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Edição 180

Vieira no Reino da Mentira

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Data de Publicação: 2 de julho de 2008
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Ricardo LEÃO1

No Sermão da Quinta Dominga da Quaresma, do padre Antônio Vieira, há um momento na parte II do mesmo sermão em que o jesuíta narra o Galante Apólogo do Diabo, o qual atribui aos alemães.

Conta a fábula que, quando o diabo caiu dos céus, fez-se no ar em pedaços, os quais se espalharam por diversos países e províncias da Europa, cada parte responsável por um vício característico das regiões onde foram cair. Deste modo, a cabeça do diabo caiu na Espanha, motivo pelo qual os hispânicos seriam furiosos, altivos, arrogantes e graves; o peito teria caído na Itália, o que explicaria o fato dos italianos serem hábeis fabricadores de máquinas, não serem fáceis de entender e trazer o coração sempre encoberto; o ventre caiu na Alemanha, o que seria a causa dos alemães serem inclinados à gula e apreciarem iguarias um tanto indigestas; os pés caíram na França, daí os franceses serem inquietos, pouco sossegados, apressados, de passos largos, amantes dos bailes, da dança; os braços, um teria caído na Holanda, outro em Argel, e por esta razão seriam corsários.

Mesmo levando em consideração o fato de que a aplicação dos vícios às suas respectivas províncias não seja nem exata ou tampouco verdadeira, Vieira comenta que, à guisa de parábola, o apólogo é verossímil, o que bastaria para conferir gosto à sátira. Desta sorte, ao chamar a atenção dos seus ouvintes, o jesuíta alude à parte na qual atribui a cabeça à Espanha, concluindo que, pela questão da contigüidade de fronteiras e estarem ambos os países na mesma península, a parte que caberia a Portugal seria a língua, de acordo até com a visão dos estrangeiros a respeito e mesmo, observando as reentrâncias do litoral lusitano, a semelhança que tem com um perfil voltado para o Atlântico. É claro que, para atingir a intenção de metáfora em relação à mentira no Maranhão, objetivo deste sermão, a fábula não bastava por si mesma. Para tanto, Vieira recorre ao abecedário de Drexélio 2 , onde cada letra corresponderia a um vício. Com isto, o padre imaginou que, ao repartir as letras do abecedário pelos estados de Portugal, a única letra que caberia ao Maranhão era, sem dúvida, o M, de mentir. Isto porque Vieira, ao que tudo indica, indignara-se com a perfídia dos “colonos” açorianos que habitavam o Maranhão e como a palavra ali empenhada não tinha praticamente valor algum, pois todos os “maranhenses” pareciam mentir deslavadamente, sobretudo no intuito de proteger seus interesses de enriquecimento fácil a custo da escravização do indígena, o gentio de cobre das Américas, a quem os jesuítas lutavam por evangelizar.

O apólogo do diabo, utilizado por Vieira, ilustra não apenas os vícios de uma sociedade que se formava em pleno século XVII, mas igualmente o fato de que determinados hábitos ou desvios de comportamento podem efetivamente contribuir ou originar algumas características, transmitidas pela tradição, com as quais se forma e forja-se a identidade cultural de uma população, de uma região, até mesmo de um povo inteiro, de uma nação. Talvez pareça exagerado atribuir um determinado nó cultural, ou mesmo aqueles elementos com os quais uma determinada cultura se notabiliza, a um simples evento de escala menor no conjunto de fatos com maior “dignidade” histórica. Aliás, é justamente aí que se encontram as movimentações sub-reptícias e, algumas vezes, até mesmo imperceptíveis, porque irremediavelmente apagadas ou esquecidas na sucessão dos hábitos, das tradições, dos acontecimentos, dos discursos, que geram, podem gerar, ou poderiam ter gerado uma teia de fatos sociais e históricos além da capacidade do observador mais arguto perceber, porquanto ou não se dispõe de registros confiáveis, quando nada, para levantar uma tese, uma hipótese, ou então é uma mera especulação. Para esta teia, portanto, fica muitas vezes impossível encontrar o fio de Ariadne, e puxá-lo, como um novelo que se desfaz, em meio às tramas discursivas, para percebê-lo em toda a sua extensão, do fim para suas origens. Desta forma, não é estranho que muitos questionamentos possam nascer da mesma pergunta que se faz a uma fonte: qual sua decisiva influência para a criação de um discurso?

