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Edição 180

Ideologia do Padre Vieira

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Data de Publicação: 2 de julho de 2008
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Franklin de OLiveira

O processo de revalorização do padre Vieira está em pleno curso.

Iniciado por João Francisco Lisboa em 1864, quando o magnífico prosador substituiu a apologia do grande jesuíta pela análise crítica de sua obra, sofreu avanços e recuos, até chegar a esta concentrada matriz de rumos novos representada pelos últimos estudos sobre o inquieto pregador.

Durante longo período não se dilatou o terreno da crítica sobre Vieira além das fronteiras delimitadas pelos marcos da retórica e da filologia. Preponderava a mentalidade florilégica. Em lugar de crítica, a crestomatia. A antologia ocupava o espaço da interpretação literária. Paradigma dessa incursão pelo verbalismo é o Vieira pregador, do padre Luís Gonzaga Cabral.

A primeira grande reação moderna a essa deformação imposta ao génio do desabusado e intrépido missionário devemo-la a Otto Maria Carpeaux quando, em 1943, num trecho de Origens e fins, rebelou-se contra a exclusiva valorização retórica. Movido pelo seu belo inconformismo humanístico, em 1949, em Aspectos ideológicos do padre Vieira, página de importância fundamental na bibliografia crítica da literatura brasileira tanto pela sua densa riqueza de sugestões quanto pela importância de suas indicações, Otto Maria Carpeaux reabria o caminho da revalorização de Vieira. Antônio Sérgio, Antônio José Saraiva, Hernani Cidade e Oscar Lopes, em Portugal; Mary Gootas, nos Estados Unidos; Sérgio Buarque de Holanda, Eugênio Gomes, Afrânio Coutinho e Jamil Almansur Haddad acrescentaram ao estudo de Vieira novas perspectivas, partindo todos da incorporação do conceito do Barroco à crítica vieirista.

Ampliaram-se horizontes. A pesquisa de estilo chegava a altos níveis. Mas o problema Vieira, a problemática cultural que o bravio padre encarnava, ainda continuava inesgotada. Levantava-se o painel histórico em que o sermonista se movimentou – Portugal da Inquisição, América da Colonização –, mas Vieira continuava sendo estudado apenas externamente. O contexto cultural dos Seiscentos era sua moldura, não um conduto. Não penetravam os analistas, prisioneiros da pesquisa formal, na intimidade das forças que a Vieira moveram. Registravam ondulações, vibrações, as curvas do movimento, mas não captavam os imponderáveis de sua lei dialética.

Este Aspectos do padre Vieira, do sr. Ivan Lins (2), tem o mérito de reacender a candente problemática. Não nos oferece seu autor as soluções para aquela problemática. Mas arranca-a do ponto morto em que caíra, soterrada pela retórica, ou a paixão gratuita do formalismo, para nô-la expor na fremente e descarnada nudez de sua armadura.

Não é o sr. Ivan Lins um crítico literário. Pode, por isso, falsear conceitos específicos da crítica e da estilística quando, por falta de observação técnica dos textos do sermonista e de base na teoria literária, nega o barroquismo de Vieira (p. 214). Chega a esse equívoco de julgamento porque partiu de outro equívoco: o de considerar o culteranismo espécie estranha ao Barroco. O fato de Vieira ser conceptista não lhe retira a definição de autor Barroco. Culteranismo e conceptismo são componentes do Barroco, espécies do mesmo gênero. A inexistência de uma das espécies não implica, necessariamente, a inexistência do gênero.

No prefácio de Antônio Sérgio às Obras escolhidas, e num capítulo de Eugênio Gomes em a A literatura no Brasil, encontramos o levantamento técnico de todos os estilemas, singularidades idiomáticas, giros linguísticos, peculiaridades verbais e de pensamento, recursos de mecânica expressiva e processos de lógica que caracterizam Vieira como o maior artista barroco da literatura luso-brasileira. Mas o Barroco não é apenas um conceito histórico, uma periodização da história e da cultura.

[...]

Vieira, homem de seu tempo, vocação de estadista tão genial quanto de pregador, e de estadista tocado pelos fogos carismáticos do profetismo (o sonho do Quinto Império), compreendeu que Portugal só poderia sobreviver se interrompesse o desenvolvimento colonial neerlandês e britânico. Elabora, então, sua estratégia.

Estávamos na era barroca do mercantilismo. Mercantilismo (Weber) significa proceder o Estado como se estivesse única e exclusivamente integrado por empresários capitalistas. A finalidade mais alta do mercantilismo era fortalecer, no exterior, o poder do Estado. No mercantilismo, o Estado converte-se em assistente do comércio (Harold Laski).

