Data de Publicação: 30 de julho de 2008
Por Ricardo LeãoEstamos diante de um romance que é, sem exagero, um dos mais importantes da história da literatura, em qualquer língua ou nacionalidade. Considerando o refinamento com que foi executado, talvez seja o texto melhor realizado em língua portuguesa, com características únicas, originais, apesar da aparente banalidade de sua estória. Isto porque não se trata apenas de um relato em que é descrito o ciúme de um homem, o advogado Bento Santiago – o Bentinho –, por sua esposa, Capitolina – a Capitu. Como personagens centrais da narrativa, são, possivelmente, as criaturas ficcionais mais fascinantes e complexas já criadas na prosa de ficção nacional, alinhando-os – como diria o crítico norte-americano Harold Bloom 1 – entre as obras de gênio e vulto da humanidade. Trata-se, deste modo, de um texto em que a realidade tem múltiplas interpretações, faces incontáveis, significados múltiplos, pontos-de-vista conflitantes, aberto a várias possibilidades de interpretação e leitura. Por esta razão, em conformidade com o afirmado por Umberto Eco 2 , trata-se de uma obra aberta; cabe ao leitor escolher – ou não – alguma, ou várias, entre as possibilidades abertas pelo autor.
Talvez pareçam exagero, a um leitor mais cético e exigente, todos esses elogios dirigidos a um literato brasileiro do século XIX, de origem humilde, mulato, nascido em condições pouco ou nada favoráveis ao sucesso e, tampouco, ao seu reconhecimento como artista e escritor de gênio. Porém, é preciso compreender, de partida, o mito que se criou em torno de sua biografia, ou seja: que Machado era um prodígio, dotado de uma inteligência rara e excepcional, em um meio inóspito e inadequado para a devida manifestação de seu talento. Este “mito”, utilizado muitas vezes para fazer de Machado uma espécie de “super-homem” nacional, apresenta-o como um menino pobre, mestiço, epilético, gago, órfão de mãe logo no início da vida e, depois, de pai, durante a adolescência, tentando se afirmar ante ;uma sociedade escravocrata e, portanto, preconceituosa. Apesar destes revezes, com espantosa determinação e uma prodigiosa inteligência, conseguiu adquirir cultura e erudição literária raras, o que o levou, de pouco em pouco, a ser reconhecido como um dos maiores escritores brasileiros. Este “mito”, sim, com toda certeza é um exagero. Tais afirmações são uma mistificação em torno do homem que foi Machado de Assis, para encarecer o valor de sua obra e, por conseqüência, de sua biografia. No entanto, algum esforço no sentido de desfazer esta mistificação já foi realizado. É o que podemos ler no levantamento biográfico mais completo sobre a vida de Machado, escrito pelo biógrafo francês Jean Michel Massa, que abrange o período que vai de seu nascimento até os 20 anos.
Segundo Massa, o menino Machado nasceu em uma chácara do Morro do Livramento no Rio de Janeiro, cuja proprietária era uma viúva de um político influente durante o Primeiro Império. Era neto de escravos libertos, o pai negro e a mãe açoriana. Portanto, um mestiço, como a maioria da população. Contudo, apesar de sua condição de mulato, Joaquim Maria Machado de Assis é criado em uma comunidade onde receberia um tratamento diferenciado, como outros iguais. Sua madrinha de batismo é ninguém menos que a proprietária da chácara onde nasceu, no mesmo dia em que seu pai batizava uma criança negra, indicação de que gozava de relativo prestígio e respeito entre os moradores da propriedade. Além disso, segundo o biógrafo francês, seus pais eram alfabetizados. Com sua mãe talvez tenha aprendido as primeiras letras, enquanto o pai era assinante do Almanaque Laemmert, espécie de Readers Digest da época, do que se infere que nutriam alguns hábitos regulares de leitura. A partir destes dados, é possível inferir que o menino Joaquim Maria freqüentou, durante os primeiros anos de vida, a chácara do Livramento. Na condição de madrinha, a proprietária da chácara teria dado atenção ao afilhado, cujos antepassados já residiam ali como antigos protegidos. É muito provável que o menino Machado tenha freqüentado uma escola regular durante a infância, onde provavelmente manifestou pela primeira vez os seus dotes literários. Com a ajuda de pessoas influentes, a partir das antigas relações sociais do Livramento, arranjará empregos que, mais tarde, o aproximarão do objetivo de se tornar um intelectual de expressão da Corte. Será aprendiz de tipógrafo, revisor e jornalista, atividades consideradas a ante-sala para a carreira intelectual de muitos escritores do século XIX. De resto, o seu sucesso como escritor deve-se ao trabalho obstinado de escrever com regularidade e competência.
