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Edição 207

Cartas do Senado da Praça João Lisboa a São Luís do Maranhão nos seus 397 anos

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Data de Publicação: 16 de setembro de 2009
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I

BIOGRAFIA DO ESCRITOR JOÃO FRANCISCO LISBOA

(Academia Brasileira de Letras)

João Francisco Lisboa, jornalista, crítico, historiador, orador e político, nasceu em Pirapemas, MA, em 22 de março de 1812, e faleceu em Lisboa, Portugal, em 26 de abril de 1863. É o patrono da Cadeira n. 18, por escolha do fundador José Veríssimo.

Era o primeiro filho do casal João Francisco de Melo Lisboa e Gerardes Rita Gonçalves Nina. Estudou as primeiras letras em São Luís, onde viveu até os onze anos, quando voltou a Pirapemas. Permaneceu no sítio natal até completar quatorze anos. Falecido o pai, foi enviado para a capital da Província, a fim de trabalhar no comércio como caixeiro da loja do negociante Francisco Marques Rodrigues. Permaneceu nesse ramo de atividade de 1827 a 1829. Largando essa ocupação, dedicou-se inteiramente ao estudo, sob a orientação de alguns mestres renomados, entre os quais o professor de Latim, Francisco Sotero dos Reis. Depois, separados por divergências de natureza política, os dois se tornariam adversários ferrenhos. Sotero dos Reis, em seu Curso de literatura, gabou-se de ter contribuído para a educação de João Francisco Lisboa que, no entanto, fez sérias restrições ao mestre.

Suspensa a circulação do Farol Maranhense, dirigido por José Cândido de Morais, em 1832, Lisboa fundou, para continuar a pregação doutrinária do grande jornal, O Brasileiro, o seu primeiro diário, cuja publicação interrompeu com a morte de José Cândido. Fez reviver o Farol, assumindo a sua direção por dois anos. De 1834 a 1836, dirigiu o Eco do Norte, também retirado de circulação. Aí termina, segundo o seu biógrafo Antônio Henriques Leal, a primeira fase da carreira jornalística do escritor. Lisboa passou a trabalhar na administração pública, como secretário do governo durante três anos, a que se seguiu um período de duas legislaturas como deputado provincial.

A 20 de novembro de 1834, casou-se com D. Violante Luísa da Cunha, sobrinha de João Inácio da Cunha, visconde de Alcântara. O casal não teve filhos. Adotou uma filha de Olegário José da Cunha, a qual veio a falecer pouco depois. Outra filha de Olegário foi adotada pelo casal e sobreviveu a ambos, tendo, já idosa, assistido à inauguração da estátua do pai adotivo, na cidade de São Luís, em 1918.

Em 1838, retomou o jornalismo, assumindo a direção da Crônica Maranhense, em sua fase áurea como escritor. Segundo Antônio Henriques Leal, a Crônica era um jornal de combate, especialmente criado para defender os interesses do Partido Liberal, reproduzindo a história viva das lutas políticas daqueles anos. Deixou de circular em dezembro de 1840. (O Museu Histórico Nacional, do Rio de Janeiro, publicou, em 1969, dois volumes onde se encontra coligida grande parte da colaboração de João Francisco Lisboa nas páginas da Crônica Maranhense.)

Era o período difícil da Regência e da Maioridade de D. Pedro II. Na tribuna parlamentar e na imprensa, Lisboa defende princípios da liberdade e interesses do povo, sendo injustamente acusado de participação na “balaiada”, movimento revolucionário maranhense. Retirou-se temporariamente da política, dedicando-se à literatura e à advocacia. Em 1847, recusou o convite que lhe fizeram os liberais para se apresentar como candidato a deputado geral. Aceitou, contudo, a participação na Assembléia Provincial, para a qual foi eleito no ano seguinte.

Em 25 de junho de 1852, saiu o primeiro número do Jornal de Timon, folheto composto de 100 páginas, inteiramente redigido por João Francisco Lisboa. Os cinco primeiros números circularam mensalmente. Somente em 1854 saíram, em volume de 416 páginas, os fascículos de 6 a 10; o 11 e o 12 saíram em março de 1858, quando o publicista residia com a família em Lisboa. Atacou, entre outros, Varnhagen, pelo método que empregou na História do Brasil. Apareceu, então, em Lisboa o panfleto Diatribe contra a timonice. Seu autor, disfarçado sob o pseudônimo de Erasmo, era o cunhado do próprio Varnhagen, Frederico Augusto Pereira de Moraes. Também Varnhagen replicou no opúsculo Os índios bravos e o senhor Lisboa (Lima, 1867.)

João Francisco Lisboa transferira-se em 1855, para o Rio de Janeiro, de onde, após curta permanência, partiu para Lisboa, incumbido pelo Governo Imperial de coligir, em Portugal, documentos e dados elucidativos da história brasileira. Lá pesquisou também sobre a vida do Padre Antônio Vieira, para uma biografia, que ficou inacabada. Após um período de intenso trabalho em arquivos portugueses, realizou uma viagem de despedida ao Maranhão, no período que vai de 5 de junho a 11 de dezembro de 1859. Nos anos que se seguiram, o estado de saúde do escritor torna-se cada vez mais precário, e ele veio a falecer às duas horas da madrugada em 26 de abril de 1863.

