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Edição 211

PLANO EDITORIAL DA SECMA: PRÊMIO GONÇALVES DIAS DE LITERATURA

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Data de Publicação: 19 de novembro de 2009
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É estimulante ler os livros de escritores maranhenses recém-lançados pelo Plano Editorial da Secretaria de Cultura, Prêmio Gonçalves Dias. Mais estimulante é constatar que essas obras literárias reaquecem e enriquecem o nosso melhor patrimônio, o das Letras.

Por vocação e tradição, os maranhenses sempre marcaram presença no contexto nacional e internacional, como uma referência de criadores de grandes obras literárias.

No atual momento vale ressaltar obras como Um cachorro um vinho uma herança e um samba, contos, de Geraldo Iensen; Céu de Ilusões Sobre Crimes e Artes, novela, de Vinícius Bogéa; Canções de Agosto, romance, de Márcio Coutinho; O Assassinato de Charllenne, teatro, de Igor Nascimento; O Plano, contos, de Marcello Chalvinski; A Manguda de flores, contos, de Arimatea Coelho; Escritura do silêncio, poema, de Chagas Val; Labirintos, novela, de Ubiratan Teixeira; A Águia e a coruja, literatura infanto-juvenil, de Felipe M. Kalyma, e A Temática feminina na produção escultórica de Celso Antônio de Menezes, ensaio, de Flames Lima, que confirmam as expectativas de que a renovação da linguagem literária em prosa começa a delinear a tessitura de um texto que corresponde aos anseios da modernidade.

O renascimento nas obras de arte sempre foi um fenômeno concreto e constante ao longo dos séculos. Nas letras, não poderia ser diferente.

Inverno e primavera sempre reverdeceram o verão e o outono que recebem com júbilo as flores e os frutos novos como um tributo das leis naturais.

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O Plano Editorial e a Comissão Organizadora


Os escritores maranhenses continuam demonstrando que, apesar da incúria do poder público em gerir a cultura no Estado do Maranhão, o talento para a criação literária sempre se sobrepôs à indiferença dos administradores.

Quando em 1994, a governadora Roseana Sarney extinguiu o Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado, SIOGE, uma instituição que iria completar 100 anos de serviços prestados ao Estado, os artistas se ressentiram de um golpe jamais esperado. Com isso, houve um sensível prejuízo para os Planos Editoriais existentes do próprio Sioge, da Secretaria de Cultura do Estado e da Fundação Cultural do Município de São Luís, já que os livros eram editados na gráfica daquele Órgão.

Há 14 anos, os Planos Literários sofrem solução de continuidade e, em 2007, preocupado com esse aspecto decadente, o Secretário de Cultura Joãozinho Ribeiro resolveu criar um novo Plano Editorial para a SECMA. Para tanto, criou uma Comissão constituída pelos escritores Nauro Machado, Wilson Martins, Antonio Aílton, Alberico Carneiro, José Maria Nascimento e Zema Ribeiro. Como resultado dos estudos dessa Comissão, foi oficializado o Plano Editorial SECMA Prêmio Gonçalves Dias de Literatura, lançado no auditório da Biblioteca Pública Benedito Leite, em acontecimento solene. É preciso tornar-se público e notório que esse Plano foi posto em prática no governo Jackson Lago e executado por Joãozinho Ribeiro que efetivou o pagamento do Núcleo de Literatura, das Comissões de Leitura, dos prêmios dos escritores e das edições dos 27 livros vencedores.

Somente quase um ano depois, em novembro de 2009, parte dos livros foi lançada, por insistência dos escritores premiados, reclamando seus direitos autorais em jogo, com razão.

Foi uma surpresa para os membros da Comissão que elaborou o novo plano ao ver os livros lançados, mudadas as capas e os expedientes com os dados oficiais trocados, sem uma Nota de Esclarecimento ao público sobre a existência do Núcleo de Literatura e da origem e execução do Concurso Editorial Gonçalves Dias, em 2008. Fato agravante: com o lançamento no final de 2009, constata-se que o concurso literário não acontecerá este ano.

