Data de Publicação: 2 de dezembro de 2009
Ferreira Gullar
Entrevista concedida a Euclides Moreira Neto• Ferreira Gullar, nome literário de José Ribamar Ferreira.
• Nasceu em São Luís, a 10 de setembro de 1930.
• Ferreira Gullar é poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta.
• Patrono da 3ª. Edição da FELIS.
TrabalhoEu trabalho sem parar. Estou permanentemente trabalhando. Eu escrevo para a Folha de São Paulo. Todo domingo sai uma crônica minha, no caderno Folha Ilustrada. Isso já me dá bastante trabalho, porque eu não escrevo a crônica de repente, em cima da perna. Escrevo, reescrevo, leio, releio. Dá muito trabalho. Já é uma ocupação bastante grande. E, estudando as questões da arte contemporânea, as questões minhas, do meu próprio trabalho, da sociedade brasileira, porque nessa crônica dominical eu estou sempre discutindo questões da sociedade, questões políticas, panorama.
Foto:JUNIOR FOICINHA
Eu escrevi uma crônica sobre a política de psiquiatria do governo, que foi instalada a partir, se não me engano, de 2002. Eu escrevi e deu uma polêmica nacional e continua, porque é uma questão importante. Eu conheço esse assunto. Isto é, vivi esse assunto por questões familiares e, então, essa discussão do problema da psiquiatria é uma discussão importante. Então, na crônica eu falo desde poesia ou de arte, ou de lembranças de São Luís, enfim de minha experiência de vida, como eu falo de questões políticas, sociais, assuntos que interessam a todo mundo. Fora isso, eu já tinha publicado um livro que era uma seleção dessas crônicas publicadas na Folha. Foi Resmungos, com as ilustrações que foram feitas para as crônicas, porque elas saem sempre ilustradas. E agora vai sair o segundo volume dessas crônicas que foram escritas depois, numa nova seleção. Outro livro que deve sair, quando eu completo oitenta anos, é o novo livro de poemas. O último que eu publiquei, Muitas Vozes, foi em 1999. Quer dizer, nós estamos em 2009, faz dez anos.
Foto:G.FERREIRA
Foto:JUNIOR FOICINHA
Foto:A.BAETA
Foto:A.BAETA
Eu escrevo pouco. Poesia eu escrevo muito pouco, porque poesia eu não governo. Não posso programar: vou fazer dez poemas este mês. Ou eu vou fazer um poema amanhã. Poesia não se sabe, não se programa. Por isso, quando a poesia vem, escrevo. Quando não vem, não escrevo. Então demora. E nem sempre o que vem, eu aceito escrever. Eu tenho uma exigência muito grande em relação a isso, mas depois de tanto tempo, eu tenho um novo livro, que é um livro pequeno.
Todos meus livros são sempre com oitenta poemas, por aí.
A Estética da Arte no Momento ContemporâneoA revolução da arte não tem muito a ver com internet não. No plano das artes plásticas não tem muito a ver com internet.
Essa revolução começou com o Cubismo, isso no início do século XX e depois Dadaísmo.
No século XX inteiro, não existia nem computador. Não tem muito a ver. A internet hoje tem um papel importante nesse processo cultural, na difusão das ideias, nas discussões de questões de qualquer natureza, política, social, estética e tal. É um instrumento importante. Mas a mudança do plano estético não está diretamente vinculado a isso. É uma questão que tem a ver com a mudança da sociedade, a mudança da tecnologia.
Tudo que vem acontecendo no século XX tem mais a ver com as indagações sobre a arte, os valores artísticos e tal. Então, hoje eu acho que as Artes Plásticas entraram num marasmo. Depois que surgiu a arte conceitual, das instalações, desse tipo de arte que preponderou depois dos anos 60, 70. Isso também se esgotou, porque de tanto fazer o vale-tudo, quer dizer, ninguém hoje aguenta mais. Cara, até cocô na lata o cara pôs. O outro se crucificou na traseira de um fusca. Então, por aí o cara já fez de tudo. Já não tem nem mais o que fazer. Aí eu acho que vão voltar a pintar. É a solução, voltar a pintar, porque... trezentas maçãs em cima de uma mesa e uma garrafa de cana. É uma imitação. Eu até sugeri uma vez que fizessem uma instalação minha, obra minha: quatrocentos jumentos montados por quatrocentos anões, pra mandar pra Bienal. Porque esse tipo de arte eu faço dez por dia.