Ainda naquele ano, já de volta ao Maranhão, D. Violante da Cunha Lisboa tomava providências para que o corpo do marido fosse trasladado de Lisboa para São Luís. Houve alguma demora, e somente em 24 de maio de 1864 ali chegou o brigue Angélica 1ª, conduzindo a bordo os restos mortais de João Francisco Lisboa. Logo após o regresso de D. Violante Lisboa ao Maranhão, os amigos da família, destacando-se à frente deles Olegário José da Cunha e Antônio Henriques Leal, iniciaram as gestões para que fossem reunidas todas as obras de J. F. L, incluindo-se entre elas a Vida do Padre Antônio Vieira, inacabada.

Por sua atividade e por sua obra, João Francisco Lisboa é um típico representante de uma época e de uma sociedade. Fez parte do movimento maranhense do século XIX que se distinguiu, talvez pela proximidade material e espiritual da metrópole, por acentuado pendor classicizante, traduzido na fidelidade aos padrões tradicionais do vernáculo e na defesa da tradição e do rigorismo gramatical, o que iria conferir à capital do Maranhão o honroso título de Atenas Brasileira. Foram seus contemporâneos Odorico Mendes, Sotero dos Reis, Joaquim Serra, Franco de Sá, Sousa Andrade, Antônio Henriques Leal, Cândido Mendes de Almeida e César Augusto Marques.

Todos os estudos biográficos sobre João Francisco Lisboa, cognominado o “Timon Maranhense”, se baseiam nos dados publicados por seu contemporâneo e amigo íntimo Antônio Henriques Leal na Notícia acerca da vida e obras de João Francisco Lisboa, que precede as suas Obras (4 volumes) impressas no Maranhão em 1864-1865, e na biografia, ampliada, reproduzida no tomo 4º do Pantheon Maranhense, editado em 1857 pela Imprensa Nacional de Lisboa.

Em 1977 saiu o livro João Francisco Lisboa Jornalista e historiador, de Maria de Lourdes Menaço Janotti, e em 1986, o 1º volume da nova fase da Coleção Afrânio Peixoto, da Academia Brasileira de Letras, João Francisco Lisboa O Tímon maranhense, de Arnaldo Niskier, duas obras de pesquisa em torno da figura e dos escritos do publicista maranhense.

Obras: Jornal de Timon, 2 vols. (1852-54); Obras de João Francisco Lisboa, com uma notícia biográfica por Antônio Henriques Leal, 4 vols. (1864-1865). (2ª ed., acrescida de apêndice de Sotero dos Reis, Lisboa, 1901, 2 vols.); Vida do Padre Antônio Vieira (inac., póstuma). 5a edição. 1891; Obras escolhidas. Ed. Otávio Tarquínio de Sousa. Rio de Janeiro, 1946, 2 vols; Crônica maranhense, 1969; Crônica política do Império (Jornal de Timon), 1984.

II

JORNAL DE TIMON

Timon a seus leitores

João Francisco Lisboa

Pois que Timon, saindo do seu obscuro retiro, ousa erguer a voz para censurar e afear o vício e o crime, fazer humildes advertências, e dar modestos conselhos aos que paulatinamente nos arrastaram à situação deplorável e vergonhosa em que atualmente nos achamos, pede a justiça que ele também por seu turno compareça perante o tribunal, responda às acusações que lhe fazem, e dê razão de sua pessoa, atos, palavras e doutrinas.

Tendo encontrado nos seus colegas da imprensa, e no público em geral, um acolhimento e favor que revelam mais indulgência que justiça, e vão em todo caso muito além do acanhado merecimento do autor e da obra, Timon contudo tem dado assunto e ocasião a críticas, censuras, juízos e apreciações, mais ou menos benévolas, mas nem sempre exatas e fundadas.

Tal nota o tom de desalento que reina em suas páginas, e o desgosto que manifesta acerca das cousas e dos homens; tal outro o fatalismo das suas doutrinas. Este o argúi de implacável adversário, senão do sistema eletivo em geral, pelo menos das eleições democráticas e do voto universal; aquele critica o seu indiferentismo, egoísmo, panteísmo político, que sei eu? até não falta quem nos quadros que esboça da virtude oprimida e do vício triunfante, veja o oculto pesar de um coração ulcerado pela ingratidão dos partidos, e ouça os derradeiros gemidos de uma esperança que se fina...

O mal é patente, dizem, ninguém o contesta. Mas por isso mesmo que ele existe, é que há mister combatido, sempre, e por toda parte. Se atarmos os braços a vãos receios e esperanças, deixando-nos atuar ao sabor dos acontecimentos, e aguardando que venha um novo Moisés com a mágica varinha abrandar o rochedo, e operar o milagre da regeneração, ficaremos para todo sempre transviados no deserto, sem jamais pôr os pés na cobiçada terra de promissão.

Tentemos responder a todas estas críticas amáveis e benévolas, que em nada alteram, antes redobram, se é possível, o profundo reconhecimento do autor.