Os titulares das instituições culturais têm que entender que um escritor não pode ser confundido e tratado como um personagem ou protagonista de um livro, cuja existência é virtual, fictícia, portanto não tem vida biológica e psicológica real. O escritor, pelo contrário, senhores administradores, têm vida real, inclusive família e necessidades vitais como todos os seres humanos.

Um engraxate, por exemplo, faz sua graxa e recebe dinheiro imediatamente pelo seu trabalho. O cabeleireiro, a manicure, o professor, o médico, concluídas as suas funções, recebem imediatamente o seu pagamento. Por que os escritores têm que trabalhar de graça para o Estado ou, então, receber suas cotas de livros após vários meses de editados?

Senhoras e senhores administradores, os escritores são gente, trabalham, produzem. Sim, os escritores são, conforme disse Ezra Pound, as antenas da raça. Mas antenas aqui de carne e osso que sentem fome e frio, dor e necessidade.

CÉU DE ILUSÕES
SOBRE CRIMES E ARTES, de Vinícius Bogéa


Em cada esquina de São Luís, há olhares que despertam suspeitas, há pessoas tão cruéis quanto frias. Um mundo onde o maior inimigo é a própria consciência, onde os maiores segredos são os piores algozes. Nunca a arte e a morte foram tão íntimos, ligados por um sentimento que tem um único propósito: vingança. Não basta matar, a dor que consome é a melhor parte. E quando se olhar para trás, já será tarde demais. “Confiança perdida, vida perdida”. Cada um faz por merecer o seu próprio destino.

Vinícius Bogéa nasceu no dia 24 de novembro, no município de Viana. Filho de Adelaide Campelo e Lourival Bogéa. Cursou o ensino fundamental e médio no Colégio Dom Bosco. Aos 32 anos de idade, Vinícius Bogéa está concluindo o Curso de Jornalismo na Faculdade São Luís.

Estréia como escritor com a novela Roubando Sonhos, em 2007. A sua mais recente obra novelística, Céu de Ilusões Sobre Crimes e Artes, foi classificada pelo Plano Editorial SECMA, Prêmio Gonçalves Dias de Literatura.

Prefácio do livro Céu de Ilusões

A literatura ágil dos
romances policiais


JM Cunha Santos

Uma obra de ficção não tem que estar necessariamente circunscrita à imaginação do autor. Recursos de narrativa permitem criar ambientes psicológicos solenemente reais para personagens que se moldam fictamente em uma história. Estes recursos são utilizados de forma bem plural pelo escritor Vinícius Bogéa no romance policial intitulado Céu de Ilusões – Sobre Crimes & Artes.

Raro cultor deste gênero de literatura no Maranhão, Vinícius é um insistente criador de personagens bucólicos da vida real e foge o quanto pode das descrições clássicas, talvez para não cansar o leitor moderno, este raro, apressado e pouco persistente. Suas histórias são contadas com rapidez, privilegiando o diálogo e as cenas superpostas de forma a manter o leitor em suspense constante e trazê-lo para dentro das tramas urdidas com muita habilidade e poder de sedução. Neste romance, o escritor consagra uma antiga fórmula dos romances policiais, misturando personagens decadentes e figuras de proa da sociedade no mesmo cenário de crime e corrupção. Um prefeito, um inglês com ares de lorde, um diagramador alcoólatra, que vaga insone pelos becos da Praia Grande dentre outros, submergem numa sucessão de crimes que visam acobertar um crime original seccionado pela chantagem e pelos enigmas de uma personagem misteriosa. Neste cenário, nem mesmo o inominável crime de desvio de verba da merenda escolar escapa ao realismo dessa ficção.

