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Edição 213

CHAGAS VAL, FLAMES e FELIPE KALYMA: Poéticas imagens do simbólico

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Data de Publicação: 10 de dezembro de 2009
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Antonio Aílton

O escritor é um sujeito de certo modo sistemático, ele quer abraçar o mundo com suas palavras, reunir as coisas sob um dizer e um sentido que ele supôs achar, mesmo quando os elementos são diferentes ou díspares. É o que estou tentado fazer agora, com grande prazer. Acabo de receber três livros e um dever de casa administrado pelo querido mestre Alberico Carneiro. Um livro de poesia, um ensaio sobre um escultor maranhense e uma narrativa infanto-juvenil. E começo a namorar esses três livros, para sentir sua carne e ouvir o que eles me sussurram, para que ponham palavras na minha boca, para que minhas palavras possam dizer um mínimo de sua sagrada beleza. Eu tiro as sandálias, um livro, mesmo em tempos de “perda da aura” ou mesmo que muitos olhos o ignorem, é sempre um terreno sagrado: no meio deles há cardos e sarças ardentes, eles fluem, flamejam, eles nos ressignificam no voo para além da materialidade das folhas, e nos convocam: “que tu inflames!...” Eu começo a me achar: esses livros são completamente diferentes uns dos outros, mas há qualquer coisa de simbólico que une a voz que cada um traz de sua origem.

Um escritor deve começar do começo, e sempre partir de pés descalços.

Os três livros foram recentemente publicados pelo Plano Editorial SECMA – Prêmio Gonçalves Dias de Literatura. O livro de poesias Escritura do Silêncio é do poeta maranhense Chagas Val, poeta no sentido pleno da palavra, em vida e obra, cujo respeitável trabalho já perfaz quase quarenta anos. Autor de livros como Chão e Pedra (1972), Teoria do Naufrágio (1987) Floração das Águas (1992) e O Código do Vento (2004), dentre outros, tem suas publicações, na grande maioria, realizadas por via de concursos ou seleções de corpos editoriais, o que dá bem uma ideia do valor de seu trabalho. O ensaio de Flames Lima tem como título A Temática Feminina na Produção Escultórica de Celso Antonio de Menezes. A autora, licenciada em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA, vem construindo uma história nas artes plásticas maranhenses, através de exposições e pesquisa, naquele itinerário que este Maranhão de Deus permite a seus artistas. A Águia e a Coruja é uma ficção infanto-juvenil amorosa e alegórica de Felipe M. Kalyma, um estreante (salvo engano) já senhor de sua proposta.

Não gratuitamente, o prefaciador de Chagas Val é um artista plástico, Victor Rego, que também assina a capa do livro e que é muito feliz em captar o fluido universo imagético do poeta. A orelha do livro é do professor, editor e também poeta Alberico Carneiro, num texto, não sem motivos, encantado e encantatório, a que chamou Escritura do silêncio: a odisseia dos minúsculos. Explorando a leveza e a ternura com que Chagas Val construiu seu “projeto ficcional poético”, Alberico aponta o elo que o poeta constrói entre seres humanos e um fantástico microcosmo vegetal e mineral que desabrocha em fluidos folíolos que se iluminam, tenuíssimas sombras e dedos de ventos que despontam no vértice das manhãs. Segundo Alberico, “Chagas Val nos convida com sutileza e ternura a entrar nesse jardim do Éden, a percorrer as campinas, a meditar à margem dos cursos d’água, a perceber o nascer, o crescer e o desabrochar dos caules e dos folíolos, o abrir-se de uma rosa em pétalas, que com ternura doma a tempestade.”

Eu gostaria, entretanto de descer um pouco ainda essa vau, até o rio a que Val nos conduz, até esse reino aquático a que tudo pertence, mesmo os vegetais, mesmo o branco papel em cujo silêncio branco o poeta mergulha, ca-in-do, branco, branco na Vertigem. O que são essas flores que ele acha no fundo do silêncio, no fundo do universo que resgata para nos trazer à tona? Pura superfície de um espelho. “O ser votado à água é um ser em vertigem”, diz Gaston Bachelard. Dessa água límpida, de quem que só chega à terra (úmida) por via da água, o universo torna-se, então, jardim do mínimo, de uma natureza criança refletida, a que assomam os pequeninos e as pequeninas coisas: “inhos”, “zinhos”, “rinhas” e “rinhos”, brisas e ternuras de um mundo que é avesso do intempestivo, do ruidoso, do avaro, de qualquer desejo de grandeza, de poder ou império. Nesse universo, o homem nasce de novo, junto com o superlativamente minúsculo: “escassas poeirinhas,/ finíssimas como leves cicatrizes [...]” (Superfície); “um levíssimo traço de vento que atinge um raminho de luar” (Brisa); “ou fluidas franjinhas semeando-se na luz como um luar na relva.” (Chuva na relva)

