Data de Publicação: 19 de agosto de 2009
Dinacy Corrêa*lembrando os 100 anos Sem um dos grandes gênios das nossas letras que, tal como Gilberto Freire, Antonio Cândido, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior ... esteve voltado para o pensar da cultura brasileira
Impactante, multivalente, em suas abordagens várias, incursionando pela história, a geografia, o jornalismo, a sociologia, a antropologia, a etnologia, a crítica humana... transitando, simultaneamente, pelos domínios da prosa científica e da prosa artística, no “ romance que pulsa sob” Os Sertões de Euclides da Cunha, e na “categoria ímpar da língua literária”, arte e ciência se interpenetram na composição de uma epopéia/(tragédia) sertaneja, a refletir a luta constante do homem com o meio ambiente e no inexorável confronto com as forças militares/governamentais. “Euclides percebia, de forma dramática, o conflito entre a natureza e a história, e tomou os sertões como cenário, cuja vegetação, com galhos secos e retorcidos, permitiria antever o martírio dos sertanejos. Recriou, pelo ritmo binário e pela sintaxe labiríntica, as oscilações climáticas da caatinga e as formas conturbadas de suas plantas e habitantes” (Ventura, 2002, p.24).
Foto do imortal autor do romance Os SertõesÉ José Veríssimo quem primeiro reconhece, na obra em referência (Correio da Manhã: RJ, 03.12.1902), as interfaces da literatura, da história e da ciência. É também o primeiro a elogiar, do seu autor, as qualidades de poeta, romancista e artista – embora criticando-lhe o que considerou exagero dos termos técnicos, bem como os neologismos, as frases rebuscadas, o estilo artificial. Pelo que Euclides, por sua vez, agradecendo ao crítico literário (em carta da mesma data – Lorena/SP), defende o emprego do vocabulário técnico e a aliança entre a ciência e a arte – “tendência mais elevada do pensamento” – argumentando que “a expressão artística exige a notação científica” e postulando a criação de uma “tecnografia própria”, apta a integrar as diferentes áreas do saber. Para Euclides da Cunha, “o escritor do futuro será forçosamente um polígrafo”.
A propósito...“O que temos em Os Sertões é uma obra polifônica, isto é, vários gêneros dialogam, incluindo-se o jornalismo, a poesia, a narrativa ficcional, múltiplas vozes se confrontam: a da cultura costeira e urbana, a das filosofias do século XIX, a dos militares e políticos, a da Igreja, etc. Existe no livro uma espécie de convivência interdisciplinar e multidiscursiva. Noutros termos, várias áreas do conhecimento cruzam o livro, assim como diferentes tipos de discursos” (Citelli, 1996, p. 90).
Contextualizando-se no período pré-modernista da Literatura Brasileira, Os Sertões é fruto de uma série de artigos jornalísticos retrabalhados, versando sobre a Guerra de Canudos (para onde Euclides da Cunha fora enviado como repórter), vindo a ser concluído em 1897, em São José do Rio Pardo (onde o autor fixara residência entre 1898 e 1901, como engenheiro, na missão de reconstruir uma ponte sobre o rio que atravessa aquela cidade interiorana de São Paulo).
Ao longo do enredo narrativo, vai sendo revelado, às vezes com crueza e pessimismo, o quadro organizacional da sociedade brasileira, dividida, social e geograficamente, em dois grandes contingentes: o povo do litoral e o do interior, o sertanejo. Aquele (o litorâneo), imbuído de um nacionalismo exacerbado, alheio à realidade do Outro, investe, brutal e desumanamente, contra a sociedade mestiça (o nordestino interiorano), culminando num genocídio abominável. Eis o grande tema d’Os Sertões, ou seja: o trágico desfecho da história de Canudos, “inexplicável e sanguinolenta guerra civil, no fundo dos sertões ignotos da Bahia”, contra os considerados fanáticos de Antonio Conselheiro, temidos pelas populações circunvizinhas. E num competente e admirável estudo da terra (o meio geográfico), do homem (o mestiço do nordeste), em sua heróica luta contra as intempéries daquele deserto inusitado. E “com tal sapiência positiva, lucidez, espírito crítico, implicações científicas, imparcialidade ante os fatos, e ao mesmo tempo, tamanha exaltação na defesa dos direitos das vítimas e na condenação dos responsáveis por aquela tragédia nacional, em uma linguagem de força artística tão original e superior, que dariam a Os Sertões o título de Bíblia da Nacionalidade, como obra-prima da épica em prosa, na língua portuguesa, em todos os tempos” (Brandão, 2005, pp. 14 e 15).