Sem dúvida, a mais elevada filosofia no-lo ensina, e Timon o não ignora, o homem foi nascido e criado para o trabalho e para a luta, com que desvie e vença o mal de um lado, e atinja o bem e a perfeição de outro. E por mais que as decepções se multipliquem, nunca deve ele deslembrar que sendo a missão de servir aos seus e à pátria, quase imposta pelo céu e pela natureza, o descorçoamento vem a ser uma verdadeira impiedade. Para encher satisfatoriamente os nossos deveres, e achar na terra a paz e quietação a que aspiramos, e a aprovação da própria consciência, é mister que desempenhemos a tarefa que nos foi dada, sem ter conta com o êxito dos esforços empregados, porquanto o dever é cousa perfeitamente independente e distinta do resultado e bom sucesso. Além de que, a ineficácia das lutas do homem para o bem, é muitas vezes aparente, pois não é raro que uma estrondosa posto que tardia reparação venha por fim coroar as suas fadigas, c recompensá-lo das contrariedades, repulsas e baldões sofridos.

Fais ce que dois, advienne que pourra - diz o antigo provérbio francês. Não é pois sobre este ponto que podem ocorrer dúvidas, a dificuldade toda consiste em apurar em certas circunstâncias dadas onde esteja o dever, se na intervenção, se na abstenção.

Um dos característicos da época é a ambição arrojada, o orgulho, a temeridade, a presunção e o desvanecimento, imaginando cada um de si que nasceu e foi sorteado pela natureza para dirigir os outros, que é azado, cabal e poderoso para a tudo tentar e pôr por obra. Estes tais, e os que se sentirem, e forem realmente animados do fogo divino, lancem-se muito embora na arena, e caminhem desassombrados até onde os seus destinos os guiarem. É sem dúvida grandioso e digno espetáculo o do patriotismo e do talento que, através de todas as dificuldades e perigos, procuram servir o país, satisfazendo ao mesmo tempo as aspirações de uma legítima ambição; e é certamente muito mais glorioso e nobre reprimir, moderar, dirigir e utilizar as paixões humanas, do que votar-lhes um desprezo impotente e estéril, de que elas zombam em seu curso triunfante e desregrado; mas nisto como em tudo mais, deve cada um, recolhido em seu conceito, pesar séria e maduramente as próprias forças, e verificar a sua aptidão e capacidade, sob pena de não só perder-se inutilmente, como de prestar novos alimentos ao fogo devorador da imoralidade. A força sem conselho desaba com o próprio peso, disse o poeta.

Vis consili expers, mole ruil sua.

Ora Timon, pouco confiado senão tímido e pusilânime por temperamento, algum tanto experiente em nossas cousas, e escarmentado em tantos exemplos alheios, não se sente de nenhum modo inclinado a associar-se aos nossos partidos, conhecendo que de todo lhe falecem as forças e aptidões indispensáveis para corrigi-los e guiá-los ao bem.

No meio destas pequenas facções não vejo a pátria. Pesar, sentimento de esperanças fraudadas, não os sente Timon; desalento e desgosto, sim, se o entendeis pelo tédio e repugnância que lhe inspiram o espetáculo e os atores.

Não que todos os homens políticos se arremessem na arena, arrastados pelos instintos de uma organização perversa, para darem satisfação às paixões desregradas que os agitam; mas é que ninguém pode respirar impunemente a atmosfera corrupta dos partidos. Ela não fulmina instantaneamente com a morte, como no funesto vale de Java, os desventurados que têm a imprudência e temeridade de penetrá-la; mas ficai crendo que manso e manso, e aos pedaços, todos ali vão deixando o brio, o pundonor e a virtude, que constituem a vida moral do homem. Os homens de bem que na carreira pública buscam dar emprego honesto a seus talentos e atividade, e arriscam a perigosa aventura dos partidos, reconhecem e confessam sim a imoralidade deles, mas sempre seguros de si, e confiados no influxo de uma estrela benigna, presumem que vão dar na balança um peso decidido contra o mal, e farão por fim tal e tamanho bem e serviço, que ficarão mais que muito compensadas as humilhações que são, e a todos se anotam inevitáveis. Turvada a mente por tais idéias, fascinados por esta esperança falaz, e arrastados por uma doutrina perversa, pregada sem rebuço, justificada por eminentes e numerosos exemplos, e coroada por tantos resultados felizes, ei-los caminhando de transação em transação, de concessão em concessão, sacrificando agora um, depois outro princípio, hoje os escrúpulos de uma simples delicadeza, e amanhã tudo quanto há de grave, respeitável e sagrado na vida. O mal que a princípio é encarado com estranheza e horror, já o toleramos, dissimulamos e desculpamos nos outros; depois o aprovamos, e por fim o cometemos de nossa própria conta, e fazemos dele alarde e ostentação. Maculados de contínuo por contactos infames, a alma, o caráter, e ainda o mesmo talento se apoucam, depravam, aviltam e rebaixam a um grau tão ínfimo, que nos encheria de horror se desde o primeiro passo na carreira fatal tivéssemos podido entrevê-lo. E o fantasma que enxergávamos nos prestígios da diabólica miragem, e nos sustinha no curso destes vergonhosos sacrifícios, cada vez se afasta para mais longe, até de todo esvaecer-se, deixando-nos só o pesar e o remorso da fadiga e do crime, igualmente inúteis; senão é que endurecidos pelo mesmo crime, chegamos até a gloriar-nos da própria degradação?