Por outro lado, além de desmistificar a biografia de Machado, é preciso por igual considerar a estrutura em que estava montada a sociedade brasileira de seu tempo, a fim de entendermos um dos principais aspectos de sua obra: a irônica e velada crítica social.
O Brasil do século XIX continuava escravista e, portanto, ainda não havia forjado a cultura do trabalho livre. Os sintomas da cultura escravista fazem-se notar em toda a sociedade, e são melhor percebidos por viajantes estrangeiros. O caso de Thomas Ewbank, americano dotado de erudição européia, é um dos mais ilustrativos, uma vez que torna evidente como o escravismo em nosso país era arraigado:
“A tendência inevitável da escravidão por toda parte é tornar o trabalho desonroso, resultado superlativamente mau, pois inverte a ordem natural e destrói a harmonia da civilização. No Brasil predomina a escravidão negra e os brasileiros recuam com algo semelhante ao horror diante dos serviços manuais. Com o mesmo espírito que as classes privilegiadas de outras terras, dizem que não nasceram para trabalhar mas para dirigir. Interrogando-se um jovem nacional de família respeitável e em má situação financeira sobre porque não aprende uma profissão e não ganha a sua vida de maneira independente, há dez probabilidades contra uma de ele perguntar, tremendo de indignação, se o interlocutor está querendo insultá-lo! “Trabalhar! Trabalhar!” – gritou um deles. “Para isso temos os negros”. Sim, centenas de famílias têm um ou dois escravos, vivendo do que os mesmos ganham.” 3
O escândalo de um cidadão americano, acostumado à cultura do trabalho livre, diante deste quadro de coisas, é até natural. Países como os Estados Unidos lutaram para erradicar o trabalho escravo, a fim de implantar a lógica da industrialização, do capitalismo e da sociedade de consumo, em que o trabalho livre e assalariado é uma das condições para movimentar o mercado interno e externo. O Brasil, porém, era uma das muitas nações que não aderiram ao modelo de crescimento capitalista e industrial logo de início, arrastando um modelo econômico agrário, latifundiário, escravista, patriarcal e, sobretudo, arcaico até inícios do século XX, após mais de 300 anos de trabalho escravo. Na base da pirâmide social brasileira está, portanto, o enorme contingente de trabalhadores escravos; no vértice, os grandes proprietários de terras, a aristocracia rural. Ambos estão representados na obra machadiana; mas há também, em uma posição intermediária, uma classe de homens pobres e livres, que não têm a possibilidade de trabalhar e obter, através do salário, a sua sobrevivência e sustento, quanto menos a independência financeira. Nessa condição, esta classe de pessoas vive à sombra da proteção dos poderosos, orbitando em torno da família patriarcal, devendo-lhes obediência e submissão. Em geral, estão submetidos ao chefe da família ou ao patriarca, em troca de favores recebidos. São os agregados. A relação entre patriarcas e agregados é conhecida, entre nós, como clientelismo ou favoritismo. O resultado desta prática pode ser sentido até hoje, em nossos dias, em que os mais poderosos ou em melhor condição financeira abrigam, sob sua proteção, um número, às vezes exagerado, de pessoas que não trabalham e vivem às custas daqueles que têm algum poder ou renda, em estado de parasitismo.
