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Edição 201

FRANCIS PONGE: A REINVENÇÃO DO POEMA

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Data de Publicação: 24 de junho de 2009
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Durante séculos o poema metrificado reinou como documento de mestrado e doutorado em poesia. Entendeu-se assim desde a Poética, de Aristóteles. Mas no decorrer dos séculos que sucederam Homero e Safo, Virgílio e Dante, Shakespeare e Camões, começou-se a questionar sobre o fenômeno poético. Hoje há quase um consenso sobre o fato de que para haver poesia não é prevalente de que necessariamente deva haver o poema metrificado. E mais: a poesia pode ser entendida como algo que possa estar ou manifestar-se em qualquer forma de arte. A poesia não é uma prerrogativa exclusiva do poema. Como expressão do belo ou da beleza ela pode manifestar-se no poema, na prosa, nas artes visuais, no cinema etc. E mais: pode haver poema, pintura, escultura sem poesia e vice-versa.

Entre os poetas que já demonstraram, na prática, que a poesia pode manifestar-se no poema em prosa e sem metrificação estão, no Exterior, Rainer Maria Rilke, Whitman, Nietzsche, Arno Holtz, Pablo Neruda, Frederico Garcia Lorca, Francis Ponge, dentre tantos. E, no Brasil, Raul Pompéia, Oswaldino Marques, Ferreira Gullar, que compõem uma lista muito ampla.

Entre os poetas que, no século XX, mais se projetaram com o poema livre, impondo novas dicções, de um ponto de vista revolucionário, podem ser apresentados como destaques o francês Francis Ponge e o brasileiro Ferreira Gullar.

O texto mais radical de Francis Ponge é, sem dúvida, A Mesa ,obra sem precedentes no campo da criação literária e, até hoje, sem similar, se levarmos em conta os vários caminhos de abordagem que ele insere como pontos polêmicos.

A Mesa é um poema-livro que está naquele estagio classificado por Ezra Pound como o da obra em ordem, processo e progresso. Mas Francis Ponge vai muito além em seu poema ousado, quando publica a obra com rasuras, ranhuras, segundas intenções. Em outras palavras, o texto tem como aspecto originalíssimo guardar toda a estrutura de rascunhos que o poeta usou na fase de elaboração do poema. Assim, o que em outros poetas ficou no que se chama entrelinhas ou subjacentes, Ponge conservou ao pé da letra no texto. Desse ponto de vista o poema A Mesa torna-se texto seminal como ícone e arquétipo de poema autobiográfico. Aqui, a autobiografia é simultaneamente do poeta construindo o poema, na sua luta de cirurgião e do poema em construção como obra inacabada em que o poeta aglutina à obra todos os processos de criação que usa em suas variáveis. Pontue-se: as anotações sobre as variáveis de opções na escolha de palavras ou frases, as várias possibilidades ou maneiras de significar situações Ponge não as isolou num caderno de pesquisas, como um documento para uso exclusivo. Não, longe disso, ele expõe o material de sua pesquisa ao público leitor, publicando junto como parte do poema. E, aqui, junto não quer dizer apenas no mesmo livro, como um capítulo separado. Junto aqui quer dizer no próprio texto, o que lhe passava pela cabeça no momento da criação. Ou seja, todo o material que estava acumulado em sua memória sobre experiência poética, filológica, semiótica, semiológica, semântica, linguística, filosófica. Sim, o poema como um cordão umbilical.

O POEMA COMO CRÍTICA LITERÁRIA

A Mesa pode ser lido como um capítulo de Teoria Literária? Esta pergunta ocorreu-nos à proporção que fomos fazendo uma segunda leitura do poema. Em dado momento pensamos que ele estava relendo O Corvo, de Edgar Alan Poe. Ou a mesa para ele não é, de certa forma, o corvo pongeano? Pensamos haver escutado o poeta Ponge em sua insônia ou obstinação dialogar com a sua mesa. Suspeitamos que sim. Pareceu-nos ouvi-lo, em certo momento, dialogar com Maiakóviski à maneira de Lautrémont que, em seus textos, dialogou com inúmeros escritores.Também pensamos assistir a um poeta trabalhando como alguém que está sugando outros como esponja ou mata-borrão. Na realidade, optamos antes por alguém que escreve para apagar o que ele, por concepção própria, entende como algo questionável, que deve, sim, ser polemizado e passado a limpo, como a obra de poética de Mallarmé e Rimbaud.

Estamos, com certeza, diante de um poema e de um poeta que se colocaram em cena para pôr mais lenha na fogueira, no sentido de rediscutir vários pontos da construção do poema moderno que já haviam sido nomeados como conclusivos, de maneira radical.

O laborioso texto dos estudiosos e tradutores de Francis Ponge, Ignácio Antonio Neis e Michel Peterson, Apresentação, Textos introdutórios e notas críticas, p. 9 a 168 e p. 309 a 319, PONGE, A Mesa, Iluminuras, 2002, apresenta uma gama de argumentos que visam iniciar-nos nos labirintos da obra pongeana.

A Mesa é mais que um poema. É isso e mais alguma coisa.É o poema e um estudo sobre a desconstrução e construção do poema, com todas as implicações que podem ocorrer e acarretar ao intelecto de quem, após estudar tudo sobre o assunto, resolveu começar tudo de novo e ao seu modo, sem levar em consideração os pontos de vistas dados e tidos como pacíficos dos que o precederam. Daí que consideramos ser o texto de Ponge em si o poema e um estudo crítico sobre o poema dentro ou ao redor do próprio poema.

Só para concluir este pequeno estudo, precisamos dizer que vale ressaltar que a obra de Francis Ponge, excetuado equívoco de nossa parte, não tem absolutamente nada a ver com o Concretismo brasileiro. De concreto em Ponge, só as palavras com as quais, à maneira de Ferreira Gullar, ele pretende acabar, para dar lugar à poesia.

Ilustramos nossas rápidas e mínimas considerações com uma página de A Mesa que por si explica melhor o que dissemos, considerando o espaço de que dispomos para dizê-lo.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br