Falta a Timon essa flexibilidade que sabe amoldar-se a todas as situa-coes; e falta-lhe sobretudo a mola poderosa de ambição, a força, energia e atividade, bem como todas as esperanças e ilusões que ela gera; e eis porque, no estado das cousas, e segundo o juízo que delas forma, entende ele que o seu dever é abster-se; que assim conserva ao menos intacto o único patrimônio que possui, o da integridade do seu caráter. Sem a orgulhosa pretensão de reprimir o mal, e convertê-lo em bem, que há aí de mais lógico e natural do que o seu retiro e apartamento dos públicos negócios, abandonado por uma vez o empenho perigoso e inútil de discutir e conciliar os interesses variados, recíprocos e encontrados de concidadãos que não solicitam, antes de muito bom grado dispensam o auxílio dos seus conselhos? No silêncio e retiro da obscuridade, ocupado, como Erasmo, a corrigir provas de imprensa, ou desempenhando outros deveres igualmente obscuros e modestos da vida privada, esquivando o comércio da multidão, Timon, como em porto abrigado da tormenta, escapa mais facilmente ao turbilhão dos maus costumes, que a nossa vista, e a roda de nós, envolve e arrebata tantos outros que fatigam as cem bocas da fama, e trazem cheio o universo do ruído dos seus nomes.

Quererá isto dizer que Tímon é indiferente ao bem e ao mal, à opinião e estima dos seus contemporâneos, desprezador, enfim, de homens e deuses? Longe disso, ele preza e reconhece todas as provas de uma consideração fundada em motivos reciprocamente honestos, puros, desinteressados e espontâneos. Fazer-se porém humilde solicitador e vil cortesão das paixões poderosas e triunfantes; prestar as mãos as torpes baixezas com que tantos se alçam as maiores honras; enredar-se em uma palavra nas tortuosas veredas que guiam ao poder, é o que lhe não sofre o ânimo. E todo o seu orgulho e egoísmo está em pedir de contínuo à Providência que o sustenha as bordas do vertiginoso abismo, e na próspera como na adversa fortuna lhe dê a força necessária para resistir às tentações do mal.

Porém mesmo a pretendida inação e egoísmo de que o argúem, o seu proceder e isolamento podiam ser um exemplo; e são decerto, com as páginas modestas que publica, um protesto formal contra o proceder oposto. Receiam acaso amigos e adversários que este exemplo seja contagioso, e que desencaminhado e seduzido por ele, o tropel dos combatentes abandone as armas, e deserte o campo? Temor vão a pueril! Nesta abstenção o que contemplam todos é um competidor de menos, e um lugar vago de mais, para ocupar o qual se mostram e oferecem de toda parte, e em cardumes, talentos não vulgares, eminentes capacidades, e corações ardentes de fé, entusiasmo e dedicação.

Uno avutso, non deficit alter.

Seja. A nobre e verdadeira ambição antes se veja frustrada, que satis-feita por tais meios; e àqueles que o suspeitam devorado pelo pesar, Timon responde que ama mais entranhar-se na rude, austera, apagada, mas não vil tristeza de que nos fala o grande épico português, do que evaporar-se nos gozos e alegrias dos efêmeros e ignóbeis triunfos que todos os dias passam diante de seus olhos, como fantasmas vaporosos que se dissipam ao menor sopro.

Não encerrarei o capítulo sem responder a duas outras acusações não menos graves, posto que menos públicas. Tímon, dizem, faz nos seus retratos alusão a personagens da época, e desdoura a sua pátria, pintando-a tão corrompida.

Meu Deus! que culpa tem o pobre escritor de que a ociosidade, a malícia, e porventura a voz de algumas consciências pouco tranqüilas, acusem alusões positivas e intencionais, onde não há senão pinturas gerais, em forma de retratos, dos costumes, extravagâncias e desconcertos da nossa sociedade? Tímon nega toda intenção semelhante, que seria isso ir diretamente contra os seus fins, e frustrar com bem pouco aviso todo bom resultado que de seus esforços podia razoadamente prometer-se.

Pelo que toca ao descrédito e difamação da terra que nos viu nascer, não tenho admiração para o vício pudibundo, que cora até a raiz dos cabelos, e cobre com as mãos ambas o rosto turvado de uma ingênua e amável confusão! Mas quem ousaria, a não serem os cúmplices do mal, os culpados impenitentes e relapsos, quem ousaria negar, encobrir, ou ainda simplesmente dissimular a degradação e opróbrio a que temos chegado, e hão feito de nós a fábula e o baldão da corte e do império todo, da corte especialmente, que a tantos respeitos nos trata com o desprezo de que somos dignos? Consiste porventura o patriotismo, ou o provincialismo, em negar impudentemente uma verdade conhecida por tal, ou antes confessar nobremente o mal, e da grandeza dele tirar motivo e ocasião para reclamar a emenda e reforma a grandes brados? O que nos desonra e avilta é a corrupção e o vício, são as recriminações apaixonadas das facções, não a exprobração severa, imparcial e desinteressada que Tímon arremessa sem hesitar a face de todas elas, e da qual se sente por antecipação absolvido no tribunal de uma opinião esclarecida, como já o está pela sua própria consciência.

