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Edição 202

A lanterna mágica

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Data de Publicação: 8 de julho de 2009
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Ivan Pessoa*

Marcel Duchamp estava errado, em todos os sentidos. Ready-mades e urinóis à parte, o que volta e meia inquieta é o pretensioso anagrama contra uma das maiores expressões artísticas do século XX: cinema/anemic. Querer atestar ao cinema tal epíteto é incorrer na idéia de que a sétima arte é tão desconsolada quanto uma anemia, ou mais, é decerto enfraquecê-la, retirando-lhe a legitimidade. Importa aqui a velha querela estética sobre o que é arte, de sorte que tal empreendimento intelectual já fora há muito alvo das incursões românticas de Winckelmann, para quem a obra de arte, ainda que singular, subsume-se universal, sendo assim: “A imitação do belo na natureza, refere-se ou a um objeto único, ou reúne traços sugeridos por diversos objetos particulares e deles faz um todo único.” Arte é aquilo que faz com que nós nos sintamos universal, sobrepondo a condição tacanha de nosso corpo frágil e finito, até uma elevação genérica com nossos semelhantes. A partir do canônico ensinamento de Tolstói, que assim assevera: Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia, pode-se perceber que a atividade artística, ainda que controversa, é, sem mais, uma atividade da quebra de fronteiras, do encontro poético entre as diferenças. O que daí se desdobra é uma ética dos encontros, de tal forma que compondo, escrevendo, cantando ou filmando, os homens superam as divergências da pele, da raça e da fala, até uma convergência sintética, que nos assegura axiomaticamente: O homem é antes de tudo um ser de sensibilidade.

Quando o maestro argentino Daniel Barenboim propôs, no ano de 2001, durante o Festival de Israel, tocar o primeiro ato de As Valquírias, de Richard Wagner, por muitos um anti-semita, e ademais, proibido naquele país, em princípio a reação foi hostil naturalmente, mas logo em seguida muitos foram aqueles que contrariando as exigências protocolares, sentaram-se diligentemente para assistir aquela apresentação. Arte é tudo aquilo que agrega.

Não cabe aqui uma avaliação quanto ao poder do cinema enquanto arte, ou mesmo uma catalogação estética do que é hierarquicamente superior, se a arquitetura, a pintura ou a poesia, como o fizeram Schopenhauer e Hegel, mas o que importa é saber se o cinema assalta-nos sensivelmente, nos encantando com seu clarão de luz, tornando-nos universal. Sendo assim, pode o cinema nos emocionar a maneira de uma sinfonia ou de um canto épico, clareando em nós uma sensação de universalidade? Benedetto Croce diria que toda e qualquer arte anseia a condição da música, com seu duplo caráter formal e passional. Se assim o for, como um prelúdio de Chopin, qualquer filme de John Ford, é a descoberta de que ainda que distante em realidade, aquela película desperta em nós a certeza de que também estamos inscritos naquela trama, de tal sorte que ela também nos torna personagem. Cinema, como a ante-sala do inusitado, é justamente o espaço para lançar-nos universo afora. Eis a regra, sem embargo, filme passa a ser aquilo que nos transporta.

