Data de Publicação: 2 de julho de 2008
Talvez a linguagem pura do cinema quase tenha se perdido, ou melhor, a linguagem estética. A Sétima Arte já completou recentemente um século, muito temos para comemorar, mas alguns absurdos foram cometidos e ainda continuam por acontecer. A indústria capitalista do cinema com suas produções bizarras ainda insiste e tende a mandar durante muito tempo neste novo século nas produções do cinema mundial. Muitos bons roteiros estão engavetados, mas o imediatismo e o retorno financeiro são os rumos que navegam o cinema atual. Nunca o cinema foi tão gasoso, sem criatividade, os poucos bons roteiros e filmes ainda caminham pelos movimentos independentes. Produções milionárias são realizadas quase todos os dias, mas a concepção roteirística, a fotografia, a trilha sonora etc são fracassos e levam-nos a pensar se já não é a hora de renegarmos estes abortos cinematográficos.
Toda inquietude leva sempre para a busca de uma nova concepção sobre o fazer de algum processo anteriormente falido. O cinema, assim com as outras artes, e especificamente a literatura, tem que ser bem realizado, pensado, mastigado para que não se tenha a triste constatação que algumas horas da nossa existência foram jogadas em vão em frente a uma tela. Todos estes questionamentos se encaixam no olhar aguçado de Jean-Luc Godard. O ‘chato’, como muitos ousam chamá-lo, talvez um dos cineastas mais perseguidos do atual cinema mundial, Godard sempre encheu de poesia suas criações. Na contramão dos que o questionam, ele mais acertou do que fracassou. Desde o Acossado (À Bout de Souffle, França - 1959), ele revolucionou o modus operandi de como fazer e pensar o cinema. Em Godard, encontramos música, literatura, artes plásticas, filosofia, heterodoxia, mimese, política, déjá vu etc. Seria muito melancólico para a humanidade se não existisse a sombra inquietante de Godard pelas salas de cinema do mundo.
Nos questionamentos da Nouvelle Vague, principalmente feitos por François Truffaut, Godard simboliza o eixo mais contraditório, não por se enquadrar no diferencial, mas pelo caminho que revigora a sua prática de desfazer a linguagem do cinema. Seus personagens são pouco ou quase nada centrados no roteiro e, às vezes, a conturbação de imagens, citações, trilha sonora se encaixam em um simples caminhar ou em ler um livro, por exemplo. Seus roteiros, bastante surdos e cheios de metaforizações, aportam para a crítica do que poderá ser na verdade o som das nossas vidas.
Em Nossa Música (Notre Musique, França – 2004), seu mais recente filme, Jean-Luc Godard questiona mais uma vez a utopia da vida contemporânea. Em alguns momentos do filme dá para se perceber um certo riso (sem ser debochado) de Godard, em outros pontos existe um quadro de otose que chega até nos perturbar. O filme é densamente lindo, bem feito. Roteiro dos melhores, com a marca genial do Godard. Nossa Música é baseado na obra do italiano Dante Alighieri (A Divina Comédia), obra esta que influenciou vários outros artistas consagrados como Doré, Botticelli, Dali, Michelangelo, Robert Schumann, Rossini, William Blake, Liszt, Rodin, entre outros. O que partindo de Godard, esta obra não passaria despercebida do seu olhar inquieto e perfeccionista. O filme, assim como o livro A Divina Comédia, é sustentado em 3 tomos: Inferno, Purgatório e Paraíso.
O Inferno – Nesta primeira parte, o filme Nossa Música é uma sinfonia de imagens (de guerra, execuções, paisagens desoladoras, extermínio de judeus, tanques, bombardeios etc) que ora são em preto e branco e ora coloridas (a menor parte). Imagens silenciosas, distorcidas, quatro frases aparecem, quatro enxcertos de música, lembrando bastante um documentário, mas não um simples documentário, mas um giro de imagens apocalípticas. Nesta primeira parte da trilogia do filme, Godard expõe a sua aversão às guerras e conflitos que não levam a nada, apenas para a degradação humana.
