Data de Publicação: 24 de junho de 2009
Sonia Almeida*
Quando o presidente da Academia, Lino Moreira, me convidou para apresentar Marco Lucchesi que aqui estaria para as comemorações do centenário desta Academia, eu confesso que, em função de estar aqui de passagem, acabei cedendo à rebeldia do sim, ao dizer não às condições imediatas do cotidiano para realizar uma “descida às remotas instâncias do humano” pela pulsão da “alta poesia”, necessária pela dimensão do olhar que ela opera para além de limites.
Bom, depois da rebeldia do sim, três alternativas: apresentá-lo por um currículo que deveria ser, em função do tempo, resumido, sem abrir mão dos inúmeros títulos e prêmios nacionais e internacionais, respaldados por uma crítica respeitável; apresentá-lo por meio de sua poesia que flui não só de uma vasta obra poética, mas também de seus ensaios e, como hei de supor, de suas aulas, de sua tese, de sua condição de ser singular que se manifesta quando ele escreve e quando ele fala, num fluxo verbal espontâneo, compulsivo e apaixonado, próprio de quem alimenta a sede. A terceira alternativa: apresentá-lo pelos indícios que me permitiram supor os antecedentes a tudo isso.
No primeiro caso, o do currículo, poderia desperdiçar o essencial com palavras que podem adornar, mas que se converteriam num “banquete de cinzas”; no segundo, o da escolha de um excerto, correria o risco de fragmentar; no último, o prazer de farejar alguns indícios. Assim, talvez atingisse a química da complexidade geradora.
Escolhi o terceiro para não deixar fugir o momento que eu considero delirante na obra de Marco Lucchesi: a fonte por onde ele captura o Outro para a ilusão de resgatar-se na persistência da malha significante, a linguagem, salvadora da angústia de quem lê o que, fora da fala do outro, permanece em silêncio na sua, indiciando a presença invasora e provocadora dos seus “terremotos interiores” que o soterram para que possa emergir, brilhante que é.
Estou falando de leitura. Estou falando da leitura da literatura como ato que nos faz desejantes de uma forma de ler, reconstituindo. Essa que nos faz ir voltando à cena do ato da criação à procura do sentido que o autor procura e, no encontro das procuras, a surpresa de um indício sempre provisório. Não será isso viver? Não será isso a comédia de nunca dizer? O necessário inferno do gozo mal resolvido das entrelinhas para uma escrita em 3D cuja exigência é uma leitura em 3D?
O poeta Marco Lucchesi não separa o livro e a vida. Parece que conversa com autores tanto quanto com amigos. Derrama na página e no ar esses atos de reconstituição de cada ato como uma faca de vários gumes: a superfície ou a profundidade; a pretensão do objeto ou seu reflexo; a totalidade ou seu recorte; a totalidade no recorte; a realidade ou o real; o tudo ou o nada. O nada que é tudo. Traz Filosofia, História, Lingüística, Gramática, outras artes e outros mundos para a aventura do significante.
Senhoras e senhores, apresento-lhes um regente de vozes. A sinfonia que ele executa na página sugere o que cada músico vai sugerindo com seu instrumento. Cada palavra é um acorde e o sentido uma sinfonia que se procura. Ler sua obra é escutar uma orquestra de vozes que, buscando transpor a barreira da linguagem para um outro lado chamado real, o inatingível, insistem em fazer mais um pedaço dessa teia universal para dizer sobre uma falta que é da condição humana a grande angústia. Pasmo quando ele diz:
Deus é o calígrafo do universo... (...) O mundo originou-se das letras. (...) Depois disso, Deus escreveu os anjos. O amor entre os homens. As leis da gravitacao universal. Auroras e ocasos. Deus escreveu nossa vida. Amores. Saudades. (...) O mundo e o alfabeto coincidem, na trama das letras, que formam, sozinhas, tigres, rostos e pássaros. Deus é o primeiro poeta a redigir o livro do mundo. Mas (...) o que realmente existe nao é senao a tinta, única realidade que se automodifica.

Pressinto que, no teclado, cada letra é um fonema e, cada fonema, uma nota com que vai compondo. Isso é um acontecimento. Ele sabe. E ocorre com tal complexidade que ele sugere cores para sons das vozes de que se apropria. Ele diz:
Um pouco de piano. Tenho piorado. Tenho comido notas. Não passo de um notófago.
É a vertigem da leitura se convertendo na vertigem da escrita.
Senhoras e senhores, apresento-lhes um regente de vozes de vozes.Porque a corrente é longa. Não só a voz de um autor, mas as vozes que ouve na voz que está ouvindo, enquanto lê. Vozes que permanecem do livro que, lido e fechado, estará irremediavelmente aberto ao outro pelo qual se aventura. Trata-se de um leitor. Um leitor que se debruça sobre um texto literário como um músico que analisa uma partitura para realizar a sua melodia que será sempre única. A síntese da melodia é o sentido que faz sem jamais estar pronto. É o sugerido; o capturado sempre provisório, mas definitivo para um dado momento. Apresento-o a vocês. Ele que sussurra:
Sou uma nuvem de livros e idéias fervilhantes.(...) Horizonte de nuvens carregadas. Sentimentos opacos. Este sou eu. Opaco. Decadente. Carregado. Raios e tempestades. O estudo do persa tem sido um massacre. Conheco-me. Será difícil dormir esta noite. Como que tomado por raízes e desinências. Um torvelinho de coisas. Abelhas. Abelhas. Ó sono, por que nao vens?
Eu posso intuir que hoje ele fará uma reconstituição com tal brilhantismo do ato de Dante ao cometer a Divina Comédia, que se perderá o limite dessa linha divisória entre leitor e personagem. E eu quero adivinhar que ele descerá às profundezas sem eliminar Virgílio e acrescentará a essa comédia outras procuras das quais é síntese, para realizar um diálogo universal. Eu pressinto que ele descerá com Virgílio às profundezas e nós também. Desta vez no gume de sua descida.
Eu penso que ele fará sua criação pela reconstituição da regência de Dante e nós criaremos conduzidos por ele que foi conduzido por outros até a alta poesia. Empreenderemos esse diálogo, de onde emergiremos ao que há de humano em nós, unindo as pontas entre o singular e o universal para experimentarmos nossa condição. Talvez vejamos que o que há de poesia nessa experiência do significante exija de nós o espanto de onde nasceu a imprescindível Filosofia.
Com vocês, para brindar os 100 anos da Academia Maranhense de Letras, Marco Lucchesi e as dimensões superiores da poesia.
Nota: Os trechos citados foram extraídos da obra - Os olhos do deserto, publicada pela Record em 2000.
*Sônia Almeida é escritora, poeta, membro da AML- Próximo texto:
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