Data de Publicação: 2 de dezembro de 2010
Esta entrevista nos foi concedida pelo escritor José Louzeiro em duas etapas. A primeira parte, antes da 3ª Feira do Livro de São Luís, aconteceu no Hotel Brisamar, em 10 de outubro de 2009. A segunda parte retoma a primeira, e foi concedida em 20 de novembro de 2010, durante a 4ª Feira do Livro de São Luís, da qual o escritor foi patrono, no Hotel D’Abeville.
Como começou a carreira do escritor José Louzeiro? O meu primeiro livro é intitulado Depois da Luta, uma série de contos. Ainda hoje está inédito O Marajá, novela que foi censurada na época do então presidente Collor de Melo. Fiz para a TV Manchete. Embora, na época, não houvesse censura determinada por lei, o primeiro capítulo foi impedido de ir ao ar. Sabe-se que a censura veio pelos alcaguetes de Collor, pois o protagonista era igualzinho ao então Presidente da República. A novela foi descoberta num concurso de roteiro de novela que o Adolpho Bloch mandou fazer. Tive alguns companheiros colaboradores da novela: Heloy Santos Alexandre e Lídia Cristina Braga, que se matou.
Quem mais marcou os seus começos como estímulo literário? A professora Maria Freitas. Minha relação com ela era uma coisa fantástica. Era como se fosse minha mãe – daí minha amizade com sua filha, Marita. Ela me emprestava livros, depois me arguia sobre personagens.
E sobre o início de sua carreira jornalística em São Luís, como se deu? Em São Luís, fiquei até a década de 40. Garoto, era repórter de O Combate, jornal do Zuzu Nahuz. Saí do Maranhão, por ter constado da lista de jornalistas que deveriam ser mortos pelos jagunços de Vitorino Freire. Fui pro Rio. O primeiro jornal em que trabalhei foi O Imparcial, como aprendiz de revisor gráfico. O Imparcial, diga-se de passagem, pertencia à cadeia dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand que, na época, tinha mais poder do que Roberto Marinho. Ele foi quem inaugurou a TV, no Brasil. Na década de 40, houve um tiroteio de jagunços de Vitorino Freire e incendiaram o Diário de São Luís. Então fui para o Rio.
Como foi os seus começos no Rio de Janeiro, em termos de campo de trabalho? Fui para o Rio firme de que iria encontrar o repórter Lourival. Quando cheguei ao Rio, não o encontrei. Eu o conhecera durante as várias vindas dele a São Luís, para fazer cobertura política. Era do principal jornal da cadeia dos Diários Associados – O Jornal. Mas, quando cheguei, ele havia sido transferido para São Paulo. Aí fiquei na condição de foca, sem ganhar nada, em O Jornal. Isso foi em 1954, quando, chegado ao Rio, saí do avião e fui direto para o Jornal.
Então, como conseguiu sobreviver em terra estranha e sem emprego? Para poder me manter, comia sanduiches que me davam em O Jornal. Aí fui ser escriturário numa firma que vendia material gráfico. Através dessa firma eu sabia que ia ter contato com os jornais. Durante o ano de 1955, eu fiquei como escriturário dessa firma que se chamava Oscar Flues. Em 1956, fui contratado para redator de publicidade da Revista da Semana. E aí começaram minhas atividades nas empresas jornalísticas. Passei pelas seguintes redações – Luta Democrática, do deputado Tenório Cavalcanti. (Sobre ele, eu faria mais tarde um filme: O Homem da Capa Preta); O Dia, Diário Carioca, O Radical, Última Hora e Correio da Manhã.
Muitos escritores de nome confessaram dever muito ao jornalismo, entre eles o norte-americano Hemingway e os brasileiros Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. E o escritor José Louzeiro? A linguagem enxuta, sintética, devo ao jornalismo. Fui copy desk a vida inteira. Tudo o que sei,b aprendi no jornalismo. Principalmente em matéria de reportagem policial foi uma experiência de décadas e décadas. Eram as matérias que mais me agradava fazer ou copidescar. Antes de ser copy desk, fui repórter policial dia e noite, noite e dia. Daí nasceram minhas novelas policiais e, por consequência, os filmes.