(LISBOA, p.195-19)

[...]

hoje em dia porém em que para cúmulo de miséria tendo a política comunicado a sua imoralidade a todas as relações civis, já a destas reage por seu turno sobre ela, auxiliando-se reciprocamente por este modo todas as variedades do mal; hoje em dia os vícios e os crimes entonam a cerviz, manifestam-se com descaramento sem igual, prosperam e ousam tudo, sob a proteção coletiva dos partidos, excitam-se com o seu exemplo, e triunfam da frouxa resistência da autoridade, ora rebaixada e sem forca moral, seja que o descrédito lhe venha da ação dissolvente da difamação sistemática, que é uma das chagas do tempo; ou da sua própria participação na imoralidade política e privada que só deviam combater.

Dir-se-ia que o novo sistema de liberdade e independência, suscitado para corrigir e extirpar os abusos do antigo despotismo e escravidão, se fez cúmplice obsequioso deles, e lhes deu grande e solene entrada na sociedade atual, no meio dos aplausos dos comícios e assembléias, e a grande luz fúnebre da imprensa e publicidade.

[...]

(Id.ibid.,p.186-187)

[...]

“Não temos justiça no país! (exclama um) os jurados aqui mesmo na capital têm-se mostrado dispostos a absolver todos os crimes; até um parricida esteve a ponto de ir para o meio da rua; um escravo que matou outro nesta capital, havendo quatro testemunhas de vista no processo, três vezes foi unanimemente absolvido pelo júri, esgotaram-se todos os recursos, nada valeu; o réu foi solto e livre. Para que havemos de citar mais exemplos que provam a nossa degradação? Se crimes horrorosos encontram no júri tanta compaixão; o que se pode esperar das calúnias quando logo se lança em rosto ao caluniado que quer perseguir a imprensa? O crime entre nós está tão altanado que já não precisa dos favores do júri.”

“Tal é o lamentável estado em que se acha o Maranhão, diz outro. Há dez anos para mais, não há mal, humilhação e afronta, por que ele não tenha passado! A lei iludida, e tão desacreditada, que move o riso invocá-la, porque a garantia da sua execução se tem tornado uma perfeita burla - pelo patronato e temor; os homens de inteligência, de mérito e patriotismo, postos de parte e substituídos pelos ineptos, que se prestam a ser dóceis manivelas dos que se revestem de mando; a constituição, na sua parte a mais importante (a que diz respeito aos direitos políticos) de ordinário representada por homens da mesma plana, sem consciência do que devem fazer nem do que fazem, assinando de cruz os alvarás de seus amos; as eleições feitas com caráter de assalto e de saco, e reduzidas aos termos dessas cenas noturnas que se passam nas charnecas e azinhagas, nas quais a bolsa dada sem resistência é a garantia da vida do viandante acometido; os dinheiros públicos distraídos de seus fins legítimos para com eles se pagar serviços eleitorais, arranjar afilhados, e assoldadar-se asseclas; a divisão da família maranhense, outrora tão unida e feliz que se fazia por isto notar do estrangeiro; o desmoronamento enfim de todo o nosso edifício social, eis os funestos frutos do erro em que nos tem feito viver o pugilo de egoístas e ambiciosos que sós eles lucram com os nossos males e discórdias!

“O que mais nos faz lamentar na contemplação deste triste quadro é ver que muitos maranhenses como que se comprazem em continuar na sua cegueira! Bem poucos são os que confidencialmente e nas conversações particulares não reconhecem e confessam tudo quanto havemos dito, e todavia esses mesmos ainda continuam a prestar-se para instrumentos da infernal política desses homens sem consciência e amor da pátria! É que, como já dissemos, o despotismo de uma causa tão mesquinha acaba por amortecer nos corações dos que o sofrem o brio da independência, e o fogo do patriotismo.

“Custa-nos dizê-lo! mas, enfim, quem o ignora? Esta bela e nobre província, que a todos os respeitos, merece de ocupar um lugar tão distinto entre as demais províncias do Império, se acha hoje tão desmoralizada, por efeito da cínica política desses egoístas, e tão desacreditada no conceito geral, que parece estar de muito, condenada a representar de escória de todas elas! Debalde quiseram-nos iludir a nós mesmos, supondo falso ou, ao menos exagerado, a este juízo, porque aí está a triste realidade dos fatos para nos tirar do engano!

Tímon, de resto, quando pinta o mal, sem exagerá-lo, é certo, mas sem dissimular também toda a sua grandeza e intensidade, não entende nisso estabelecer a negação absoluta do bem. Felizmente ainda respiram entre nós muitos homens igualmente dotados de sentimentos honestos e de grandes qualidades; nos partidos mesmo notam-se às vezes movimentos generosos; e em algumas épocas as tendências para a emenda e reformação têm sido manifestas e animadoras. E por mais que a corrupção, a imoralidade e o vício estejam generalizados e potentes, não é impossível fazer calar os bons princípios, se uma voz e uma ação poderosa se quiserem fazer ouvir e sentir, porque existem sempre secretas e simpáticas harmonias entre o homem de bem e de gênio que fala e obra, e a multidão que escuta e vê.

