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Edição 198

Reis Jr e o Grande Sertão do Itapecuru

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Data de Publicação: 30 de abril de 2009
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Eduardo Antonio Leão Coêlho (*)

Após o Natal/08, enquanto arrumava as malas para revisitar os Lençóis Maranhenses, recebi, do meu irmão Reinaldo, o livro Nos Desvãos do Alto Itapecuru (São Luis: Sioge/1980) do tio-avô José Sérgio do Reis Jr., obra a que resistia e que pouca importância dava. Logo nas primeiras linhas faço mea culpa e reformulo a secular sabedoria popular: Reis Jr. é santo de casa e faz milagres.

Guardada as devidas proporções, Nos Desvãos do Alto Itapecuru é o nosso Grande Sertão: Veredas. Sem pretensão de historiador ateniense, Reis Jr. dá uma substancial contribuição para a história e a compreensão das relações sócio-culturais da Região Sul do Maranhão, tornando-se referência bibliográfica obrigatória.

Cavalgam nas páginas Nos Desvãos.... as versões dos nossos Diadorins, Miguelões, Quelemem, Riobaldo, Zé Bebelo, Hermógenes, Ramiro, personagens elaborados com refinamento literário, o que nos remete à nostálgica tradição dos grandes escritores maranhenses do século XVIII.

Ler Nos Desvãos.... é atravessar a complexidade dos personagens, mergulhar nos inquietantes conflitos existenciais de Pedro Sereno e Conceita; intrigar-se com a firmeza rude de Onofre e Eufrásia que atribuem ao Engenho Alegria a tarefa de continuar a família; é mergulhar na profissão de fé do padre Januário, baú dos segredos mais íntimos da sociedade daquela época.

Dos Chapadões de Balsas às campinas de Pastos Bons, passando pelos babaçuais de Mirador e Colinas adentro, nas páginas de Nos Desvãos.... ouve-se o tropel dos vaqueiros Firmino dos Santos, da Fazenda São José, e Silvério, dos Morros, engatilhados nas montarias, fungando os fueiros e com a mão no sedém dos marruás Cabanão e Rajadão.

A jocosa e juvenil autodefinição do Velho Leôncio - "Leôncio Ribeiro Paca/Cabra de Peito e Ação/Mata por meia pataca/Enterra por um tostão" - compõe a estrutura de personagens desenhados por sutil pena, engendrados na fé católica e nos mistérios das matas, como o Mestre Apolinário, rezador, curador que se antecipou à chegada do Dr. Aquino, manipulador de fármacos e de pessoas.

Na primeira parte do Nos Desvãos do Alto Itapecuru, Reis Jr. desenvolve a trama, como se montasse um quebra-cabeça de enredos e personagens, mas salva uma possível fragmentação da narrativa quando atrai, irresistível, a atenção do leitor para os dramas pessoais e, ao mesmo tempo, universais do Povoado Enjeitado, vividos por Pedro Sereno, Conceita, Onofre, Eufrásia e o Padre Januário.

A segunda parte do livro, igualmente, é rica em informações sobre a cultura, a tradição e o folclore das populações que viviam, à época, as margens do Itapecuru, Alpercatas e Balsas, gentios perdidos nos grotões e tabuleiros do Maranhão.

Imperioso dizer que tanto a ficção da primeira, quanto o retrato das alegorias, as festas de Reis, Bumba-meu-boi etc. da segunda parte do livro, são indispensáveis às pessoas que desejam conhecer melhor os "Grande Sertões do Alto Itapecuru", região conquistada por pessoas convictas da ideologia reformista, segundo a qual o trabalho enriquece, enobrece e aproxima o homem de Deus, embora participantes da construção de um Estado velho/Europeu. Mas essa é outra história, como dizia Gerardo Melo Mourão.

O fato é que, mais uma vez, Reis Jr. surpreendeu e hoje tenho certeza de que é possível proclamar, laicizando a metáfora cristã, que santo de casa faz milagres. E a obra de Reis Jr. não ganhou todas as paróquias, talvez pela visão ainda mesquinha de alguns luduvicenses, segundo os quais, apenas os nascidos na Ilha e nas proximidades dela são portadores de pedigree literário.

O Sioge deve uma melhor edição de Nos Desvãos do Alto Itapecuru, e a Academia Maranhense de Letras uma cadeira a Reis Jr, reivindicações cabíveis, justas e necessárias.

Aqui abro um parêntese para coisas da alcova.

Ao ler Reis Jr. lembro-me de um encontro, numa tarde quente de Colinas, com o prof. Macedo Costa, outro ilustre colinense a quem o Maranhão e o Brasil muito devem na área da Educação, especialmente do uso da Televisão como instrumento educativo.

Sem vaticinar, mas reclamando um lugar adequado para os nascidos nos desvãos do Itapecuru, Reis Jr. está para os historiadores do Maranhão, assim como Macedo Costa está para os estudiosos da teleducação, no Brasil.

- Creio que pode dar uma boa história a vida das pessoas que colonizaram a cidade, a região - disse Macedo.

Torci o nariz. Militando em jornais de São Paulo e convicto de que poderia "salvar o mundo", deletei a sugestão que interpretava como tentativa de reafirmar ou justificar o autoritarismo dos nossos ancestrais, coronéis que dominaram a cena política nas terras batidas pelos beiços do Itapecuru e Alpercatas.

Assim como Reis Jr., aqui, também, faço mea culpa. E o prof. Macedo pode iniciar a contar a saga dos ancestrais. Tem capacidade, matéria-prima e, assim, abrir caminho, mais uma vez, para os retardatários.

Então, colinenses e maranhenses do litoral e do sertão, a obra de Reis Jr. nos leva a conhecer e reviver um tempo e um povo do Maranhão, distintos. Sem torpeza, "minha terra, minha gente". Bem escrita. Texto elegante. Personagens talhados com sensibilidade, narrativa profunda, vibrante, elegante e sem empulhação.

Nos Desvãos do Alto Itapecuru, navega-se numa cultura original, alheia à da Ilha de São Luis e pouco conhecida no Maranhão, em parte, pela resistência em admitir a veia literária de homens rudes que ganharam a vida no lombo de um cavalo, no aboio sobre a porteira do curral, vencendo as distâncias sem tempo e sem medida dos chapadões e baixões.

(*) Eduardo Antonio Leão Coêlho é jornalista, com atuação nos grandes jornais de São Paulo e Brasília. Hoje é advogado em Brasília.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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