Em Dom Casmurro, os efeitos nocivos desta pirâmide social fazem-se sentir durante todo o romance. A condição de Capitu, José Dias e mesmo de Prima Justina e Tio Cosme, com a família Santiago, era de agregados. Nesta mesma situação, encontram-se muitos dos personagens de Machado, como D. Plácida, em Memórias Póstumas de Brás Cubas. A própria família de Machado de Assis vivia deste modo em relação à proprietária da chácara do Morro do Livramento. Um dos efeitos de se viver na condição de agregado era a permanente humilhação aos que nela se encontravam, sujeitos a constantes cobranças e interferências em suas vidas, quando não caprichos por parte daqueles que os protegiam. Com efeito, uma das características psicológicas mais acabadas do agregado, como Machado o fez notar em toda sua obra, era a dissimulação. Dissimular os sentimentos, os pensamentos, nunca partir para o enfrentamento, chegando ao ponto da afetação e da hipocrisia, como no caso de José Dias, que se impõe como um exemplo do modo do agregado assegurar a sua sobrevivência dentro da estrutura patriarcal e escravista da família que o protegia. Como resultado, temos aí uma moral de escravos, em que o ressentimento, a desconfiança, e mesmo o ódio – sobretudo como Nietzsche o analisou – tornam-se um dos principais móveis para a ação do agregado. Como mais uma vítima, durante a infância e parte da juventude, desta estrutura social desumana, Machado soube como ninguém analisar a fundo o papel e o drama psicológico do agregado em uma das sociedades ocidentais mais complexas, a do Rio de Janeiro do oitocentos.
O fato de Machado ter experimentado, na própria pele, a condição de agregado, levou-o a tematizá-la de maneira recorrente. Não apenas em sua fase considerada madura – Memórias, Dom Casmurro, Quincas Borba –, mas igualmente em seus romances anteriores, como Helena, Iaiá Garcia, A mão e a luva e no pouco lembrado Casa Velha, considerado uma primeira versão de Dom Casmurro. Sobretudo nos romances de primeira fase, a questão que se põe à reflexão é a possibilidade de casamento entre uma pessoa de origem social inferior e outra de origem superior, quando não aristocrática. O casamento, em todos os romances anteriores a Dom Casmurro, contudo não se consuma. Pela primeira vez, neste romance, a menina pobre casa-se com o rapaz rico, embora o casamento se desfaça mais adiante.
Com isto, chegamos ao seguinte veredito: o Realismo adotado por Machado de Assis em sua obra, como orientação estética, é também um realismo social, na medida em que um dos objetivos do autor é denunciar e representar alguns aspectos da vida social do século XIX, particularmente a sociedade carioca, que ele conheceu bem de perto. Não se trata, porém, de uma denúncia social pura e simples; o texto de Machado está atravessado por uma fina e elegante ironia, talvez a sua característica mais marcante, e de um estilo simples, conciso, limpo, livre de afetações e exageros literários, além de uma penetrante capacidade de análise psicológica de seus personagens e do próprio ato de escrever um livro. Quando entendemos personagens como Bento Santiago, Capitu ou José Dias – assim como Brás Cubas, Quincas Borba, Simão Bacamarte, Rubião –, entendemos também a sociedade em que tais homens ou mulheres são forjados, ao mesmo tempo que compreender a sociedade é, por igual, descobrir as forças que fazem desses homens e mulheres o que eles são. É, por último, descobrir a força do mecanismo social que nos faz ser como somos, nos dias atuais, desde os nossos antepassados, em sentido genealógico e histórico. Contudo, ainda estamos no primeiro nível de leitura da obra de Machado. Outros requerem igual atenção.
Muitos anos após a primeira recepção da obra de Machado, ainda persistem em torno do autor alguns mitos, como a atitude interpretativa de referir-se à sua genialidade, sem, no entanto, apontar em que ela consiste e quais são as suas características. Esta é a atitude predominante sobretudo nos bancos escolares, em que os textos machadianos são impostos sem uma postura crítica adequada, mas de maneira ingênua, muitas vezes à revelia do despreparo dos alunos e dos próprios professores no trato com a obra do escritor carioca. Com relação a Dom Casmurro, obra em que Machado discute os limites entre a representação do mundo e a realidade, as polêmicas sobre a suposta traição de Capitu geram muitas vezes conclusões apressadas e superficiais, que desmerecem a força da reflexão engendrada pelo autor e a grandeza literária do texto.
