Data de Publicação: 13 de maio de 2009
ACORDO ORTOGRÁFICO
Com 60 anos de magistério, o presidente da Academia Brasileira de Filologia, professor Antonio Martins de Araújo, avalia como positivo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. O trema e o hífen não farão falta à Língua Portuguesa, diz. Inclusive, faz uma comparação com o inglês. "Não existe língua mais divorciada da escrita do que o Inglês, que não possui nenhum acento. E é uma das línguas mais faladas do mundo, perdendo apenas para o Mandarim, na China, ou o Híndi, na índia".
Marcelo BebianoPara o presidente da Academia Brasileira de Filologia, professor maranhense Antonio Martins de Araújo, de 76 anos, há um ano no cargo, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é positivo. No entanto, ele acredita que ainda serão implementadas várias mudanças. O professor acredita que existe tempo para adaptações até 2012. Para Antonio Martins, o trema e o hífen não farão falta à Língua Portuguesa. Inclusive, ele faz uma comparação com o inglês. “Não existe língua mais divorciada da escrita do que o Inglês, que não possui nenhum acento. E é uma das línguas mais faladas do mundo, perdendo apenas para o Mandarim, na China, ou o Híndi, na índia”. Com 60 anos de magistério, tendo atuado como professor de Português e História do Brasil, ele é favorável à proposta de unificação do vestibular do ministro da Educação, Fernando Haddad. Em sua avaliação, haverá uma redução das taxas cobradas e aumentarão as chances dos candidatos. Antonio Martins acredita que o magistério viveu, dias melhores na década de 1980, com as inovações implementadas pelo secretário estadual de Educação do Rio, Darcy Ribeiro. Porém, acredita que existe empenho dos atuais governantes do Rio de Janeiro em melhorar a situação do magistério.
Marcelo Bebiano – A publicação do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, pela Academia Brasileira de Letras, tende a colocar um ponto final nas várias dúvidas surgidas no início da implantação da Reforma Ortográfica?Antonio Martins – Embora seja muito louvável o enorme esforço da Academia Brasileira de Letras em concluir a tarefa da publicação do Vocabulário Ortográfico, não creio que já seja possível colocar um ponto final no assunto. Uma língua de cultura, como a Língua Portuguesa, é muito dinâmica. A cada dia, alguns termos saem de circulação, arcaizando-se, e outros se abrigam na preferência dos seus usuários.
MB – O Sr. acredita que seja necessário fazer muitas modificações?AM –Talvez, pois existe o prazo de três anos para a atualização. Existe tempo para isto até 2012.
MB – O senhor é favorável ao Acordo Ortográfico?AM – A simplificação é sempre bem-vinda. No momento em que temos um instrumento de alto poder de comunicação, que é a internet, deve-se adaptar a língua aos novos tempos. A primeira reforma francesa foi feita em virtude da limitação que os caracteres móveis, os tipos móveis, de Gutenberg, podiam oferecer. Temos de dançar conforme a música.
MB – Mesmo entre especialistas, há divergências sobre algumas regras. É possível que o Acordo ainda passe por atualizações à medida que as regras estiverem sendo implantadas também em outros países?AM – Um idioma bem dinâmico como esse que praticamos no Brasil é sempre permeável a incorporar neologismos que caem na preferência do povão. Foi o caso ocorrido com a palavra “avacalhar”, criada por um político, ao criticar a zorra total que imperava na coisa pública do Rio de Janeiro em 1949. “Isto é uma nação avacalhada”, ele afirmou, e a expressão pegou.
MB – Educadores têm comentado as mudanças na regra do hífen e do trema. O Sr. acredita que a retirada destes conteúdos foi equivocada?AM – Não existe língua mais divorciada da escrita do que o Inglês, que não possui nenhum acento. E é uma das línguas mais faladas do mundo, perdendo apenas para o Mandarim, na China, ou o Híndi, na Índia. De modo que o inglês, que tem a escrita totalmente divorciada da pronúncia, não tem acento. Por que nós temos que nos submeter a ficar procurando o hífen no teclado do computador? Todo mundo vai dizer a palavra “tranquilo” de forma correta. Para isto, basta que se pratique bem a Língua Portuguesa no local em que vive. O homem é fruto do meio, do momento e da sociedade em que vive. Quem fala errado, vai continuar a falar errado.