Qual a estratégia de Vieira? Fundar companhias de comércio colonial. Mas como obter crédito e investimento de capitais, se o Santo Ofício está banindo de Portugal o capitalismo, pela perseguição à burguesia hebraica? As emigrações luso-judaicas aceleravam o crescimento econômico da Holanda. Dispõe-se, então, Vieira a enfrentar a dupla ira: a dos senhores feudais contra o capitalismo judaico, e a dos pequenos comerciantes em oposição ao projeto da companhia monopolista de comércio ultramarino. Para atrair capitais judaicos, lança-se à luta contra a Inquisição. O êxodo dos judeus empobrecera o Reino, a tolerância, a liberdade de consciência, eis o remédio para Portugal restaurado. Luta Vieira pela abolição do confisco com o qual o Santo Ofício expropriava os judeus. Prega o Sermão da sexagésima contra o barroquismo dos dominicanos. A luta estilística encobria a luta econômica. Os dominicanos eram os executores da Inquisição. Homem de ação, o golpe definitivo de Vieira no Santo Ofício - quase que comparável ao da reforma pombalina - foi levar D. João VI a assinar o alvará de 6 de fevereiro de 1649. Proclamava-se nele o “comércio livre”. Os judeus organizariam a Companhia “por conta da qual andassem no mar trinta e seis galeões de guerra em guarda das embarcações e fazendas que fossem ao Brasil”. Estavam reabilitados os cristão novos. E fundada a Companhia.

Vieira é a maior figura do Barroco luso-brasileiro. Seus Sermões são a pétrea equivalência literária dos Profetas do Aleijadinho. O Barroco é antitético. Também antitética era a mentalidade mercantilista, diz seu maior historiador, Elli Heckscher. Vieira, barroco e mercantilista, tinha também suas contradições. Constituem elas sua problemática. O feudalismo português era ameaçado pela burguesia semita e a Reforma luterana. Vieira lutou pela liberdade de consciência dos judeus. Mas não defendeu a liberdade de consciência dos luteranos. Foi contra a Reforma. Defendeu o capitalismo e sua expansão colonial. A ética protestante impulsionou o espírito do capitalismo. Vieira, católico em religião, foi calvinista em economia. Devemos ao investigador húngaro Pál Kelemen (Barroque and Rococo in Latin America, Nova York, 1951) o maior inventário da aventura plástica do Barroco no continente. Se a Descoberta integrou-se na Renascença tardia, a Conquista e a Colonização pertencem ao Barroco. Sentimo-lo na arquitetura religiosa, no patriarcalismo, na altaneria senhorial, na escravidão. Como um jaguar de Cristo, Vieira defendeu a liberdade dos índios. E a dos negros?

Há o XIV Sermão do Rosário. Mas excessivamente metafórico para um homem que sabia ser tão objetivo nas suas lutas. “Que defesa propunha Vieira aos infelizes?”, pergunta João Lúcio de Azevedo. E respondia: “Resignação”. “O fim do orador”, explica João Lúcio, “era incutir-lhes conformidade. Nem ele podia condenar a escravidão. A isso o forçava a coerência, desde que sempre advogara se trouxessem escravos da África para libertar os índios do obrigatório serviço”. Diante do problema, Carel interroga: “Como explicar o seu silêncio?” João Francisco Lisboa, no auge de sua fúria liberal, estigmatiza o estrênuo campeador: o padre Vieira fez “concessões em uma matéria que as não admitia, pois o princípio da liberdade é absoluto e com ele se não pode nem deve transigir”.

Nem a perplexidade de Lúcio e Carel nem o libelo de Lisboa resolvem a problemática. Somente a sociologia barroca a poderá resolver. Na sua luta indomável, impetuosa e desassombrada pela liberdade dos índios, Vieira reacendia a flama, a labareda viva em que ardera o sermão predicado pelo dominicano fray Antón de Montesinos, em São Domingo, em vésperas do Natal de 1510. O comentário do texto Ego vox clamantis in deserto Montesinos transformou no primeiro protesto público, na primeira batalha social pela justiça social na América (Lewis Han-ke). Nesse momento – acrescenta Pedro Henriquez Urena – a humanidade viveu um dos mais altos momentos de sua história espiritual. “Habia comenzado un nuevo tipo de cruzada”. Pela primeira vez na história humana, homens de uma nação conquistadora discutem os direitos de conquista. Era uma vitória ética da humanidade: os direitos de cada indivíduo à sua liberdade e de cada comunidade à sua independência, esses eram os direitos discutidos.

(2) Ivan Lins, Aspectos do Padre Antônio Vieira (Ensaio bibliográfico), Rio de Janeiro: São José, 1956.

(3) Rudolf Stamm, Die Kaunstformen dês Barockzeitalters, Berna, 1955, Ainda sobre o mesmo tema: Werner Kaohlschmidt, Form und Innerlichkeit, Berna, 1955; André Moret, Anthologie du lyrisme barroque em Allemagne, Paris, 1957)

(OLIVEIRA, Franklin de. A dança das letras, Antologia crítica. São Paulo: Topbooks, 200
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