Data de Publicação: 16 de julho de 2008
Arnaldo do Espírito Santo
(Universidade de Lisboa)
Na cidade da Baía, ao raiar do dia 18 de julho de 1697, faleceu, após três dias de intensa febre, o Padre António Vieira. Entre os seus papéis estava uma obra incompleta [...] Clavis Prophetarum (Chave das Profecias):
[...]
Por isso mesmo, ao iniciar o capítulo com a temática da perscrutação do futuro, evoca a imagem dos fantasmas que correram ao encontro de Eneias, quando este iniciou a descida aos infernos:
(Parece-me ver no limiar deste capítulo, escrita em letras maiúsculas e como que afixada na portada, a célebre frase de Cristo: “Não vos pertence a vós saber os tempos e os momentos que o pai reservou ao seu poder”. Por tal motivo, com fundamento se deve temer que o leitor interessado e ávido, atingido por este divino oráculo no vestíbulo da nova disputa, pare um pouco e seja impedido de entrar. Por isso, considerei que havia de fazer obra oportuna e indispensável a este passo, se primeiramente, com todo o cuidado, fortificar o acesso com toda a diligência, mostrando que é transitável e está livre de toda a incursão perniciosa e que não há que temer onde não há temor.
Não gostaria que alguém pensasse que eu caí nesta suspeição precipitadamente e sem grande motivo, quando de fato, ao meditar nisso mesmo, vi lançarem-se contra mim tais monstros de horror ou error, quais imagina ter encontrado à entrada do vestíbulo e nas primeiras fauces do Orco aquele piedoso varão que, apoiado no oráculo sibilino e protegido pelo ramo de ouro, se dirigia para os Campos Elísios. Com efeito, assim como ele, avisado pela Sibila, ficou a saber que todas aquelas formas horríveis à vista nada mais eram do que umas sombras vãs e espantalhos sem consistência, assim também o pio leitor aqui achará absolutamente o mesmo, e que não precisa de empunhar a espada para dissipar, mais do que para ferir, esses fantasmas. Por isso, atacando em primeiro lugar aquilo que parece apresentar alguma dificuldade e horror, iremos depois buscar aquilo que devemos sustentar, não às folhas sibilinas que voam como joguetes arrastadas pelos rápidos ventos, mas às sagradas fontes da verdade, isto é, às divinas páginas.)
Vieira imagina ver à entrada deste livro, ou deste capítulo escrito em grandes letras, como que um aviso, dizendo: non est vestrum nosse têmpora, vel momenta, quae Pater posuit in sua potestate.* O ambiente é dantesco, e provavelmente a sugestão. Vergílio e Dante, portanto, ressoam em uníssono. E não passo adiante sem dizer que esta capacidade para fazer ressoar em simultâneo reminiscências de vários textos é já uma característica do estilo de Vieira.
O limiar deste capítulo está, pela sua matéria aparentemente perigosa e suspeita, ameaçado de todos os “horrores”, daqueles horrores que ameaçavam Eneias na Eneida e Vergílio na Divina Comédia. Começa, assim, Vieira sob o signo do grandioso (grandioribus litteris), do hiperbólico, de um quadro desenhado com as cores dos textos evocados. A partir daqui não há quase palavra ou expressão que não tenha em si uma dupla força de significado: o que lhe é próprio e o que lhe vem da sugestão alheia,
O avidus Lector, ou pius Lector, (Lector com maiúscula em sete dos doze manuscritos colecionados), encontra-se diante do letreiro ameaçador afixado prae foribus, correndo o risco de se quedar no vestíbulo da obra, incapacitado de entrar, divino hoc oraculo perculsus. A função de Vieira, nestes dois primeiros capítulos, é proteger a entrada, afastando para longe os horroris sive erroris monstra.
Tudo aqui é barroco, desde as marcas de intertextualidade, ao requintado do enquadramento e à paronomásia horroris, erroris. Há uma aproximação intencional entre as fauces do Orco e o “limiar deste livro”, entre o pius vir e o pius Lector, entre sybillinis foliis e diuinis paginis. E todo este conjunto de recursos retóricos que não deixam lugar para dúvida quanto à autoria deste texto. Para utilizar uma expressão de António José Saraiva, aqui temos um exemplo de “discurso engenhoso”, tão abundante nos sermões de Vieira.
