Data de Publicação: 16 de julho de 2008
Clavis prophetarum é possivelmente a obra mais polêmica escrita pelo Padre Antônio Vieira, que passou cerca de 50 anos escrevendo-a e morreu sem tê-la concluído. Texto denso, erudito, histórico e metafísico, constitui um estudo sobre a Chave dos Profetas. Obra escrita em latim, sobre ela o estudo mais expressivo é o do professor Arnaldo do Espírito Santo (1942), da Universidade de Lisboa, que a traduziu em co-autoria com Margarida Vieira (1949-1997). A publicação é datada de 2000, tendo a obra sido editada pela Biblioteca Nacional de Lisboa.
Embora aqui republicados fragmentariamente, vale lembrar que os textos escolhidos demarcam as reais pretensões de Vieira de colocar os seres humanos diante das questões existenciais mais emergentes: a vida, a morte, o tempo, a precariedade e a provisoriedade do ser na Terra, Deus, a transcendência e o fim dos tempos ou do mundo, os índios e a salvação ou condenação eterna.
Percebe-se que o momento mais iluminado do Padre Antônio Vieira é quando ele se questiona sobre os índios nos planos de Deus, mesmo sem conhecerem qualquer doutrina religiosa e sai com uma antítese, e ao mesmo tempo paradoxo, genial: Deus providenciou não providenciando. Ele deixa implícito que não é preciso religião, doutrina, padre, pastor, rabino, doutor da lei ou batismo, para que uma pessoa seja salva, pois a presença de Deus é um processo intuitivo natural. Portanto, segundo ele, os índios, mais que os civilizados (estágio dos seres em processo de corrupção) vão para o Céu.
Inteligentemente, o Padre apresenta os índios como uma estratégia de Deus, até para alertar os ditos que se dizem salvos por antecipação entre os eleitos de uma lista restrita.
É bem verdade que aos índios fora melhor não terem conhecido religiosos de credo algum, pois conhecendo a estes é que correram o risco do inferno e, em duplicata, o da Terra e o do Céu.
Por razões práticas suprimiram-se os textos em latim, que poderão, no entanto, ser lidos na íntegra via internet no site do autor da tradução.
Também publica-se, nesta edição Guesa, um pequeno trecho de um consistente ensaio que o professor e escritor, poeta e ensaísta Marco Lucchesi dedicou ao Padre Antônio Vieira, intitulado no geral A História em Vieira, da qual escolheu-se o capítulo A visão das partes, extraído do livro A memória de Ulisses, obra fundamental para que melhor se tenha um perfil da literatura que se produz no mundo hoje, a partir de uma perspectiva do passado.
O poeta Bioque Mesito, sempre atento às questões das artes com que a poesia está intimamente ligada e como estudioso de cinema e cinéfilo fervoroso, apresenta e assina esta belíssima página sobre a Sétima Arte.
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