Data de Publicação: 19 de novembro de 2009
As Crônicas para Cândida, de Manuel Rubim da Silva
O cronista é alguém que “tem ar de remexer numa caixa de guardados, ou, antes, de perdidos”, escreveu Carlos Drummond de Andrade. O cronista é um sujeito de dupla contradição. Ele não quer tratar de eternidades, e sabe que sua palavra está entregue à devoração do tempo, Chronos, ao sopro do vento seguinte, mas é justamente ele, com sua linguagem simples e sua cotidianidade prosaica, que melhor fotografa seu tempo. O cronista atenta para as desimportâncias, para o que, despercebidos, deixamos passar: as pessoas, um comportamento, um encontro, um dito espirituoso, um dia de festa, diferentemente do historiador, que sonha grandes coisas. É por esse mínimo, por essas humildes efemérides e “coisas perdidas” que os cronistas também vão ficando, e que, hoje, aquele historiador dos grandes e dos largos tempos tenta dele se aproximar.
É na condição de cronista que o Contador Federal e Professor Manuel Rubim da Silva nos apresenta o seu Crônicas para Cândida – Paisagens Culturais e Sociais – São Luís: Capital Brasileira da Cultura, livro-homenagem à mãe do escritor, mas cujo conteúdo expressa mais propriamente os subtítulos. O livro foi lançado no dia 23 de setembro de 2009, nos jardins do Palacete Cristo-Rei.
Painel do tempo que tem por confluência, ou por eixo condutor do percurso São Luís do Maranhão, mas com variações à primeira vista descontínuas, passando por temas bastante diversificados: enredos de bumba-meu-boi, bossa-nova, cinema brasileiro, G8 e preconceito, reunindo, entretanto, todas sob um mesmo discurso marcadamente ludovicense, sempre com este desejo de guardar as coisas, de torná-las duráveis como as pedras, de lançar uma voz para além do que é simplesmente mundano e físico.
Aliás, quando um autor reúne suas crônicas num livro, nos diz que elas têm um valor que ultrapassa a mera circunstância e o papel de embrulho. Deste modo, Rubim, ao colocar a ênfase de suas crônicas no “cultural” e no “social”, centralizando-se nas pessoas e em sua humanidade, no companheirismo, na irmandade, na tradição e na genealogia, por antecedência requer um instrumento de permanência, o instrumento-livro, da palavra que permanece – como literatura.
É neste sentido que o autor se revela como “testemunha do que observamos ao longo de cinco décadas em que apreciamos as manifestações socioculturais, em sentido amplo, desta cidade e de outras, em princípio, via as ondas de rádio, leituras de jornais e revistas, através de discos de vinil, e depois, em alguns momentos conversando, presenciando, estimulando – resolvemos reunir as crônicas que escrevemos ao longo de dez anos, para publicá-las em um livro, em homenagem à nossa mãe, Cândida Rubim da Silva, que completa 86 anos, ao tempo em que homenageamos, também, São Luís, nossa cidade, que, de forma merecida, recebe e ostenta mais um título: Capital Brasileira da Cultura 2009”.
Curiosa sintonia essa, que não podemos entender como simples “espelhamento”, ou “metáfora” entre D. Cândida e São Luís. Permanecem, evidentemente, em dimensões completamente diferentes, reunidas apenas pelo título que põe D. Cândida em evidência, mas aponta também para a cidade. É uma relação que só parece se constituir indiretamente. Entretanto, é preciso perceber que mãe e filho, com suas respectivas famílias, confluem para a mesma cidade, e que esta, parece manter, lá, na distância última da imagem, aquele caráter simbólico do seio e do acolhimento. Não admira, pois, que a cidade apareça idealizada: Ilha do Amor, Ilha Rebelde (a que não se entrega, a que luta, a que vence...), Ilha da Cultura, quando não com um caráter que lhe concede todo um mimo: “donzela rebelde”, num poema da orelha do livro, e “Francesa bela”, epíteto que lhe dá Chagas, cantador do Boi da Maioba. Mãe e a cidade participam, portanto, da mesma imagem do feminino acolhedor e do feminino heróico.
Ao lermos as crônicas de Manuel Rubim da Silva, encontramos, contudo, a cidade em toda sua pujança cultural, com suas noites, suas festas, seus carnavais, blocos tradicionais e casinhas da roça, seus cantadores de bumba-meu-boi, – principalmente a presença do Boi da Maioba – seus pregoeiros já escassos ou desaparecidos, e tantos que construíram ou constroem o imaginário desta cidade. A figura do compositor Antonio Vieira percorre quase todas as crônicas, e a este se juntam Lopes Bogéa, Nascimento Morais Filho e Valdelino Cécio. Frequentam, ainda, essas crônicas da cidade, Chico Saldanha, Arlete e Nauro, Ubiratan Teixeira, Dona Teté, Herbert de Jesus Santos... Em suma, o grande mérito deste livro é pôr diante dos nossos olhos uma cidade com sua gente, sua paisagem e folguedos e seus artistas, num quadro simultâneo, em que todos estão vivos, inclusive os mortos, como se percorrêssemos seus dias, suas noites, seus becos, seu coração pulsante de quase quatrocentos anos, e nos assombrássemos com nossa própria fragilidade, e fôssemos contagiados por uma inevitável nostalgia.