Por exemplo, pegar a Bienal e jogar lá um milhão de bolas-de-gude, pra nego lá cair tudo de bunda no chão. É uma performance extraordinária. Muito melhor do que daquele japonês que pôs uma piscina de plástico lá e toda noite ele ia prá lá bater água, vestido de mergulhador. Quer dizer, espera lá, né? (risos). Isso é um equívoco. Eu entendo que o cara faça. Não é proibido.
Euclides – A arte, ela vai e volta e precisa ser interpretada em cada contexto. Mas parece que esse momento é muito doido realmente.
Gullar – É. O problema é que a arte existe porque a vida não basta. Arte existe pra vida ficar melhor, pra vida ficar legal, pra ter mais beleza. A arte existe por isso.
Arte não revela nada. É mentira. Ah, que a arte revela a realidade! Porra nenhuma. A arte inventa a realidade. Inventa. É por isso que ela existe. Então, agora, quando a arte abandona isso... (porque o que caracteriza essa arte que passaram a fazer é um realismo cru). Porque antigamente, quando você via um quadro, a crucificação, o cristo crucificado ou alguma coisa desse gênero, era uma coisa criada, que vinha da religião ou de poesia. Era uma coisa criada. O cara olhava aquilo, achava bonito ou ficava impressionado. Aquilo passava a fazer parte do mundo dele.
Quando Van Gogh pinta a noite estrelada, aquele quadro parece uma tormenta num céu de galáxias. Aquilo não existia antes. A pessoa viaja naquilo. Acha bonito, deslumbrante, atordoante, fascinante. Agora, você pega, bota cocô dentro da lata, meu filho. Quer dizer que arte é merda? É ser ignorante? Isso é ser burro. É ser pobre. É não compreender a importância da vida. Ele pensa que é um rebelde. Ele é um babaca, porque ele pega uma das coisas mais importantes que o homem criou e quer transformar numa besteira, porque ele é idiota. Está aquém. Imagina se um cara como Van Gogh pensava que arte é merda. Se um Picasso achava isso. Se um Da Vinci achava isso. Isso é só um idiota que pode achar isso. E a crítica: “É grande, um rebelde!” Que rebelde, um débil mental.
A obra mais importanteEu quando faço um poema, só faço, se acho que valha a pena fazer. Senão, eu não deixo ele nascer. Eu não vou fazer um poema ruim. Então quando eu faço e publico, é porque eu acho bom. Está entendendo? Agora, a crítica acha que a minha obra mais importante é o Poema Sujo. A crítica acha isso. Quer dizer, é também a minha obra mais traduzida. Foi traduzida em inúmeros países e tal. Quer dizer, ele tem alguma coisa de especial, que se comunica com as pessoas, mais que outros poemas. Mas, eu acho que há poemas meus outros, pelos quais eu tenho muito apreço, que não tem aquele mesmo interesse por parte do público.
Alguns poemas políticos que eu fiz na época do meu engajamento político, também às vezes são muito mais difundidos do que outros poemas, que do meu ponto de vista são melhores. Mas é claro que um poema ligado à questão social tem uma comunicabilidade bem mais fácil , mais imediata. Então, nem por isso eu acho que ele seja melhor que outro que muitas das vezes um poema lírico, reflexivo sobre o sentido da vida.
Por exemplo, eu aqui nesta sala um dia entrei, eu acordei e estava um sol de verão iluminando a sala toda. Então, quando eu vim do quarto, quando dei com aquilo, a sala toda iluminada, eu senti uma enorme alegria de viver, e eu escrevi um poema, em função disso. A questão é a seguinte: na verdade, o que eu analiso no fundo. Você está cheio de passado, você está cheio de lembranças, às vezes doidas, de amigos que perdeu, de filhos, parentes. Mas, essa sala iluminada, em que você não tem passado, não tem nada. Então eu termino o poema dizendo assim:
Ah, ser somente o presente esta manhã, esta sala e será felicidade
Não tem passado, não tem nada. Então você é só um bicho transparente, que não tem nada, a não ser o momento feliz, isso que você está vivendo. Um poema desse, para mim, tem mais significação do que um poema sobre o problema da diarreia, da fome ou outro problema, que tem lá o seu significado.
