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Edição 226

As Vias De Leitura Dos Poetas Paulo Melo Sousa & Luís Augusto Cassas

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Data de Publicação: 18 de novembro de 2010
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As Vias De Leitura Dos Poetas Paulo Melo Sousa & Luís Augusto Cassas

O marimbondo-caçador no Vespeiro de Paulo Melo Sousa

O nome em si já insinua um viés da poesia moderna de cunho revolucionário, a vespa vista como o marimbondo-caçador, provido de ferrão na extremidade do abdômen e o vespeiro metaforicamente é o lugar, o ninho, onde imprevisivelmente se preparam insídias ou perigos. Portanto, estamos num campo de leitura que privilegia o imprevisto, o súbito, o ataque de surpresa. Assim, trafegamos numa linha de pensar o poema pelo viés do relâmpago, o golpe baixo, no bom sentido, entenda-se, para surpreender o leitor que espera um lance convencional e óbvio. Mas o jogador habilidoso que se insinua insidioso no lance de lince, arremete de súbito pegando o passe de arremesso no alto e de cabeça e no arremate faz o gol no drible de bicicleta ou de folha seca, a partir do ponto de fuga, se se quiser aqui homenagear os poetas, lembrando a imagem do deslance criado por Didi, que no futebol brasileiro foi um dos criadores do lance inesperado. A insídia do canto ilícito se insinua aqui neste ponto de fuga, onde o périplo do perigo é perseguido por poucos escolhidos e eleitos. Essa a tática e a técnica dos poetas que se excelem no exercício dos poemas curtos, onde o mínimo de desatenção ou distração no uso do bisturi transforma o poeta em serial killer das letras, quando este transforma o ato de criação em lances letais. Não é ofício fácil transgredir. E aí é que mora o perigo do salto cego sobre o abismo.

Sim, surpreender pelo deslance: o leitor espera uma jogada ensaiada, óbvia; o gol vem com o inesperado lance, o drible de engenho e arte, o tento do talento marcado pelo craque, no canto oposto do esperado pelos olhos ávidos das torcidas, dos técnicos, dos comentaristas e demais espectadores, o coro dos contentes com as rotineiras táticas ensaiadas. De repente, a estratégia é outra, a do não suposto, mas súbito improviso, fruto do imprevisto e imprevisível na surpresa suprema do inusitado e inesperado gol, como resultado da criatividade. Há uma pausa. Um instante de silêncio. A ovação súbita é filha do susto, que vem logo após um óóó! retumbante.

De repente, Maiakóvski entra e transita por um viés do poema, entra na teia e tresmalha-se na trama dos trâmites das vias de fato da vida, porque a poesia é sangue. As afinidades eletivas e afetivas são um bem necessário e os rai-cais ou os poemas curtos são uma tentação nesses instantes ou momentos de puro assombro e espanto. São como curtas-metragens que captam o instantâneo e o simultâneo e transformam o fugaz em eternidade, capturada pela câmera de algum cineasta doido pelo acaso.

O poeta labora pelo lado não previsível ou pelo avesso do óbvio, tem no verbo o instinto da perversidade, o faro do inesperado, por isso incomoda o pensamento oficial acadêmico que se funda em verdades eternas, imutáveis, absolutas e cria na mente, na memória do leitor arquétipos que enformam uma expectativa plausível, óbvia. Só que há armas e barões assinalados que vão por mares nunca dantes navegados do poema. E aí, diante da crítica oficial, qualquer mudança, qualquer tentativa de revolução na linguagem impõe suspeição e sanção ao poeta. Mas o que está em jogo e em xeque-mate são as regras, que passam a ser questionadas, desobedecidas por uma nova ordem, da qual o passado vai, se vai, a reboque, padecendo seu natural aniquilamento. Eis a consequente emboscada do ferrão do marimbondo-caçador. O timbre de sua dicção é peculiar:

Satorinaco de raio de luar bulindo entre as nervuras do leque das juçareiras

Paulo Melo Sousa, com Vespeiro, funda e demarca seu território poético e amplia o projeto, cujas nascentes são Oráculo de Lúcifer, poesia, 1994 e Vi(s)agem, poesia. O novo livro, premiado no Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís, 2009, Prêmio Sousândrade, será lançado no próximo dia 20 de novembro/2010, 20:h30, na 4ª. Feira de Livro de São Luís – FELIS, no Auditório José Louzeiro.

A fala dos poetas sobre o poeta

“A poesia de Paulo Melo Sousa é temporal penetrando a terra, o corpo do mar, / ou qualquer abismo ou trovão onde flores possam nascer. / Ventania, o poeta derrama a transparência do estio no relâmpago do texto. / Recostado em clarões, faz poesia que produz o estalo da morte no céu da boca. / Zumbe, é meu amigo”.