Tudo se acha, é certo, acurvado de presente ao peso do mal, presos uns pelos outros, e contaminados do mau exemplo, da mesma forma que as pedras de uma abóbada comprimidas e arrimadas umas às outras se sustém reciprocamente; haja porém uma mão vigorosa que aplicando-lhes o ferro destruidor faça saltar duas ou três, e para logo desabará todo o edifício que na robustez da sua construção parecia desafiar o tempo.

[...]

(Id.ibid., p.186-188)

XI

Que a nossa situação é das piores, senão de todo péssima e desesperada, e cousa que já não pode sofrer dúvida e contestação. Donde porém lhe há de vir o remédio? quem oporá ao mal uma barreira assaz poderosa, senão para contê-lo de todo na sua marcha desempeçada e vitoriosa, ao menos para embaraçá-lo e demorá-lo? donde e como partirá o impulso para o bem?

A época em que vivemos é fecunda em catástrofes, desastres e vicissitudes de todo o gênero, e será por isso assinalada entre todas nas idades futuras. Se por uma parte obscuros plebeus são dizimados pela perseguição, de outra os reis abdicam e fogem disfarçados, para evitarem as masmorras e os desterros, e ainda a mesma mão do carrasco já habituada a tatear régios pescoços. Nem a prescrição dos séculos, nem a consagração do direito divino, nem o prestígio da glória e do gênio, nem os cálculos e precauções do bom senso, da habilidade e do talento, são títulos seguros de preservação e salvação. Luis XVI, Napoleão e Luís Filipe o atestam de um modo tão eloqüente como irrespondível. Londres viu há poucos anos, quase reunidos dentro dos seus muros, um rei de Argel, um imperador do Brasil, e um rei de Franca, trazido assim para a vida real nesta era de prodígios um dos mais inverossímeis e arrojados devaneios da imaginação de Voltaire, quando no seu romance do Otimismo nos figura vários potentados decaídos, juntos pelos caprichos da fortuna em uma obscura estalagem de Veneza.

Montaigne dizia que por mais aveludado e dourado que seja o trono ninguém se pode nele assentar, a não ser sobre as próprias pousadeiras; e se houve tempo em que se faca bem-sentir a verdade deste pensamento do filósofo francês, cuja cínica expressão aliás adoço quanto me é possível, é certamente o tempo presente, em que a grandeza humana se nos apresenta humilhada na pessoa de um rei conduzido ao suplício com as mãos atadas para trás, e publicamente despojado das suas vestes e cabelos pelas mãos polutas do algoz.

Como contraste porém no meio da instabilidade e subversão universal, lá aparecem tempos, lugares e ocasiões em que a influência monárquica brilha em toda a sua força, e de um modo tão irresistível como espontâneo, posto que a causa do fenômeno não seja das mais puras e honrosas, visto não ser outra senão o servilismo e adulação dos súditos.

Um dos nossos estadistas asseverou em pleno parlamento que só seis indivíduos tinham algum poder no Brasil, e eram os seis homens que se assentavam nas cadeiras de S. Cristóvão. Seria porém mais exato se subisse um pouco mais alto. A única força e poder real que atualmente temos existe no imperador. Os ministros só crescem ou vegetam a sua sombra; a força que têm, toda a tiram dele, e se algum tempo a tiveram própria, perderam-na, ou abdicaram-na voluntariamente, escarmentados nas longas abstinências de vaca magra, a que os levaram certas imprudentes veleidades de independência. A julgá-los hoje em dia pela sua resignação e longanimidade, dir-se-ia que, como os lacaios de Gil Brás, juraram pela Estige nunca mais suscitar questões de gabinete; e esta jura terrível, é sabido que nem deuses nem ministros ousam impunemente quebrantá-la.

E se o poder real é o único, se na ausência e extinção do antigo religioso respeito para com o dogma quase sagrado da monarquia, o interesse e a adulação atraem nada obstante todas as homenagens e adorações ao trono, maior se torna por isso a responsabilidade dos reis e imperadores, e mais cresce neles a obrigação de se mostrarem peritos e zelosos no seu ofício, suprindo com a boa vontade, com o zelo e com a prudência as grandes qualidades que porventura lhes faleçam, e que infelizmente nem sempre os preservam de quedas estrondosas e escarnecidas .

Nas alturas vertiginosas do poder e majestade é talvez indispensável a inspiração e ajuda do céu para que a fraca força humana não desvaire, e se lance nos abismos da perdição, arrebatada pelo próprio peso. O menor descuido transformará as virtudes mais singelas nos vícios mais perigosos, mormente para um rei.

Segundo a expressão enérgica e pitoresca de Napoleão, certas ficções constitucionais são bem próprias para transformar o rei num animal tão egoísta e preguiçoso como inútil, espécie de cochino cevado a preço de milhões.

De mim confesso que não sei admirar estas maravilhosas ficções; e menos ainda a prudência e imparcialidade, como as entendia e praticava Luís XVIII, que sacrificava alternadamente ora um, ora outro partido, deixando-se atoar ao capricho das maiorias flutuantes, e pelos acontecimentos, que aguardava, sem nunca provocá-los e dirigi-los, preferindo sempre e a tudo, o seu repouso pessoal.

Em um país novo, e ainda renovado pelas instituições recentes, onde não há vícios nem virtudes, nem costumes de qualidade alguma profundamente arreigados, uma iniciativa vigorosa e franca se faz sobretudo sentir; o impulso partido do alto achará por toda parte matéria flexível e branca como a cera, pronta e disposta a amoldar-se em todos os sentidos, e ainda os mais opostos, assim para o bem como para o mal.