Euclides – Tem alguma obra sua que você considera mal compreendida pela crítica?
Gullar – Não, eu acho que a crítica até tem sido generosa comigo. Não tem esse fato. O que existe é que certos livros têm, por essa ou aquela razão, uma carreira melhor que o outro. Eu tenho um livro de que eu gosto muito e todo mundo que lê gosta muito do livro, que não é um livro de poesias, é um livro de memórias, que é Rabo de Foguete, em que eu conto a história do exílio. Esse livro, toda pessoa que lê fica apaixonado por ele. Mas ele nunca teve muita difusão, porque foi editado por uma pequena editora de um amigo meu. (Eu dei para esse meu amigo editar na editora dele, porque ele foi meu companheiro nessa aventura de exílio e toda aquela aventura que nós brasileiros vivemos e, especialmente, ele, que era do partido, eu e outros). Então eu preferi dar para ele, do que para uma grande editora. E, consequentemente, o livro não teve a repercussão que teria, se fosse dado para uma editora maior, com mais recursos e tal. Mas dessas coisas eu não me arrependo. Só estou comentando.
O Mercado Editorial do PaísEuclides – Como é que você vê o mercado editorial no Brasil? Ele está no domínio das grandes editoras ou as pequenas estão sendo comidas?
Gullar – O que eu tenho visto aí é a globalização, inclusive editoras estrangeiras comprando editoras nacionais menores e até outras editoras grandes e formando conglomerados editoriais internacionais. Editoras espanholas que vêm pra cá; editoras alemãs e outras grandes editoras brasileiras engolindo as menores e se transformando em editoras maiores ainda. Isso está acontecendo. Isso faz parte do processo econômico.
Outra coisa é o tipo de política editorial que se adotou no Brasil, que é a de publicar muitos títulos em edições pequenas, ao contrário de editar poucos títulos em edições maiores.
Há editora no Brasil que publica mais de um livro por dia. Tá certo. Então, o que é que resulta disso? As livrarias mal têm como exibir esses livros, mal têm como botar à venda os livros.
Se só uma editora publica mais de um livro por dia, como é que a livraria vai exibir esse livro? Então, um amigo meu me falou que, no Brasil, o tempo de vida médio de um livro é de dois meses. Na melhor das hipóteses, dois meses. Depois de dois meses, você não encontra ele em parte alguma, porque o lugar já foi ocupado por outros e outros livros.
Você compra o livro na livraria. Hoje tem a internet por onde você consegue comprar. É a saída que o pessoal está encontrando. Mas na livraria não tem mais onde colocar os livros. Outra coisa também, a livraria compra dois exemplares de cada livro. Não compra, como comprava antigamente, vinte, trinta. A não ser de algum best-seller. Vende os dois exemplares e o livro nunca mais aparece na livraria. Então isso é uma coisa complicada.
Um Pouco Acima do Chão (1949)Euclides – Você nega, ou negava até pouco tempo, o livro Um Pouco Acima do Chão. Esse livro foi reeditado pela Academia Maranhense de Letras. Não entendo por que você nega esse livro.
Gullar – Não, eu não nego, tanto é que nas minhas Obras Completas que saiu agora pela Editora Aguillar, ele tá lá, o livro. O problema é o seguinte, é o meu primeiro livro, é um livro imaturo. Esse é que é o problema. Não é que ele seja ruim, que eu não reconheça que eu é quem escreveu os poemas. Que seja um pecado que eu cometi. Não, não se trata disso. Se trata de um livro em que eu ainda não tinha dominado a minha linguagem de poeta, a minha visão de mundo. É um livro que é uma promessa. Eu já estou ali em alguns poemas que já têm qualidades que vão se desenvolver depois, não é? Mas é um livro imaturo.
Tem um certo tipo de poeta que tudo o que ele faz, acha que é genial. Então, ele publica o verso que ele escreveu com cinco anos de idade, com oito anos de idade, dez anos de idade. Não importa, desde que foi ele quem fez, é bom. Mas eu não tenho essa visão. Então, eu escrevi um livro que não tem a mesma qualidade da minha poesia, modéstia à parte, a partir de A Luta Corporal.
