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Edição 198

UMA SURPRESA ESPERADA

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Data de Publicação: 30 de abril de 2009
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Robinson Crusoe das águas virtuais da Internet, perdido em meio às praias encantadas das sereias de tantas webs, blogs, sites e quejandos, acabo de deparar-me com texto publicado em janeiro deste ano, no Jornal Pequeno de São Luís, da autoria de Herbert de Jesus Santos, sobre as quase sempre discutíveis premiações em certames literários, com enfoque na auspiciosa e louvável ressurreição do Concurso Cidade de São Luís, cujo prêmio Sousândrade tive a honra e a glória, que costumo destacar em todos os meus perfis biográficos, de vencer em dois anos seguidos, 1970 e 1971, sendo, ao que tenho notícia, o autor mais jovem que recebeu até hoje esse galardão, pois contava à época da primeira premiação apenas 17 anos recém-completados.

No texto do poeta, folclorista, historiador e cronista Herbert Santos, tomei ciência de dois fatos que desconhecia, exilado há tantos séculos da minha República dos Becos, entregue apenas às águas mortas das minhas Marés Memórias, e, sempre que possível financeiramente falando, fugindo para um passeio, uma revitalização de todas as raízes existenciais, sempre muito rápida e muito menor do que precisava e pretendia, pelas águas verde-sujo da Rampa Campos Melo e pelas areais antigamente monazíticas do Araçagi.

Interessante notar que os dois fatos que Herbert descreve no artigo "Os pretos nos brancos da Secma e Func", no Caderno JPTurismo do dia 18 de janeiro de 2008, são emblemáticos, ao descrever os bastidores dos concursos literários, da nossa condição humana, um pela sua mesquinhez sórdida, o outro, pela grandeza pessoal de um poeta, que não apenas escreve versos, mas tem alma, coração e estatura moral de Poeta.

Narra o cronista sua luta pessoal pela recriação desse certame literário, quase sempre valiosíssima feira de amostras, vitrina de talentos que, de outra forma, dificilmente encontrariam canais para mostrar e trazer ao público suas obras, notadamente em nossa época, em que os pouquíssimos suplementos culturais são quase sempre uma extensão das assessorias de imprensa dos conglomerados editoriais, incensando talentos que invariavelmente se esboroam à menor leitura reader digests ou, em ocasião ainda menos nobre, no banheiro, durante o cumprimento cotidiano do grave dever que a natureza nos impõe.

Como modelo exemplar de até onde pode chegar a miséria da nossa condição, de um lado, conta o historiador que, no Prêmio Gonçalves Dias de 1977, por mera perseguição de desafetos sem nenhuma estatura moral ou conhecimento literário, os grandiosos sonetos de A Travessia do Ródano, do maior de nós todos, Nauro Diniz Machado, obtiveram apenas um segundo lugar no certame realizado pela Prefeitura de São Luis, perdendo para um livro sintomaticamente chamado A Cabra.

Diz Herbert que, se não fosse a lucidez estética e o estofo moral do escritor Lucas Baldez, que praticamente levaram à criação de uma inexistente categoria de menção-honrosa para o segundo lugar, obrigando a publicação do livro do mestre Nauro, a história da literatura registraria mais uma ignomínia asquerosa, nos moldes da que levou o Secretariado de Propaganda Nacional de Lisboa a preterir, miseravelmente, o genial Mensagem, de Fernando Pessoa, em favor do descartável Romaria, do missionário franciscano Vasco Reis, que, no entender dos energúmenos de então, "melhor ilustrava a fé do povo, de conformidade com os valores e o espírito cristão de Portugal". Valha-nos Deus!

Mas, narra também o cronista, e aqui reside a razão fundamental deste escrito, um dado inédito para mim: que, em 1993, como membro julgador da comissão que escolheu, por unanimidade, meu livro Manhã Portátil, para publicação, o poeta Luiz Augusto Cassas, embora guardasse mágoa pessoal em relação a mim, não titubeou em votar em minha obra, por entender que a Poesia é maior e ultrapassa e transcende as vãs querências ou idiossincrasias dos homens.

De fato, eu não sabia sequer que Luiz Augusto Cassas havia integrado a Comissão Julgadora que selecionou meu livro entre mais de cinqüenta concorrentes. Foi surpresa disso saber assim, tantos anos depois, quando tanta poeira e tantas águas já passaram pelas inúmeras pontes, corrutelas, pinguelas e mata-burros da vida. Mas não foi surpresa para mim saber da atitude do poeta.

Com seu voto em mim, Luiz Augusto Cassas mostrou e demonstrou ser realmente um Poeta, na acepção da palavra, um homem a quem Deus ou os Fados atribuíram a condição de portador do fogo, de purificador das grandes palavras da tribo, Donner un sens plus pur aux mots de la tribu como definiu Mallarmé. Confirmou, com seu gesto desprendido e maior, que não apenas rabisca versos ou enfileira palavras em linhas cortadas, mas que é um verdadeiro Poeta, em quem não cabe o pequeno, o mínimo, o menor, o estreito, o mesquinho, o diminuto, a miséria moral que vitima os parcos de alma e estreitos de coração.

Aproveitando esta ocasião, que a vida e o escritor Herbert de Jesus Santos me ofereceram de forma tão inesperada e graciosa, quero pedir perdão ao poeta Luiz Augusto Cassas, de forma pública e cabal, de coração inteiro e alma escancarada, por qualquer coisa indigna da condição de poetas que ambos somos e assim nos reconhecemos, que eu lhe tenha dito, feito, praticado, omitido, intencionado, por pensamento, por palavra ou por má obra.

O que quer que tenha gerado essa mágoa, esse desgostar, esse desagrado, qualquer palavra ruim ou mal colocada, qualquer intenção menos nobre ou mais vil, da minha parte, eu, neste momento, repudio e renego, por reconhecer que, o que quer que tenha sido, foi infinitamente menor do que a grandeza de Luiz Augusto Cassas, como poeta e como ser humano.

E é uma pena que, por esses anos todos, quase toda a minha vida, que se encaminha celeremente para o fim, não tenhamos podido, por uma questão assim tão pequena, que nenhum de nós mais lembra, tanto tempo depois, o que teria sido, desfrutar do mútuo convívio, mesmo que à distância, coisa que, seguramente, teria acrescentado muito a nós dois e à nossa poesia.

Fica, portanto, consignado aqui, neste escrito, o meu mais sincero, público e visceral pedido de desculpas ao Poeta Luiz Augusto Cassas, pela mágoa e pelo desprazer que lhe causei, ante a certeza de seu largo gesto, que bem diz do Poeta maiúsculo que ele é, não só pelo fato de escrever os grandes poemas que já fez, mas, sobretudo, pela Poesia que carrega em si. Mostrou, assim, que nele estão completas as duas grandes obras: a do Homem e a do Poeta, para lembrar aqui o grande Nauro do Maranhão.

Agradeço, de coração, ao escritor Herbert de Jesus Santos, esta oportunidade que me concedeu de poder, antes de ir-me embora para o andar de cima, tentar remendar um erro do passado, uma injustiça tão funda que separou dois Poetas, unidos por sua idade, geração e trabalho poético, por um tempo tão largo e sem sentido.

Brasília, madrugada de 6 de novembro de 2008.

Viriato Gaspar
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br