Um dos primeiros estudos de importância a realizar um esforço interpretativo sobre a narrativa de Dom Casmurro foi o ensaio intitulado O Otelo brasileiro de Machado de Assis, da americana Helen Caldwell, em que defende a inocência de Capitu e a tese de que o romance é um magistral estudo sobre o ciúme. O estudo de Caldwell, porém, não é definitivo quanto ao alcance de suas propostas, pois ainda que a inocência de Capitu seja algo plausível e defensável, é impossível prová-lo à luz das evidências deixadas pelo texto, uma vez que tudo – inclusive a própria Capitu – é filtrado somente através da percepção de mundo do narrador-personagem, Bento Santiago. Por outro lado, discutir a importância de Dom Casmurro como um estudo sobre o ciúme, além de ser uma tese perfeitamente defensável e plausível, é possível prová-la à luz de todo o romance, pois o texto de Machado é, sob todos os aspectos, uma brilhante demonstração de como a representação da realidade e do mundo é muitas vezes mais real que a própria realidade, que o próprio mundo. O mundo visto por Bentinho é o mundo que ele quis ver ou que ele podia ver, segundo o filtro de seus ciúmes e de sua paranóica insegurança em relação a Capitu e seus sentimentos. O ensaio de Caldwell tem evidentemente suas limitações, porém é o primeiro a lançar suspeitas sobre o narrador-personagem – quebrando o estatuto da verossimilhança ficcional – e, sobretudo, no sentido de apresentar uma leitura e compreensão mais adequadas sobre aquela que é talvez a obra-prima da ficção nacional. Ou seja, é o primeiro estudo a desconfiar, sistematicamente, da versão apresentada ao leitor por Bentinho, o Dom Casmurro.
Outros estudos seguiram-se ao de Caldwell. Um dos críticos que mais contribuiu para a releitura da obra machadiana foi Roberto Schwarz, com dois estudos fundamentais: Ao vencedor, as batatas e Um mestre na periferia do capitalismo. Outro crítico importante é John Gledson, com o ensaio Machado de Assis: impostura e realismo, estudo dedicado a Dom Casmurro, e Machado de Assis: ficção e história. Este último estudo de Gledson é muito interessante sob o ponto de vista histórico, pois uma de suas principais descobertas e finalidades é demonstrar como, na ficção machadiana, exercem papel de relevância alguns acontecimentos políticos importantes do Brasil do século XIX, como a Independência, a Abdicação de D. Pedro I, o golpe da Maioridade, a Conciliação do Marquês de Paraná, a Lei do Ventre Livre, a Abolição e a República. Segundo Gledson, estes episódios não são apenas simples localizações ou coordenadas no tempo; as datas indicam como as disputas políticas e históricas serviram de substância para a composição dos caracteres dos personagens, do enredo e das peripécias ficcionais contidas ao longo da narrativa. Claro que este tipo de leitura é uma espécie de reducionismo que, levado ao extremo, faz dos romances e textos de Machado simples alegorias políticas. Contudo, em alguns casos, é uma leitura perfeitamente plausível e até adequada ao texto de Machado, como em Esaú e Jacó, em que os gêmeos são, de acordo com seus temperamentos e personalidades, alegorias respectivas da Monarquia e da República. Como vemos, é possível estabelecer algumas correspondências, autorizadas a partir da própria intenção do autor de assim fazê-las, ampliando o leque de interpretações de sua obra. Entre outras, há ainda a contribuição de Silviano Santiago, com o ensaio Retórica e verossimilhança. O estudo, porém, de maior acesso ao público jovem, sobretudo àquele não acostumado com as formulações teóricas da crítica acadêmica e à técnica da citação, é o de John Gledson, amplamentete recomendável para quem deseja se lançar à leitura crítica da obra machadiana.
Passemos agora à consideração de alguns aspectos da composição textual de Dom Casmurro.
Convém anotar, não apenas em relação a Dom Casmurro, que se deve sempre distinguir o autor e o narrador nos romances de Machado. Na realidade, esta exigência é uma das características pontuais do romance moderno; o autor e o narrador são entidades totalmente diferentes entre si nos grandes romances. A partir do momento em que houve uma completa separação entre a biografia, a realidade vivida pelo autor e o “real” instituído pela ficção, não há mais necessidade do autor referir-se ou apoiar-se em sua experiência vivida para a criação de um “real” imaginado e imaginário. Outro ponto fundamental é que o modo de apresentação do “real” ficcional é, nesse casos, sempre mais importante que este “real” em si; ou seja, a percepção que o narrador tem do “real” e o suposto “real” estão tensionados pelo gesto da escrita, em que a narração é, muitas vezes, mais importante que o narrado. Neste caso, o processo de escritura do romance apresenta características únicas, no qual o modo de contar é mais relevante que o contado. O texto, enfim, é a verdadeira obra de arte, e não a história que conta, conforme afirmamos no início desta apresentação. A história dos ciúmes de Bentinho é, em si, uma história banal. Contudo, pelas mãos de Machado, esta história banal e corriqueira converte-se em um grande romance e uma das mais profundas reflexões sobre a miséria da condição humana.