O romance policial, sem sombra de dúvidas, representa a cultura de massa e, conforme intui a professora adjunta da Faculdade Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Fátima Regis, contrariando as teses convencionais de que a cultura de massa possui baixo valor cultural e estético, seus produtos vêm ao longo dos anos estimulando o desenvolvimento de nossas habilidades cognitivas. Em seu estudo, a professora mostra que tradicionalmente a indústria cultural estabelece que a produção de cultura de massa tem baixo valor estético. O argumento, que ela contesta, seria que seus produtos baseiam-se em fórmulas repetitivas e narrativas simples, de compreensão imediata que não demandam esforço de interpretação nem tampouco suscitam reflexões posteriores. Estudos recentes – e não apenas da escritora carioca – têm se dedicado a inverter essa tendência, o que, de resto, fica bem demonstrado neste romance de Vinícius Bogéa que, além de oferecer experiências de valor estético e cultural relevantes, coloca em cheque os valores da sociedade em que vivemos.

Livros de texto ágil, que proporcionam leitura acessível, mas sem simplismos redutores, têm abordado temas controversos em múltiplas áreas do conhecimento. É nessa sociedade de espetáculos de horror, nesta sociedade veloz, que o romance policial sobrevive sob uma visão crítica social.

Quem teve contato com a escritora Agatha Christie e com o poder das células cinzentas do deselegante e auto-suficiente inspetor Hercule Poirot, conforme descrito em um ensaio, sabe a que estou me referindo. Os enigmas construídos em torno de assassinatos e outros crimes praticados em circunstâncias obscuras, que preencheram os 83 romances policiais da escritora inglesa, ganharam uma legião de seguidores, entre os quais se inscreve hoje o nosso Vinícius Bogéa. Fato é que os crimes hipotéticos, vivenciados na imaginação de Agatha Christie, valeram-lhe traduções para mais de uma centena de línguas e tiveram tiragens de milhares de exemplares adquiridos por um público fiel e constante.

Historicamente, é a partir dos anos 70 do século XIX que começa a circulação de uma literatura do crime, publicada sob a forma de romances ou folhetins. Com o passar dos anos, houve um incremento da circulação e publicação deste gênero, tanto entre autores brasileiros quanto em relação às traduções. Esse processo tem relação com o início de formas de comunicação mais eficazes e ágeis, sendo a imprensa grande responsável por este fenômeno. Homem de imprensa, praticamente criado dentro de uma tipografia, Vinícius, também neste livro, não resiste ao apelo dos sentidos.

Desde os primeiros contos de Edgar Allan Poe, o romance policial foi produzido ininterruptamente por mais de um século, conquistando seguidores de seu modelo em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. Seguindo a formalidade presente em toda a literatura de massa, Vinícius, solitariamente talvez, se aventura a seguir esse modelo no Maranhão. Modelo esculpido pela relação permanente entre os personagens e a ação.

Seguindo a fórmula que junta crime e motivações políticas, a história contada por Vinícius é plena de reuniões secretas, a partir das quais o mal se alastra para corromper as almas de povos e Nações. A linguagem simples, neutra e direta, adotada pelo escritor, constrange, de certa forma, os estereótipos literários a que nos acostumamos no Maranhão. Mas nem sempre ele não terá razão. Vera Lúcia Follain de Figueiredo, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, faz uma apreciação circunstancial sobre essas diferenças: “a indiferenciação entre os diversos campos de produção cultural vem deixando, hoje, de ser uma conjectura para se tornar uma realidade e atinge, inclusive, a esfera da crítica, cujas reflexões vão inspirar certos tipos de produtos populares, sendo por eles incorporados como mais um dispositivo de sedução. A metalinguagem deixou de ser exclusividade das obras destinadas a um público restrito, de iniciados”.

À guisa de prefácio, já que o tempo não me permitiu análise mais pormenorizada, cumprimento este escritor, Vinícius Bogéa, que encontra no gênero do novelesco policial o espaço necessário para despir a alma humana e se conformar à condição de mais um exímio contador de histórias deste país.

