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Edição 201

O Sopro do Jazz

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Data de Publicação: 24 de junho de 2009
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Ivan Pessoa*

Deve haver alguma relação entre a existência humana e o sopro, ou pneuma, como designaram os gregos de antanho. Isso é um tanto quanto curioso, porque boa parte das narrativas mitopoéticas, para não dizer todas, mencionam o sopro com certo grau de reverência, cientes de que dali emana a urdidura da vida. No Livro do Esplendor da cabala judaica, o sopro é aquilo que dá vida às almas, à maneira da compreensão cristã, onde novamente figura a metáfora do sopro como sinônimo de vida, basta as primeiras linhas do Gênesis para comprová-lo.

Daquilo que nos restou da primeira gramática do Ocidente, a de Dionísio, o Trácio, ficou a canônica lição de que a poesia é coisa de um sopro, e novamente a pergunta: o que tem a ver existência humana com sopro? Tudo. Um dia um deus de beleza suspeita, nas florestas mitológicas da Arcádia, curiosamente de nome Pã, que em grego quer dizer: Tudo, se lançara a alcançar a ninfa Syrinx, que escapara misteriosamente, mas, no entanto, do infortúnio de Pã, só restou uma única descoberta, uma flauta, com sete tubos, com suas respectivas notas musicais. Soprando, o homem supera seus temores, fraquezas, e tal qual Pã, se exila no alto das montanhas para contemplar o Universo, além de fustigar o silêncio hostil das cidadelas.

Naquela antológica entrevista concedida ao jornalista uruguaio, Ernesto González Bermejo, o escritor Júlio Cortázar, é direto quando afirma que enveredara à literatura após seu fracasso enquanto trompetista, justo o trompete, aquele instrumento encontrado por Satchmo entre as latas de lixos de New Orleans, e triunfo maestrio entre os dedos de “Bix” Beiderbecke. Se novamente aquela pergunta volta a inquietar, sem mais delongas, permito-me objetivo.

Com o jazz, o sopro de cada nota, um ofegar de surdinas, consagra a vida no mesmo tom, porque jazz é sentir-se vivo, é estranhar-se, um criar asas, uma fuga constante pelos meandros de sons que se preenchem, Duke Ellington que o diga, juntamente com Billy Strayhorn: Take the A train. Parafraseando Rilke, para quem: “cantar é existir”, concluo que o jazz é bem mais que dispor nota sobre nota, porque só o silêncio da execução fria de Eric Dolphy já nos coloca no turbilhão caótico desta vida. Quem já assistiu Táxi Driver, sabe como a trilha sonora de Bernard Hermann deixa o espectador, numa situação de desconforto, aflição, porque cada nota executada do jazz é a descoberta da instabilidade, da incerteza desta vida.

O efeito desse ritmo sincopado, com contratempos acentuados, estrutura rítmica quaternária, foi de uma novidade tal, que muitos artistas mudaram definitivamente seus respectivos processos de criação. Fitzgerald o ouvia reiteradamente, é tanto que Long Island, de O Grande Gatsby, é sinônimo de elegância, sofisticação, glamour. Quando os integrantes do Bauhaus, grupo de maior envergadura da arquitetura contemporânea, foram até a América, se encantaram tanto com aquele ritmo primal, inusitado, que se deixaram fotografar entre os músicos de uma banda de Dixieland, um insulto em uma época de tamanho recrudescimento racial.

De Otto Preminger a Jackson Pollock, passando por Piet-Mondrian, ninguém resistiu a essa cadência africana, que se diferenciava da música corrente, em função de longos improvisos, de modo que as execuções aconteciam no palco, em homéricos experimentos, que eternizaram as chamadas: jam sessions, a ante-sala dos ensinamentos sagrados de Charlie Parker aos seus neófitos.

No contencioso da estética contemporânea, em ataques desferidos por Adorno, contra o jazz, ritmo que segundo o filósofo e pianista, reproduziria os sons vertiginosos das fábricas; sinônimo de regressão auditiva, na pendência dessa discussão, cada vez mais o jazz amadureceu, suplantando com certa elegância, as idiossincrasias sonoras de Alban Berg e Luigi Russolo, protegidos e legitimados pelo filósofo da Dialética do Esclarecimento. Às vezes me pego pensando, se de fato a música contemporânea estaria acima do jazz, e isso me acontece, sobretudo, quando me ponho a escutar a música heterodoxa do Einstürzende Neubauten, grupo alemão liderado por um artista multimídia, Blixa Bargeld, que traduziu, através do nome de seu grupo, o sentido mesmo da música contemporânea, música que como o próprio nome designa: Novos prédios em demolição, põe o ouvinte, esse vivente das grandes e caóticas cidades, em estado de desconforto, aborrecimento.

Da mesma forma que toda uma geração se deixou guiar pelas melodias heterodoxas de Joe Mooney, Bud Powell e Dexter Gordon, singrando mares, transpondo estradas, os últimos anos, tem revitalizado a tese da perenidade do jazz, sobretudo, em função da complexidade harmônica que se esconde por detrás de um casamento muito promissor, entre o mesmo, e a música clássica, ou third stream, o que me leva a sobrepor qualquer disco de Anthony Braxton e Don Van Vliet, nos últimos 10 anos, a qualquer música de ontem, cotada como da ordem do dia, música que, vez ou outra, nos vem à mente, como a hipnopedia do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, inconscientemente.

Desde que as prostitutas divertiam vagabundos e músicos desnorteados, em espeluncas no cinturão bíblico de New Orleans, e perfumavam-se com modestas fragrâncias que, além do cheiro, lançavam no ar, sons que imitados depois entre os boêmios, se assemelhavam ao termo que historicamente se consagrou onomatopeicamente como: jazz. Desde então, há quase 100 anos, o mundo se encontra numa verdadeira catarse espiritual, onde nossos demônios mais íntimos são silenciados, basta a primeira nota. Se um dia Jerry Roll Morton arrogou para si à invenção do gênero, tal qual Buddy Bolden, e Nick La Rocca, cobrou para sua banda, a paternidade deste ritmo ensandecido, dada a primeira gravação desse estilo musical no ano de 1917, isso decerto pouco importa, o certo é que em cada frase executada, o sopro de Pã festeja a vida, como que para alcançar o Absoluto, e purgar as dores desta longa estrada.

Se como dissera Hamlet: “o resto é silêncio”, o melhor que se faz é transpor fidedignamente a segunda estrofe daquele standard, que assim nos sopra ao ouvido, suavemente, definitivamente, como que para acalentar esse intervalo entre o Céu e a Terra, a vida e a morte, o tempo e a eternidade:” One of these mornings, you’re gonna rise up singing. Spread your wings, and take to the sky.” (Summertime).

*Professor contratado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão. cassady68@hotmail.com
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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