O que mais sobressai aqui é a imagem global, que funciona como referência sugestiva e que, pelas correspondências sugeridas, gera significados implícitos e como que serve de ilustração ao discurso argumentativo. A ameaça ou acusação de que este livro pode conduzir aos infernos da heresia e do erro não passam de pura fantasia, tal como as horribiles visu formas que amedrontavam Eneias não passavam de sombras vãs e espantalhos sem consistência - umbras vanas, atque inania terriculamenta.
Uma observação mais de pormenor leva-nos a ver que os sintagmas se organizam em pares opostos. De um lado estão as horribiles formas, com uma consistência, pelo menos psicológica, ainda que suposta; do outro, as umbras vanas e os inania terriculamenta, enquanto horrores desmitificados. Estas duas expressões, além da sinonímia, estão ligadas entre si pelo quiasmo. Outro processo de aproximar pares de expressões, neste caso de significados opostos, é o isocólon constituído por ex sybillinis foliis / ex divinis paginis, onde, além do mais, entra em ação, subtilmente, a assonância da última sílaba em sybillinis e divinis. O relevo que aqui se lhes dá deve-se ao fato de que essas duas palavras ocultam significados antitéticos - falsidade do paganismo, verdade das Escrituras -, reforçados pela diferença entre foliis e paginis. Da ambigüidade de foliis - folha de livro ou folha de árvore -, por uma espécie de acrobacia vieriana, nasce outra imagem: a das folhas arrastadas pelo vento como joguetes. Em contraposição, as folhas da Escritura são designadas por páginas, não arrastadas pelo vento como as folhas, o que permite dizer delas, reforçando a antítese, que são a fonte estável da verdade.
Assim se produz o significado, rico, agudo, sutil e vário, neste texto latino do Padre Vieira. Um significado que se oculta por detrás da superfície das palavras, e para além delas.
[...]
Assim sucede na argumentação desenvolvida contra a legitimidade de se perscrutar o futuro. Vieira começa por afirmar que toda a gente sabe que, nos Profetas, as palavras mais comuns dissimulam significados muito diversos daqueles que emergem à superficie.
[...]
(Neles, efctivamente, dia não significa dia; ou hora, hora; ou semana, semana; assim como ano não significa ano; nem século cem anos ou o próprio tempo que é de significação indefinida significa tempo indefinido, mas sim definido.)
[...]
Chegado a este ponto, não estranhará o leitor que seja enunciado um princípio que é uma perversão total da relação entre significante e significado: “[...] sed unum sit quod sonant, aliud quod significant”. A conclusão que Vieira formula é que, no caso do discurso profético, é impossível qualquer tipo de conhecimento extraído do significado das palavras: “[...] manifestum est nihil nos inde colligere posse aut statuere”. E logo a seguir, num clímax paradoxal:
[...]
(De tudo isto se conclui claramente, pelo menos parece concluir-se, que a presente disputa e toda a matéria deste livro versa sobre uma coisa inútil, vã e pueril.)
Escusado será dizer que esta forma de negar os fundamentos da argumentação apoiada em sentidos visíveis nada mais pretende do que legitimar outro tipo de evidências fundadas nos sentidos ocultos do texto, ao qual se chega pela decifração dos vários significados possíveis que ele encerra: histórico, alegórico, moral e anagógico. Todo este aparelho conceptual veio dos estóicos, passou pela patrística e cristalizou-se na escolástica; mas Vieira fez dele mais um instrumento de análise que integrou em toda a panóplia de recursos do discurso barroco. Foi essa armadura de conceitos como figura, pré-figura, tipo e protótipo, que lhe permitiu avançar na interpretação das Escrituras muito além do que seria permitido pela simples utilização da interpretação literal.
[...]

Pelos interstícios desta estrutura perfeitamente escolástica, vão deslizando as citações da Escritura, as imagens, as reminiscências clássicas, as opiniões dos Santos Padres, até que, finalmente, de sutileza em sutileza, de conceito em conceito, de relação em relação, Vieira conclui:
[...]
