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Edição 210

EMILY DICKINSON

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Data de Publicação: 5 de novembro de 2009
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A exceção é a regra

PORTAL DO POETA


Alberico Carneiro

Portal Vida & Obra


A poeta Emily Dickinson nasceu a 10 de dezembro de 1830, em Amherst, Massachusetts, nos Estados Unidos da América do Norte. Filha do advogado Edward Dickinson e da dona de casa, Emily Norcross. Em 1847, já aos 17 anos, estuda na Amherst Academy uma vasta grade curricular composta por disciplinas como Latim, Francês, Alemão, História Religiosa, Ciências Naturais, Composição Literária e Botânica, dentre outras matérias. Em 1847-1848, em South Hadley, matricula-se no Mount Holyhoke Female Seminary, uma escola de internato para moças, onde estuda Gramática, Química, Álgebra, Astronomia, Fisiologia e Retórica. Em 1852, o periódico Springfield Republican publica seus primeiros poemas.

Alma sensível, a vida de Emily Dickinson foi marcada por inúmeras fases de depressões, motivadas por fatores de ordem afetiva. Morte de amigos, parentes, de amores platônicos ou não a afetaram profundamente e, sem dúvida, marcaram sua vida e seus poemas, de radical acento autobiográfico, onde estão as pegadas de sua verdadeira biografia.

As perdas, como a morte do advogado e intelectual Ben Newton, amigo e incentivador da poeta em seu ofício, em 1853; a morte do pai, vítima de infarto, em 1874; o derrame da mãe, em 1875 e morte, em 1880, bem como outras mortes de pessoas queridas marcam o isolamento, distanciamento e ampliação do quadro depressivo.

Em maio de 1886, escreve um bilhete de despedida para suas primas. O texto é minúsculo em palavras, próprio da discrição da poeta: “Fui chamada a retornar./Emily”. Emily Dickinson morre em 15 de maio de 1886.

Em 1886, após a morte de Emily Dickinson, são encontrados alguns cadernos de papel de carta, entre os pertences da escritora, por sua irmã Lavínia. Ali estava quase a totalidade de sua produção poética, mais tarde inventariada em l 775 poemas. Os poemas datam de 1850 até o ano de sua morte.

Em vida, a poeta não publicou sequer um livro. Esparsamente publicou alguns poemas em jornais, de sorte que sua grande produção ficou para publicação póstuma, surpreendendo de modo geral os leitores e a crítica.

Somente quatro anos após a sua morte, começaram a sair as primeiras publicações em livros, respectivamente em 1890, 1891 e 1896, primeiras publicações organizadas por Thomas W. Higginson e Mabel L.Todd.

Em 1894, Mabel L.Todd organiza e publica a correspondência da poeta.

Em 1955, Thomas H. Johnson organiza, coordena e edita a primeira edição da obra poética completa de Emily Dickinson. São 1.775 poemas.

Portal Crítica

Após a morte de Emily Dickinson, algumas biografias sobre ela foram escritas. O número de estudos acadêmicos, filmes, vídeos e peças teatrais sobre a vida e a obra da poeta são incontáveis. A marca personalíssima da poeta é a individualidade, expressa através de algumas características que podem ser captadas em seus próprios poemas. A autenticidade, que se impõe por uma forma original de representar o sentimento da alma humana, a partir de sua própria alma, como referência de desnudamento, o que revela uma maneira de dizer o poético em poemas curtos, sóbria, sutil e discretamente. Sim, uma maneira de dizer sutil e inigualável.

Referindo-se a ela Harold Bloom, em Gênio, traça o seguinte perfil:

“O gênio do isolamento é muito raro; nenhum outro poeta, nem mesmo Emily Brontë parece-nos tão remoto quanto Dichinson.[...] Se é possível a algum poeta partir do zero a cada novo poema, é inquestionável. Mas, se alguém é capaz de fazê-lo, esse alguém é Emily Dickinson.

(BLOOM, Harold. Gênio. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003, p. 361)

Portal de Poemas

è

A memória tem frente e fundos
Como se fosse uma casa;
Possui até mesmo um sótão
Para os refugos e ratos.
[...]
(DICKINSON, Poemas Escolhidos, p. 53)

è

A manhã se dá a todos,
A noite, para alguns poucos;
A raros afortunados,
A luz da madrugada.
(Id. Ibid., p.51)

è

O fruto proibido tem um aroma
Que desdenha dos pomares legais –
Quão deliciosa jaz na vagem
A ervilha pelo dever enclausurada –
(Id.Ibid., p.49)

è

Muitos cruzam o Reno
Neste cálice, que é meu
E o ar da velha Frankfurt bebericam
Em minha escura cigarrilha.
(Id. Ibid., p.51)

è

Eu fui um pintassilgo, nada mais;
Pintassilgo, nada menos –
A pequena nota musical desprezada,
Em seu lugar a inscrevia.

Por andar tão junto ao solo,
Ninguém me procurava;
Era tão tímido que não me acusavam de nada –
Um pintassilgo deixa pegadas mínimas
No assoalho da fama.
(Id. Ibid., p.43)

è

Ao ver o sagrado desvão
Denominado Memória,
Escolhe uma vassoura reverente
E faz em silêncio o teu trabalho.

Será um labor de surpresas –
Além da própria identidade,
Outros interlocutores
São uma possibilidade.

Nesses domínios é nobre a poeira,
Deixa que repouse intocada –
Não tens como removê-la,
Mas ela pode silenciar-te.
(Id. Ibid., p. 59)

è

Perdemos, porque ganhamos –
Sabendo disso, os jogadores
Lançam seus dados de novo!
(Id. Ibid., p.61)

è

A vitória é o bem mais querido
Por aqueles que jamais vencem.
Para se compreender um néctar,
Requer-se necessidade intensa.
[...]
(Id. ibid., p. 63)

è

Para as assombrações, desnecessária é a alcova,
Desnecessária, a casa –
O cérebro tem corredores que superam
Os espaços materiais.

Mais seguro é encontrar à meia-noite
Um fantasma,
Que enfrentar, internamente,
Aquele hóspede mais pálido.

Mais seguro é galopar cruzando um cemitério
Por pedras tumulares ameaçado,
Que, ausente a lua, encontrar-se a si mesmo
Em desolado espaço.

O “eu”, por trás de nós oculto,
É muito mais assustador,
E um assassino escondido em nosso quarto,
Dentre os horrores, é o menor.
(Id. Ibid., p. 57)

(DICKINSON, Emily. Poemas Escolhidos. Seleção, tradução e introdução de Ivo Bender. Porto Alegre: L&PM, 2008)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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