Data de Publicação: 7 de outubro de 2009
“A necessidade não tem lei”Sto. AgostinhoQuando colocamos os olhos em um poeta, logo o identificamos de cara. Seu texto, quase sempre, nos arrebata e nos faz vibrar, pois escrever ainda é um bem valoroso. Um poeta é um ser emblemático dentro de nossa sociedade de sins e nãos, de escolhas imediatistas. Ele (o poeta) não foi posto no mundo para pensar, agir, produzir nesta morfologia social. Pelo contrário, sua maior virtude é justamente tornar belo e/ou sublime a obviedade do mundo que o cerca. O poeta não existe para consertar o mundo, mas sim para remediá-lo com suas metáforas. Este doido e irreverente palco de comédias e tragédias efêmeras.
Foto:JUNIOR FOICINHA
O poeta e advogado Daniel Blume autografa seu livro de poesias (no detalhe)
Agora, um advogado inverter a ordem natural das coisas e optar pela poesia, aí sim, é um paradigma que se instala. Pois, quem em sua sã consciência, trocaria o mundo jurídico pelo do subjetivismo (apesar de que o Direito também é subjetivo, muitas e determinadas vezes), da prosa, da poesia, da utopia? Este é o caso de Daniel Blume, maranhense, nascido nos idos de 1977, bacharel em Direito pela Universidade Federal do Maranhão (Ufma) e autor de vários livros jurídicos e de poesia, que nos apresenta a sua prole poética Inicial – Entre o nó da gravata e o da garganta.
Quando afirmamos que quem trocaria o mundo jurídico pelo da poesia, estamos querendo apenas fazer um contraponto, pois poeta pode ser qualquer pessoa, independente de sua (in)formação. Muitos poetas, e de bom fôlego, foram médicos, advogados, botânicos, diplomatas, e outros não tinham nenhuma formação e bojo acadêmico, citá-los seria apenas enchimento de linguiça, mas todos que admiram a poesia sabem de quem estou me referindo. “O advogado-poeta ou poeta-advogado”, como muito bem nos fala a poeta Sônia Almeida (mãe de Daniel Blume) na orelha de seu livro Inicial, é um representante perfeito e dissonante do mundo que o abarca. Pois, a maior parte de seus pares escreve (quando escrevem) apenas sobre tratados e leis jurídicas. Mas Blume observa o mundo não apenas de forma seca e formal, mas absorve um mundo mais justo e livre dentro dos versos de seu livro de estréia. Observem as construções abaixo extraídas do poema Avesso:
“Gole d’água e mais um café.
A sala, gelada.
Lá fora, um calor úmido de ensopar colarinho.
Desfaço o nó da garganta.
...Por trás do terno, sem abrir qualquer botão,
há pulmão e coração,
no aparente gelo da racionalidade.
E continua...
...No que a frieza chama o sol revela...
ser possível aqui haver poema,
pois do advogado brota poesia,
quando vê cliente como gente,
casos como vidas...
E finaliza...
...Eis meu verso primeiro,
meus nós que não rimam.
eis a peça inicial,
o avesso”.
Aqui o contraponto, antes dito. Estes versos aludidos demonstram a exacerbada luta do poeta com o homem ou do avesso com a concreticidade de sua cotidiana vida. Blume nos apresenta a sua luta diária entre teses, processos, injustiças e o mundo anímico da poesia, seu remédio necessário: a poesia.
O crítico e escritor paulista Claudio Daniel nos ensina sobre este fenômeno que acontece com a maioria dos poetas e com Daniel Blume: “O poeta não é um deus que cria uma obra a partir do nada; ele parte de um idioma, do léxico, da sintaxe, de técnicas estruturais e de versificação que assimilou da tradição para compor o seu poema, combinando esses elementos de forma particular para expressar a sua mitologia pessoal”. O que um poeta cria não é nada mais nada menos do que já existe, das coisas que observa e da realidade que está em seu entorno. Não se pode esperar que Patativa do Assaré fale sobre os acontecimentos de Wall Street ou que Paulo Leminski detalhe em seus poemas o sertão nordestino. A seguir, alguns poemas que demonstram um pouco da poeticidade de Daniel Blume:
E de repente o poema acontece...
Aguardá-lo é esperar um filho
que sequer foi fecundado.
Pari-lo é encobrir
de sombra o mistério,
revelando-o.
Assim, não se chega ao que deve ser dito,
escrevendo.
O acontecimento é, enfim,
sofrimento da palavra,
onde pulsa
o silêncio
do que se quis dizer.
(do poema O acontecer)
Ou ainda:
A mente soa e o sangue escoa.
A saudade fala, mas o tempo cala.
O dia esfria com o sol a pino.
Assim se põe o pé no chão.
(do poema Pé no chão)
E por último, um dos melhores poemas do livro:
Desta forma ela vem:
rápida, mas sorrateira.
Insana, porque cega,
violenta e incontrolável.
Temerária.
Enfim, sem ser amor,
há paixão:
aflita e duvidosa,
mas urgente e imprescindível.
Perigosa e mordaz,
e imprecisa, e intensa,
e desequilibrada, e terrível,
ela invade a estação,
derrete a neve.
No máximo dos frios,
ela altera invernos.
Mas, de passagem,
ela vai.
(do poema Passageira)
O que Blume faz em seus poemas é verter um mundo burocrático que está inserido em suas construções poéticas. Porém, em algumas construções peca e se torna didático (são os casos dos poemas Quero poder, Maranhês e Baliza Global), mas no conjunto geral de seu livro, nem parece ser um advogado que está escrevendo. Quando se lê Inicial- Entre o nó da gravata e o da garganta tem-se a impressão de um poeta que tem o extremo cuidado com as palavras. Suas construções são, em grande parte, repletas de sensibilidade. O seu poema tem pegadas nas trilhas dos poetas modernistas como Cecília, Drummond, Mauro Faustino, Vinicius de Moraes, entre outros.
O que mais podemos especular deste poeta-advogado e/ou advogado-poeta só o tempo e suas construções poéticas é que vão dizer. Talvez, nem seja da pretensão de Blume enveredar pelos becos da poesia, como faz a sua mãe Sônia Almeida, mas com certeza, este poeta respira poesia, porque após desatar o nó da gravata (relaxando de sua labuta diária), o que resta é o amante da poesia. Porém, se Daniel Blume não quiser aliar sua carreira jurídica à sua carreira poética, que continue a corroborar com este belo e importante trabalho que é exercer o Direito a favor dos que necessitam de Justiça. Pois apenas fazendo isso, sem sombras de dúvidas, estará escrevendo a sua maior obra e poesia.
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