Publicado em 1902, o livro, no seu arcabouço ideológico, recebeu (e possivelmente por força de Benjamin Constant – ex-professor de Euclides, no Colégio Aquino, reencontrado em 1886, na Escola Militar de Praia Vermelha, RJ) influxos de correntes filosóficas e científicas, tais como: Determinismo (Taine), Evolucionismo (Spencer), Darwinismo racial (Charles Darwin), Positivismo (Comte e Littré), a visão do herói, segundo a qual a história é feita sob a ação dos grandes homens (Thomas Carlyle)... Ressalte-se ainda, nesse contexto, a importância da Matemática (instrumento poderoso, no estudo dos fenômenos naturais, na concepção de Auguste Comte), matéria predileta do nosso escritor; dos raciocínios demonstrativos; da crença na capacidade transformadora, motivada pelo progresso técnico-científico; e ainda a adesão total e irrestrita deste às lutas abolicionistas e antimonárquicas, aos princípios liberais e democráticos – que, na maneira pessoal e artística com que se imiscuem na obra, referencializam as orientações e ações iniciais do seu autor, garantindo-lhe atualidade.
Capa da edição francesa de Os Sertões, 1993Com o passar dos anos e o advir da maturação do pensamento cognitivo, porém, o jornalista/engenheiro/escritor se vai libertando de algumas dessas crenças que enformam o perfil ideológico do seu livro-revelação (chegando mesmo a criticar alguns dos seus representantes, como Auguste Comte). Paralelamente, começa a acessar novos pensadores, como: Ernest March, Durkein, Karl Marx (num cânone doutrinário eclético, implicando as variações do Positivismo e do Socialismo revolucionário)...
O motivo gerador da obra magna desse letrado fluminense de Cantagalo (*20.01.1866/+15.08.1909) – a Guerra de Canudos – circunscreve-se num fato trivial, de somenos importância, não fora a grande repercussão e as trágicas consequências que vem a acarretar. Recordemo-lo: em vias de concluir uma igreja, Antônio Conselheiro manda comprar (1896/Juazeiro-Ba.), pagando adiantado, um carregamento de madeiras. Prazo vencido, não tendo chegado a encomenda, o beato manda dizer que irá buscá-la pessoalmente. O juiz de Direito local (Dr. Arlindo Leone, antigo desafeto do líder canudense), interpreta o recado como “um desafio à lei e uma ameaça de invasão a Juazeiro”. Assim, antecipando-se aos fatos, pede reforço militar de Salvador. Ao chegar a primeira expedição, com os 107 soldados, sob o comando do tenente Pires Ferreira, a ordem é para atacar Antonio Conselheiro (não para defender Juazeiro, que sequer fora molestada). Despreparados, entretanto, os “atacantes” não resistem às agruras do imenso sertão adverso, em período de seca e, impotentes, batem em retirada. É o estopim da Guerra de Canudos. E vem uma segunda expedição que, comandada pelo major Febrônio de Brito, reunindo 560 soldados, duas metralhadoras Nordenfeldt e dois canhões Krupp, marcha para “Belo Monte”, no início de Janeiro de 1897, na intenção de, rápido, destruir o local e dispersar os “conselheiristas”. Novamente derrotados, os soldados do governo fogem em debandada pela caatinga, deixando para trás armas e munições (recuperadas e reutilizadas pelos canudenses em combates vindouros). A terceira expedição, chefiada pelo coronel Antônio Moreira Serra (herói da Guerra do Paraguai e com fama de autoritário, truculento e facínora), com 1300 soldados, farta munição e canhões Krupp, tem o mesmo destino final das anteriores: derrota, fuga e abandono de armas (e do próprio corpo do coronel Moreira Serra, ferido de morte no início do embate) pela caatinga... O cúmulo da humilhação.
Euclides vê, no fracasso da expedição Moreira Serra, uma oportunidade de regeneração para a República, que se afastara de seus princípios e ideais de origem: “Vejo nesta situação dolorosa um meio eficaz para ser provada a fé republicana” – escreve, em março de 1897, ao político mineiro João Luís Alves (apud Ventura, 2002, p.21).