Um Cachorro Um Vinho Uma Herança e Um Samba, de Geraldo Iensen

Este livro é uma respiração; um sopro no coração; é sangue. Pelas suas páginas somos guiados às profundezas da alma humana, onde nos encontramos com a violência dos sentimentos e suas crias: solidão, traição, isolamento, tédio... Mas misturado a tudo isso, amizade, paixão, desejo, surpresa, em todas as nuances possíveis.

São histórias? São, mas inúmeras dentro de cada uma. Num momento é narrativa pura e, logo adiante, tudo se dissolve em poesia: é como um rio que vinha denso e único e vira um estuário espalhado e vasto, como o fim do Okavango, no Kalahari. São quatro contos cujos personagens vão além de cachorros, vinhos, heranças ou encontros. Ligando todos eles, cada um de uma maneira diferente, a Música. A trilha sonora é um elemento de desfoque nessa obra, quase um personagem. Experimente ler usando a trilha indicada.

Geraldo Iensen é jornalista e fotógrafo. Nascido no Paraná, vive no Maranhão desde criança.

Publicou os livros O Legado de Torres (contos, 1997), Uma Outra Versão (novela para jovens, 2001) e Sêpsis (novela, 2006). Atua no teatro como autor e ator.


Canções de Agosto, de Márcio Coutinho

Maranhense de São Luís, advogado, cursou Administração de Empresas. Autor do livro Grajaú, um estudo de sua história, lançado em 2006. Está finalizando um livro sobre a Fundação de São Luís. Premiado nacionalmente com o conto Á Flor da Pele, tem artigos publicados no Jornal O Estado do Maranhão.

O GOSTO DAS CANÇÕES

Para diferenciar o conto do romance, os dois gêneros rnais representativos da prosa, algum teórico concebeu a seguinte imagem: se fossem representados por uma árvore, o conto seria um galho, um flagrante, uma fatia de vida, de Mundo linear e condensado; o romance seria a árvore em sua totalidade, a apreensão de um Universo particular da vida, com suas complexidades e inter-relações de conflitos que se desenrolam e fluem para concretizar-se em um Mundo à parte, inventado ou relatado.

Pois bem, a primeira virtude deste romance do estreante ficcionista Márcio Coutinho reside exatamente na sua habilidade em estruturar a história como se planejada em mosaico de tempo e espaço, de tal forma que a coerência e o fio condutor da narrativa nunca confundem ou traem o leitor. Ao contrário, desencadeiam no espírito de quem lê uma ânsia incontrolável de desvendar os acontecimentos e os destinos de cada personagem. Embrenhados nesta artimanha ou mérito literário resta-nos apenas ler página por página, até o fim, para só assim saciarmos nossa sede de curiosidade.

Mas o talento de Márcio Coutinho não se restringe ao arcabouço do romance. A argamassa essencial vem depois, a engenharia psicológica que irá moldar o caráter atormentado, a personalidade criativa e autodestrutiva do protagonista João das Dores.

Valendo-se de duas dimensões de tempo, uma presente e outra pretérita, em flasbback, a história flui com clareza em ambientes e esferas emocionais diversas, sem deturpar a unidade narrativa que, como um rio, corre inexorável para um mar fatal e conclusivo.

Canções de Agosto é um romance de um estreante que já nasce consciente do seu ofício de escrever num gênero que, entre nós, mais de poetas, poucos cultivam ou pelo ardor de construir e inventar estórias ou pela escassez mesmo de talentos onde só alguns de nós se destacam, a exemplo de (modernamente lembrando) Josué Montello, José Louzeiro, José Sarney, Ubiratan Teixeira, Ronaldo Costa Fernandes...

Numa linguagem clara, sem malabarismos sintáticos ou estilísticos, Márcio Coutinho constrói no seu laboratório ficcional um personagem tipicamente maranhense, uma síntese de fatalidade social superada pela criatividade que caracteriza a nossa inteligência artística e o nosso patrimônio cultural. João das Dores, da forma como foi modelado pelo autor, atormentado e inadequado ao Mundo, embora transformando esse mesmo Mundo com sua inventividade lapidada na morbidez, pode já fazer parte da galeria de nossos personagens inesquecíveis.