Já comentamos quanto à natureza do realismo de Machado, sobretudo quando afirmamos que se trata de um realismo que aborda não o real exterior, mas as diversas formas de percepção e representação do real, ao menos daquilo que consideramos como tal. Pois bem, daí enfatiza-se a importância do foco narrativo em suas obras, em que o contado está subordinado à psicologia do contador. No caso do narrador de Dom Casmurro, Bento Santiago, que narra em primeira pessoa a história vivida por ele próprio, há uma ruptura entre a verossimilhança da história apresentada e a realidade propriamente dita, uma vez que não podemos confiar, como de usual o fazemos como leitores, que o narrador seja uma testemunha confiável, insuspeita e imparcial dos fatos. Os fatos apresentados podem não ser fatos, mas sombras de fatos, fantasmas extraídos das lembranças do narrador. Neste ponto, os primeiros instrumentos críticos para se pôr em suspeição a versão contada por Bento Santiago; as chaves para a leitura do romance surgem, portanto, quando se percebe que o narrador apresenta-nos apenas um fragmento da realidade – aquele apenas por ele percebido. O foco narrativo em primeira pessoa é decisivo, neste caso, para que o “real” contado e o “real” passado não sejam necessários e coincidentes, de modo que o leitor fique diante de um texto em aberto.
De qualquer modo, há duas tendências interpretativas dominantes sobre a intensidade e a violência dos ciúmes do narrador-protagonista do romance. A primeira, mais sociológica, aponta para a situação de senhor patriarcal de Bento Santiago, cuja condição o faz enxergar a mulher como uma propriedade sua, assim como aos amigos e agregados. A segunda interpretação, mais psicológica – a adotada na maioria das leituras críticas –, identifica uma insegurança paranóica – e, portanto, doentia – que o faz desconfiar de tudo e de todos, até mesmo dos mortos, como o observa Capitu no Capítulo CXXXVIII, Capitu que entra.
Sendo assim, os dramas existenciais de Bento de Albuquerque Santiago provocam-lhe reações diferentes na adolescência e na maturidade. Quando criança e jovem, manifesta uma inércia e uma falta de reação diante dos obstáculos da vida que parecem ser tradução de fraqueza de vontade e total submissão à ordem familiar conservadora e patriarcal. Ou seja, de um caráter pouco másculo. O casamento oferece-lhe, então, a oportunidade de romper com este comportamento passivo, assumindo o papel que a condição de herdeiro único lhe outorgava. Porém, quem toma as iniciativas tanto no relacionamento afetivo quanto diante dos problemas gerais da vida, dando demonstrações de um temperamento vigoroso, um caráter dominante e sagaz, é Capitu. Não à toa, Bentinho chega a reconhecer que Capitu era mais mulher do que ele era homem, o que talvez seja inaceitável para a visão de senhor patriarcal da qual o narrador-personagem faz-se representante típico.
Devido a isto, Capitu não é apenas uma das maiores criações de Machado, mas por igual uma das mais fascinantes e intrigantes personagens da ficção brasileira, devido a sua complexidade psicológica explícita e enigmática, sem que jamais a conheçamos por inteiro, pois o narrador a envolve em uma densa camada de reticências e dúvidas que a impede de se manifestar em sua totalidade. Com esta técnica, é impossível saber qual o verdadeiro caráter de Capitu: uma arrivista esperta e maquiavélica, uma moça dominada pelo cálculo, dissimulação e fingimento, uma jovem que ama generosamente ou alguém cuja ânsia de viver e ser feliz move todas as suas ações e pensamentos? São respostas que não podem ser dadas ao leitor, pois um dos aspectos centrais da narrativa – talvez o mais decisivo – é a impossibilidade de Bento Santiago conhecer a verdade sobre os fatos e os seres. Isto é resultado dos vários pontos de vista adotados ao longo da narrativa, de um acúmulo de ambigüidades e perspectivas apresentados pelo narrador-personagem. Como conseqüência, a percepção que o leitor tem da história, assim como a de Bento Santiago sobre si e sobre Capitu, é descontínua e fragmentária e, ao fim, incompleta e imprecisa. Claro que este procedimento é decisivo para manter a ambigüidade da própria narrativa, fazendo de Dom Casmurro o romance da dúvida, da incerteza permanente.
