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Edição 203

MARIANO CASSAS: RAPAZ, uma autobiografia poética

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Data de Publicação: 22 de julho de 2009
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Do que se tem notícias as primeiras referências literárias sobre o amor erótico entre pessoas do mesmo sexo apontam para os poemas da poeta grega Safo de Lesbos. Daí a palavra lésbica, aplicada à mulher que, supõe-se, exercita o relacionamento sexual com outra mulher. Safo nasceu no início do século VI a.C..

Em Atenas, ela criou um círculo literário ou uma escola, onde as jovens mulheres da Ilha de Lesbos se iniciavam na arte da dança, da poesia, da música e do amor.

Transcrevemos aqui alguns trechos de poemas da precursora da poesia lírica amorosa, escritos há vinte e seis séculos atrás e que ecoam hoje com o frescor de perenidade:

21
o doce feitiço destes cantos
eu vou tecer para as amigas
22
suaves amigas, vamos
há muito tempo, eu me lancei

24
igual à criança, na direção da mãe,
como se tivesse asas, voei para ti
25
às amigas adoráveis:
meu pensamento
fiel para sempre

54
adormecendo
no seio de uma terna amiga
55
possa para mim esta noite
durar duas noites

(FONTES, Joaquim Brasil. Eros, Tecelão de Mitos, A poesia de Safo de Lesbos. São Paulo: Estação Liberdade, 1991, p.335-337; 363)

Outro documento de referência erótica literária é a obra Satyricon, primeira novela da história da literatura, de autoria de Caio Petrônio, escritor latino, favorito de Nero, e o primeira a celebrar as relações homossexuais. Satyricon conta as peripécias, andanças, experiências e estripulias de um trio de jovens, Enclopius, Asciltus e o garoto Gitão. Os fatos relatados na narrativa são de 20 séculos atrás, dado que Petrônio morreu no ano de 66 da era cristã. Mas são como acontecimentos de agora.

Alguns escritores famosos, ao longo dos séculos, se dedicaram à literatura dessa natureza. Entre eles, tornou-se célebre o Marquês de Sade, tanto é que dadas às excentricidades de suas obras, vêm as palavras sadismo e sadomasoquismo.

Houve poetas que fizeram abordagem do tema com a mesma naturalidade de Safo. Entre eles, destacam-se Walt Whitman, saudado por García Lorca, como o grande e admirável pederasta, e Fernando Pessoa, também grande admirador de Whitman. Acrescente-se à lista Oscar Wilde, que teve como parceiro de relacionamento, na Inglaterra, Sir Alfred Douglas, apelidado de Bosie, a quem Wilde escreveu um livro de poemas, que resultou em escândalo e prisão.

Lautréamont (Isadore Ducassse) que nasceu no Uruguai a 4 de abril de 1846 e morreu na França em 1870, aos 24 anos de idade, foi outro poeta que ousou escancarar o lado homossexual.

Modernamente, nos Estados Unidos, destacou-se o poeta Allen Gisnsberg (1926-1997) cuja biografia amorosa homossexual está nos poemas de Uivo Kaddish e outros poemas.

No Brasil, a crítica, de um modo geral, põe os poetas que optaram, por escolha, dar curso a esse gênero de poemas transgressores, do ponto de vista da moralidade convencional, na categoria de malditos. E, ainda que alguns sejam excelentes, como são os casos dos poetas paulistas Glauco Mattoso, cuja obra Pedólatra Amador pode ser lida como um libelo contra a crítica oficial e Roberto Piva, cujos textos de livros, que estão reunidos em Um Estrangeiro da Legião, têm aquela beleza poética que passou até agora quase totalmente despercebida por simples preconceito.

A tragédia humana tem por base uma moralidade social completamente equivocada e injusta, pois tem como modelo um ser humano perfeito, ideal, portanto falso.

O fato de esse paradigma não contemplar as contradições humanas como realidades, pode ser visto como um indicador de tragédias humanas. É preciso considerar que, se nem Deus foi bem sucedido em seu projeto de criação de Adão e Eva, quando os quis perfeitos, à imagem e semelhança, como nós, simples mortais, vamos ousar consertar o mundo, a partir de uma utopia platônica, se mesmo depois que Cristo derramou o seu sangue para nos redimir a nós, filhos dos decaídos, continuamos com nossas falhas? Vá ver que as ditas falhas não são falhas, por fazerem parte mesmo da natureza humana.

No Brasil, o preconceito da crítica em relação aos poetas que assumem o amor homossexual ainda é radical, tanto é que os poemas de Glauco Mattoso, paulista, enfeixados no livro Pedólatra Amador e de Roberto Piva, reunidos no livro Um Estrangeiro da Legião, ainda estão na relação de obras malditas. É uma tristeza saber que excelentes poetas sejam discriminados por qualquer razão. De público, lançamos o nosso repúdio contra uma crítica castradora e discriminatória.

Por várias razões devemos ouvir a voz do poeta maranhense Mariano Cassas, que celebra em seu livro de poemas Rapaz, como se a tombar um muro de Berlim, um amor elegíaco em relação ao seu bem-amado, com a coragem e o desassombro de quem se cansou de se esconder por trás de máscaras usadas por medo dos preconceitos.

Lendo-se Mariano Cassas, percebe-se que os poemas dele representam o rompimento das algemas e cadeias, um mergulho de dentro para fora, uma catarse que o redime e, ao mesmo tempo, a inúmeros jovens que sofrem e sangram em silêncio e, quantas vezes até se dilaceram e matam por medo das insídias de uma sociedade moralista e hipócrita, desafiada a jogar as primeira pedra e, embora sem poder fazê-lo, insiste em dar as última palavra.

Além do mais, estamos diante de um escritor de sentimentos autênticos, sob o domínio da emoção, escrevendo numa linguagem da modernidade.

Mariano Cassas manifesta-se através de poemas curtos, com linguagem condensada, a lembrar-nos aquela inflexão sáfica que visa dizer o máximo com o mínimo de palavras. Um excemplo desse timbre são os poemas Blackout, p. 63; A Chama, p. 61; Lua, p. 41; Zum Poético, dentre outros.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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