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Edição 203

PRESENÇA DA FRANÇA no maranhão (Iv)

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Data de Publicação: 22 de julho de 2009
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A Pós-Nouvelle Vague: como os ludovicenses amam o cinema francês

Sergio Brandão*

Onde será, leitor, fã de cinema, que realizadores franceses dos anos 80 como: Leos Carax e Jean Jacques Beinex; ou Walter Salles, o consagrado diretor de Central do Brasil; ou ainda cineastas maranhenses da estirpe de Murilo Santos foram procurar inspiração para seus trabalhos mais interessantes? A resposta está no aparecimento do mais original, do ponto de vista da contestação das normas cinematográficas concebidas, movimento de cinema já praticado: A Nouvelle Vague.


É certo que se sabe da importância de uma filmografia como a francesa, cheia de grandes valores e mestres do estilismo e conceitualismo do cinema, mas o que poucos sabem é da influência enorme desse tipo francês de fazer cinema no resto do mundo, em especial, depois do final dos anos 50 e início dos 60, quando o mundo foi tomado pela revolução de princípios e vanguarda da Nouvelle Vague, os quais nortearam, bem rapidamente, os cinéfilos e diretores-autores mais ousados pelos caminhos afora. Esses autores de cinema incorporaram o jeito, a atitude e as renovações estéticas do movimento francês e o fazem até hoje nos quatro cantos deste planeta.

Por ser uma cidade fundada por franceses e por ter tido uma belle epoque no estilo europeu, no final do século XIX e início do século XX, São Luís vem sendo um bom lugar para a presença, para a troca de experiências, divulgação e admiração das artes europeias, em especial da França, e não é novidade perceber o apreço pelos filmes desse país e pela Nouvelle Vague em geral. Essa fascinação gera trabalhos que dialogam com precursores do movimento e guia uma ideia mais libertária de construção do cinema.

Mesmo na cultura local ludovicense, observamos a primazia dos franceses, destacando-se no nosso cinema de arte, o Cine Praia Grande, pois filmes da França são os mais comentados e bem aceitos pelo público da cidade; ainda, os circuitos universitários de curta-metragem e vídeos que utilizam os conceitos preconizados pelos jovens franceses daquela época foram e são presenças constantes entre os amantes da sétima arte daqui, ainda, o nosso grande Festival Guarnicê de Cine-Vídeo, palco para a proliferação de trabalhos do Brasil todo e do Maranhão, que falam direto ao que pedia a Nova Onda: filmes belos, ousados, críticos e com forte teor autoral.

Dentro da nossa perspectiva de produção audiovisual maranhense, pode-se falar que nossos filmes de curta-metragem e vídeos muitas vezes vão de encontro aos ideais dos jovens franceses de outrora, pois um valor sempre procurado é o da busca da originalidade envolvida num espectro de rompimento do formalismo cinematográfico, além do uso de histórias cotidianas, documentários jornalísticos, construções de linguagem ousadas e citações dos clássicos, tal qual faziam os criadores do movimento (um bom exemplo desse estilo Nouvelle Vague está presente nos filmes de Frederico Machado, exemplificando-se na obra Litania da Velha).

É bom ressaltar a conexão mais do que íntima entre a Nova Onda e o cinema maranhense vista no curta O Incompreendido, de Francisco Colombo, o qual trava relação direta com o admirável Os Incompreendidos, filme de qual falaremos daqui a pouco, cuja importância reside em ser nada mais nada menos que o pontapé inicial da Nouvelle Vague na França, enquanto o nosso cinema busca repavimentar a comunicação e a forma estética do filme atual com as rebeldes obras dos autores franceses. Isso nos leva a falar também das influências que nosso cinema sofreu como um todo nos anos 60 (e até hoje sofre), dos radicais da França. O Cinema Novo vem a ser, em boa parte, também uma afirmação à brasileira dos preceitos encontrados na Nouvelle Vague, principalmente a adequação dos enredos e experiências cinemáticas à quantidade de recursos envolvidos. É bom lembrar que filmamos, na época, usando materiais advindos do movimento, como por exemplo: a câmera arriflex, mais leve, dinâmica, sensacional para filmagens rápidas; o gravador de som nagra, cuja novidade permitia o uso do som direto nas filmagens em externas e locações, a filmagem improvisada, o que era uma realidade do tempo histórico dos anos 60, parcos de financiamentos para a realização. Esse ‘probleminha’ ainda ressurge fortemente para nossos jovens diretores de curta-metragem na atualidade. Aqui cabe um lembrete, sempre bem-vindo, para aqueles que não lembram o momento de eclosão desse movimento.

No fim dos anos 50, alguns críticos de cinema franceses de renome, da revista Cahiers Du Cinema, tais como: François Truffaut e Jean Luc Godard se lançaram ao cinema como autores, buscando uma renovada estética e se colocaram contra o academicismo e o cinema narrativo pré-estabelecido na França e, dessa forma, inauguraram a Nouvelle Vague com filmes poéticos inesquecíveis; Os Incompreendidos, de Truffaut (1958), já mencionado por seu fundamental sentido de iniciador do movimento e, também, por ter ganho a Palma De Ouro de melhor direção em Cannes à época; Acossado (1959), a obra-prima de Godard, fomentadora das premissas de uma gramática visual e narrativa desconstrutora do discurso padrão colocado até aquele instante, marcante para o universo da persona anti-acadêmica do diretor-autor.