De um modo geral, é possível fazer vários paralelos com Otelo, de Shakespeare, e o próprio Machado alude à intertextualidade de Dom Casmurro com a célebre peça do dramaturgo inglês. Porém, Bento é o seu próprio Iago, de uma maneira magistral; ele é quem escuta a voz ardilosa e paranóica de sua própria consciência, de seu próprio ciúme, e, assim como Otelo aos poucos adquire a certeza de que Desdêmona o traiu, Bentinho aos poucos constrói diante de si o crime de Capitu. Não mata, porém, a sua esposa, embora o desejasse; ensaia, entretanto, o assassinato de seu próprio filho, em um gesto que não se consume, pois o objetivo de Machado não é produzir uma tragédia de sangue e veneno, mas demonstrar como somos vítimas de nossas próprias vozes interiores e de nossa própria consciência. Por esta razão, Dom Casmurro é, acima de tudo, um romance sobre a intolerância, sobre um homem que não pode suportar a idéia de que a sua mulher seja mais mulher do que ele é um homem. 4
A grande ironia, portanto, do romance, é a impossibilidade dos indivíduos perceberem a interioridade alheia, sendo conduzidos, as mais das vezes, a interpretações equivocadas sobre a ação e a intenção uns dos outros. O drama está centrado, deste modo, no conflito entre a aparência e a essência da condição humana, sempre solapada pela ambigüidade do mundo concreto das relações, onde tudo é movediço e não apresenta um sentido único, coerente, que produza uma explicação coesa e única a partir dos interlocutores. A verdade, portanto, torna-se impossível de ser conhecida, pois o que há não é a objetividade – como os realistas convencionais o criam –, mas uma miríade 5 de interpretações construídas a partir da subjetividade, do modo como os personagens encaram a realidade vivida. O que é apresentado como verdade pode não passar de um engano, de um trágico equívoco, de uma ilusão. Deste modo, torna-se inútil e sem resultado responder a pergunta se de fato Capitu traiu ou não Bentinho, pois todo o texto do romance é construído em torno de uma dúvida sem fim, uma vez que todas as testemunhas que dariam um fim à angústia do narrador-personagem estão mortas.
O fato é que Dom Casmurro permanece um clássico inquestionável de nossa literatura, de acordo com o princípio estabelecido por Ítalo Calvino 6 para a permanência de qualquer texto como tal: “Um clássico é um livro que nunca termina de dizer aquilo que tinha para dizer.”
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1 Harold Bloom é professor titular de Ciências Humanas, na Universidade de Yale, e já ocupou cátedra na Universidade de Harvard. Escreveu mais de 25 livros, entre os quais Hamlet: Poema Ilimitado, Gênio, Como e Por Que Ler, Shakespeare: A Invenção do Humano, O Cânone Ocidental, além de O Livro de J e A Angústia da Influência. Ganhou o prêmio McArthur, da Academia Norte-Americana de Letras e Artes, e recebeu inúmeras distinções e diplomas honorários, inclusive a Medalha de Ouro de Crítica e Belles Lettres, conferida pela mesma academia, o Prêmio Internacional da Catalunha e o Prêmio Alfonso Reyes, do México. Bloom nasceu em Nova York, em 11 de julho de 1930. No seu livro Gênio, dedica um capítulo inteiro a Machado de Assis, que considera como um dos 100 escritores mais criativos de todos os tempos.
2 Eco, Umberto (nascido em 1932). Escritor e semiólogo italiano. Conhecido por seus estudos sobre estética e comunicação, ganhou popularidade na década de 1980 ao lançar seus primeiros romances.
3 EWBANK, Thomas. A vida no Brasil; ou, Diário de uma visita à terra do cacaueiro e das palmeiras, com um apêndice contendo ilustrações das artes sul-americanas antigas. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1976, p. 145.
4 Cf. SEPÚLVEDA, Carlos. In: Introdução. ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Editora Record; Rio de Janeiro/São Paulo, 1998, p. 5.
5 Número de dez mil. Fig. Quantidade indeterminada, porém grandíssima.
6 Italo Calvino (1923-1985), escritor italiano nascido em Cuba. Autor de romances e contos de caráter fantástico e alegórico.
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