Por essas grandes surpresas de um autor até aqui anônimo de nossa critica consciente do fazer literário, Márcio Coutinho merece atenção de nossa intelectualidade. É um talento que promete, um inventor de ambientes, personagens e Mundos capaz de, com disciplina e o ardor necessários de um escritor convicto, enriquecer o panorama de nossa literatura com uma ficção digna de nossas tradições literárias.

Desta forma, a Secretaria de Cultura do Estado cumpre as suas aspirações de revelar talentos que, sem essa janela de oportunidade, jamais sairiam das gavetas anônimas, ao mesmo tempo em que permite consolidar artistas que já trilham uma carreira, mas não têm apoio para publicarem suas obras num sistema editorial caro e insensível.

Alex Brasil

O Assassinato de Charllenne, de Igor Nascimento

Igor Nascimento, natural do Maranhão, autor de As três estações da loucura, Os desclassificados, já publicou crônicas e contos na Revista BULA + e escreve para o Fanzine Glosa, lançado periodicamente na Ufma. Estréia como autor através do Plano Editorial Secma, onde simultaneamente publica As Três estações da Loucura e O Assassinato de Charllenne.

O Assassinato de Charllenne

Seguindo a mesma linha de Dois Perdidos Numa Noite Suja e O Abajur Lilás, de Plínio Marcos, e bebendo avidamente na fonte do Teatro do Absurdo, especialmente no Ionesco de O Rinoceronte e no Búchner de Woyzeck, o autor de O Assassinato de Charllenne constrói uma trama que flui por um texto cortante, de diálogos rápidos e retrucas afiadas, ditos por quem vive na e da noite agitada das grandes cidades, ocupando-se apenas das puras e simples compra e venda de prazer. E também por quem anda fardado fazendo os que dormem sonharem que existe alguma ordem no mundo, mesmo que travestida de coerção ideológica. E, julgando cirurgicamente tudo lá de cima, Deus e o Diabo, e o eterno tribunal da razão e da loucura, do bem e do mal. Só que, aqui, bem e mal são relativos. São, na verdade, o que na verdade são: duas faces da mesma moeda. Porque pode até ser que haja diferença entre cara e coroa, mas, para o pagamento, faz-se necessário a moeda inteira. Mas que não vá o leitor pensar que esta peça traz em si alguma intenção moral, moralizante, moralizadora, ou coisa que o valha. A intenção de Igor Nascimento é simplesmente a de contar uma boa história, o caso pelo fato, sem mais delongas. Porém, é óbvio que essa intenção não é gratuita, o que fica claro quando, à medida que a história avança, é que vemos desprender-se dela a profundidade de seu sentido, através da exposição de algumas verdades que latejam e motivam a raça humana, involuntárias e quase imperceptíveis como o bater do coração. Pois, como dizia Nietzsche, a única coisa que diferencia o ser humano do resto dos animais é que, ao contrário destes, que só podem contar com o instinto, aquele tem consciência da necessidade. Necessidade de prazer, de saciar a fome, de matar a sede, de gozar. O que não podemos dizer com certeza é se, entre os animais, existe a variedade de perversões que se apresentam entre os seres humanos. Talvez os animais pervertidos, como seus correlatos humanos, simplesmente saibam esconder sua torpeza de caráter do resto do rebanho. E, se é verdade o que se pode inferir da leitura de um Freud – que quase todo ser humano tem alguma perversão em algum grau, então o que faz a normalidade é justamente um conjunto de pervertidos fingindo ser normais. Como o assassino da peça. Seu gozo residirá em dar de presente uma herpes a Charllenne. Ele a acha especial, mas Charllenne não passa de uma puta qualquer. Sua única motivação é ser bem paga. Justamente por quê? Para matar a fome, saciar a sede, gozar. Talvez essa seja a essência da perversão: a aceitação para si de que é necessário ter prazer. Mais que isso, é imperativo. Essas são as verdades do ser humano. Verdades frágeis, dependentes do bom funcionamento do todo, e que, à primeira falta de ar, ao primeiro apetite contrariado, à mais leve disritmia, se revelam incômodas e fedorentas como um imenso rinoceronte atravessando a trote uma praça pública.