Ora, o nosso primeiro mal são os partidos, aliás meia dúzia de indivíduos que, sob o nome de partidos, se agitam na superfície da sociedade, e desviam toda a sua atenção e atividade para as contendas estéreis da política, preteridos e abandonados todos os outros deveres e profissões. Um publicista argentino, escrevendo ultimamente das cousas da sua pátria, graduou os progressos que uma nação pode fazer, em quatro espécies, o moral, o industrial, o intelectual e o político. Ignoro se a classificação é justa, isto é, conforme a verdade e natureza das cousas; mas se houvermos de adotá-la, poderemos afoutadamente dizer em relação a nossa pátria que nada absolutamente temos de progressos morais e industriais; apenas alguma cousa do intelectual; em demasia porém do político, bem entendido, do progresso político vicioso, exuberante e desordenado, tal como o deixamos longamente descrito nas páginas anteriores.

[...]

(Id.ibid.,p.189-191)

[...]

Mas para que se arranque e extinga um mal tão inveterado, para que se alcance tamanho bem, é mister que o impulso parta não já de gabinetes efêmeros, contraditórios e oscilantes, senão do próprio chefe do estado que, sendo possível, deve não só reinar e governar, como administrar, e descer aos mais minuciosos pormenores do governo destas pequenas províncias. Se nos faltar esse impulso superior, permanente e desinteressado, mal de nós e delas que irão de dia para dia piorando de situação.

Não basta mandar um presidente cuja falaz imparcialidade consista em poupar e cortejar a uma e outra banda a corrupção e o vício, que sabem mascarar-se e disfarçar-se por tão variados meios; não basta inverter e mudar certas posições, é preciso atacar o mal frente a frente, e destruir todos os antros em que ele se acolhe. A imparcialidade se há de revelar pela severidade e inteireza, não pelos sorrisos e complacências; pelos trabalhos, pelas fadigas, pelos sacrifícios, pelos ódios e perigos afrontados, não pelos prazeres e distrações. É mister sobretudo que os presidentes de uma vez para sempre se abstenham de intervir nos mesquinhos debates dos partidos, deixem de rebaixar todos os dias a própria autoridade, e representem e sirvam dignamente o imperador seu amo, que certo saberá e quererá galardoar dignamente os seus serviços.

[...]

(Id.ibid., p.192)

[...]

Afonso Karr escreveu algures o seguinte: - “Há gente que em política não tem senão uma opinião, um partido, uma convicção; esta gente é numerosa, e morre de boa mente pela causa que abraçou. Esta opinião, este partido, esta causa, esta convicção é a algazarra; não há alguma outra fé que possa contar tantos mártires.” - E Tímon acrescenta que em nenhuma outra parte do mundo este partido é tão numeroso como entre nós. Os fiéis sectários, que salvam todos os dias a pátria, à maneira dos gansos do capitólio - grasnando, - podem muito bem ser mártires da sua religião, mas não se pode negar que são também algozes cruelíssimos dos que lhes caem nas mãos. Desgraçado do que deixa invadir a sua casa pela turba dos políticos ociosos e faladores! Não lhe deixarão mais um só momento de repouso ou ocupação séria, pois lhe há de ser forçoso ouvir, de sol a sol, e pela noute adiante, a exposição das calorosas disputas que tiveram, dos grandes serviços que prestaram, e dos soberbos planos que engenharam; nos quais a imprudência, a exageração, a fatuidade, a sandice e a loucura se disputam a primazia.

[...]

(Id.ibid., 164-165)

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A par da estupidez, marcha feliz, descarada e ovante a corrupção, e a imoralidade; e pode-se sem exageração dizer que não há imundícia e podridão que os nossos enxurros eleitorais não tenham trazido à superfície da sociedade. O Alceste de Molière, apesar do seu ódio sombrio e cego ao gênero humano, ficou ainda muito aquém da tremenda realidade, quando disse:

Da máscara através em toda a parte

O traidor se descobre, e denuncia;

Por mais que os olhos torça, a voz ameigue,

É sempre o mesmo réptil peçonhento,

De todos evitado e conhecido;

Por sórdido mister alçado às honras,

Cujo brilho mareia, indigna o mérito,

Faz corar a virtude; e injuriado,

Coberto de baldões por todo o mundo,

Não acha quem por ele a voz levante:

Chamai-lhe vil, infame, celerado,

Todos sem discrepar convém que é justo.

Com sorriso acolhido apesar disso,

Em toda parte o máscara se insinua;

E se cargos pleiteia, dignidades,

Cede-lhe sempre o passo o homem probo;

A poder de cabala suplantado.

[...]

(Id.ibid., p.166)

[...]