Os poemas de A Luta Corporal já pertencem a uma fase em que tenho uma consciência maior, mais penetrante, mais madura do que deve ser a poesia. Então, por isso eu considero que meu livro de estreia mesmo é A Luta Corporal. E o outro, Um pouco acima do chão, é um ensaio de juventude. Eu ainda não estou ali plenamente. Essa é a razão. Não vou ficar exibindo coisas que escrevi sem visão crítica.
Prêmio Nobel de Literatura 2002Prêmio Nobel? Ninguém se candidata ao Prêmio Nobel. Nenhum escritor se candidata ao Prêmio Nobel de Literatura. Não é isso? Você só pode ser candidato, se instituições internacionais, culturais, do seu país, de fora, apresentarem sua candidatura. Não é você quem se candidata, entendeu? Se não fosse assim, todo mundo se candidatava ao Prêmio Nobel. Então, houve isso, um número de universidades brasileiras, portuguesas, inglesas, americanas que propuseram o meu nome como candidato ao Prêmio Nobel de Literatura.
Eu, quando soube disso, fiquei surpreso. Evidentemente fiquei lisonjeado com isso, mas jamais pude acreditar que eu fosse ganhar o Prêmio Nobel. Mas eles insistiram e tal. Mas ninguém ganha o Prêmio Nobel ao ser candidato pela primeira vez. As candidaturas, em geral, se repetem quatro, cinco, seis vezes, até conseguir que o Prêmio seja outorgado. Não é só se candidatou, ganhou. Porque há uma série de fatores. Eu, pessoalmente, acho, inclusive, que pesam demais alguns fatores políticos na outorga do Prêmio Nobel.
Há muita gente que recebeu o Prêmio Nobel aos quais eu, pessoalmente, não daria. A maioria dos escritores que receberam o Prêmio Nobel são escritores de alta qualidade. Mas há uns que não são de qualidade tão grande assim, mas que num momento tiveram uma atitude política ou desempenharam um papel, que influiu na decisão do júri.
Não é só a qualidade literária que decide. Há esses outros fatores. É imprevisível.
Eu acho que, na Literatura de Língua Portuguesa, o Prêmio Nobel não tem sido muito justo. Um poeta como Fernando Pessoa não ganhar o Prêmio Nobel é uma coisa absolutamente inexplicável, quando outros muito mais inferiores, como Gabriela Mistral, ganhar o Prêmio Nobel e vejo Fernando Pessoa... Gabriela Mistral é uma poetisa de segunda categoria. E outros exemplos: Drummond não ganhar o Nobel; um Guimarães Rosa. Entendeu? Ganha, Saramago! Espera lá. São critérios de outra natureza. Jorge Luis Borges não ganhar o Prêmio Nobel? Pera lá! Poucos autores se equiparam a ele na História da Literatura.
Livro de CabeceiraNão, não. Cada um tem o seu livro de preferência. Hoje eu mais releio do que leio. São livros que eu leio, releio. São livros que já li e retiro da estante. Leio alguns livros, que começo a ler e despertam meu interesse e leio, mas coisa atual, mas são raros.
InternetEuclides – Você tem uma boa relação com a internet?
Gullar – Eu uso a internet para o meu trabalho. Acho que a internet é importante, o computador em si é muito útil. É um avanço sobre todos os aspectos. Mas eu não sou de ficar viajando na internet. Eu uso a internet, o computador, para escrever os meus trabalhos. Às vezes, uso a internet para fazer pesquisas sobre determinadas dúvidas que me assaltam. Buscar informações, também, para a facilidade que eu tenho de escrever em casa o meu artigo e mandar para o Jornal e, às vezes, até no dia seguinte reescrever o artigo e pedir a substituição em alguns minutos. A internet sob esse aspecto é uma coisa de enorme utilidade, um avanço muito grande.
Dentro da Noite Veloz (1975)Dentro da Noite Veloz é o livro que inclui meus poemas escritos entre 1962 e 1975. É exatamente o período de minha participação política maior. A minha militância política começa exatamente em 62 e passa por todos esses anos. É o golpe de 64. É depois a fundação do Grupo Opinião, atividade política contra a Ditadura, depois do exílio.
A clandestinidade começa em 70. Depois, o exílio começa em 71. Eu volto do exílio em 77. Em 75, eu reuni os poemas e publiquei Dentro da Noite Veloz. Eu estava no exílio, quando o livro saiu. De todos os meus livros é o que tem o maior número de poemas políticos. É exatamente esse, porque foi escrito durante o período da Ditadura e era grande a agitação política no Brasil, na América Latina.