MB – Qual a orientação para professores que ainda encontram dúvidas sobre as novas regras e precisam preparar material para as escolas?AM – Considero que existe um bom material de consulta para os professores e estudantes. Foram editadas diversas obras que explicam o novo Acordo Ortográfico, uma de autoria do integrante da Academia Brasileira de Filologia, Manoel Pinto Ribeiro, e outra do também acadêmico, José Pereira da Silva, que é presidente do Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Lingüísticos. Além disso, a Academia Brasileira de Letras possui uma equipe muito competente que vem esclarecendo essas dúvidas, sob o comando do consagrado gramático e filólogo Evanildo Bechara.
MB – O prazo previsto para a transição, até 2012, é suficiente para implementar as mudanças nas publicações?AM – Qualquer mudança de hábitos, inclusive lingüísticos, demanda tempo, vagar e paciência. Se os órgãos competentes observarem que ainda não foi assimilado completamente por parte das editoras e das instituições interessadas, caberá a eles, principalmente à Academia Brasileira de Letras, a decisão se será mesmo necessário ou não prorrogar o prazo. Eles que têm a competência lingüística e legal para decidir sobre a ortografia no país.
MB – Há quem considere que o Brasil foi precipitado em implantar o Acordo Ortográfico no início deste ano, quando outros países optaram por mudar as regras somente a partir do próximo ano. Essa fase inicial, com várias dúvidas, é produtiva? AM – Há um provérbio de minha terra natal, São Luís, no Maranhão, segundo o qual “Quem tem olho fundo chora cedo”. Não creio que o entusiasmo na largada, na frente dos outros países, prejudique a implantação do Acordo Ortográfico. Todo o problema tem solução. O questionamento é sempre produtivo, e as dúvidas às vezes abrem caminho para belos esclarecimentos dos especialistas. O Brasil ter começado primeiro não representa problema algum.
MB – Qual a contribuição da Academia Brasileira de Filologia para esta discussão? A instituição pretende organizar eventos para difundir e aprofundar as discussões sobre o Novo Acordo 0rtográfico? AM – Pelo Decreto-Lei 1.292, de 23 de fevereiro de 1938, e pelo Decreto 5.186, de 13 de janeiro de 1943, a Academia Brasileira de Letras foi incumbida de elaborar o Vocabulário Ortográfico, pelo então presidente de plantão, o ditador Getúlio Vargas, e nesta época a Academia Brasileira de Filologia ainda não tinha sido fundada. Isso só ocorreu no dia 26 de agosto de 1944, quase um ano depois, conquanto não exista um ato legal que incumba a Academia Brasileira de Filologia de decidir sobre o assunto. De há muito tempo temos solucionado dúvidas gramaticais emanadas de vários pontos do país. Porque somos a Academia Brasileira de Filologia, não temos mais literatos do que gramáticos e filólogos. Na verdade, possuímos mais gramáticos, filólogos e dicionaristas do que literatos e historiadores. Tenho a honra de presidir esta academia há um ano e possuo mandato de mais um ano.
Existe a possibilidade de reeleição. O presidente de honra da Academia Brasileira de Filologia, Leodegário de Azevedo Filho, permaneceu durante 20 anos como presidente, sempre com brilhantismo.
MB – A Academia pretende oferecer cursos, conferências e encontros?AM – Temos ministrado vários cursos. Estamos preparando um curso sobre o grande escritor português Luís de Camões, falando sobre a eternidade de sua obra. Será a Semana Camoniana. O professor Leodegário de Azevedo Filho falará sobre Os Lusíadas, a escritora Mariana Machado Rodrigues sobre a Lírica de Camões e eu sobre as três peças teatrais do grande escritor português. O evento, que deverá ocorrer no final deste mês, será na sala 112 da Uerj. Como não possuímos sede, a Uerj, desde a gestão do ex-reitor, Antonio Celso Alves Pereira, permite que nos reunamos todo o último sábado de cada mês, em sessão aberta para os universitários que desejam participar.
