Data de Publicação: 22 de julho de 2009
Ivan Pessoa*
Octavio Paz, entre seus pares, o maior intelectual latino-americano, consagra-se ao tema do Romantismo, em uma obra pontual: O Arco e A Lira e, nesta, ressalta a peculiaridade do Romantismo, enfeixada numa teoria da Linguagem. Segundo Paz, a grande procura do romantismo: é também uma procura do manancial perdido, a água da origem.
Percebamos, sem nos delongarmos à sentença de Paz, à imagem solicitada, em destaque: procura do manancial perdido, a água da origem. Esta sentença nos leva ao jorro romântico, por excelência, voltado à origem, à arkhé, neste sentido, o poeta romântico é qual um filósofo ou um bruxo, empenhado em desvelar, durante intensas experimentações, o sentido do fundamento.
Octavio Paz, estudioso que foi da Linguagem, paralelamente à pesquisa de O Arco e A Lira, faz em seu ensaio, Os Filhos de Barro, não por acaso, uma alusão a Adão, um inventário histórico da literatura romântica, empenhada em revelar a escrita cifrada do universo. Logo no prefácio, citando Paz: “Refiro-me à analogia, à visão do universo com um sistema de correspondências e à visão da linguagem como um duplo do universo.”
Reforça-se com Paz esse caráter mágico da Linguagem, como se a mesma significasse uma dádiva divina, um envoltório do Todo. A propósito, cito Geza Von Mólnar, estudioso do Romantismo em destaque: “A Linguagem poética faz o familiar parecer estranho para tornar o estranho familiar.”
Ademais, segundo Novalis: “O homem não é o único a falar, o Universo também fala, tudo fala línguas infinitas.”
Há, nessa visão romântica de poesia, o sentido mais original do termo, enquanto poiésis, criação confundida com Ação. Novalis e Schlegel, os dois baluartes da teoria romântica alemã herdam da filosofia do “Eu” de Fichte, o substrato metafísico para essa construção poética, que é tida, enquanto ato criador do pensamento, uma atividade do “Eu” que se põe a si mesmo, na terminologia romântica, resultante da inquietação incompreendida do Gênio. A Linguagem, nesses termos, se expressa como um nexo criador, circuito de comunicação, de modo que pensar, falar e agir, interpenetram-se nesta acepção. Daí por que, segundo Novalis: “Deus falou: faça-se a Luz!, e a Luz se fez.”
Octavio Paz, novamente em Os Filhos de Barro, endossa a visão analógica, ou alegórica dos românticos: “Se a arte é um espelho do Mundo, esse espelho é mágico: transforma-se.”
Contra o paradigma cartesiano, e sua descendência iluminista, os românticos, contra o modelo representacionista de conhecimento, agravante da crise epocal, fundam uma visão de Mundo, pautado no prolongamento teórico que liga Kant a Fichte, que compreende a consciência ou o “Eu”, enquanto uma Atividade, ação originária (Tathandung), que antecede os esquemas tardios da Representação. Fichte em sua: Doutrina das Ciências lança os corolários da construção transcendental kantiana, às vésperas de romantizar-se: “Eu sou somente para mim, mas para mim eu sou necessário (na medida em que digo para mim, já ponho o meu Ser.)”.
Essa obra fichteana enceta a grande reviravolta no pensamento filosófico moderno, a descoberta concêntrica do Eu, na proporção exata dos devaneios solitários de Jean-Jacques Rousseau, figura arquetípica dos arroubos do Iluminismo.
O “Eu” finito, que se põe a si mesmo em atividade criadora, mantém com a arte a possibilidade da transcendência, o desvelo do Absoluto, o duplo da Natureza.
Conta-nos Novalis em seu Discípulo de Saís, a odisséia de um peregrino que, ao descerrar os véus da Natureza, vê, estarrecido, seu próprio rosto, ou seja, o reflexo de seu “Eu”, tal qual Narciso, espelhado nas águas do rio, após as investidas de Eco.
Segundo o próprio Novalis, em sua obra, Enciclopédia: “Deus não tem nada a ver com a Natureza, ele é o fim da Natureza, aquilo com o que ela deve um dia harmonizar-se.”
Vê-se, pois, nessa compreensão de Natureza, uma teofania, e esta cabe como uma tentativa soteriológica, redentora, para preencher as lacunas deixadas pelo desencantamento de extração moderna. Opera-se a reboque deste élan romântico, o anseio desmesurado de transcendência que, não raro, levará artistas da grandeza épica de Novalis à conversão e Goethe ao classicismo.
O Romantismo, enquanto Movimento, se assim o for, consagra-se à temática do Infinito, e neste fixa seus esforços. Infinito, que se revela na proporção exata da Natureza. Para contê-lo em lapso, há de se buscar como protelara Schelling, uma unidade sintética, para este simbólica, a suprema tarefa da Arte.
Pichois e Ziegler, estudiosos da lírica urbana de Charles Baudelaire, conseguem, com muito êxito, definir o Romantismo Alemão e sua estética das analogias, com as seguintes palavras: “O pensamento analógico estrutura o Mundo, nele incluindo o Homem pelas sinestesias e pelas correspondências.”
À guisa de conclusão, não se fez outra leitura do Romantismo, senão enquanto um evento próprio da constituição finita e corruptível do Homem, que anseia, com uma saudade irremediada, a nostalgia da Terra perdida, reconstituir-se, tornando-se Um. Tornar-se Um, para o Romantismo Alemão, anteriormente referido, perpassa o médium, a mediação da Linguagem, a possibilidade sintética que coaduna: Deus e a Natureza, entidades fenomênicas que se revelam descobertas, signos alegóricos.
Como forma de consagrar em júbilo o tema proferido, é que finalizamos com um trecho da prosa pulsante e passional de Novalis, no clássico Hinos À Noite:
“Outrora, quando vertia amargas lágrimas, quando, diluído na dor, a minha esperança se desfez e eu me encontrava sozinho sobre o estéril montículo que encerra em negro o estreito espaço, a imagem da minha vida- só, como jamais alguém esteve impelido por um medo indizível, inerme, tão-somente com um único pensamento ainda, o da carência.- Quando olhava em meu redor em busca de auxílio, sem que pudesse avançar nem recuar; preso por uma saudade infinita a essa vida extinta e fugidia: - eis que da distância azulada - dos altos cumes da minha antiga bem-aventurança, veio um frêmito de crepúsculo - e de súbito romperam-se os vínculos do nascimento - a cadeia da Luz. Para longe de mim se voltou o curso do esplendor terreno e, com ele, o meu luto - também a melancolia fluiu para um novo mundo, infundamentado - e tu, exaltação noturna, torpor do Céu, vieste sobre mim - todo o lugar se elevou no ar mansamente; e sobre o lugar pairou o meu espírito, desvinculado, de novo nascituro. Em nuvem de poeira se converteu o montículo de terra – e, através das nuvens, vi a fisionomia gloriosa da Amada. Nos seus olhos repousava a eternidade - prendi-lhe as mãos, e as lágrimas eram um laço cintilante, irrompível. Milênios perpassaram a caminho dos longes como intempéries. Suspenso no seu colo, chorei lágrimas de deleite pela nova vida. - Foi esse o primeiro e único sonho - e somente desde então tenho uma fé eterna e imutável, no Céu da Noite, na sua luz, a Amada.”
*Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão. (cassady68@hotmail.com) - Próximo texto:
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