Eu acho que nesse livro há uma junção do que é a minha experiência de uma poesia mais panfletária, mais só política, muito mais querendo mudar a cabeça das pessoas, do que fazer literatura. Eu saio disso e vou enriquecendo a linguagem poética no poema político, vou dando mais qualidade a ele, de modo que o livro tem esse percurso que eu acho interessante: essa evolução dentro da linguagem da poesia política engajada, porque a tendência inicial de todo poeta que se engaja é de fazer uma poesia só panfletária. Por exemplo, quando escrevi os meus primeiros poemas de cordel eu estava muito mais interessado em fazer política, do que fazer literatura. O objetivo daqueles poemas era fazer as cabeças das pessoas, propor ideias, ação política. Não era fazer literatura, poesia. Eu tinha consciência disso. Eu estava usando os meus recursos de poeta para colaborar na luta política. Depois eu fui tomando consciência de que deveria trabalhar melhor esses poemas para, além de serem poemas políticos, serem obras literárias. Como, por exemplo, o poema que dá nome ao livro, Dentro da Noite Veloz, é um poema sobre Guevara, inclusive um poema crítico, porque acho que aquela aventura dele na Bolívia foi uma aventura imatura, um gesto insensato. Aquela visão de que quem sabe faz a hora... Ele fez uma coisa generosa, quando quis ajudar a América Latina, mas estava errado do ponto de vista do momento, do lugar, da maneira como aquilo foi feito.
O TeatroEuclides – Qual é a sua relação com o teatro hoje?
Gullar – Hoje está mais distante. A minha relação com o teatro foi muito maior durante o tempo do Grupo Opinião, quando nós, depois do Golpe de 64, que fechou o Centro Popular de Cultura, criamos o Grupo Opinião. Janinha, Tereza, Aragão, Armando Costa, Paulo Pontes, Januário Oliveira etc..., todo esse grupo, João das Neves, com esse pessoal a minha ligação com o teatro era diária. E nessa época eu escrevi com o Vianinha a peça Se correr o bicho pega; se parar, o bicho come. Escrevi uma outra peça com o Armando e o Antônio Carlos Fontoura, A saída, onde fica a saída? Depois escrevi peças como Rubi no Umbigo. Mas, com a Ditadura, veio o exílio, acabou o Grupo Opinião, eu me afastei do teatro. Então, ficou cada um pro seu lado. Eu escrevi no exílio algumas peças, que nunca foram montadas. Depois que eu voltei, Rubi no Umbigo foi montada, dirigida por Biby Ferreira, no Teatro Casa Grande. A última peça que eu escrevi é um monólogo, O Homem como invenção de si mesmo, que escrevi mais com a intenção de expor algumas ideias, do que fazer teatro. Foi publicado agora nas Obras Completas, da Aguillar.
FunarteEuclides – Como foi a sua experiência como diretor da Funarte?
Gullar – Eu fiz o que eu pude lá. Na opinião das pessoas, eu fiz uma boa gestão. Eu criei coisas. Eu retomei projetos que a Funarte tinha abandonado. Mas tudo o que eu fiz foi destruído imediatamente. Eu saí, o cara que me substituiu destruiu tudo, pra não fazer nada.
O que que eu fiz? Criei a revista Piracema, que era uma revista linda, de alta qualidade cultural, artística, em que se difundia coisas que a imprensa não difunde, porque eu não ia fazer uma revista para entrevistar Chico Buarque. Chico Buarque está aí dando entrevista dia e noite, pra divulgar peças que estão em cartaz. Não, eu fiz uma revista pra divulgar aquilo que tem pouca divulgação – o folclore, a arte popular, a dança moderna, a gravura brasileira, discussão de ideias políticas e estéticas, com amplitude que não cabe na imprensa, que não tem espaço pra isso. Eu tirei quatro edições da revista e deixei a quinta pronta. O cara que me substituiu, a única coisa que ele fez foi (estava escrito no Expediente, diretor: Ferreira Gullar) só tirar o meu nome e botar o nome dele. A revista estava pronta, na gráfica, para ser impressa. Eu disse pra ele: a revista está prontinha e paga. É só mandar imprimir. Depois desse número, ele acabou com a revista.
