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Edição 205

'Nunca vou sair desse mundo, vivo'

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Data de Publicação: 19 de agosto de 2009
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Por Ivan Pessoa*

No dia primeiro de janeiro de 1953, quem disparava nas paradas, era um caipira alto e magro de nome: Hank Williams. Tragicamente naquele mesmo dia, o cantor sulista seria encontrado morto no banco detrás de uma limusine em Knoxsville, Tennessee. As causas da morte ainda são misteriosas. Suicídio, homicídio? A dúvida ainda paira sobre o maior cantor de country da história norte-americana. A música que lhe levaria à aclamação popular, chamava-se sugestivamente: I’ll never get out of this world alive. Curiosamente essa mesma música dá nome a este texto, enquanto a ouço silenciosamente.



“Ver é desnudar”

As razões que me levam a lembrar Hank Williams são objetivas, e não menos filosóficas. Por que a arte encaminha o homem, à beira do abismo, com sua consequente ausência de limites? Aquele lúcido pensamento de William Blake é sem mais, à contiguidade da música de Hank Williams, o título deste ensaio: “A prudência é uma rica, feia e velha donzela cortejada pela impotência.” Envaidecidos de suas descobertas inusitadas, alguns artistas extravasam os limites da coerência, arrostando Deus face a face. Desavisado talvez, reescrevo um pensamento pontual da lavra de Elias Canetti que em sua obra: O Território do Homem, assim dispara: “As intuições do poeta são as aventuras esquecidas de Deus.” Onde se lê poeta, gostaria de ampliá-la à generalidade dos artistas. Se a intuição estética for a aventura esquecida de Deus, apenas os homens capazes de desobedecer-lhe com a pureza das crianças, serão igualmente capazes de recolher os trapos desta odisséia perdida, com efeito, os demais sempre encontram-se ocupados em demasia para tal empresa. Ora, como corolário se deduz: a arte é a assunção de uma purgação, como se a partir dos véus inscritos por Deus sobre a natureza, homens desautorizados, fossem momentaneamente desocultando-lhe o pudor divino. Do veio comedido de Pascal vem a constatação, que sempre antes de entrar em seu laboratório de experiências físicas, fazia a seguinte oração: “Perdoai-me, Senhor, se simples verme da terra, ouso levantar a ponta do véu que envolve os vossos mistérios.” Jim Morrison, não por acaso um vivente das experimentações metafísicas de Blake, certa vez asseveraria que o próprio ato de ver seria intuitivamente um ato erótico. Ver é desnudar. A atividade estética, que vê por debaixo das saias, no interregno das frestas, no septo das gretas da natureza, é em proporção uma atividade erótica e religiosa, que tenta reabilitar o homem com sua pátria perdida, valendo-se dos mecanismos orgânicos dos sentidos. Alfred Loos em 1908 já dizia: “Toda arte é erótica.” Nos anos 60, uma dupla folk, The Holy Modal Rounders, cantarolava: “ Se não te deixa excitado, não é arte.”

Diferentemente da fleuma que é indiferente, a sensação de êxtase, excitação, talvez seja o que de mais primitivo exista alojado na psique humana. A arte, quando nos convida para sua longa dança, inevitavelmente nos leva às escorregadelas deste passo em falso, tão comum na gramática das crianças e na semântica dos loucos. Deus, que assiste impassível ao desenrolar da pantomima, culpa por ordem de sua própria justiça, aqueles que desajustam a normalidade da encenação. Omar Khayyam, um dos maiores em sua seara, pensava que a vida fosse a representação de um drama para distrair a eternidade de Deus. Poetas, músicos, artistas em geral, desajustam o mise-en-scène vendo através da fechadura o sentido cósmico da sucessão de cenas. Como se fossem pegos em conspiração, artistas são condenáveis porque veem demais, sabem para além da conta. A expiação tem o preço da loucura, da solidão, decisivamente tem o peso da estranheza. Por que vê a parte pudenda daquilo que não pode ser dito, o artista é acossado numa condenação que lhe veda os sentidos.