MB – Em sua avaliação, por que a maioria das pessoas encontra dificuldades na aplicação da Língua Portuguesa? Em avaliações, o desempenho na disciplina costuma ser bastante baixo?AM – Notícias recentes da mídia dão conta de que estamos muito próximos de melhorias na área. Se a competência e a seriedade das tarefas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) estão perto de conseguir oferecer acesso direto dos nossos candidatos às universidades, dispensando a porta estreita do vestibular, então a coisa não é tão feia quanto se pinta. Não tenho porém, no momento, informações precisas e seguras se o desempenho dos candidatos na disputa de um lugar na universidade tem sido baixo. É claro que as universidades federais, estaduais e municipais, de todo o país que apresentam um ensino de qualidade são mais procuradas do que as demais. Mas, mesmo as universidades particulares onde se pratica o ensino de qualidade devem ser cortejadas por quem tem situação financeira para bancá-las.
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MB – O professor exerce um papel fundamental neste processo de divulgação da Língua Portuguesa, mas o que acontece é que muitos deles enfrentam dificuldades. Qual o caminho para facilitar o uso e o ensino da Língua Portuguesa?AM – É inequívoco o papel do professor na divulgação e no ensino de qualquer disciplina. O autodidatismo soube ser penoso, exige muita força de vontade e persistência, não é para qualquer pessoa a performance alcançada por Arthur de Azevedo ou Machado de Assis. Mas, vamos verificar o que acontecerá nos próximos anos. Nas vésperas das eleições democráticas, para os vários escalões colegiados, os candidatos levantam principalmente duas bandeiras: a Educação e a Saúde. Eles dizem que vão resolver o problema de Educação e de Saúde. Tenho visto na televisão que os alunos em diversas partes do Brasil estão sem aulas há meses e os hospitais públicos de vários estados apinhados de doentes pelos corredores, alguns deitados pelo chão, quando não vêm a óbito, na espera desses hospitais. Progressivamente, as coisas vão ficando piores. E os vencimentos do ensino médio já não são tão atraentes. Talvez por isso muitos migram para outras profissões mais rentáveis. O governador e o prefeito do Rio, Sérgio Cabral e Eduardo Paes, parecem estar se esforçando para oferecer melhores condições. Creio ser esse o primeiro passo para passarmos a ter professores em número suficiente para nossas escolas básicas. Pelo menos, nas escolas básicas públicas.
MB – A situação dos professores vem se deteriorando desde quando?AM – A situação era bem melhor, por exemplo, no governo de Leonel Brizola, mas graças a um gênio chamado Darcy Ribeiro. Ele, como secretário estadual de Educação, promoveu uma verdadeira mudança no ensino do Rio de Janeiro. Foi um período muito bom para o magistério, com salários dignos e condições de trabalho.
MB – Como o senhor avalia as observações de que as gramáticas e os manuais de estudo da Língua Portuguesa são de difícil compreensão e que atendem somente a quem já tem um certo conhecimento?AM – A didática das línguas modernas desaconselha o ensino da língua pela gramática. E recomenda que o seja a partir de textos antológicos de autores representativos e canônicos das literaturas respectivas. Subjetivo é ensinar no curso do perfil das línguas clássicas a história interna de um idioma neolatino, por exemplo, para demonstrar sua dinâmica evolutiva. Então, os autores dessas obras devem utilizar textos de vários séculos desse idioma. Assim, uma Antologia que se pretenda dinâmica e global, desses extratos temporais, devem apresentar textos medievais, renascentistas, barrocos, iluministas, românticos, realistas, naturalistas e contemporâneos. Como para aquisição e o domínio da competência lingüística, os textos em prosa é que são adequados. Os textos em verso em qualquer estilo são subsidiários, para consecução daquelas finalidades, os textos em prosa é que são mais importantes. Ninguém fala em verso, a não ser os grandes repentistas, como o Emílio de Menezes. Adquire-se o domínio de uma prosa limpa e honesta na leitura de obras literárias consideradas canônicas pela crítica universitária e não decorando regras gramaticais, por mais bem escritas que sejam.
(Extraída da Folha Dirigida – Caderno de Educação (14 a 20/04/2009) – e republicada a pedido do escritor Antonio Martins de Araújo)- Próximo texto:
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