Eu criei o Espaço Niemayer, no Palácio Capanema, no centro da cidade do Rio de Janeiro, primeira obra da arquitetura moderna brasileira, cujo projeto arquitetônico foi transformado por Oscar Niemayer, uma obra- prima da arquitetura. Esse prédio foi tombado.
Então, o que eu fiz: usar os espaços do prédio para fazer dele um Centro Cultural, um Centro de Arte. Lá eu criei o Espaço Oscar Niemayer. O que era? Uma seleção das obras-primas do Oscar, a arquitetura do Oscar em maquetes de grande tamanho, que desse para o pessoal ver os detalhes, expostas com pequenos textos informando o que era: obras que foram construídas na França, na Itália, na Argélia, que o público brasileiro não tem como ver. Ali estava uma visão sintética das obras do Oscar. Vai lá, vê se existe? Acabou. O Espaço foi destruído.
Fiz reforma e ampliação do Museu do Folclore. Isso aí não conseguiram acabar. De forma que a experiência que eu fiz na Funarte ela foi gratificante porque, durante o tempo em que eu estive lá, eu trabalhei dia e noite e fiz tudo que foi possível fazer. Retomei o Salão Nacional de Arte, que estava fechado. Eu saí de lá, no ano seguinte fecharam o Salão.
A vantagem do Salão Nacional de Arte é que permitia que artistas do Brasil inteiro expusessem lá. O Salão expunha e premiava [...] Eu criei o Prêmio Nacional de Arte. Como as despesas de transporte aéreo para levar, por exemplo, os quadros de artistas de Manaus ou São Luís, por exemplo, e depois trazer de volta, era uma nota preta. Então, consegui com uma empresa aérea fazer o transporte de obras de arte de graça. Quando abrimos o Salão, estava lotado de artistas de todo o Brasil. Isto é que é fazer serviço público. Eu não sou Lula. Não estou para fazer autopropaganda. Trabalhar é serviço público, ou aceita ou não aceita. A sociedade me chama pra trabalhar pra ela, não pra mim. Serviço público é isso. Quais são os problemas? Eu cheguei lá na Funarte, chamei todos os diretores. Sentei com eles na mesa e perguntei: Quais são os planos de vocês pra Funarte? Eu tô chegando aqui e vou sair amanhã! Agora vocês, que são os funcionários, que estão trabalhando aqui há dez, quinze anos, qual é o rumo? Eu não vou pegar e inventar a Funarte de novo. Eu quero saber de vocês. Resultado, cada um se manifestou: Eu quero fazer isto, eu quero renovar o Museu do Folclore. Uma coisa que aconteceu interessante: Um dia eu estou lá na minha função de presidente e chegou um funcionário com um processo. O processo era o seguinte: O Brasil tinha sido convidado para fazer exposição da Arte Brasileira na França. Aí o que o Ministério da Educação e Cultura fez? Fez uma exposição de Arte Popular Brasileira. Comprou artesanato de arte popular do Brasil inteiro. Fez uma coleção de alta qualidade e mandou pra Paris. Quando essa exposição terminou e voltava para o Brasil, lá na Paraíba, o Convento do Sino tinha sido transformado em Museu e não tinha obra. Aí pediram emprestado uma grande parte dessas obras. O Ministério emprestou. As obras ficaram lá e nunca mais voltaram. Quando eu cheguei, tinha um processo já com despacho final da Justiça, obrigando o Museu da Paraíba a devolver as obras para a Funarte. Muito bem. Aí eu chamei a diretora do Museu do Folclore na minha sala. Perguntei pra ela: Me diz uma coisa, você não me disse que por falta de espaço, o Museu tem cinco mil obras no porão? Ela respondeu: É verdade. Então vocês querem as obras do Museu do Sino pra que, pra botar no porão? Disse ela: Não, nós queremos as obras porque pertencem ao Museu. Disse-lhe: Não, as obras pertencem ao povo brasileiro. A Funarte é um órgão do Estado. Pertence ao povo. Então, chamei a Maura, que era minha secretária, e mandei ligar pro ministro. Falei pro ministro que o processo tinha que ser arquivado, porque não tinha sentido trazer as obras do Museu do Sino pra colocar no porão. O ministro concordou. Telefonei, então, para o diretor do Museu do Sino, que veio atender em pânico. Disse-lhe: As obras vão ficar aí para sempre. Vamos fazer um contrato de comodato. A diretora do Museu do Folclore era uma pessoa ótima, só que o hábito burocrático faz a pessoa não ver se o fato é certo ou errado. Resultado: quando recebi a notícia de que eu seria substituído, artistas fizeram manifesto contra. Disse aos artistas: Só uma coisa, não façam manifesto pedindo pra eu ficar, porque isso eu não aceito. A decisão do ministro é autônoma e ele tem o direito de botar aqui quem ele quiser.