Por que você tinha uma verdadeira obsessão e obstinação pelos casos policiais? Para chegar aos excluídos. O Pixote, por exemplo, foi uma forma de resgate, na época em que eu estava na Folha de São Paulo. Fui fazer uma reportagem no município mineiro. Maiporã, fronteira com São Paulo. Nas proximidades de Maiporã, para diminuir o número de trombadinhas, no centro da cidade, a polícia encheu um ônibus com cerca de 100 crianças, que foram metidas no transporte e jogadas fora, como se fossem lixo, nas proximidades de Maiporã. Na delegacia, encontrei apenas 52 dos 100. Os outros desapareceram. Era a ditadura dos anos 60. Eu voltei para a redação. O redator-chefe era uma pessoa brilhante, de esquerda – Cláudio Abramo. Ele, de pronto, estabeleceu que a matéria fosse publicada em páginas inteiras, durante 3 dias. Acontece que os censores que viviam na rua, não concordaram com a reportagem e a transformaram em 30 linhas. Eu não aceitei e resolvi abandonar o jornalismo. Voltei para o Rio de Janeiro e resolvi transformar a matéria num livro, cujo título seria Infância dos Mortos, e a cujo protagonista da narrativa dei o nome de Pixote.
Eu era casado com uma mulher fantástica, chamada Edinalva Tavares, baiana. Edinalva tinha um bom emprego num Banco da Bahia e era quem me sustentava. Depois, consegui um trabalho na parte da tarde, no (jornal) Última Hora, para o qual escrevia pela manhã.
Quem era Lúcio Flávio, de fato, em sua concepção e leitura psicológica? Lúcio Flávio era um menino de família abastada, bonitão. Assaltava em carro próprio, importado e liderava uma quadrilha de cerca de 50 homens. Ele agia assim, por afronta aos ditadores (da década de 1970).
Publiquei o livro, em 1975. O pai de Lúcio, Oswaldo Lírio, desenhista bico de pena do Ministério de Ação e Obras, era o principal cabo eleitoral de Juscelino Kubitschek de Oliveira, em Minas.
Antes de ser bandido, Lúcio casou-se em Belo Horizonte com a filha de um rico negociante. Tornou-se pai, mas depois se desquitou no mês em que praticaria seu primeiro assalto a um banco, em Belo Horizonte. Na oportunidade, estava acompanhado de 3 outros delinquentes. Dois eram funcionários do banco, fora o motorista. Foi assim que teve início sua carreira criminosa.
O grau de verossimilhança de suas novelas tem razão de ser, já que suas reportagens chegavam às fronteiras e territórios dos protagonistas. Minhas novelas nascem da realidade. Neste país, a realidade é mágica, supera a ficção. É mais engenhosa que a ficção.
Quer dizer, a realidade imita a ficção? Sim. Aracelly, meu amor, por exemplo, vem da mesma linha de narrativa, com base em meu trabalho de repórter policial. Fui várias vezes a Vitória para levantar o caso, cujas investigações não caminhavam nunca. Nessa época, Edinalva Tavares ainda era fotógrafa e fez uma cobertura fantástica de todo o caso. A coisa era tão escandalosa, que os implicados na morte da menina só foram levados à delegacia para cobertura de inquérito, um ano e meio depois.
Como seus textos, baseados em reportagens, chegaram ao cinema? Através de Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia, cujo diretor foi Hector Babenco, o mesmo que dirigiria Pixote. Se você observar, quase todo meu trabalho se constitui de denúncia às injustiças sociais. Estranhamente, a imprensa nunca se manifestou abertamente a respeito do meu trabalho.
Quando o livro Infância dos Mortos foi publicado, na década de 70, não despertou o menor interesse, nem da Editora. Os meninos de rua, os pivetes ainda eram aprendizes de delinquentes, praticamente ingênuos e praticamente dominados pelas próprias vítimas. Hoje, eles são mais temidos pelos bandidos adultos.
Daniel Dantas roubou bilhões. Já entrou por uma porta da cadeia e saiu por outra, e o pobre diabo que rouba um pão vai preso, puxa cadeia e, se não souber se virar, morre nos fundos de uma prisão, de um presídio e fica por isso mesmo. Por ser pobre, ele é culpado. O cara que gritar “pega, ladrão!” para Daniel Dantas vai preso, acusado de infâmia.
E quanto aos roteiros de novelas? Coisa parecida ao cinema aconteceria comigo na novela da Manchete, Corpo Santo, em 1987, na qual eu ganharia o Prêmio Nacional de Melhor Novela. E diga-se de Olho por Olho e Guerra sem Fim, na Manchete.