A primeira reação é fazer de conta que não estamos vendo, querer que vá embora, ignorar solenemente, o que, ao contrário, só agrava o problema, e, quando menos esperamos, lá estamos nós, outrora belos e radiantes, agora humilhados e ofendidos numa fila do SUS. São essas verdades que Nascimento apresenta brilhantemente nesta pequena fábula que tem todas as características que compõem um verdadeiro clássico.

Joaquim Filho

O Plano, de Marcello Chalvinski

Escritor, poeta e publicitário, Marcello Chalvinski nasceu em Curitiba e, depois de percorrer muitos estados do país, fixou-se em São Luís (MA). Em 1999, estreou em livro com Anjo na Fauna & Outros Poemas.

UM PLANO CRIATIVO

Antes de qualquer comentário sobre O Plano, primeiro lugar do Prêmio Gonçalves Dias de Literatura, na categoria romance, é bom lembrar que o seu autor, Marcello Chalvinski, é um criativo multimídia: poeta, publicitário, compositor e, sabemos agora, um prosador talentoso na arte de engendrar enredos, diálogos e tramas.

E a partir dessa química cultural de Chalvinski que, em parte, pode-se explicar o caráter original de seu romance, alicerçado numa plurilinguagem, que acentua o ritmo ágil, às vezes alucinante, que dá ao leitor a impressão de estar lendo na tela de um computador, como convém às velocidades de informação no mundo digital, onde a assepsia do texto é parte fundamental da mensagem.

Tendo como pano de fundo um cenário brumoso, ou difuso, que bem poderia ser o dos anos de chumbo da ditadura militar, as ações se desenrolam, surpreendendo o leitor, com um enredo não-linear e imprevisível. A história, aparentemente desconexa, evolui para uma unidade, que consolida o romance.

Quando achamos que Zeth, a protagonista, e seus companheiros Miro, Candô e Chicó vão, por força do momento histórico e político do País, imiscuir-se na clandestinidade, em oposição ao regime, eles simplesmente constróem seus destinos na direção do escapismo, para viverem suas vidas numa psicodélica aventura de sexo, drogas, rock’n’roll e poesia.

Mas, nem mesmo assim os dois mundos se distanciam, ao contrário, tangenciam um no outro, provocando um curto-circuito que revela a tensão máxima do romance, traduzindo-se em violência, aventura, mistério e tragédias.

O Plano exercita um jogo de imaginação, que revela grande perícia. A perícia de um escritor maduro, que entrelaça planos e contraplanos, num mosaico narrativo que navega pelas mais variadas técnicas, até aportar no realismo mágico, ancorado, ora no sonho, ora no delírio psicodélico dos alucinógenos.

É tentador buscar traços autobiográficos neste romance ilusoriamente assimétrico e deveras instigante. Porém, é inútil. A inventividade de Chalvinski estonteia o leitor, que vê-se enredado num mundo ficcional, arquitetado ao sabor de uma imaginação criadora de mundos e pessoas.

A sensação que nos resta, após a leitura de O Plano, é a do deleite, além de uma forte impressão de que a literatura maranhense ganha um vigoroso prosador, fato raro em nosso panorama literário, mais pródigo em gerar poetas.

Chalvinski, com uma linguagem singular, sem ranço de escolas ou de mestres literários, impõe o seu D.N.A. estético nessa obra merecidamente premiada. Se revelar novos talentos da nossa literatura era o plano da Secretaria de Estado da Cultura, O Plano é perfeito para ilustrar o êxito pretendido.

Alex Brasil
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br