O clima, porém, é de tensão e medo (de um suposto movimento monarquista contra a República). E O Estado de São Paulo não deixa por menos em suas reportagens de 8 e 9 de março de 1897, donde o excerto: “A conspiração está sendo tramada. Faça-se a repressão; com a lei, se for possível; fora da lei, se for necessário” (apud Citelli, 1986).
Ocorrem manifestações populares da parte das cidades costeiras, cujos habitantes saem às ruas, para expressar sua incredulidade ante os fatos e seu desejo de vingança. Verificam-se, mesmo, atos de vandalismo e consequente fechamento de jornais monarquistas. Em São Paulo, o Estado pára, enlutado pela morte de Moreira Serra e clamando por atitude imediata de Prudente de Morais.

Prisioneiro da Guerra de Canudos, em foto de 1897, antes do massacre final
Assim, uma quarta expedição – último ataque a Canudos, com duração de oito meses – é organizada (março de 1897), tendo por comandante-em-chefe o general Artur Oscar de Andrade Guimarães, numa mobilização nacional, envolvendo dez unidades da Federação e arregimentando cerca de dez mil soldados, munidos de canhões e equipamentos, os mais avançados que as Forças Armadas brasileiras poderiam dispor àquelas alturas.
Lutando heroica e bravamente, Canudos resiste e não desiste. O general Artur Oscar tem mesmo que pedir novos reforços (que chegam com a brigada Girard e as demais brigadas procedentes de vários Estados do Brasil e a participação em pessoa do ministro da Guerra, o marechal Carlos Machado Bittencourt). Enfim, totalmente isolados, minados pela fome, enfraquecidos pelas doenças, os jagunços conselheiristas sucumbem e Canudos é exterminada em 5 de outubro de 1897. Quase vinte mil seres humanos (“afora alguns velhos e crianças”) executados! “No dia 6, acabaram de destruir, desmanchando-lhes as casas, 5.200, cuidadosamente contadas” – registra o autor em Os Sertões.
A obra (que segue um rigoroso esquema naturalista/determinista, baseado, sobretudo, na teoria de Hippolyte Taine – historiador francês, 1828/1893 – que concebe a história a partir de três fatores: raça, meio, momento) estrutura-se em três partes, coesa e coerentemente integradas: A terra, O homem, A luta, cuja leitura integral pode revelar como o seu autor percebeu e elaborou o universo sertanejo, bem como todo o contexto de Canudos e a complexa dinâmica social, cultural e política de um Brasil finissecular oitocentista. E ainda como superou o determinismo geográfico, ao admitir a transformação do meio pelo homem (na construção de açudes e canais, por exemplo).
Para melhor compreensão do procedimento euclidiano, ainda a abalizada explicação de Citelli (1996, p. 41):
“(...) Euclides da Cunha partia do pressuposto segundo o qual para se entender de forma científica a totalidade dos eventos de Canudos, era necessário considerar o cruzamento dos fatores ambientais, geográficos (A terra); dos aspectos antropológicos, que mostrassem os cruzamentos raciais e o surgimento do tipo sertanejo (O homem); das circunstâncias históricas, culturais, políticas e sociais, ensejadoras dos acontecimentos, no caso a Guerra de Canudos (A luta). O esquema que dirige a obra é resultante daquela convivência com o Cientificismo do final do século XIX, particularmente do Determinismo de Taine. No entanto, o rigor desta estrutura, conquanto se mantenha como uma coluna diretora da narrativa, na prática é flexibilizada pela escrita euclidiana, maior do que os esquemas, mais lúcida do que a fórmula e a certeza racionalista, segundo a qual, para se chegar a bom termo, num texto era preciso adotar um bom sistema explicativo dos fenômenos que estavam sendo apresentados (grifos nossos)”.
