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Edição 207

A síndrome de Procusto

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Data de Publicação: 16 de setembro de 2009
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Por Ivan Pessoa*

Quando a alma liberta-se do corpo, torna-se um fantasma aparente, faz-se idéia, desencarnase. Lembrando o canto XXXI do Purgatório da Divina Comédia de Dante Alighieri: “Sem cessar de ser ela mesma, torna-se imagem.”

E quanto ao corpo desprovido de alma, torna-se o que? Um corpo sem alma torna-se um conjunto orgânico, funcional e dessacralizado. A alma sem corpo é imagem e o corpo sem alma é carne apenas. Quando uma destas estruturas humanas se subleva, uma em detrimento da outra, eis que entra em cena o fenômeno da mutilação, visto que a alma não existe sem o corpo e muito menos o corpo existe sem a alma. Faço minhas as palavras de Bernard Shaw: “Não existe objeto sem sombra.” Ademais, vivifico aquele antológico ensinamento fenomenológico: “ Não nos é permitido saltar a própria sombra.” A sobreposição de uma estrutura ante a outra, do corpo em face da alma, ou o contrário, é violentar a existência humana, tão inconcebível quanto imaginar objeto sem sombra.

A mutilação transcendental: o corpo mortificado

Por séculos a concepção decadentista acerca do corpo, sobrepôs a alma e sua inteligibilidade aos impulsos jocosos da carne, o que acarretaria para a História Ocidental a reprovação de tudo aquilo que fosse eminentemente somático. Ora, historicamente a primeira mutilação fora transcendental, de modo que o corpo era algo espúrio e digno de imolação. Certa vez, em face de um convite para fazer-lhe um retrato, o neoplatônico Plotino assim retrucaria: “Eu próprio já sou uma sombra, uma sombra do arquétipo que está no céu. Por que fazer uma sombra dessa sombra?” Insurgindo-se contra a representação imagética do corpo, haja vista sua condição decaída, a tradição Ocidental minimizou o sentido da corporeidade vinculando-lhe à telúrica instância animal, com efeito, a própria etimologia da palavra: homem, como nos faz crer a fábula de Higino, que significa feito de húmus, já deixa entrever um quê de primordialidade, um quê de terra na estrutura deste ser que é dotado de um corpo igualmente cadente, insustentável e movediço como os ciclos da natureza.

A bem da verdade, dimensionar o corpo como aquilo que está mais próximo dos ciclos animais, das pulsões do instinto, rebaixando-lhe à animalidade primordial não redimida pela racionalidade, é senão o primeiro traço da mutilação transcendental sofrida pelo corpo Ocidental. Se o ser humano é parcialmente animal, com efeito, dispõe de um corpo volitivo e insaciável, amortizado em função de uma alma inteligível, o que pensar daqueles que estão para além da compreensão européia de mundo? Por exemplo, como pensar a questão da corporeidade nativa em face de uma concepção de mundo eminentemente racional, que rebaixaria à condição rasteira tudo aquilo que fosse corporal? O agravante de tudo isso, a gota d’água desta mutilação, reside naquilo que Heidegger em sua conferência: Identidade e diferença aponta como a maior característica da civilização Ocidental, a metafísica. Dentre outras características desta metafísica, que é senão a mundivisão ocidental, sua weltanschaaung, é a impossibilidade de conceber a diferença, com efeito, o modo europeu de pensar é fundado na identidade lógica do Eu (selbst) absoluto e soberano. Martin Buber transfere esta denúncia no nível interpessoal: Eu e Tu, enquanto Lévinas e Paul Ricoeur no dístico: mesmidade e alteridade. Ora, como conceber o corpo daqueles que estão para além da identidade ocidental? Como interpretar o corpo dos estrangeiros, daqueles que extravasam a mesmidade orgânica dos europeus? Segundo Nízia Villaça:

A civilização ocidental se desenvolveu a partir da dicotomia do mesmo e do diferente e, para lidar com a multiplicidade de culturas, procurou uma verdade transcendental que balizasse seus referentes, garantindo uma epistemologia fundada nos princípios de perfeição, estabilidade, permanência, unidade e racionalidade. (VILLAÇA, 2007, p.39)

O primeiro passo dos colonizadores quando aportaram nas terras bárbaras, foi inculcar nos nativos a autocensura, induzindo-lhes ao usufruto de roupas para adornar-lhes as entranhas, as vergonhas, entretanto a utilização de penduricalhos, adornos e pinturas corporais já se faziam presente. A identidade da alma europeia teria vencido a animalidade do corpo extravagante dos nativos. A mutilação metafísica aplacava a barbárie dilapidando assim a vinculação originária dos silvícolas com a terra, vinculação mágica. Em vez de encontrarem vestimentas nas partes pudendas, os colonizadores descobriram outra compreensão de corporeidade. Cito Nízia Villaça:

O primitivo incluía em sua pintura corporal aquilo que lhe ameaçava. Daí os traços fragmentados de suas representações que tanto nos angustiam. O homem não era concebido à imagem e semelhança de Deus. A pintura corporal contribuía para estabelecer ritualmente a comunicação com o além, facilitando a viagem iniciática, chamanística, ou seja, o devir inumano, animal etc. Esta necessidade era estrutural para a manutenção das comunidades. (VILLAÇA, 2007, p.57)

Percebe-se, outrossim, que a dilapidação da mundivisão do Outro, do bárbaro, do estrangeiro nos idos da colonização, implicaria igualmente na dilapidação de uma visão mitopoética de realidade e por extensão de corpo. Particularidades que seriam desrespeitadas pela instância ocidental de mundo. O corpo estranho do Outro, extrapolável, pois que diferente, sofreria na pele as escarificações da mutilação transcendental europeia. A alma branca invadia os rincões da Terra, mutilando assim o corpo estranho dos nativos. Como aquele mítico bandido de Elêusis, que tinha o hábito doentio de abrigar seus hóspedes em sua casa, cedendo-lhes uma cama de ferro, que quando pequena demais para os mesmos, lhe obrigava a serrar as pernas de suas vítimas, da mesma forma a mundivisão ocidental, desdobrável na moda e na publicidade, faria com mais garbo nos séculos vindouros aquilo que Procusto apenas esboçara.

