Data de Publicação: 5 de agosto de 2009
José Neres*Leitor ávido e inegável amante da boa literatura, Hagamenon de Jesus serviu como guru de toda uma geração de jovens escritores que hoje já conseguem caminhar com as próprias pernas e palavras. Poetas como Antônio Aílton, Ricardo Leão, Bioque Mesito e Natanílson Campos não deixam de lembrar que, quando ainda tateavam os caminhos da poesia e claudicavam nas primeiras incursões rumo aos intricados e nem sempre amenos caminhos da literatura, tiveram como guia as palavras e os conselhos do experiente Hagamenon de Jesus.
Por sua importância na formação intelectual de jovens talentosos, pelo trato sério e seguro com a arquitetura poética e pelo grande conhecimento das altas literaturas, todos esperavam que, cedo ou tarde, o poeta reuniria seus textos publicados em coletâneas e faria uma busca por suas gavetas repletas de inéditos para “solidificar-se em poeta” nas páginas de um livro. O tempo foi passando e o sonho de uma obra impressa era sempre postergado. Muitas pessoas já começavam a acreditar que Hagamenon ficaria apenas nas colaborações em obras coletivas e na admiração de seu grande círculo de amizade.
Mas, em 2002, sem estardalhaço, vem a público o livro THE PROBLEM e/ou os poemas da transição, um apanhado de quase quarenta poemas que, como o próprio subtítulo já indica, mostra um passeio do homem/poeta pelas diversas fases de sua vida literária. Mesmo em um mero folhear de página, já fica evidente para o leitor que o poeta não teve pressa em produzir cada um dos versos e muito menos para publicá-los. A aparente demora para o aparecimento do livro remete a um ruminar de ideias e a um filtrar de textos, como se cada palavra fosse encastoada no volume com a certeza de suas propriedades semânticas e de sua consolidação poemática.
A pressa e a falta de autocrítica poderiam transformar THE PROBLEM... em apenas mais um livro, como tantos outros que são lançados anualmente e que se perdem nos vãos da memória de nossos poucos leitores de poesia. Contudo, a qualidade dos poemas tira a obra do comum e a coloca entre os bons livros produzidos pelos participantes da chamada Safra 90 da literatura maranhense.
Logo no primeiro texto do livro, temos, em pouquíssimos versos, um momento de epifania do poeta, que deixa transparecer os poderes quase demiúrgicos que emanam do domínio das palavras:
... E para que, no poema,
O homem em mim se faça,
Sopro – em sua matéria insana –,
Furioso, o sopro da vida.
[...]
Este o momento
Que me soube deus.
(p. 23)
Em outros momentos do livro, iremos encontrar a busca da palavra exata para exprimir, de modo sintético, porém eloquente, toda uma carga significativa que vai além das palavras dicionarizadas ou da mera expectativa primária dos vocábulos. No afã de encontrar o termo que traduza seus anseios e sentimentos, o poeta corta, junta ou espacializa as palavras ao longo do poema. Outras vezes, prefere inverter fonemas e, bem à moda da poesia-praxis, recriar significados e tecer jogos de palavras, como ocorre no interessante IDXEGO, no qual os desejos humanos aparecem de forma bastante poética, sem esquecer a eterna luta entre a razão e a emoção:
Por que a alma se contamina de carne
E a carne se contamina de alma
E – alma em lama
(se revolvendo)
Em infrene incesto, sobre a cama,
É que arde
Em carma em canto a chama humana.
(p. 49)
Mesmo sem querer transformar seu livro em uma bandeira de luta, é possível perceber nas entrelinhas do poeta a presença de um homem que se revolta e que não se contenta com a situação do mundo. Ele não nega ser um poeta que tem sempre seus pés no chão e que de tudo o que o cerca tira a essência de sua poesia, como aparece no significativo poema PÉS:
Os meus pés no chão.
Os meus pés no chão também podem ser poesia.
(p. 35)
Essa visão social aparece em diversos textos, inclusive no tocante poema intitulado BONITO, uma peça de rara beleza, escrito em forma de prosa poética e que, sem descambar para a pieguice e para o tom panfletário, traz o cotidiano de um sofrido pai de família.
É bonito. Bonito e comove. O seu jeito simples. A sua roupa simples, seu dinheiro curto, e o seu relógio fora de moda. Sua faina honesta, seu cansaço e um embrulho, seu chinelo vulgar e roto, todo o roto sonho. Mas pleno de retorno, sua consciência tranquila.
É bonito. Tudo isso é belo:
Um pai de família.
(p. 95)
Além dos poemas, quem se prontificar a ler o livro de Hagamenon de Jesus também entrará em contato com diversos depoimentos de alguns amigos e admiradores do poeta e com explicação sobre a concepção de alguns textos e suas respectivas dedicatórias, palavras que explicam determinadas partes da obra, mas que não tiram o sabor de uma leitura do texto integral.
THE PROBLEM e/ou poemas da transição é um livro que já nasceu maduro, pois seu autor soube esperar o tempo certo de colher cada um dos poemas e, de acordo com os rígidos padrões de qualidade, selecionou os melhores produtos para o deleite de quem é exigente em termos de poesia.
*Professor de Literatura da Universidade Federal do Maranhão. Email: joseneres@globo.com Blog: WWW.joseneres.blogspot.com- Próximo texto:
- Edição 204 Rapaz, obra rara com gosto de semente e sêmen
- Texto Anterior:
- Edição 204 Um francês com raízes maranhenses: Maurice Druon – Os Reis Malditos e O Menino do Dedo Verde
- Índice da edição - Ano VII