Capa da edição norte-americana de Os Sertões, 1984Assim, em A terra, o autor discorre sobre a geologia e a geografia do sertão, (clima, flora, fauna, a problemática das secas), traçando um panorama mesológico/ambiental da região – descrita em seus violentos contrastes: “A natureza compraz-se em um jogo de antíteses entre os verões queimosos e os invernos torrenciais”. Em O homem – “secção mais paradoxal e marcada por contradições”, (Citelli, 1996, p. 45) – argumenta sobre as origens do homem americano, as bases antropológicas do brasileiro e a formação étnica do sertanejo. E ao fazê-lo, orientado pelas teorias raciais do século XIX (em especial a do sociólogo austríaco Ludwig Gumplowicz: “a história se faz pelo domínio das raças fortes sobre as mais fracas”) e transpondo modelos da Biologia e das Ciências Naturais para os estudos sociais e culturais, emite conceitos (e preconceitos) negativos acerca da mestiçagem e do sertanejo, visto como amálgama de múltiplos cruzamentos, numa involução biológica, acarretando incapacidade de absorção das grandes transformações civilizatórias. Em A luta, narra os acontecimentos da guerra que culminam com o extermínio da comunidade, mostrando as duas faces do conflito: a do litoral e a do sertão, ambas dominadas pelo fanatismo religioso e político: os soldados, honrando a memória do marechal Floriano Peixoto (cuja efígie estampavam no peito); os jagunços, clamando pelo Bom-Jesus...
Enfim, “Euclides da Cunha tem de ser visto e entendido como um intelectual em progresso, marcado por certo ecletismo teórico no qual a busca das leis positivas que regem a sociedade estão sempre presentes. [...] dotado de um comportamento ético obsessivo, desejando ardentemente “ser um homem de linha reta”, mas que não conseguiu fugir a uma série de contradições decorrentes da compreensão, muitas vezes superficial, de tendências filosóficas que se punham diante do seu espírito inquieto. Indagador e desejoso de se ajustar permanentemente às novas realidades da ciência e das teorias sociais, Euclides buscou, enfim, apreender com grande honestidade a natureza das transformações que marcavam o seu tempo, absorvendo, com maior ou menor profundidade, tendências do final do século XIX e começo do XX” (Citelli, 1996, pp 17 e 18).
E muito, MUITO MAIS há para dizer sobre os Sertões de Euclides da Cunha...
* Professora e escritoraREFERÊNCIASBRANDÃO, Adelino. Os Sertões – Uma revolução literária. In: Cunha, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). São Paulo: Martin Claret, 2005, Introdução.
CÂNDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. São Paulo: Nacional, 1973.
CITELLI, Adilson. Roteiro de Leitura: Os Sertões de Euclides da Cunha. São Paulo, Ática, 1996.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). Col. A obra-prima de cada autor. São Paulo: Martin Claret, 2005.
MERQUIOR, José Guilherme. De Anchieta a Euclides – breve história da literatura brasileira. 3º. ed. Rio de Janeiro, Topbooks, 1996.
VENTURA, Roberto. Euclides da Cunha e Os Sertões. In: LEITURA – publicação cultural da Imprensa Oficial do Estado – São Paulo, ano 20, nº. 09, Setembro de 2002.
“(...). Não à-toa, seria dito mais tarde: Euclides da Cunha ficou para nós como Homero para os gregos, Dante para os italianos, Cervantes para os espanhóis, Shakespeare para os ingleses, Sarmiento para os argentinos, Goethe para os alemães. Sem deixar de ser também, como o observa José Verísssimo, um vasto e profundo tratado de ciências humanas, inovador nos métodos, nas teorias e nas conclusões, nas pesquisas de campo e na reformulação de conceitos sobre os estudos do homem, do meio e da sociedade e cultura brasileiros, especialmente os sertanejos ”
(Adelino Brandão)“Livro posto entre a literatura e a sociologia naturalista, Os Sertões assinalam um fim e um começo: o fim do imperialismo literário, o começo da análise científica aplicada aos aspectos mais importantes da sociedade brasileira (no caso as contradições contidas na diferença de cultura entre as regiões litorâneas e o interior) [...] O poderoso ímã da literatura interferia com a tendência sociológica, dando origem àquele gênero misto de ensaio, construído na confluência da história com a economia, a filosofia ou a arte, que é uma forma bem brasileira de investigação e descoberta do Brasil, e à qual devemos a pouca literária história da literatura brasileira, de Sílvio Romero, Os Sertões, de Euclides da Cunha. Populações do Brasil, de Oliveira Viana, a obra de Gilberto Freire e as Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Não será exagerado afirmar que esta linha de ensaio – em que se combinam com felicidade maior ou menor a imaginação e a observação, a ciência e a arte – constitui o traço mais característico e original do nosso pensamento. Notemos que, esboçada no século XIX, ela se desenvolve principalmente no atual (séc. XX), onde funciona como elemento de ligação entre a pesquisa puramente científica e a criação literária, dando, graças ao seu caráter sincrético, uma certa unidade ao panorama da nossa cultura ”
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