Segundo Nízia Villaça:

O corpo e suas fronteiras com a matéria, a animalidade, o artifício, são extensamente trabalhados numa crise da visão antropocêntrica. Gestos, falas e imagens interrogam a unidade corporal, sua estabilidade, sua identidade por meio de analogias com o reino animal, fragmentações e deslocamentos inusitados. (VILLAÇA, 2007, p.58)

Consciente de si mesmo na fronteira com a animalidade, o corpo europeu civilizou tudo aquilo que até então estivera vinculado com os ciclos da natureza. Em vez de pinturas, colares, adornos, entraria em cena a utilização de roupas. Ou tu estás vestido à maneira do homem europeu, civilizado, posto que dotado de uma alma racional, ou tu és um corpo animal tão rastejante quanto execrável. Eis a fórmula. Não muito diferente dos dias atuais: ou se segue o padrão das medidas impostas em sociedade, ou nada. Como se as relações sociais, as regras desta encenação fossem determinadas pela mundivisão dominante, até a maneira que nos vestimos é o resultado imediato de algo que nos é exterior e por nos escapar, nos domina. Relembrando aquela clássica lição de sociologia de Emile Durkheim, pode-se pensar que os fatos sociais, aquela mundivisão de que falávamos, ela é tripartide, afinal é dotada de: coercitividade, exterioridade e generalidade. A necessidade de vestir-se de acordo com o grupo é a necessidade de reconhecer-se. Quebrar esta lógica é dispor-se à marginalização.

A mutilação imanentista: a alma mortificada.

Nos dias atuais, filhos tardios daquela colonização impetrada pelos europeus, a mundivisão reinante não se faz outra senão aquela, com a gradação controversa da modernidade. Dotada de coercitividade, exterioridade e generalidade, a cultura da modernidade é a cultura do ego cogito (Descartes) e da autonomia do Eu transcendental (Kant), discursos empenhados na auto-afirmação do indivíduo. Desprovido de alma, psique, mas antes subsidiado por um Eu que pensa, imperioso e Absoluto, a modernidade inauguraria outra visão sobre o corpo, agora enquanto sede da representação e do pensamento.

O que nos primórdios do Ocidente era a sobreposição da alma ante o corpo, durante a modernidade vai-se inverter, originando por fim o culto ao corpo perfeito. A dessacralização do corpo enquanto antro sagrado, morada da alma, vai acarretar na fase mais sombria da mutilação da estrutura humana, duplamente sombria, na metáfora e na pele. A moda, tomando de assalto o sossego de alguns, vai solicitar-lhes sub-repticiamente, limpezas de pele, tatuagens, piercings, cirurgias plásticas, lipoaspirações, emagrecimentos compulsórios, dietas, anoxerias, bulimias, escarificações, além é claro de centenas de novas expressões mutiladoras, que cotidianamente são reinventadas. Cito Nízia Villaça:

O hábito da alteração do corpo, comum a várias culturas, atinge, portanto, seu ápice, desestabilizando categorias tradicionais como homem/mulher, tornando o homem um ser mutante, um corpo virtual, e interferindo, até mesmo na sua estrutura química. (VILLAÇA, 2007, pg142)

Ao quebrar a lógica de Bernard Shaw, para quem não há objeto sem sombra, o fenômeno mutilador, que sobrepõe historicamente uma estrutura em face da outra: corpo ou alma, indispondo-lhes, a unidade humana estilhaça-se monstruosamente, à maneira do Prometeu moderno do Doutor Frankenstein. Se há pouco víamos as implicações do discurso homogeneizador da mundivisão ocidental e sua impossibilidade de conceber a diferença, desdobrando-se consequentemente no imaginário da colonização, nos dias atuais vemos algo similar, no entanto imanenteísta, porquanto moderno. Atualmente, a venda do corpo perfeito e sua aquisição modelar em academias e shopping centers, aguça uma mutilação cada vez mais violenta. Gordos, baixos, altos, feios, desengonçados, míopes, tudo aquilo que for diferente e exceder os padrões de normalidade é digno de reparação. Os diferentes, os estranhos, os Outros, sempre encontrar-se-ão às voltas com as desventuras do labirinto moderno, mas é preciso sondá-lo. Um dia, Teseu se indispôs com a normalidade de seu tempo e assim o fez. Sondou os labirintos de Creta e assassinou o Minotauro. Mas ainda lhe faltava Procusto, que em grego quer dizer: estirador. Quando capturado por Teseu, Procusto não acreditava que seu reinado chegava ao fim, não apenas seu reinado, mas, sobretudo, sua vida. Obrigado a deitar na mesma cama de ferro em que acometia suas vítimas, o estirador lá mesmo perderia a cabeça, pagando caro o preço das inúmeras mutilações. Quando acometermos Procusto com o mesmo infortúnio, cortando-lhe as pernas fora, será o exato momento que, vitoriosos, caminharemos com as meias que queremos trajar, com os sapatos que queremos à mostra, na exata hora que veremos a luz no fim do túnel.

VILLAÇA, Nízia. A edição do corpo: tecnociência, artes e moda/ Nízia Villaça. – Barueri, SP: Estação das Letras Editora, 2007.

*Professor contratado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão (cassady68@hotmail.com)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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