[...]
A experiência foi traumatizante. Trabalhar, como eu trabalhava, entrando 9 h da manhã e saindo às 21 h todos os dias úteis e, pra depois, tudo o que você fez ser destruído? Porque isso é uma característica do Brasil. Cada cara que chega quer se apossar das coisas feitas por aquele que ele substituiu. Das duas uma: ou ele destrói ou põe como se ele é que houvesse feito. Como por exemplo: existia a Bolsa-Escola e a Bolsa-Alimentação, só que o cara junta as duas e põe Bolsa-Família. Só que ao juntar as duas, ele destrói os dois projetos. São projetos diferentes. Impede a fiscalização.
Hoje a Bolsa-Família é um absurdo. Eu tenho um amigo que tem empregado, que tá fazendo filho pra ganhar a Bolsa-Família e outro que se emprega e pede pro patrão não assinar carteira dele, pra ele continuar recebendo a Bolsa-Família. Não assinar a carteira de trabalho é uma loucura, cara. Essa é a grande reivindicação do trabalhador, a carteira assinada do trabalhador. Porque é um equívoco, não se pode criar um projeto assistencialista permanente. Esse tipo de projeto é uma coisa emergencial. Ajudar até que às pessoas sejam dadas condições de se empregar, pro cara trabalhar e não pro cara viver como mendigo, recebendo dinheiro da sociedade, que tinha de ir para a educação, saúde, saneamento básico, pra cultura. Como é que você vai tomar conta de 40 milhões de pessoas? Porque na época do Fernando Henrique Cardoso era um número restrito de pessoas que estritamente não trabalhavam ou pessoas que tinham filhos e não tinham como sustentar e botavam os garotos na rua pra trabalhar. Então, a Bolsa-Escola era pra permitir que o garoto, ao invés de ir trabalhar, fosse pra escola. Mas 40 milhões, tudo misturado? Não há como tomar conta disso, como fiscalizar. Então, é simplesmente ir dando dinheiro demagogicamente. Isso é uma depravação: 40 milhões de pessoas sendo favorecidas por um projeto desses.
Quer dizer, então esse tipo de coisa. É por isso que eu escrevi na Folha de São Paulo: o Brasil precisa urgentemente de um Estadista. Chega de picareta. Tem que se botar aí um Estadista: uma pessoa para quem os interesses públicos estejam acima de seus interesses pessoais, políticos-partidários ideológicos, porque senão não sei pra onde isso vai. Porque, se entrar a Dilma, que é a continuação de Lula, pra ele voltar, é uma coisa que visa exclusivamente enganar as pessoas.
Não tem sentido verdadeiro de construir o país, de dar e embromar todo mundo para ficar no poder, porque ele... Eu nunca vi um cara-de-pau igual ao cara. Nunca vi. O Lula é um fenômeno. É uma pessoa de um cinismo nunca visto, porque ele chega e fala uma coisa para o MST. No outro dia, ele vai falar com o pessoal do agronegócio e diz outra coisa completamente diferente. No terceiro dia, ele diz outra coisa para outro grupo.
Como ele diz que ele é uma metamorfose ambulante... Se bem que é verdade. Ele é a metamorfose ambulante! Ele diz qualquer coisa a qualquer hora, desde que convenha. Desde que convenha, o interesse público é absolutamente secundário. Ele não governa o país. Eu fiz um levantamento. Ele passa uma média de oito dias por mês em Brasília. Em geral, sábado e domingo. Como é que você pode governar, se você não despacha com os 37 ministros? Então, ele só faz propaganda. Ele tá no comício. Tinha que estar no palanque dele de 2002, quando era candidato. Continua no palanque. Então ele não governa. Quem governa são os ministros. Ele só dá palpite: Esse projeto que você vai fazer vai diminuir a minha popularidade ou não? Se for pra diminuir, eu tô contra.
As reuniões dele são só pra ver o que convém pra ele e não o que convém ao país.
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