Abro ainda mais um parágrafo – porque é preciso –, para descer ainda mais, agora na correnteza vertiginosa de um rio-hábitat, que o poeta constrói como “A casa da água”, sendo ele mesmo o ser da linguagem, isto é, a própria casa de seu imaginário constante. Nessa, que é a segunda parte do livro, Chagas Val movimenta um denso rio, ora amanhecido, ora silencioso, ora assassinado, mas que se comunica sempre em seu desejo de vida, às vezes como fragmento na metonímia de um copo d’água, que floresce sobre a mesa, às vezes como memória de auroras arcaicas, de um mundo esvaído, rio abaixo, rio afora, destino do mundo que se entrega nas correntezas heraclitianas. Que belo e admirável poema esse rio nos traz: As sonâmbulas boiadas... (Aí o poeta não deve nada àquela simbólica ontologia do Guimarães Rosa de Sagarana...). Contudo sabemos que este mundo de floração de águas já é narcísico. Não o narcisismo egoísta, que se separa do mundo para encantar-se consigo mesmo, mas o narcisismo cósmico, que vê o mundo como doação, através da qual recupera a sua própria imagem, e à qual, contudo, tenta conservar em seus abismos e vertigens, enquanto o rio passa – só eterno em nós.

E para não dizer que não falei das flores, passemos a esta flor flamejante, Flames Lima, na sua também delicadeza e suavidade – tive a oportunidade de conhecer, a algum tempo, como colega da Mostra Brasil + 500 Maranhão, no Convento das Mercês, lá pelos idos de 2000. Ou melhor, passemos ao seu ensaio A Temática Feminina na Produção Escultórica de Celso Antonio de Menezes. Por coincidência, foi justamente por via da Mostra que ela conheceu a obra de Celso Antônio, quando, trabalhando como monitora educativa, apaixonou-se pela obra desse artista praticamente desconhecido em sua própria terra, o Maranhão, e que já foi aclamado o maior escultor brasileiro, segundo estudos mencionados pela autora. Vale a pena trazer uma explicação da autora, Flames, que João Carlos Pimentel Cantanhede destaca em seu lúcido prefácio: “A escolha desse tema como pesquisa deu-se pela constatação de ter sido Celso Antônio um dos primeiros escultores a retratar a mulher com características nacionais. Mas, apesar de toda a relevância que a produção possui como registro artístico e iconográfico de uma época, ela é quase desconhecida em seu estado natal”.

Flames faz no livro um histórico da escultura feminina, uma breve abordagem da escultura feminina pré-histórica, fala do Brasil e da escultura modernista brasileira, passando, então ao autor: sua origem caxiense, seu início de carreira, seus anos em Paris – quando a produção e a temática, a técnica e a estética do artista se renovam por via de influência de artistas como Rodin, Bourdelle, Maillol e Wilhelm Lehmbruck –, para deter-se na apreciação das particularidades escultóricas relativas a um feminino brasileiro que o artista teve a ousadia de trabalhar: um feminino não idealizado, mais rechonchudo, mulato, mediano, rústico, de alma meio brincalhona, enfim, esse feminino telúrico, de quadris largos, seios fartos e alta genitália que é bem a imagem da brasileira. Nisso a lembrar aquela primeira imagem que traz Flames (aliás, muito feliz nessa escolha), a da primitiva Vênus de Willendorf, deusa da fertilidade, que, sem dúvida, está implícita em todas as esculturas femininas de Celso Antônio. Flames une, assim, o telúrico, o ctônico e o autóctone ao erótico vital, à dinâmica do fogo que arde sem se ver.

Não poderia, por fim, deixar de falar da obra de Felipe Kalyma, A Água e a Coruja, embora não da forma que o livro merece, pois requer um estudo mais analítico e detalhado.

Importa num livro que ele seduza, que dê vontade continuar lendo até o final. Lendo a história de Cecília, uma coruja, que a partir de um encontro fortuito com Daniel, uma águia-pescadeira, são tocados pela necessidade de se verem cada vez mais, o que só pode acontecer no crepúsculo, pois ele tem o caminho do sol, e ela tem o caminho da noite. A bela história envolverá a família de Cecília, de pai doente e mãe doméstica, e que precisa ser sustentada por ela. Envolverá Harry, o sábio amigo de Daniel; envolverá as peripécias atrapalhadas e maquiavélicas de Ondaka, o rei águia-gritadeira; envolverá gangues de aves funestas e até um corvo perigoso, Lúcio Morales. Mas tudo acabará bem, e isso é o que importa.

Numa linguagem muito própria ao público a que se propõe, acostumado A Águia e a Coruja é uma alegoria que se utiliza dos seres alados e de o universo fabulístico de uma floresta à beira-mar que, sem retratar um local específico, espelha o nosso mundo, conseguindo falar do amor – idealizado e cinematográfico – e das relações humanas e mesmo de experiências sociais concretas. Lembrei-me outra vez de uma frase de Bachelard, que retrata bem a intenção do livro: quando um sentimento se eleva no coração humano, a imaginação evoca o céu e o pássaro.

As diferenças que separam esses três belos livros ficam, portanto, bem patentes, mas eles se tocam num outro plano: no sublime espaço do simbólico, dos elementos que unem homem e universo na experiência ao mesmo tempo cósmica e cotidiana do existir, que se expressa em sua plenitude no tenuíssimo silêncio da iluminação estética.

ailtonpoiesis@gmail.com
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