de um repórter investigativo com todas as limitações impostas pela censura dos ditadores da época.

No outro exemplo, O Homem da Capa Preta, temos um dos melhores filmes de ação policial já feitos por aqui. A união de Louzeiro, Sergio Resende, o diretor, e do outro roteirista Leopoldo Serran, legou-nos um filme denso, cheio de diálogos criativos, um José Wilker inspiradíssimo na pele de Tenório Cavalcanti, um elenco de coadjuvantes de peso, Marieta Severo, Chico Diaz dentre outros. Uma cinebiografia perfeita sobre o caráter, histórias, trajetória, crimes, atentados, clima político e social vivídos pela personagem de Tenório, nas décadas de 50 e 60 até o golpe militar. A produção recria um tempo histórico incrível na baixada fluminense, explora o gênero do suspense policial com vigor, apresenta boas cenas de ação, antecede o fulgurante mundo, da corrupção e ignomínia política, descrito nos Tropa de Elite do século XXI. Tem um bom humor e um personagem histriônico único, inesquecível na composição de Tenório Cavalcanti, muito antes de um certo Capitão Nascimento agradar em cheio as plateias.

Numa análise mais rápida O Homem da Capa Preta nos prepara para a virada no gênero policial no Brasil, onde os bandidos e a violência explodirão na cara do espectador com maior virulência, provavelmente reflexos da americanização desse gênero na concepção de histórias e dramaturgia por nossos realizadores.

O filme de gênero atualmente no Brasil segue uma lógica de realismo social ainda proposta, entretanto compõe-se com um espetáculo do filme de pura ação made in Hollywood. Não cabe aqui uma crítica direta, pode-se perceber o apuro técnico, a narrativa concisa e popular ao extremo. Falar de violência no país é sucesso certo e usar os signos da ação cinematográfica em conjunto com o discurso de explorados, ou ao menos entoar o mantra de país envolto em corrupção e “lerdeza” social tem certa validade, dentro disso vemos o porque do fenômeno da franquia Tropa de Elite, e do começo disso na produção do visionário Cidade de Deus.

O modo de retratar o caos urbano, a degradação social e a repressão do estado visto nos anos 70 e 80 compunha um estilo de José Louzeiro advindo da estética pretendida após o sucesso de Assalto ao Trem Pagador, de Farias, em 1962. O bandido mais romântico, marginal social, vítima das circunstâncias e excluído do processo de desenvolvimento da nação não abarcava mais a escalada da violência urbana que víamos nos jornais e nas ruas. Seria preciso ir além e até jogar o jogo do preconceito social de direita que culpava os pobres e despossuídos por todo o mal visto nas cidades grandes do país. Isso não era o material de José Louzeiro, um escritor e roteirista que não culpa o povo pelas suas próprias mortes, não o sataniza, porém, isso sim, o coloca como elemento perdido, sem esperança, forçado a se corromper, prostituir, matar para sobreviver. Em suma Louzeiro dava voz aos fora da lei, pois a lei era dos mais fortes e feita pelos poderosos, verdadeiros vilões em suas histórias.

A degradação moral, social e o desamparo foram construídas pela exclusão das populações pobres. Eles podiam ser feios, sujos, malvados, mas eram assim por culpa da sociedade que os fez assim. Nisso reside a extrema força das histórias de José Louzeiro, o romancista documentador da realidade marginal brasileira.

*Sérgio Brandão é cineasta, professor e crítico de cinema
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br