Guaracy Jr, o Guará mora em Belém, voa na TV Cultura como diretor do programa 7 Set Independente. Faz crônicas semanais para o Jornal o Liberal. Escreveu dois livros infantis premiados pelo governo do Estado do Pará.

“Paulo Melo Sousa é um Visionário da poesia, alguém que soube redimir nela seu espírito tempestuoso e inconformado. Transita das brenhas ao cosmopolitismo e apanha no espanto da linguagem seu ferrão para cravar no leitor.”

Antonio Aílton - Poeta, ensaísta e professor.

“Conheci o poeta numa tarde do final de 1989, falando de Pound, Mayakóvski e Leminski. E, assim, passei a preencher os dias observando poemas. Hoje, com dois livros de poesia lançados, por sinal, obrigatórios. Paulo Melo Sousa é uma referência pela extrema dedicação à literatura e aos valores humanos. Sua nau nos conduz a oceanos profundos repletos de ilhas, ritmos, cores, memórias, tormentas, galáxias, paixões e mitos helênicos.”

Eduardo Júlio - poeta e jornalista

“Quando leio um poema de Paulo Melo Sousa penso num tambor gigante soando “Pound!”. A palavra/pancada e o eco zunindo. Ele sabe combinar a musicalidade na dança do intelecto das palavras. Paulo Melo Sousa faz poesia densa, inspirando e transpirando, porque só os pesados vão ao fundo, como diria Nietzsche”.

Ed Wilson Araújo - Jornalista e poeta

“Pela sua metaforização ingente, esse elaborador de espantos que é Paulo Melo Sousa integra o que de melhor vem sendo realizado pela poesia maranhense contemporânea. O poeta, entendendo o nada, ausculta o silêncio nadificador da totalidade, como uma sabedoria cósmica a revelar-se num vazio escrito pelas letras imperecíveis do tempo”.

Nauro Machado - poeta

O Encontro de Telêmaco com Ulisses & Penélope

A tendência ideológica do ser humano no plano da globalização arremete a novos estatutos filosófico e poético. Pensa-se um mundo contemporâneo marcado pelos paradoxos: o oriental está-se ocidentalizando e o ocidental tende para o misticismo oriental. Como dizia o saudoso educador e filósofo canadense Marshall McLuhan há 40 anos atrás: o Globo me põe de cabeça tonta. Quando penso estar em determinado lugar, já mudaram as fronteiras.

O ideal, supomos, está no equilíbrio: um pouco zen e um tanto corpo, corpo-alma, porque não só de alma vive o ser humano, como também não só de pão. O poeta Luís Augusto Cassas, em sua poética, procura transmutar, em busca da quintescência. O ancestral desse processo é o poeta Jalaluddin Rumi, 1207-1273, grande expoente persa, fundador do sufismo. Cassas tramita nesse fronteira de leitura e, para compreendê-lo será preciso ter uma leitura do que significa a vacuidade oriental, tão familiar ao poeta São João da Cruz, inclusive relido por T. S. Eliot : para ser pleno é preciso antes estar vazio. Assim, se, para se entender a literatura de cunho ocidental brasileira, é necessário uma leitura que passe por Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, João Cabral de Melo Neto etc., também, para haver conexão com a poesia de cunho oriental-ocidental, o leitor prescinde de um mínimo de conhecimento dos textos de Lao-Te-Sé, Su-Tungpo e os poetas islâmicos persas Kabir, nascido provavelmente entre 1120 e 1140 e Attar, século XV, ou pelo menos conhecer a obra de Jung sobre a literatura de caráter oriental. Criticar por criticar, corre-se o risco do ridículo.

A obra poética de onde provêm os textos de Cassas é milenar e tem uma sustentação incomensurável, só que não é fácil colocar o espírito acima de um povo canibalizado como o brasileiro. Cassas, no entanto, transcende a esse impasse, fazendo uma fusão ou sincretismo dessas duas maneiras de pensar o poema. E o resultado é estranho, a princípio, mas surpreendente, depois de uma releitura de uma poética ao mesmo tempo oracular e erótica.

Como diria o poeta Rumi: No inverno, os ramos nus que parecem dormir trabalham em segredo

Em nome do pai

ROSSINI CORRÊA

Honra o teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o senhor teu Deus te dá. Êxodo, 20,12.

[...]

Eis quando desponta no horizonte Luís Augusto Cassas, senhor de absoluta fidelidade à poesia como sondagem de Ser, com o livro O Filho Pródigo: Um Poema de Luz e Sombra, cuja tensa polaridade logo revela que foi escrito com nervo e com sangue, flor de catarse nascida no chão de pedra do drama humano.