Participei de alguns capítulos de Carga Pesada, que ia ao ar na Terça Nobre, e de uma novela, cujo protagonista foi José Lewgoy.
Para concluir, você acha que sua luta em favor dos excluídos de algum modo o conforta e consola? Eu sou a favor dos excluídos. Sou um deles. Por isso desempenhei e desempenho o meu papel com transparência e dignidade.
Como o escritor José Louzeiro se sente ao ter sido escolhido para patrono da 4ª Feira do Livro de São Luís? É um reconhecimento com que o Maranhão me honra, pelo meu trabalho de jornalista e escritor. É algo que mexe com minha sensibilidade, me emociona muito, porque não é costumeiro neste país um jornalista ou escritor ser lembrado para coisa alguma de bom, para nada. Os administradores de um modo geral querem que sejamos esquecidos, porque somos capazes de lembrar que eles é que são a ferida no coração do Brasil.
O que você acha indiferença e displicência de certos meios de comunicação de massa durante a 4ª Feira do Livro? Lamentavelmente, a imprensa e a televisão não se manifestaram como deviam sobre o evento, por causa das velhas questões políticas. Seja como for, a 4ª Feira do Livro, conforme você, que esteve aqui todos os dias, como eu, pode constatar, é um sucesso.
Como você vê a 4ª Feira do Livro de São Luís, tomando por base os avanços tecnológicos, a internet? Nesta época de globalização, em que somos nivelados elos meios de comunicação de massas, em que vivemos voltados para a televisão e o computador, a 4ª Feira do Livro de São Luís mostrou e demonstrou que o livro e o público que está diretamente comprometido com ele têm um papel altamente representativo nos tempos em que vivemos. Há, na feira, inclusive, os livros em topbooks que são mini-estantes, guardando num só programa inúmeros títulos de obras literárias. Um só topbook pode armazenar 1500 livros. Isso é fantástico em favor do livro. O importante é que a pessoa esteja inclinada a ler.
Sem dúvida, a sua presença diária na feira foi decisiva para o êxito dos eventos. Teça algumas considerações sobre o assunto? A alternância de palestrantes nos auditórios Maria Aragão e José Louzeiro foi fundamental. Também as palestras e debates no Café Literário deram visibilidade ao escritor maranhense. Isso é que faltava dar maior desataque na Feira, a prata da casa.
Conforme se pode constatar, esta 4ª edição da Feira tem uma preocupação mais centrada na criança e no adolescente. Como você vê essa peculiaridade? Embora tenha sido marcada pela má vontade e ausência quase que total da imprensa, a realização da Feira, do ponto de vista popular, se transformou num sucesso absoluto de público e conteúdo. Como já disse, foi marcante o interesse dos estudantes do Ensino Fundamental e Médio, das crianças e da juventude de modo geral. Posso testemunhar que foi impressionante o interesse dos jovens manuseando livros que, infelizmente, nem sempre podiam comprar. Sabe-se que o Maranhão, pelo Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, permanece como o Estado do Brasil de maiores índices de pobreza e miséria. Os jovens querem ler tanto quanto os adultos, mas, onde estão os livros para distribuição gratuita? Onde está a figura do Estado para cumprir com seu papel?
Como, do seu ponto de vista, o público participou do Curso de Roteiro de Cinema que ministrou? No Curso de Roteiro que eu ministrei, como parte do programa de atividades da Feira, inicialmente calculei que pudesse me relacionar com 8 a 10 interessados. Apareceram mais de 20. Daí você poderá concluir como me senti, após a conclusão do Curso de Roteiro.
E quanto à organização e direção da Feira? Devo destacar que em todos os momentos de funcionamento dos stands lá estavam como verdadeiros guardiões da cultura, Euclides Moreira Neto e José Paixão coordenando uma imensa equipe de jovens colaboradores, que cuidaram, inclusive, da limpeza do espaço físico da Feira. Havia sempre moças e rapazes varrendo a Feira em toda sua extensão. Um negócio de primeiro mundo.
Vale lembrar também o carinho do prefeito João Castelo e sua esposa, Dona Gardênia, que todas as noites se fizeram presentes.
