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Edição 206

O sarcófago da alma

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Data de Publicação: 2 de setembro de 2009
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Ivan Pessoa*

Corpo, sem ele o que seríamos, senão fantas mas envoltos nas sombras esmaecidas das aparências? Ora, o que atesta nossa existência é decerto a carnação do corpo que nos exterioriza, publicizando nossos gestos, sons, hábitos e sandices. Onde encontrar o lumen naturale dos antigos, a tão propalada consciência egoica que nos faz pensar, a não ser escarafunchando o corpo, em sua intricada rede de células, órgãos e unhas? Como se hospedasse em seu âmago a engenhosidade de um autômato, o corpo abriga e acolhe a complexidade de uma alma que só se efetiva no instante que se corporaliza. Não existe corpo sem alma e muito menos alma sem corpo. Apto a reaver dos medievais esta antiquíssima contenda, René Descartes em sua obra: Discurso do Método, argumentaria a favor da ideia de que a alma estaria assentada na glândula pineal, de modo a segregar o pensamento como o fígado, a bílis, além, é claro, de reger soberanamente o corpo à maneira do navegante que dirige uma embarcação. A alma processa o pensamento sob a guarida do corpo que a envolve. Esta dicotomia panorâmica: entre corpo e alma, tão cara ao cartesianismo da res cogitans e res extensa, tem sua origem remota já com a riquíssima religiosidade egípcia que compreendia o ser humano como a conjunção entre Ká e Rá, respectivamente. Platão em diálogos como Críton, Timeu e A República, arranja discursivamente uma antropologia filosófica que conceberá o homem como um ser dotado de corpo e alma que, à maneira da bifurcação do mundo entre a sensibilidade e a inteligibilidade, está cindido entre a baixeza dos impulsos mais animais, pois que residente da opinião e a clarividência de uma racionalidade tão lúcida quanto a luz do sol. Desde há muito, desde Platão que o corpo é o sarcófago da alma, compreendido enquanto um sobrepeso libidinal que indispõe a prudência e a sabedoria. Orientado neste sentido, o mundo ocidental desde então não vê a realidade senão nas gradações desta dicotomia, seja na ciência, seja no direito. Sabe-se que o esforço de inúmeros estudiosos gregos voltados à elucidação do corpo, sempre resvalava na negativa das autoridades, não muito diferente do que aconteceria com mais violência durante o Renascimento. Em Crotona, Alcmeão que viveria entre os anos de 560 e 500 a.C. burlaria todas as imposições que impediam a vivissecção, autópsia ou necropsia com cadáveres, não obstante os populares acreditassem que levemente aberto, o corpo facilitaria a fuga da alma, afinal sua natureza etérea ensejaria a súbita desaparição. O que nos faria pensar, segundo os antigos, seria certamente a maleabilidade da alma. A alma é leve, melíflua como os pensamentos. O corpo pesa, rebaixa como o desejo.

Em sua hilariante: História cômica dos Estados e impérios da Lua (1657), o bonachão Savinien de Cyrano de Bergerac, antecipando a ida humana à lua, endossaria a idéia de que o corpo é o que há de mais impudico na constituição orgânica do ser humano. Tendo como anfitrião o profeta Elias, Cyrano imagina-se na lua, satélite apinhado de situações fantásticas. Elias lhe explica, dentre outras coisas que a Árvore da Vida do paraíso perdido, teria sido transportada para a lua. E quanto à serpente? O peçonhento animal, nas palavras do profeta Elias, teria sido acoplado no corpo humano, especificamente no intestino. Saindo eufórica do ventre do homem apenas para lançar seu veneno mordaz, a serpente só daria seus indícios depois de nove meses, causando um leve inchaço que cresceria gradualmente.

O corpo através do sarcófago

Segundo a doutora em antropologia cultural e teoria literária, a Professora Nízia Villaça, a questão anteriormente referida acerca do corpo, pode assim ser compreendida:

O Ocidente, de um modo geral, avaliou-o a partir de preconceitos morais, estéticos, ideológicos e filosóficos, comprometendo o enunciado de sua natureza inapreensível. Para tal, contribuíram a condenação judaico-cristã da carne, a permanência do idealismo platônico e a rejeição da sensibilidade, em proveito das coisas do espírito
(VILLAÇA, 2007, p.56)

O progressivo embotamento do corpo e suas potencialidades, sempre se deu por meio da docilização do poder e seu patrulhamento disciplinar através das instituições sociais, desde o terrorismo perpetrado pelos espiões do Imperador na antiga Pérsia e sua maciça campanha de vigilância: os olhos e ouvidos do Rei, até as modernas técnicas médicas do regime nazista que empenhadas na busca pela raça pura, congenitamente perfeita, empreenderam a mais violenta das sanções contra a corporeidade através da eugenia. O corpo do Outro é sempre uma ameaça, de modo que sua presença envolve sempre o desconhecido, o inesperado. Não por acaso, ciente disto, o rei Laio de Tebas aconselhado pelo Oráculo de Delfos, na intenção de assassinar seu próprio filho, lhe macularia com a maldição dos pés furados (Edipodos), antecipando a medida de sua tragédia. Como diria Freud: “A anatomia dita o destino.”