Se toda cidade tem os seus guardiões, Crônicas para Cândida nos põe diante de um. Esta sensação pode não ser unanimidade, pode ser uma construção muito subjetiva, mas elejo involuntariamente esses guardiões, são pessoas que têm um amor entranhado pela cidade, que parecem querer proteger seus muros e sua memória da derrisão do tempo, que se importam com seu abandono, com os lugares que se esvaem, com a ação da ruína, que leva inclusive seus poetas e seu canto, que conjugam, não raras vezes, os verbos no pretérito, porque sentem que há algo errado, e dão o alerta. Esse livro é um destes admiráveis guardiões que toda cidade deve ter. Às crônicas, contudo, se impõem limites: são os limites dos meios, os limites dos jornais, de todos os jornais de uma cidade pequena. Quem realmente abandona a cidade, quem são os donos dos prédios que caem? Quais sãos órgãos responsáveis? Quem está à frente desses órgãos, numa “Capital Brasileira da Cultura” que derrui? Quais são as leis? Quais as penas? Quais as compensações? Nós passamos pelas ruas, e nosso coração dói.
Obviamente, como já anunciamos, não se pode reduzir o livro a um painel pitoresco da cidade. O autor, com verbo clássico, mas simples, introduzindo eventualmente um jogo monologal ou dialogal, que dinamiza suas crônicas, faz-nos passear ainda pela poesia e pelo violão de Vinícius e Toquinho, e pela bossa de Tom Jobim; em outros momentos, ora demonstra uma preocupação com os problemas e destinos do globo; ora, numa veia mais subjetiva, nos emaranha, resenhando apaixonadamente canções de Chico Saldanha, sem perder a oportunidade de nos remeter à efervescência cultural, a outros valores musicais e humanos, e mesmo a uma certa “manha” da Ilha. Rubim tem uma imensa capacidade de ir do mundo à vizinhança, e de mover-se, temporal ou espacialmente, em grandes distâncias, até num mesmo texto, e isto nos traz aquela confiança que precisamos ter em quem sabe do que fala.
Enfim, Crônicas para Cândida – Paisagens Culturais e Sociais – São Luís: Capital Brasileira da Cultura deve ser inserido num outro nível de crônica: é um documento de vidas que se entrelaçam em torno de uma mãe e de seu filho, porém, mais ainda, é o registro documental de uma cidade, de um ponto de vista sobre esta cidade e sua gente, o qual, almejando ser literatura, torna-se história, sem deixar de lembrar, no íntimo, que toda vida é um caminho, ou vários.
ailtonpoiesis@gmail.comJOSÉ DO NASCIMENTO MORAIS, UM LUTADOR Lembrou-me Lopes Bogéa, nosso grande e particular amigo, conhecedor, como poucos, da gente e da cultura desta cidade, que em dezenove de março comemora-se o nascimento de José do Nascimento Morais, que veio ao mundo em 1882, nesta ilha cultural, fruto da união de Manuel do Nascimento Morais e Maria Catarina Vitória.
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Paralelamente à atividade de professor, José do Nascimento Morais, em que pese a origem humilde, agravada pelo fato de ser negro, tornou-se um ícone do jornalismo independente deste Estado, após completar seus estudos no Liceu Maranhense, exercendo-o por cinco décadas. Para tanto, utilizava-se de vários pseudônimos, de acordo com os assuntos que abordava em seus escritos para os jornais. Versátil, era ao mesmo tempo critico literário e de teatro, além de redator de editoriais dos jornais em que trabalhava, sendo oportuno destacarmos a coluna intitulada Por trás das cortinas.
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José do Nascimento Morais legou não somente artigos, escreveu livros sobre poesia, como Círculos; o romance Vencidos e Degenerados; o ensaio Neurose do Medo, antes comentado; diversos contos em Contos de Valério Santiago, além de Puxos e Repuxos, que reunia artigos que dizem respeito às polêmicas travadas com o grupo literário liderado por Antonio da Costa Lobo.
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Membro da Academia Maranhense de Letras, entidade que presidiu, morreu aos 22 de fevereiro de 1958, afirmando repetidas vezes: “Eu sou um lutador!”
Esperançoso pelo frutificar de sua luta, deixou a chama da esperança por mudanças, no fulgor dos olhos verdes do ecologista, prosador, folclorista, poeta e jornalista José do Nascimento Morais Filho. Este, inconformado, fiel à luta do pai, desafia a ordem unida, almejando ainda presenciar, entre outros sonhos de seu genitor, a prevalência da justiça social e o fim dos preconceitos.
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