Data de Publicação: 5 de novembro de 2009
ENTREVISTA LUIZ MORAISAlberico Carneiro
Luiz Morais, para o público é importante que cada artista construa uma síntese de sua vida. No seu caso específico, como tudo começou? Fale de sua luta, das dificuldades enfrentadas e como as superou. Meu primeiro poema dado a conhecer ao público foi lido pela profa. Helena Ribeiro em uma sala de aula, em Humberto de Campos, quando eu tinha por volta dos dezoito anos. Daí por diante, quando dei por mim, já estava cantando nas rodas de tambor-de-crioula. Quando a rima não queria fluir no juízo era só enfiar duas talagadas de “tiquira” no gogó que era rima que não acabava mais. E a gente amanhecia! Quanto a minha luta, lembro-me do amigo e poeta Ribamar Feitosa quando num bate-papo de mesa de bar, para descontrair eu disse a ele que apesar de ter levado muito mais porrada do que afagos nesta vida, se não me via realizado pelo menos estava feliz por ter feito um filho, plantado uma árvore e escrito um livro, e de propósito perguntei-lhe o que ele tinha a dizer sobre o assunto. De pronto ele respondeu: “Companheiro Luiz Morais, isso era naquele tempo, hoje, além de tudo isso, tem que ter mais um milhão!”. Quanto às dificuldades, como artista eu sou o homem comum que adulto não esquece o espírito infantil que nele vive. Eu procuro enfrentar os problemas sem nunca deixar de acreditar, criar e amar sem ter medo de errar. O pior na vida de um homem é quando ele não é mais capaz de sonhar, por isso é que nesta lida eu vivo de desafio, amo de improviso e quero morrer de repente.
Luiz Morais, como você se sente hoje, depois de 4 livros publicados? Qual o retorno de público e crítica? Depois dos quatro livros publicados, eu quero publicar o quinto, pois quando há oito anos O punhal e a rosa foi lançado, O mensageiro do tempo já estava na gaveta, onde até hoje continua adormecido... Mas, não esquecido. Sobre a aceitação do público e a avaliação da crítica, quaisquer que sejam serão sempre bem-vindas, tanto faz ser primeiro ou último lugar, na minha concepção o maior prêmio está em saber que a história humana não se faz sem DEUS, aplaudido ou não dentro da arte. Eu jamais deixarei de procurar por aquilo que eu nunca vi, nem de sonhar com as coisas que ainda não tenho. Já dizia o compositor francês Claude Debussy: “A arte é a mais bela das mentiras”.
Você é um artista polivalente. Gostaria que falasse do outro lado: do compositor de toadas, de letras para música de bumba-meu-boi. Fale também da gravação de CDs e DVD. Eu passei um longo tempo puxando escola de samba, na minha terra natal, Flecheiras, em Humberto de Campos, o que faço até hoje. Com 51 músicas divulgadas por todo o Maranhão e fora do estado, hoje, independente das que estão no anonimato, já participei como cantor, de vinis e CDs. Na carreira solo, tenho dois CDs com gêneros musicais variados. Mesmo sendo capaz de compor qualquer tipo de música, eu tenho o máximo cuidado de ver que na preparação de uma composição tem que haver um exercício constante, porque pela expressão de uma letra e a influência da linha melódica, por mais simples que seja, uma música pode se tornar eterna, como Chão de estrelas, As rosas não falam, Jardineira, Asa branca e tantas outras tão atuais quanto se tivessem sido lançadas ontem. Toada é a poesia na boca do povo. Eu faço toadas começando pela melodia, e passo dias, semanas, meses e até anos buscando a letra na natureza e nos sentimentos. Nunca faço só a letra, entrego a composição pronta. A melodia é que me dá a inspiração e a letra a realização.
Quais são os intérpretes que já prestigiaram suas composições? Quais as composições? Papete canta a Voz dos Arvoredos; Vovô canta Balanceando; Zacarias, Matéria de Amor, Bom Jeitinho e outras mais; Samy do Cavaco, Voz do Coração e tantas outras; Jotha Júnior, Linda São Luís, Aroma e Caminhos do Amor; Chico Newman, Nas Estrelas, Amor Correspondido e Guerra e Paz; Allysson Ribeiro, Nossas Raízes (1º lugar no Festival Raízes de 2008); e Eugênia Miranda canta São João na Ilha (quadrilha), Quem te vê (boi de orquestra) e Devaneios (bolero), que foi gravada em CD e DVD com grande aceitação do seu grande público.
Do seu ponto de vista, quais as composições suas que se tornaram consagradas durante as festas juninas? Em primeiro lugar, Voz dos Arvoredos e Dói-dói; em seguida tem Tributo a Coxinho, Encantos de uma Ilha, Linda São Luís, Aroma, Caminhos do amor, Amor Correspondido... Mas vale ressaltar que eu tenho uma música intitulada Miritiba, meu amor, que se tornou o Hino Folclórico de Humberto de Campos e é cantada em todos os eventos culturais do município, com o incentivo da Secretária Municipal de Cultura, Maria Raimunda Espíndola.