Fineu, rei da Trácia que trocaria os olhos pela longevidade, viverei quase toda vida infortunado pelas harpias que, como aves de rapina, lhe roubavam a comida cotidianamente, até ser salvo pelos argonautas. Cláudio, imperador que sucedera Calígula, seria acometido de uma doença tão incomum em sua época que a própria mãe lhe alcunhava às gargalhadas de monstro inacabado. O certo é que o corpo nos manifesta, desalojando, seja na ponta dos dedos, esgares, traçadas de pernas, os segredos mais inusitados de nossa persona. Não é à toa, por exemplo, que ainda hoje se associe a imagem de Moisés, clinicamente um gago, à condução dos hebreus à Terra prometida, sendo que se deve a Aarão, seu irmão a implementação dos planos divinos. Quando o espírito do tempo quer se manifestar, o corpo serve como mediador. Assim pensava a tradição platônica do poeta enquanto um corpo movido por entusiasmo que alinharia os homens e os deuses, bem como o cânone romântico a respeito da imaginação criadora do gênio. Como pensara o abade Joaquim de Fiore no século XII, o mediador, aquele que doa o seu corpo em nome de uma verdade, é enviado num fluxo sempiterno para reavivar o fogo que se apaga momentaneamente entre os homens, de tal sorte que à proporção que é reaceso, o divino através de seus emissários, redime a história. O corpo, ainda que seja um sarcófago sujo e amesquinhado, ainda assim é um antro sagrado. A eterna condição de possibilidade para que nos apareçam as coisas, os objetos e as sandices. O medo elementar das crianças em face dos fantasmas é certamente o medo de se defrontar com algo sem corpo, ou seja, com algo inimaginável. Este receio elementar de lidar com algo fantasmal inquietaria o imaginário europeu por séculos. Plínio, o Velho, naturalista e inquieto oficial romano, escreveria em um dos maiores bestiários do Ocidente, dentre outras coisas, a descrição minuciosa de relatos que lhe aferiam a existência de povos estrangeiros. Segundo Plínio, o Velho, em sua História Natural, no além-mar haveria um sem-número de criaturas estranhas, dotadas de corpos igualmente estranhos como os arimaspos, com um só olho na testa à maneira dos ciclopes, os tíbios, que dispunham de olho com duas pupilas e os acéfalos blêmias que teriam a boca e os olhos no peito. Percebe-se, desde a confecção daquele clássico bestiário até as aventuras de Marco Pólo que a visão antropológica dominante estaria situada nos limites da Europa, de sorte que aquilo que extravasasse suas fronteiras seria eminentemente a mácula do estranho, do estrangeiro que rebaixado à condição grotesca de um corpo inimaginável padeceria do infortúnio da bestialidade. O êxito dos relatos de Plínio, o Velho, bem como de Marco Pólo serviam em suas épocas, para que se reorientasse a concepção de corpo e consequentemente de mundo da Europa de então, de certa feita alargaria o horizonte da noção antropocêntrica de mundo. Como nos assevera a Professora Nízia Villaça em sua obra: Que corpo é esse?

A invenção da imprensa, com a disseminação do livro e tantas outras descobertas da era moderna serão determinantes de uma revolução do imaginário humano, provocando novos processos de subjetivação, que, através dos séculos, irão se construir e desconstruir num jogo de controle e descontrole de si mesmo e do outro.
(VILLAÇA, 1999, 14)

A escritura do texto, resultado de uma abertura das fronteiras, um descerramento dos centros, ocasionaria historicamente a descoberta do Outro e sua posterior revisão acerca do homem e do mundo. O texto civiliza, visto que se antepõe à barbárie. Montaigne, que escreveria sua grande obra Ensaios, no furor da descoberta da América, dali teria extraído a decisiva expressão: “ O bárbaro é aquele que não tem meu rosto.” A suficiência heróica do corpo europeu só ganharia sua pretensa excelência no confronto dialético com o Outro, de sorte que sem os tropeços primitivos dos corpos indígenas, a cultura europeia certamente não aconteceria. Cito Nízia Villaça:

Se por um lado as descobertas na era moderna propiciaram o acesso ao desconhecido, simultaneamente criaram as demarcações do corpo selvagem, do insólito, do exótico em contraposição a um espaço antropológico centrado no homem branco europeu. Desde sempre a representação do corpo foi eminentemente política, seja em bases naturalistas seja em base culturalistas.
(VILLAÇA, 1999, 14)

Quando o Outro entra em cena, simultaneamente surge o fenômeno biométrico e antropométrico de tentar aferir humanidade àquele que extrapola a medida corrente de corporeidade. Longe de ter-se evanescido nos primórdios da humanidade, ainda hoje este mesmo fenômeno se faz presente, desta vez, apropriado pela publicidade e pretensa venda do corpo perfeito. A moda, que atavicamente se apropriaria do fenômeno colonizador de enquadrar o Outro nos padrões modelares dos civilizados, repete efusivamente as maquinações ensandecidas de Procusto de cerrar as pernas de suas vítimas.

(Continua na segunda parte)

* Professor e escritor

VILLAÇA, Nízia. A edição do corpo: tecnociência, artes e moda/ Nízia Villaça. – Barueri, SP: Estação das Letras Editora, 2007.

VILLAÇA, Nízia. Que corpo é esse? Novas perspectivas / organizadores, Nízia Villaça, Fred Góes, Ester Kosovski. – Rio de Janeiro: Mauad, 1999.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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