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Edição 181

A HISTÓRIA EM VIEIRA

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Data de Publicação: 16 de julho de 2008
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Marco Lucchesi*

I. A VISÃO DAS PARTES

Antônio Vieira é desses autores, cuja poderosa totalidade enseja freqüentes releituras, onde se revelam partes inúmeras de seu espírito continental. São tais e tantas as abordagens dos aspectos multiformes de Vieira - como o discurso e a língua, a teologia e a política, a economia e a religião -, que chegam a formar uma das bibliotecas mais bem acabadas das letras luso-brasileiras. E do contato com este mundo novo, barroco e universal, surgem grandes ensaios, com seus fluxos e refluxos, no espaço de quase um século de boa metodologia. Mas a tarefa não se esgota, apesar (e por causa) daquelas mesmas páginas. Quanto mais se escreve - eis o paradoxo de Vieira -, mais e mais resta a dizer. E a tendência que hoje parece tomar corpo é aquela que persegue um entendimento que pretende não perder de vista, mesmo em estudos específicos e parciais, o sistema de Antônio Vieira, como as dimensões da história e do Quinto Império, ou, em outras palavras, o sentido de unidade que varre de ponta a ponta obra tão vasta.

Vieira sente a unidade queimar-lhe o rosto e as mãos. E em vez de se perder em múltiplos fragmentos, num sem-número de compósitos breves, exige do intelecto a compreensão do todo. Tal como na Divina comédia, onde cada pedra do “Inferno” possui uma razão estrutural, a unidade em Vieira concentra-se na melodia do todo, em recorrentes citações, em claros Leitmotive. Assim, a palavra, no Jesuíta, como a pedra em Dante, desafia a multiplicidade, de selvas e labirintos, na construção de um pensamento em chamas, desde a solidão factual ao agregado complexo da estrutura. A dialética da parte e do todo, da imagem e do espelho, propicia uma interpretação forte, tal como ele próprio - Antônio Vieira - analisa em cada partícula do pão consagrado:

E assim como se parte o cristal, sem se partir a figura, assim se parte a hóstia sem se partir o corpo de Cristo. E assim como a figura está em todo o cristal e toda em qualquer parte dele, ainda que seja muito pequena, assim em toda hóstia está todo Cristo e todo em qualquer parte dela, por menor e mínima que seja. E assim, finalmente, como o rosto que se vê no cristal, dividido em tantas partes, é sempre um só e o mesmo, e somente se multiplicam as imagens dele, assim também o corpo de Cristo, que está na hóstia dividido em tantas partes, é sempre um só corpo, e somente se multiplicam as suas presenças. (Sermão do Santíssimo Sacramento, parte V)

Todo fragmento, imagem e palavra, multiplica-se, diante daquele espelho, que jamais desiste de sua função: debelar o múltiplo, sob a chama da unidade - tão perseguida por Vieira, nos sermões e nas cartas, e que tornou possível uma leitura transversal de sua obra. Sua totalidade guarda implicações não apenas discursivas, mas metafísicas, como insiste desde o “Sermão da Sexagésima”, ao rechaçar a ausência de um fio condutor, de um tema central. Vieira invoca o céu noturno, límpido e claro, como espelho da unidade primordial, antebabélica, que os sacerdotes devem perseguir. Assim, também, diante das línguas da Amazônia, maiores que as de Babel, fora preciso recorrer ao fio de Ariadne, sonhado pelas gramáticas jesuíticas, aspirando, afinal, ao brasílico, que havia de tornar una todas as línguas, por onde se pudesse comunicar melhor, entre nomes e verbos rudes, a imago Dei, de um Cristo não partido (na unidade do verbo), mas integrado na pele das palavras, ressurrecto nas línguas, em cujo vocabulário começava a ser conhecido:

Quando Deus confundiu as línguas na torre de Babel, ponderou Filo hebreu, que todos ficaram mudos e surdos, porque ainda que todos falavam e todos ouviam, nenhum entendia o outro. Na antiga Babel houve setenta e duas línguas: na Babel do rio das Amazonas já se conhecem mais de cento e cinqüenta, tão diversas entre si como a nossa e a Grega; e assim quando lá chegamos, todos nós somos mudos, e todos eles surdos. Vede, agora, quanto estudo e quanto trabalho será necessário para que estes mudos falem, e surdos ouçam. (Sermão da Epifania, parte IV)

Dessa tensão (da parte e do todo, da língua e das línguas, da imagem e do espelho) surgiu o corpo da história. Desde a saída do Paraíso. Da diáspora da unidade. Para Vieira, o tempo havia de trazer de volta o estado adâmico. Como em Paulo: Tudo em todos. E havia de preparar o mundo ao último ato da redenção. O tempo linear - do Gênesis ao Apocalipse, insiste o jesuíta - é maior que o tempo cíclico, das estações e das demais formas de eterno retorno. E, além disso, não cria apenas etapas cumulativas, de que o presente não seria mais que uma partícula. O devir produz uma tensão, que antecipa o Pleroma. O presente é obra do passado, mas tem asas de futuro. Tal como no Deuteronômio, o tempo não é senão a ponte entre a revelação e a consumação - o hayyom, do Velho Testamento.

E a história sagrada e profana - que é una e sacra, para Vieira - oferece outros e maiores enigmas, que demandam espelhos e tipologias, capazes de articular as figuras de Cristo e Moisés, Eva e Maria, Judas e Jonas. O passado bíblico antecipa o que será: o verbo e o tempo. Por isso, a história sacra é maior que a profana. É modelo. E paradigma. E seus motores permanecem invisíveis, movidos por Deus. Ainda não são os homens que fazem e sofrem a história. O tempo humano é um capítulo da eternidade (Interminabilis vitae tota simul et perfecta possessio - como sabe Vieira, citando Boécio), não mais que um capítulo, inaugurado pela hybris de Adão, e sem o qual o verbo não teria podido fazer-se carne. Como na Jerusalém, de Torquato Tasso, ignoramos onde começa a história. Mouros e cristãos enfrentam-se na Terra, enquanto anjos e demônios combatem no céu, e mal sabemos de onde se origina o imenso turbilhão. O trabalho dos homens. E os dias de Deus...

No Padre Vieira - como para o Bossuet, das Oraisons funèbres - o tempo cessa na eternidade, ao encalço do qual jamais se arresta. O rio da história corre para o mar, como o Tibre, o Jordão e o Amazonas. E o impermanente há de ser, como em Donne e Quevedo, a única forma da permanência. O tempo é de Heráclito - e de suas lágrimas. E a duração - isto se deve, primeiro, aos gregos e, depois, aos portugueses - será como um navio sobre as águas, cujo porto é Cristo. O drama da história divide-se entre Heráclito e Parmênides, fluxo e permanência, ser e não ser.

Por isso, o poder temporal deve colaborar com o espiritual, apressando o curso da história, do não ser até o ser. Dessa discussão, pela via nova ou antiga, depende a prática política da Idade Média e Moderna, com os tratados de Marsílio de Pádua, Dante e Maquiavel. Vieira decide-se pela autonomia das esferas, e, ao mesmo tempo, pela estreita colaboração do papa e do imperador. Os poderes devem assegurar a demanda de infinito, gerada nas entranhas do tempo. Para Vieira, a pax lusitana iria ensejar o equilíbrio dos poderes, e produzir uma plenitude que resultaria na conversão da política em metafísica. O sonho do mar português era uma nova travessia do Mar Vermelho. Portugal seria a Páscoa do Universo.

(LUCCHESI, Marco. A memória de Ulisses. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, Editora Record Ltda., 2006, p.213-216)
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