(Com efeito, não dizemos que o mesmo tempo pode saber-se e não saber-se do mesmo modo, mas sim que não pode saber-se determinadamente, podendo porém saber-se indeterminadamen-te.)
O leitor é levado, sem qualquer dificuldade, a admitir tal afirmação. Não há passos em falso. O que pode haver é uma seleção de dados numa ótica favorável à tese que Vieira pretende demonstrar; não se trata de distorcer, mas de encaminhar os argumentos e os leitores para a conclusão: o mundo está velho, o fim aproxima-se, avizinha-se o tempo do AntiCristo.
Para argumentar, Vieira não se contenta com provas escriturísticas e patrísticas. O texto que produz não é um comentário a outros textos. Por um processo barroco típico, a Natureza e a História são outros tantos textos de que se extraem provas tão válidas como as da Escritura.
Há uma constante do discurso de Vieira, seja nos sermões, nas cartas, na História do Futuro, seja, e é-o muito mais, na Clavis Prophetarum, a que poderíamos chamar algo como sematologia, entendendo por esta palavra a inquirição do significado dos sinais que se manifestam nos acontecimentos, nos fatos da história e nos fenômenos da natureza. É como se todo o universo não textual se tornasse num enorme texto, onde estão inscritas indicações precisas sobre a instauração, nesta terra, dessa nova ordem, desse mundo novo de paz e justiça, de plenitude, em que Vieira acreditava profundamente. Não deixa de ter presente que “Acerca daquele dia e daquela hora, ninguém sabe nada, nem mesmo os Anjos do céu” (Marc. 13). Mas, apesar disso, insiste:
[...]
(Este decreto de modo algum impede que possamos opinar com probabilidade acerca do fim da duração do mundo, não definindo o dia ou a hora, nem o mês e o ano (o que igualmente parece estar no sentido do que disse Cristo), mas um tempo entendido de forma mais lata e moral, apenas com um termo pré-fixado indeterminadamente.)
Não houve tempo como o de Vieira, nem século como o XVII, que se tenha preocupado tanto com o fim do mundo. Era um sentimento geral. Em tudo se procuravam sinais pré-anunciadores. Mas como conjugar esta atitude, que é sumamente a de Vieira, com a palavra de Cristo - “ [...] nem mesmo os Anjos do céu”?
De uma forma sutil o Padre Vieira joga, por um lado, com a dissociação entre significante e significado e, por outro lado, com a possibilidade, daí decorrente, de procurar o significado na leitura da realidade que o significante linguístico encobre. E daí a conclusão: “aquele desconhecimento” (o que é imposto pela palavra de Cristo) “não colide com este conhecimento” (aquele que se procura obter identificando e desvendando os sinais do texto da Natureza e da História).
Não podemos negar que há uma extraordinária exibição de virtuosismo na textura do discurso de Vieira, virtuosismo que lhe advém em parte da interpretação sutil dos sinais, divididos em próximos e remotos, e encadeados logicamente por processo que nos pode parecer abusivo. Este encadeamento lógico, como observou António José Saraiva, não é simples forma do discurso, mas a própria matéria dele. É ele que dispara o raciocínio e o faz saltar de proposição em proposição, até mostrar como verdade revelada aquilo que antes parecia afirmação herética, duvidosa, vã e pueril. O propósito de Vieira ao evocar Eneias diante dos portões do Orco era tranqüilizar o leitor, contra todas as ameaças e fantasmas. O primeiro passo firme dado neste sentido, depois de uma dezena de páginas de argumentação contra e a favor, está numa sentença lapidar: “Por isso, Cristo não só concedeu, mas também quis que procurássemos saber se o fim do mundo está próximo ou distante.”