Ainda que os adversários políticos de João Castelo se zanguem, posso dizer que a 4ª Feira do Livro de São Luís foi um sucesso. Sinto-me honrado de ter sido lembrado pelo diretor da Func, Euclides e pelo coordenador da Feira, Paixão, como patrono.
Na ausência da imprensa escrita e da televisão, como resgatar a memória da 4ª Feira, já que alguns meios de comunicação de massa não se fizeram presentes? Primeiro é dever dos meios de comunicação de massa fazer o registro e é até de interesse deles para serem lembrados como canais que fizerem a cobertura de uma festa cultural tão eloquentemente popular como a 4ª Feira do Livro de São Luís. Depois, há o Suplemento Cultural JP Guesa Errante, cuja equipe se fez presente em todos os dias da Feira. Vale lembrar que inúmeras pessoas foram para lá com câmeras moderníssimas fazer fotos e filmes. Posso dizer que as televisões maranhenses perderam uma grande oportunidade de registrar o grande evento que foi a 4ª Feira do Livro de São Luís. A direção registrou todo o evento.
Voltando ao cinema, tomando por base a direção... Murilo Santos é diretor de um filme que me encanta, de primeiríssima qualidade: Marisa vai ao cinema, média metragem muito bem feito. Inclusive, Euclides Moreira Neto é o principal ator do filme. Um cineasta como Murilo Santos merece total apoio do Estado pois,b investir num diretor do porte dele só trará resultados positivos e um retorno bom para a imagem do Maranhão como projeção nacional e no exterior.
Também considero o romance A tara e a toga de Valdomiro Viana um belíssimo roteiro de cinema. Dará um filme de grande apelo popular. Este escritor precisa ser prestigiado como bom escritor que é. Lembro também o nome Joaquim Haickel, premiado pelo curta Pelo Ouvido. Frederico Machado é um dos nomes do cinema maranhense que se tem destacado em nível nacional e internacional.
O apoio a esses cineastas é melhor para o Estado do que os governantes possam imaginar.
Vivemos o século das imagens, e o Estado aqui deixa os cineastas de braços cruzados, impondo-lhes exílio em sua própria ilha de São Luís. O Estado do Maranhão tem que estar á frente, dar o primeiro passo no sentido da divulgação de nossos valores. Temos mão-de-obra de primeira mão, falta o apoio, o incentivo.
Mas o escritor José Louzeiro também defende que o Estado assuma sua grande parcela de culpa por termos um bom produto cultural nos campos de literatura e cinema e não termos visibilidade no eixo Rio – São Paulo? Eu penso o seguinte: na medida em que o Maranhão se desenvolver economicamente, de verdade, a expansão cultural acontecerá. Basta que os próximos governos tomem consciência de que é através da literatura que o Maranhão é reconhecido e respeitado. É o livro e tão somente o livro que é capaz de promover o ser humano na escala social. O pai ou a mãe que dança bumba-meu-boi quer ver o filho na escola, no Ensino Fundamental, no Ensino Médio e depois na Faculdade, e quando for mestre ou doutor não se importará se dançar São João, Carnaval ou Reggae, contanto que não tenha que dar seu voto para alguém só porque financiou a brincadeira. Por isso os pais querem que os filhos dancem primeiro com as meninas dos olhos nas páginas dos livros. O livro é a fonte de todo o saber que promove o ser humano e o torna capaz de ser senhor de seu próprio destino. O outro caminho, sem o livro, é a escalada da criminalidade e da corrupção, da cachaça e das drogas, da pobreza, da miséria e do voto de cabresto.
Não é à toa que nossa São Luís é considerada Atenas Brasileira. Aqui temos grandes poetas, grandes prosadores, admiráveis dramaturgos. Faltam vitrines dos livros maranhenses nas grandes livrarias do Rio de Janeiro, de São Paulo e de todo o território nacional brasileiro. Falta investimento, falta divulgação, falta distribuição, editoras. Isso poderá acontecer através do entendimento de nossas instituições culturais com as grandes editoras e livrarias do eixo Rio – São Paulo.
Não encontrar obras de nossos grandes poetas e prosadores nas grandes livrarias e na Internet é brincadeira, não só brincadeira, mas irresponsabilidade do trato da coisa pública – o Livro.
- Próximo texto:
- Edição 227 O Cinema romance-reportagem de José Louzeiro
- Texto Anterior:
- Edição 227 Patrono da 4ª Feira do Livro de São Luís
- Índice da edição - Últimas Edições