Também existe uma metáfora sutil do cineasta que é a da guerra interior que todos nós passamos: a invasão bárbara da irracionalidade do homem atual. Os quadros de violência que existem em todos nós, mesmo em nosso mais íntimo universo cotidiano. As imagens desta primeira parte são muito criativas e com certeza feitas para os que acreditam na beleza e que acham a guerra algo horrendo para todos os segmentos sociais existentes. Um soco nos chefes de estado que ainda insistem em promover a indústria bélica, a triste indústria da morte. Este fragmento do filme é poeticamente alicerçado no depoimento mais visual, onde as imagens são geradas umas atrás das outras, muitas se sobrepondo, sem se saber a que período ou guerra se encaixe, mas que são compreendidas por qualquer pessoa que as veja, imagens que nunca outro cineasta tinha tido a coragem de colocar em uma película.
O Purgatório – Nesta segunda parte, o filme ganha em conteúdo. Na verdade, Godard nos coloca sua paixão pelo cinema e como um professor nos ensina sua arte de compor, expondo outras expressões artísticas. A cidade de Sarajevo é o eixo de ligação entre vários personagens, alguns verdadeiros, outros fictícios. Neste ponto do filme existe uma parte muito importante e simbólica, que é a visita à reconstrução da ponte de Mostar (construída no século 16 e que foi quase que totalmente destruída na Guerra dos Bálcãs em 1993). Neste ponto, Godard mostra o quanto ele é idealista, que prima por um mundo melhor entre os homens, que através de um ícone do povo bósnio, ele apresenta sua contrapartida cinematográfica. Ele mescla, nesta segunda parte, a linguagem e a imagem, incorporando a maneira de como se fazer cinema, de acordo com suas concepções pessoais. Existe um trecho muito profundo e poético, que é a fala entre uma jornalista e um poeta que é entrevistado no saguão de um hotel (se não me falha a memória). Eis a íntegra:
Srta. Lerner, jornalista, pergunta: - Mahmoud Darwich, você escreveu que aquele que escreve sua história herda a terra dessas palavras. E quando você diz que não há mais espaço para Homero e que você tenta ser o poeta dos troianos e ama os vencidos, você começa a falar como judeu!
Mahmoud Darwich, poeta, responde: - Hoje em dia isso é bem visto. A verdade sempre tem suas duas faces. Nós ouvimos a voz da vítima troiana pela boca do grego Eurípedes. Tróia não contou sua História. Um povo ou país que tem grandes poetas terá o direito de vencer um povo que não tem poetas? Pode um povo ser forte sem escrever poesia?
Mais uma vez Godard recorre à literatura, que no caso de Nossa Música é o que referenda todo o contraponto desta realização cinematográfica. O purgatório é o trecho mais importante do filme, pois cimenta as outras duas partes (O Inferno e O Paraíso). Godard parece que quer nos dizer que precisamos pagar nossas dívidas com o povo de Saravejo: por ficarmos calados enquanto eram assassinados pelo exército de Milosevic. Uma ode à Justiça e à liberdade em tempos de cólera.
O Paraíso – Com um desfecho aparentemente lírico, Godard rege seu último fragmento de Nossa Música. Digo aparentemente, pois na verdade, o paraíso apresentado pelo francês é rico em anti-retórica. Nesta parte existe uma mulher jovem (de semblante triste, como é muito comum aos jovens deste século novo), que também aparece na segunda parte do filme (O Purgatório), que se sacrifica e encontra seu refúgio nas águas, numa pequena praia sitiada por Marines norte-americanos. Aqui, a anti-narrativa de Godard mais uma vez arranca os cabelos dos conservadores da sua linguagem estética. O paraíso de Godard é o da continuidade que não se perde nem mesmo com a morte. O paraíso para Godard é a busca da estética perdida. Uma nova linguagem que deve ser sentida, antes mesmo de se entender os fluxos de suas imagens. Nossa Música é a concretização mais próxima da estética do filme de arte perfeito.
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