Considerando na nossa degradação eleitoral, atribuindo-a a todas, ou a parte das diversas causas enumeradas, pensam alguns que o mal desapareceria, se conseguíssemos tornar as eleições verdadeiramente livres. Mas por que meios se alcançaria a suspirada liberdade do voto? em que ponto sólido e estranho a este globo de lama se firmaria o novo Arquimedes para mover a alavanca regeneradora? Entretanto, não é esta a maior dificuldade, porque vencida ela, o que sucederia? a Tímon arrepiam-se-lhe as carnes e os cabelos só de o pensar e dizer. Se fosse lícito admitir a possibilidade de umas eleições perfeitamente livres e pacíficas, em que os votantes, descativados de quaisquer influências e sugestões estranhas, procedessem isoladamente, sem concerto, e em toda a liberdade e pureza de consciência, o resultado provável seria que apenas uma meia dúzia dos menos remissos iria à urna lançar votos verdadeiramente abomináveis. O grande número se deixaria ficar em suas casas, porque aos atuais estímulos para o mal, sucederão o cansaço, o desânimo e a indiferença, primeiro que possam ter força e vigor os incentivos para o bem.

[...]

(Id.ibid., p.167-168)

[...]

A par da indiferença, apatia e abstenção das grandes massas da população para os misteres da vida pública, civil e política, mostra-se o mal contrário na camada superior da mesma população, que preterindo todas as mais profissões, não procura meios de vida senão na carreira dos empregos, não tem outro entretenimento que a luta e agitação dos partidos, outro estudo que o da ciência política, sendo tudo bem depressa arrastado pelo impulso cego das paixões para os últimos limites da exageração e do abuso. E porque as classes superiores são as que dirigem a sociedade, e a classe dos políticos supere entre nós todas as outras, suprindo o número, pelo ruído que faz, e posição elevada que ocupa, é ela quem dá o tom e verniz exterior à nossa sociedade, e lhe faz tomar as aparências de um povo exclusivamente dado à política, e aos meneios, fraudes e torpezas eleitorais, quando a verdade é que o grosso da população, se nisso tem crime, é pela indiferença, antes conivência, com que contempla os abusos e escândalos da imperceptível, mas inquieta e turbulenta minoria. Em resumo: exuberância de vida política, tumulto, agitação, ardor febril, e paixões amotinadas numa pequena parte da população - silêncio, abandono, indiferença, ausência quase absoluta de vida, na outra parte que constitui a grande maioria.

[...]

(Id.ibid., p.179)

[...]

Repetimo-lo ainda, a carreira política e dos empregos é quase a única a que se lançam as nossas classes superiores.

Indivíduos há que abrem mão de suas profissões, deixam ao desamparo as suas fazendas, desleixam o seu comércio, e se plantam na capital anos inteiros à espera de um emprego, consumindo improdutivamente o tempo, e o pouco cabedal que possuíam, e que não obstante, bem aproveitados por um homem ativo e empreendedor, dariam muito mais que todos os empregos imagináveis. Mas nem porque alcancem a primeira pretensão, se dão por pagos e satisfeitos, antes aspiram logo a outra posição melhor; e sempre inquietos e atidos à novidade, persuadidos que só as intrigas políticas, e não o mérito, é que dão acesso na carreira, a única cousa de que não curam é de cumprir as suas obrigações, e de aperfeiçoar-se nos estudos e na prática necessária ao mister ou especialidade que adotaram. Raros são os que para subirem mais e mais não vejam com gosto o sacrifício dos colegas e companheiros, com cuja sorte aliás os conselhos mais óbvios da prudência os deviam levar a se identificarem; mas a desgraça alheia com que folgam é bem depressa a desgraça própria, porque o egoísmo e a cobiça são vícios universais, que se ofendem, neutralizam e embaraçam reciprocamente. A mania dos empregos é tal, o mal tão grave e profundo, que já não são somente os pobres e necessitados que andam após eles; os grandes, os fidalgos e os ricos fazem outro tanto, e sem pejo nem remorso, ajuntam aos contos e contos dos seus bens patrimoniais, os magros emolumentos de ínfimos lugares, roubados porventura ao mérito modesto e desvalido. Que poderá entretanto haver no mundo de mais miserável que esta perpétua oscilação, que estas eternas vicissitudes, que esta vida precária enfim do pretendente e do empregado?

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(Id.ibid., p.180)

[...]

Hoje em dia porém as cousas estão bem mudadas; qualquer marmanjo criado ao bafo de uma taverna, meneia-se à feição de um presidente, sendo que a própria mulher do quitandeiro vê nele o futuro administrador da sua província, e não se faz rogar para lho dizer; os meninos de escola e de colégio escrevem, e imprimem jornais, e sonham presidências, deputações e ministérios, como os seus antepassados da mesma idade sonhavam com bonecos, corrupios, doces e confeitos. Diria aqui também que escrevem e representam dramas sanguinolentos, freqüentam os teatros e bailes, e fazem a diversos outros propósitos, de pequenos homens feitos, se me não tivesse circunscrito a só pintar costumes políticos.

Os pais de família, aproveitando e cultivando estas felizes disposições, sem consultarem nem as suas posses, nem a capacidade dos filhos, lá os vão mandando para as academias jurídicas de Olinda e S. Paulo, e para as de medicina da Bahia e da corte. Vós credes que ali se formam médicos e jurisconsultos; não o contesto até certo ponto; mas a verdade é que sobretudo e principalmente formam-se, graduam-se, e doutoram-se homens políticos, quero dizer, deputados, presidentes, ministros e senadores, continuando na juventude, na idade madura e na velhice, os sonhos e fantasias da primeira infância e puerícia!
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