[...]

Com a posição reverente das palmas unidas, o livro de Luís Augusto Cassas constitui uma saudação a seu Pai, Raimundo Nonato Corrêa de Araújo Neto, a declarar que o poeta edificou pedra a pedra, vergalhão a vergalhão, cimento a cimento, a reconhecida síntese de que o Deus da Causa é o Deus do Efeito, unificados Pai e Filho na bem-aventurança sofrida do fio do tempo e da linha do horizonte. No além, da água e do espírito, em que as esferas da eternidade e do infinito exprimem, amorosas, a Luz do Bem.

[...]

A narrativa cortante do poeta representa um parto de libertação, o renascimento para a alegria pelo hemisfério da dor: a da casa que não era lar, da vergonha como ama, da tristeza como cama, do regulamento contra osentimento, do dever contra o prazer e da obediência contra a inocência. Nasceu daí o território demarcado: o Pai, fogo, luz e vôo; o Filho, água, sombra e mergulho. O poeta precisou embaralhar as cartas místicas do enredo, para que o Pai-Luz e o Filho-Sombra pudessem ser o Pai-Sombra e o Filho-Luz e se reencontrassem, fundidos e unificados, plenificados e compreendidos, o círculo espiritual do Pai-Luz e do Filho-Luz, enfim, do Pai que foi Filho e do Filho que é Pai. Na fraternidade do fogo e da água reside a completitude.
Eis que o Filho ascendeu à compreensão de que foi o juiz sem balanças justas do Pai, a quem, renascido, suplica que o abençoe. Alcançou, o Filho, a paragem da gratidão ao Pai que nele revive, por vislumbrá-lo, agora, como o humano Deus que, entre o erro e a verdade, entre o menos e o mais, afinal, entre o bicho e Deus, pode inspirá-lo no mundo. A translúcida comunicação do Pai-Filho ao Filho-Pai sugere a elevação ao mensageiro do verde que, ao retornar à sua ilha, deve conhecer a magia, a alta alquimia do semeador do sol, construtor da casa e artesão da obra.
É que o contingente sucumbiu ao absoluto. E quando, na Luz, o Filho conquista o coração do Pai, a asa do dharma revoga, como revogou, todo o peso da kharma. Luis Augusto Cassas, primo-irmão do tempo, navegante das horas: ensaia, solfeja, canta. Canta alto, canta forte, em seu regime espiritual:

Ó amor de Deus
flui flui flui flui
dentro do meu interior
com força e alegria
Ó poder do céu
rui rui rui rui
todos os obstáculos
e portões fechados
à conciliação e alegria

Um Louco de Deus

Salgado Maranhão

[...]

Além de Marco Lucchesi, nenhum outro poeta da poesia brasileira recente dialoga com Luís Augusto Cassas, na impalpável extensão do sagrado. Há razões para isto: de João Cabral de Melo Neto para cá, instaurou-se, entre nós, a obsessão pelo concreto que, de resto, é tão errônea quanto a obsessão pelo abstrato, posto que dualista e redutora. O que nos interessa na linguagem poética é, justamente, a sua indomável febre de transgredir, de quebrar paradigmas. Onde houver uma certeza pronta, um padrão imutável, a poesia passa ao largo.
Em mais de um livro, a poética de Augusto Cassas envereda pelo viés da mística cristã. E, forçando a nota, poderíamos aludir à genealogia de outros poetas das nossas letras que também trilharam esse caminho, como Jorge de Lima e Murilo Mendes. Ou até mesmo em outras línguas, como o espanhol San Juan de La Cruz e o inglês John Donne. Mas não há confluência no modus operandi de tais poetas com a sintaxe incendiária deste demiurgo do caos que, fundindo oriente e ocidente, via mitologias gregas, místicas védicas e cristandade revificada, reconstrói nesse caldo de culturas, os caracteres de uma subjetividade pós-moderna, antecipando-se, de certo modo, à globalização internética.

Um Cântico Espiritual

LÊDO IVO

Neste pungente e desdobrado poema longo de Luís Augusto Cassas, a experiência pessoal oferece ao leitor a sua alta pulsão e inequívoca tensão. É um cântico espiritual, uma interrogação ao divino. O poeta celebra a morte de seu pai, e o sentimento de perda justifica o seu canto, em cujos versos ressoam as notas de uma marcha fúnebre, as palavras de um sombrio cantochão. A densa subjetividade que permeia o poema se transmuda na sua razão artística e estética. A transcrição de uma dor pessoal tornada emoção comove aquele que está do outro lado do rio: o leitor.
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