Em uma velha lenda européia, busco refúgio. Conta-se que Lady Godiva, insistentemente solicitava ao conde Leofric, seu marido, comiseração em face dos pesados impostos cobrados aos pobres moradores do condado. Passadas as recusas iniciais, veio a aceitação, no entanto, Lady Godiva teria que se sujeitar a uma situação delicada, ao ter que montar nua em um cavalo e desfilar de madrugada pela região, sem que fosse entrevista por nenhum morador. Caso ela não fosse vista, os impostos seriam suspensos. Pondo-se exultante sobre a crina do animal, a belíssima mulher se pôs a percorrer as vielas do condado. Inevitavelmente como era de se esperar, um voyeur tão artista quanto impertinente, posto que era alfaiate, Peeping Tom, viu o que não deveria, chamando a atenção de Lady Godiva. Em vez de reaver os impostos, o conde puniu o alfaiate com a cegueira. Ver é desnudar. Peeping Tom, artista porque vê objetivamente, desvelando a vida em detrimento dos protocolos reais, certamente é a imagem mais adequada para a noção mesma de arte, afinal duas consequências dali se deixam entrever: o artista como que dotado de sensibilidade aguçada, encarrega-se de ver em favor daqueles que não o podem, o que lhe leva à quebra da normalidade. Do plano imanente ao plano cósmico, é como se em face dos mistérios recatados do universo, alguém fosse momentaneamente fustigando a Beleza altiva dos astros que os olhos comuns não se apercebem, acarretando por fim a sanção divina. Em réplica é como se Deus dissesse ao artista: “Tu vês demais.” Extrapolando os limites de qualquer trama, cabe a expiação e a cegueira. Na longa tradição da poesia grega, que conciliava sabedoria e cegueira, o primeiro a ter sido afetado com tal infortúnio, teria sido Tamiris, castigado pela fúria das Musas. Demódoco e Estesícoro também. No entrevero da modernidade, John Milton à semelhança dos gregos, também ficaria cego, enquanto Góngora mendigaria durante toda vida.

“Deixai toda esperança, ó vós que entrais!” (Dante Alighieri)

A vida, que carece de sentido aparente, assemelha-se a uma porta com sua respectiva fechadura. Alguns atravessam o desconhecido corredor da vida para a morte, sem a curiosidade de ver o que se oculta através da porta. Outros, bem mais pueris como as crianças e os loucos, em detrimento das proibições, põem os olhos e os ouvidos à altura do umbral, desacordando as regras da encenação. Em seu primeiro romance publicado: Os Prêmios, Júlio Cortazar ciente de tal imagem metafísica, põe uma tripulação inteira de afortunados em um cruzeiro. No decorrer da trama, o mistério se encarrega de guiar-nos oceano afora. Havia uma porta selada que nortearia a curiosidade de toda tripulação. O que há depois da porta que jamais é aberta? A grande questão não é desobstruir o acesso até a porta, mas antes conviver com as insinuações do mistério. Insaciáveis, alguns homens creem dobrar estas insinuações com um cabedal de fórmulas dedutíveis, como filósofos e cientistas. Alguns tantos, bem mais trágicos, precipitam-se ante o mistério do mundo, entregando o corpo e a alma à possibilidade de ver lucidamente o que não pode ser visto. A sedução, que se desdobra por meio das convocações do mistério, é o elemento erótico que serpenteia eufórico antes de subjugar. A vida seduz com seu excesso de campos e estrelas, mas imponderável, escapa sorrateiramente. Por força da sensibilidade, alguns homens caem em sua teia. Johnny Ace, um dos maiores cantores norte-americanos, em plena celeuma dos direitos civis, poria, logo após um show, o cano de um revólver na própria têmpora. Morreria em pleno estrelato aos 25 anos. William Burroughs, em franca imitação do épico Guilherme Tell, assassinaria a própria esposa depois de ter tentado acertar um copo que estava sobre sua cabeça. Bertha Lee, uma das oito mulheres do bluesman Charllie Patton, seria a única a lhe fazer frente durante uma das muitas brigas conjugais. Dentre estas, uma custaria um corte profundo no pescoço do músico. Passadas as trágicas notificações, uma pergunta se intromete: Por que a arte encaminha o homem, à beira do abismo, com sua consequente ausência de limites? Por que os homens de exceção são os mais desafortunados como Prometeu, as Danaides e Íxion?

(Cena de Psicose de Alfred Hitchcock)


Os portais da vida ainda deixam entrever uma luz que atravessa os séculos. Aqueles que põem os olhos, seduzidos por tal convocação, são acometidos de uma maldição deveras poética. Seduzido pelo crepúsculo, Goethe diria: “Tudo o que está próximo se distancia.” Pouco antes de morrer, o mesmo Goethe complementaria: “ Mais luz!” Por um motivo qualquer, à proporção que penso em tudo isso, inquieto com estas prendas divinas que silenciam tragicamente a voz daqueles artistas, ouço a música de Hank Williams tocar silenciosamente. A voz metálica de Williams é pontual, precisa, ao apontar a sedução do mistério da vida: “para além do pôr-do-sol.”

Um dia, Sêmele que solicitara a Zeus que se mostrasse em toda plenitude, não pôde ver em definitivo a luz do deus dos deuses. Morreria incinerada em função do excesso de luminosidade, à maneira dos artistas, que ávidos por tal oferta divina, não têm olhos para o que não pode ser dito, ou muito menos visto.

*Professor contratado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão (cassady68@hotmail.com)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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