Como nos sermões, também na Clavis tudo se encaminha para a persuasão. Sem ela seria impossível que o pius Lector, assustado com as ameaças de suspeita de heresia, continuasse a leitura. A estratégia de persuasão é, assim, com toda a evidência outro dos vetores que determinam o modelo de composição seguida. Primeiramente foi necessário reinterpretar a proibição de Cristo - “nem mesmo os Anjos do céu” -, com a aplicação de novas chaves à leitura da Bíblia, no seu conjunto, e, particularmente, à leitura dos Profetas. Daí o título Clavis Prophetarum. Um segundo degrau dessa estratégia foi colocar do lado da tese defendida a série dos “varões piíssimos e santíssimos”, promovidos à categoria de oráculos, cujos textos são chamados em apoio do pensamento de Vieira, “sem ofensa daquele divino arcano”, da referida proibição de Cristo. Vieira acumula nomes sobre nomes, em abundância, numa espécie de exibição feita para impressionar. Mas antes de entrar na exposição e análise das suas abonações, volta à frase de Cristo, como que para afastar os últimos fantasmas e dotar o leitor de uma chave interpretativa:
[...]
(Mas voltemos à primeira e única justiça e verdade. O mesmo Cristo que disse: acerca daquele dia e daquela hora ninguém sabe nada, disse também: vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora. Mas quem dirá que devem ser censurados aqueles que, com seriedade, ajuízam da proximidade da morte a partir da doença ou da velhice e aqueles que, sendo embora muito menos experientes na medicina, pré-anunciam exatamente o dia e até mesmo a hora. Mas, se alguém não estiver suficientemente de acordo com esta comparação, embora as palavras e a idéia sejam absolutamente idênticas, e considere que não se podem tirar ilações válidas do microcosmos para o macrocosmos, isto é, do homem para o mundo, ouça os mais santos e sábios mestres do mundo, que filosofam desta maneira acerca das doenças, do envelhecimento do mundo, e, por conseqüência, do seu desaparecimento.)
Desta textura comparativa ressalta a proporcionalidade entre o micro e o macro, entre o homem e o universo, entre o médico e o exegeta. Aquele diagnostica doenças a que se segue, às vezes, a morte; este procura na Escritura, na evolução dos acontecimentos, em múltiplos sinais, doenças, guerras e cataclismos, marcas de envelhecimento que pré-anunciam o desaparecimento do mundo.
É esta uma das estratégias de Vieira. É ela que justifica a inclusão de textos de autores como S. Gregório que, com Santo Agostinho, teve uma influência nunca exagerada na formação do estilo de Vieira. Bem o demonstra, pela estrutura comparativa, tão utilizada por Vieira, o seguinte excerto do Comentário aos Evangelhos:
[...]
(“Assim como na juventude o corpo é vigoroso, o peito forte e ileso, a cerviz e os braços musculosos; pelo contrário, nos anos da velhice se curva a estatura, a cerviz mirrada se inclina para a frente, o peito se comprime com freqüentes suspiros, faltam as forças, a respiração dificultosa entrecorta as palavras de quem fala, pois, ainda que não haja doença, em geral para os velhos a própria saúde é doença: assim também o mundo nos seus primeiros anos tinha como que o vigor da juventude e era robusto para propagar a espécie humana, pujante de saúde nos corpos, rico da abundância material. Agora, porém, está abatido pela velhice e cada vez mais é impelido pelas doenças crescentes para a morte que se avizinha.”)
As guerras, a ambição, a simonia, a corrupção do clero, tudo são sinais negativos de que o fim está próximo. Mas há um sinal, este positivo, e que é como que o tema da Clavis Prophetarum; a pregação universal do Evangelho a todos os povos, de que depende a instauração do Reino de Cristo na Terra.
[...]

Este é outro dos processos discursivos típicos de Vieira na Clavis. A conclusão, após longo debate e contestação das opiniões contrárias, é uma das agudezas típicas do conceptismo barroco: “Deus providenciou, mas providenciou não providenciando”. Ouçamos Vieira mais uma vez:
[...]
(Que devia, pois, crer? Havia de crer que tantos milhares de almas cairiam em chusma no Inferno para serem torturadas pelas chamas eternas?
Sendo portanto, sacrilégio crer que lhes tinha faltado a Divina Providência, e, por outro lado, não sendo eu capaz de encontrar uma razão ou modalidade de tal Providência, vim parar à idéia de que podia crer que Deus lhes providenciou, mas providenciou não providencindo.)
- Próximo texto:
- Edição 181 A HISTÓRIA EM VIEIRA
- Texto Anterior:
- Edição 181 Editorial
- Índice da edição - Últimas Edições