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Edição 196

29

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Data de Publicação: 28 de novembro de 2009
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E é sempre desse jeito e é desse jeito que sempre acaba e a rosa e o fogo formam uma e sempre a mesma cena e sempre o mesmo assunto muito do começo como versa na Bíblia ou n’O Sol Também se Levanta que começa Robert Cohn foi campeão categoria peso-médio no boxe mas depois o barato se acabou e aí já vamos de novo estamos de novo aí e é aquele mesmo antigo tema e cena com todos os cidadãos de novo e todos os personagens se aprimorando para isso desde o princípio como se enfim só pensassem todos em fazer isso sem que importe muito com quem uma parte do tempo se bem importe na outra parte mais do que tudo Ó doces sim febres do amor e sempre tem complicações como talvez ela não ligue pra ele ou ele não ligue pra ela ou ela não ligue pra ela ou ele não ligue pra ele ou uma coisa ou outra que surge no caminho como a mãe dele ou o pai dela ou um similar qualquer enquanto eles vão tentando porém o tempo todo ter isso como em Shakespeare ou A Terra Estéril ou Proust procurando seu Tempo Perdido ou seja lá onde for E lá estão lutando todos cada um rumo ao outro atrás de um outro como aquelas donzelas de mármore na superfície de uma ânfora grega ou qualquer rua de mercado ou igual zorra e eles todos indo caçar amor e a metade do faminto tempo nem mesmo sabendo realmente o que os vai comendo qual Robin andando nas ruas de Noitinhúde dela embora não seja assim tão simples como se tudo que ela realmente precisasse fosse um bom charuto barato é não e aqueles que não foram à caça não irão reconhecer esse porte de luta nem os falcões que ali flutuam onde o coração se refugia e os cavalos urram com fome e anjos de pedra o inferno e o céu Yerma com os peitos cegos sob a roupa e o próprio Cristóvão Colombo velejando à procura e Rodolfo Valentino e Romeu e Julieta e John Barrymore e Anna Livia e a Rosa da Irlanda de Abie e assim um nobre Boa-Noite Meu Príncipe aí disperso de novo com cada qual e todo mundo dando risadas gritando em qualquer canto noite e dia verão e inverno primavera e amanhã como Anna Karenina perdida na neve e o grito dos caçadores numa grande floresta soldados chegando e Freud e Ulysses sempre empenhados nas sedentas viagens das suas buscas do mesmo saco santo graal como o Rei Artur com seus tavoleiros noturnos e todos maravilhados ante onde e como isso tudo vai acabar como nos filmes ou num romance de pesadédalo sim como um pesadédalo Sim eu disse Sim eu quero e ele me chamou de sua rosa andaluza e eu disse Sim meu coração estava enlouquecendo e é desse jeito que Ulysses acaba como sempre acaba tudo quando ocorre esse pássaro de carne caçador finalmente cantar em seu momento Deus de glória e rola um som de repente de machados no mato troncos desabando e vai fundo a espada meiga do pássaro já murchando nos campos cálidos da carne longe só enfim e amado e perdido e achado pelas beiras de um rápido rio onde começou tudo isso que assim começa de novo

(L.F.)

(Id. ibid., p. 84 - 87)

ESTOU ESPERANDO

estou esperando que meu caso seja lembrado
estou esperando
um renascimento do maravilhoso
estou esperando que alguém
descubra de fato a América
e se lamente
e estou esperando
a descoberta
de uma nova fronteira simbólica no Oeste
e estou esperando
que a Águia Americana
estenda realmente suas asas
e se aprume e alce vôo
e estou esperando
que a Era da Ansiedade
caia dura e morta
e estou esperando
pela guerra que virá
preparando o mundo
para a anarquia
e estou esperando
pelo definhamento definitivo
de todos os governos
e estou perpetuamente à espera
de um renascimento do maravilhoso

[...]

e estou esperando alegremente
que as coisas piorem de verdade
antes de melhorarem definitivamente
e estou esperando
que a multidão humana
se despenque de um precipício em algum lugar
agarrada a seu guarda-chuva atômico
e estou esperando
que os humildes sejam abençoados
e herdem a terra
sem pagar imposto
e estou esperando
que as florestas e os animais
reclamem a terra como sua
e estou esperando
que se articule alguma forma
de acabar com todos os nacionalismos
sem matar ninguém
e estou esperando
que os pintarroxos e os planetas caiam como chuva
e estou à espera que os amantes e as carpideiras
deitem-se juntos outra vez
num novo renascimento do maravilhoso
e estou ansiosamente à espera
que o segredo da vida eterna seja descoberto
por um obscuro clínico geral
e me salve para sempre da morte certa
e estou esperando
que a vida comece
e estou esperando
que as tempestades da vida
cessem
e estou esperando
soltar velas e zarpar para a felicidade

[...]

e estou esperando
que calafrios de arte espontânea
percorram minha máquina de escrever
e estou esperando escrever
o poema impecável e definitivo
e estou esperando
pelo longo louco êxtase desleixado
e estou perpetuamente à espera
que os esquivos amantes da ânfora grega
consigam finalmente agarrar-se
num abraço profundo
e estou esperando
perpetuamente e para todo o sempre
um renascimento do maravilhoso

(Id. ibid., p. 90 - 99)

OBBLIGATO DO BICHO LOUCO

Vamos
Venha
Vamos
tirar tudo do bolso
e desaparecer.
Faltar a todos os compromissos
e só voltar de barba grande
anos depois
velhos papéis de enrolar cigarro
enfiados na calça
e folhas no cabelo.
Vamos parar de nos preocupar
com os pagamentos.
Eles que venham
e levem tudo
seja lá o que for
pelo que pagamos.
E que até levem a nós.

[...]

Quero descer na escala social.
A alta sociedade é a sociedade baixa.
Na ascensão social
eu subo para baixo
e a descida é dura.
O Ideal da Alta Classe Média
é para os pássaros
mas nem os pássaros precisam dele
pois têm sua ordem de bicar
baseada no canto.
E os pombos se contentam no chão.

[...]

(Id. ibid., p. 100 - 113)

Autobiografia

Estou levando uma vidinha mansa
nas redondezas do bar do Mike todos os dias
vendo o mundo cruzar
em seus curiosos sapatos.
Certa vez iniciei
uma caminhada em torno do mundo
mas desisti no Brooklyn.
Aquela ponte foi demais para mim.
Já tentei o silêncio
o exílio e a astúcia.
Voei muito próximo ao sol
e minhas asas de cera se derreteram.
Estou procurando pelo meu Velho
que jamais conheci.
Estou procurando pelo Líder Perdido
com quem voei.
Os jovens deveriam ser exploradores.
O lar é o ponto de partida.
Mas Mamãe nunca me preveniu
que haveria cenas como essas.

[...]

Dormi numa centena de ilhas
onde os livros eram árvores.
Ouvi pássaros
ressoando como sinos.
Usei velhas calças de flanela
e caminhei pela praia do inferno.
Busquei abrigo numa centena de cidades
onde as árvores eram livres.
Que metrôs que táxis que cafés!
Que mulheres com cegos seios
membros perdidos entre arranha-céus!

[...]

Estou sabendo que Colombo
não inventou a América.
Ouvi uma centena de Ezra Pounds amestrados.
Acho que todos eles deveriam ser soltos.
Já se passou muito tempo desde que fui pastor.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br