Agora, meu caro amigo cinéfilo, como sabemos que um filme ou um diretor foi picado pelo modo inovador, nunca estéril, da Nouvelle Vague? É fácil: Apenas se deixe levar por um filme que traga uma experiência formal não comum, uma mensagem não padrão do tipo cinema comercial (aquele modo igual ao estilo fast food de fazer filmes de Hollywood, a que cansamos de assistir atualmente), uma ousadia de linguagem sonora ou fílmica e... pronto! Temos um legítimo representante da Pós Nouvelle Vague. Mas, por que falamos desse assunto mesmo? Decerto o fã de cinema se pergunta o que se passa com esse tema. Na verdade, penso que o tema nasce a partir do pretexto das comemorações do Ano da França no Brasil e, mais especificamente, da presença dessa influência artística do cinema francês no Brasil, como antes já mencionado, e nas filmografias dos países chamados periféricos ou além da Hollywood industrial.

O que se pode notar, vendo a história do cinema, é a formação de toda uma aventura cinematográfica baseada nas liberdades e experimentos não usuais, feitos pelo movimento dos autores-realizadores franceses e, por consequência, as maneiras de se ver e fazer cinema acabaram sendo alteradas, levando ao surgimento de filmes memoráveis pelos locais mais inusitados. Exemplos são inúmeros e, só para refrescar a memória do cinéfilo que está pensando, eu sei, relembramos do próprio Cinema Novo, o qual levou os brasileiros para o front de batalha das revoluções cinematográficas, colocando-os no mapa das relevâncias do cinema. No entanto, não é só na longínqua década de 60 que temos presenças incorporadas da Nouvelle Vague. Por muitos anos, filmes longa-metragem são feitos com referências ao estilo de um Jean-Luc Godard ou de um François Truffaut, papas do movimento, e trazem oxigênio à criação no cinema; ou não é verdade que Tarantino bebe na fonte de Godard, ao contar sua obra-prima Pulp Fiction - Tempo de Violência, e afrontar, para cima de nós cinéfilos embasbacados, com o modo establishment pseudo organizado americano? Ele consegue renovar a linguagem do gênero policial e, para isso, vai prestar homenagem a Godard, mestre em fazer filmes que são farsas e criticam a linguagem pré-estabelecida, filosofando sobre a própria arte de criar filmes.

Mesmo antes de Tarantino, a cinematografia norte-americana já apresentava exemplares influenciados pela estética francesa. Um desses, percebido pela crítica como um grande mestre, foi Martin Scorsese, cuja obra constantemente dialoga com a Nouvelle Vague, ao se assumir autoral, contestadora, ousada na imagem gráfica da vida do submundo das dúvidas exasperantes dos anti-heróis, original na temática e fora do ambiente amarrado do sistema de estúdios dos americanos.

Outro mestre, impulsionado pelos desdobramentos do movimento francês, foi John Cassavetes, que também filmou longe dos estúdios e num esquema de cooperação artística, entre a equipe extremamente exitosa, onde a liberdade de criação era total e o improviso surgia naturalmente na interpretação e na forma de captar as imagens do dia-a-dia. Ainda mais interessante é observar a existência de movimentos pelo mundo afora depois dos anos 60, e um deles foi o chamado Free Cinema inglês, o qual levou o cinema de autor para as telas britânicas e lançou diretores à procura de um cinema livre da encenação clássica e voltado para a crítica de costumes, para histórias do homem comum, para experiências anti-formais e, acima de tudo, renovador tal como faziam muitos filmes da Nouvelle Vague.

Um exemplar notável foi o movimento Dogma, capitaneado por Lars Von Trier e Thomas Vinterberg, dinamarqueses, sendo que estes sugaram preceitos e características básicas da Nova Onda, ao clamar por filmes mais naturais, com luz realista, sem trilha sonora original ou feita na pós-produção em estúdio, compondo-se de histórias mais cotidianas, usando a tecnologia da câmera digital, cuja referência remonta aos autores franceses e suas câmeras arriflex, menores e mais ágeis, para evidenciar a urgência da criação artística, oferecendo a nós, amantes da sétima arte, um resultado ao menos mais instigante e de maior cunho pessoal.

Vemos também no cinema inventivo do oriente a mesma busca de não-fórmulas, com a construção de discursos cinemáticos amplificados, na sua complexidade, cuja origem está no cinema manifesto dos franceses. Isso é logo perceptível em filmes como: Old Boy, de Park Chan Wook, Wayward Clouds, de Tsia Miang Ling e Amor à Flor da Pele, de Wong Kar Way, os quais trazem a presença dos elementos da ousadia formal, da busca do cinema de autor, tentando tornar filmes mais do que meros entretenimentos de sábado à noite, e, sim, mais possíveis experiências de criação, pensamentos tomando forma visual, onde imagens ganham sonoridade e beleza, falando da condição humana, explicitando as agruras do ser, assim como os franceses tão bem nos legaram, através de suas idéias existencialistas, enfim, o cinema, poesia em seu estado mais puro.

O que podemos contemplar é a importância temática e técnica da Nouvelle Vague ainda hoje e, acima disso, os vários tentáculos do movimento dispostos nos cinemas do mundo todo, instaurando um processo fervilhante de criação cinematográfica de cunho autoral, que mostra o cinema como a arte moderna por excelência, dissociada, em grande parte, do puro teatro e da narrativa literária dos romances do século XIX. Em verdade, a Nova Onda francesa buscou falar de filmes e seus segredos, desmistificando a aura do fazer cinema e colocando aos espectadores aspectos novos dos filmes, suas concepções visuais, suas filosofias pós-modernas, suas fragmentações narrativas.Tal busca levou esses filmes a um prazer ao se construirem como pensamentos e discussões audiovisuais, nos deixando o barato de ver o cinema como mais do que um simples divertimento, porém também um amplo espaço para reflexão, crítica e elaboração artística, levando novos cineastas, inclusive os maranhenses, a entrar na aventura de pensar e fazer obras cinematográficas livres das amarras da obviedade.

*Bacharel em Cinema pela UNESA - Universidade Estácio de Sá, Rio.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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