Em sua Poética, Aristóteles teria visto na tragédia uma via de acesso à catarse, através da qual, o homem purgaria suas emoções mais recônditas. Em deslocamento, a atividade teatral teria cumprido este papel, com efeito, o ator em cena, representaria não apenas as vicissitudes de seu personagem, mas, sobretudo, expiaria em si mesmo a dor dos espectadores. O teatro de Artaud é signatário desta idéia, decerto: “Uma verdadeira peça de teatro transtorna o repouso dos sentidos, libera o inconsciente comprimido, leva a uma espécie de revolta virtual, impõe às coletividades reunidas uma atitude heróica e difícil.” (O Teatro e a Peste). Sendo uma arte anômala, ora teatro, ora fotografia, o cinema é o resultado tardio da modernidade, temporã em face das demais expressões artísticas, mas que capta em silêncio, como um voyeur, os atropelos do indivíduo contemporâneo, perdido em um mundo prestes a ruir. A quem confiar a purgação e a catarse, se imerso em uma sociedade ávida por informação, reduzindo a cômputos o sentido das palavras, o homem contemporâneo não pode mais comunicar seus sonhos, envolvido que é com a burocracia dos horários, a prestação de tributos, a responsabilidade dos compromissos? Outrora, o romance teria cumprido tal papel, dando fuga àquele que lhe procurava. Quantos não se perderam nA Ilha do tesouro de Robert Stevenson, ou com mesmo com Robinson Crusoé? Atualmente, como a imagem sobrepõe-se à palavra, é natural que o livro seja um souvenir dos séculos passados. Com o ocaso das palavras, a luz emancipa-se. O cinema passa a ocupar o lugar dos livros, não como uma sobreposição dialética que sucumbe, mas antes como prioridade. Conta-se que com o advento da fotografia, para competir com sua funcionalidade, o pintor Monet teria apressado o gotejamento das pinceladas na tela. Na sanha de capturar a luz do sol em suas mais variadas aparições, teria surgido o impressionismo. E a arte, de um modo geral.

A luz é a matéria-prima da obra de arte, porquanto seja o elemento cósmico mais eqüidistante do centro do universo, haja vista o sol, o astro mais hermético. Tal qual a máxima de Goethe: os olhos não veriam o sol, se não fossem igualmente ensolarados, é razoável considerar que a arte é esta tentativa humana de perpassar, como a luz do sol, os últimos rincões da Terra. Definível nestes limites, só é arte aquela expressão que sensibilizando o homem, lhe eleva, rompendo o ciclo de sua condição. Luís Buñuel, ciente disso, teria finalizado seu último filme, Esse obscuro objeto do desejo, aludindo a uma longa explosão, como Glauber Rocha, igualmente em seu derradeiro filme, A Idade da Terra, que logo na primeira tomada, filma demoradamente o nascer do sol. Se fosse capturável, a luz seria poeticamente mais sensível ao cinema, sobretudo em função de seu suporte técnico, que comunga a música, a teatralidade, a poesia, a prosa e a fotografia.

Se já não nos é mais permitido cantar os feitos dos grandes épicos, a saudade de Ítaca, os reis da Babilônica, a biblioteca de Alexandria, só nos resta a clausura desta câmara escura, que ainda que fechada em si mesma como uma caixa inviolável, é a catalisadora daquela imaginação mais espontânea.

À proporção que nos fecha em seus limites, o cinema liberta-nos a imaginação, sem tributar nossos sonhos. De tal encontro, a luz envolve os olhos, os olhos envolvem a luz, convocando assim, para a confecção de uma longa fantasia. Aquela ânsia de sentir-se em casa em todos os lugares, pela qual reclamava Novalis à filosofia, parece-me mais afeita à arte do cinema, visto que, à proporção que um filme é visto, degustado ou ouvido, inicia-se ali aquela velha sensação de arrebatamento. Empreendemos com os pés descalços, a transposição da floresta do alheamento de Fernando Pessoa.

Quando o homem perder derradeiramente a sensibilidade, estará tudo acabado. Ainda que a imagem tenha sepultado as potencialidades das palavras, ainda assim somos afetados sensivelmente, seja com um bom filme, seja com a luz do dia. Enquanto houver sol, alguém poeticamente se habilitará a construir obras de arte, afinal é próprio do homem tentar conter tal fluxo cósmico, escorregadio e cheio de si. Constatações à parte, me desculpem os puristas da arte, mas Marcel Duchamp que me perdoe, mas anêmico mesmo, só resta a coloração diurética dos cultores daquela fonte. Sem luz.

*Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão.
(cassady68@hotmail.com)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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