Você já foi gravado por Papete. Qual o retorno? É só fama ou há alguma compensação econômica? Papete, como já dissemos, gravou e regravou Voz dos Arvoredos, com grande aceitação em todo o Brasil, por onde ele tem cantado. O principal retorno é a divulgação do nosso nome, o que ele sempre faz, quando sobe ao palco. O que nem todos fazem. Não sei se isso é fama, mas é um reconhecimento. Quanto à parte econômica, tem havido algum retorno, mas não por graça dos órgãos arrecadadores de direitos autorais. Voz dos Arvoredos, por exemplo, nunca me rendeu um centavo sequer de Direito Autoral.
Para você, em que sentido a arte lhe tem ajudado na sobrevivência? A Arte me foi dada de graça ou como uma graça divina, e em alguns momentos tem me dado um par de chinelos, mas não é dela que sobrevivo. Tenho a arte como uma escada, para alcançar o infinito ou como um elo de comunhão com Deus. É nela que entro em êxtase e tal qual uma criança reencontro o prazer de viver a cada dia.
Você é poeta, compositor musical. Como os humbertuenses veem você, sendo hoje, no meu ponto de vista, o filho mais ilustre de Humberto de Campos?Calma! Pé no freio. Mais ilustre não! O quê que é isso, companheiro. Quem sabe um dia eu chego lá. Estou lutando para deixar o meu nome na história. Aproveitando o espaço que me foi concedido por esta importante página literária, quero me congratular com os alunos e professores da Escola Sabino Fonseca, por ter sido homenageado e entrevistado recentemente por eles, com o expressivo empenho das dirigentes, Kélia Amaral e Kelly Regina. Ao povo de Humberto de Campos, toda a minha gratidão, não só por gostar da minha arte, não só pelas homenagens recebidas, não só pelo apoio incondicional dos dirigentes e do Prefeito José Ribamar Fonseca, mas, principalmente, porque sou gente da minha gente e, enquanto houver lá no céu uma estrela brilhando e, sobre o chão de Humberto de Campos, as flores me inspirando, aonde quer que eu vá, estarei cantando a minha terra.
POEMAS DE LUIZ MORAIS
SOMBRA
Reina o silêncio na flora
durante o instante lendário,
tal sombra que se remove,
sobre o mito imaginário.
Aparece lentamente
e como vem vai embora,
um olhar de quem sorri,
um semblante de quem chora
Não há nada de real
a não ser algum martírio,
circulando em minha mente,
sob o efeito do delírio.
E na ânsia do que desejo
desprezo o que não devia,
olhando além do que devo,
revejo o que não queria.
FOLHAS AO VENTO Aquela cor que cintila
dentro dos olhos atentos
dos caçadores noturnos
que ladram ressentimentos
reflete no orvalho aromado
das rosas livres ao vento,
balançando à luz da lua
sob o azul do firmamento
E chega a mim como estrofe
nas cores de um madrigal
transformando o imaginário
num sentimento real.
EM PRETO E BRANCO Sorrindo tento esquecer
do que choro ao me lembrar
que perco quando obtenho
e acho sem procurar
E o tempo sem ver o filme
da minha vida passar
com as cores em preto e branco,
envelhecidas no olhar
E o esquecido de volta
sem querer me devolver
o pouco que foi bastante
para ganhar e perder.
ESTRELAS DA MINHA RUA Outrora foste caminho
na canção provinciana
dois destinos diferentes
numa vida doidivana
Com verde dos campos virgens
e um ego sem estrutura
ostentei os meus anseios
numa vitrine insegura
E se não cheguei ao sol
nem aos encantos da lua
mas convivi com as estrelas
que clareiam minha rua.
OITENTA E CINCO ANOS
DE JOSÉ CHAGAS Nasceu no sitio Aroeira
do antigo Piancó
José Francisco das Chagas
nosso poeta maior
De família camponesa
criado na agricultura
hoje presença atuante
dentro da nossa cultura
Num chão de Lavoura Azul
Pão e Água germinando
com os Canhões do silêncio
segue o poeta cantando
Canção da expectativa
ou o Discurso da ponte
Maré Memória ou de Aço
são águas da mesma fonte
Os Azulejos do tempo
ostentando A Cor do puro
entre os versos do presente
e as obras do futuro
Sobre o Colégio do vento
e os Apanhados do chão
os frutos do sentimento
surgirão como lição
Os telhados que ele edita
tem sombra e mais alegria
como Águas do silêncio
em tempo de calmaria
Aqui citei alguns livros
de um poeta em harmonia
numa grande trajetória
de exemplo e sabedoria
oitenta e cinco anos de Chagas
regados com poesia
(Poemas inéditos do livro O Mensageiro do Tempo)- Próximo texto:
- Edição 210 LUIZ MORAIS
- Texto Anterior:
- Edição 210 EMILY DICKINSON
- Índice da edição - Ano VII