Com efeito, não representando um ponto de inflexão na história do Maranhão, a presença do padre Antônio Vieira (1608-1697) serviu, inicialmente, ao menos como denúncia de algumas mazelas sociais dominantes na ainda emergente sociedade maranhense. A 17 de janeiro de 1653, o padre jesuíta desembarca no Maranhão, na então capitania de São Luís, desterrado de Portugal para uma das regiões mais isoladas do império lusitano, uma parte remota do Novo Mundo, estado independente do resto do Brasil desde 1621, cujo litoral é recortado por baías e reentrâncias, repletas de dunas, floresta espessa e muita desolação. O Maranhão não passava, pois, de um vespeiro infestado de mosquitos, índios, colonos açorianos e portugueses, que para lá vieram apenas à guisa de escapar da miséria em Portugal e obterem fortuna fácil, sem nenhum interesse civilizatório pela terra, uma vez que não vinham para povoá-la e nela não queriam trabalhar. Este é um fato sobejamente demonstrado pela nossa historiografia: o Brasil não era uma colônia de povoamento, mas de exploração. Neste caso, não o Brasil, mas o Estado do Grão-Pará e Maranhão, independente do Estado do Brasil desde 1621. Os açorianos que foram para o Maranhão não queriam, pois, povoar; queriam, sim, enriquecer o mais rápido possível e retornar à Metrópole o quanto antes. Para tanto, indígena local parecia ser a solução para seus problemas, como de resto acontecia em toda a Colônia. Aqui, como em todo o território do que seria futuramente a nação brasileira, os jesuítas querelavam diariamente com os colonos, sobretudo por causa do silvícola. Os colonos, ou os “forasteiros”, como assim os chamavam os jesuítas e próprio Vieira, não albergavam consigo nenhum projeto ou afã de civilizar os indígenas, muito menos convertê-los ao cristianismo, pois sua intenção era que continuassem pagãos, para que desta forma não pudessem se igualar aos brancos da Metrópole e, assim, terem igual direito à liberdade e à cidadania portuguesa. Não queriam, pois, a alma dos indígenas; almejavam, sim, o corpo daqueles homens acobreados, que andavam nus pelas selvas, libertos da sanha dos colonos pela riqueza rápida que não lhes custasse, de preferência, trabalho algum. Não eram, pois, colonos. Eram, na verdade, saqueadores e mercenários dispostos a quase tudo para obter o objeto de suas ambições, longe demais das leis da Metrópole e do Santo Ofício para temer qualquer represália mais austera aos seus interesses:

...faltando no mesmo sítio os mantimentos naturais, que com a continuação do tempo sempre vão a menos, como é a caça, e a pesca, de que este povo se sustenta; cousa, que é impossível durar, nem permanecer, e que sempre vai sendo mais custosa. A terceira [causa é] a falta de governo político, não havendo praça, nem açougue, nem outra cousa de venda, ou aluguel, com que necessariamente cada família há de ter o que tem uma república; porque para a carne há de ter o caçador, para o peixe pescador, para o pano fiandeiras, e tecelão, para o pão lavradores, e para os caminhos embarcação, e remeiros, afora todos os outros serviços domésticos. 3

Designado ou mesmo obrigado a assumir, pelos seus superiores da Companhia de Jesus, a dificílima Missão do Maranhão, o padre Antônio Vieira decerto viveu aqui uma espécie de exílio, impressão para a qual concorre o tom indignado de muitos dos seus sermões. Não seria de espantar, entretanto, o motivo de tal indignação. Longe da Metrópole e Santa Sé, o eminente orador aqui encontrou uma sociedade viciada que, além de preguiçosa, já que não tinha a menor disposição para o trabalho braçal, escravizando o indígena a quem tanto os jesuítas protegiam e queriam catequizar, também tinha o hábito da sevícia, da maledicência, da intriga, da mentira, já que não tão estúpidos a ponto de arrostar-se com violência contra uma autoridade tão ilustre, ainda que exilada, da Santa Sé. A vinda de Vieira ao Maranhão, onde escreveu parcela significativa de seus Sermões, foi na verdade o primeiro momento em que, de fato, um grande literato, com toda a pompa que este título acarreta, conseguiu traçar um perfil crítico da sociedade maranhense de então, oferecendo um quadro que nos dá bem a dimensão das mazelas que iriam se perpetuar em longo prazo e projetar-se, deste modo, em gerações futuras. De todo modo, Vieira registra, ainda que nas entrelinhas de sua prosa, como a pobreza da região era o seu maior infortúnio à época, deixando perceber como as precárias condições oferecidas pela região atingiam quase tudo, inclusive a oferta restrita de gêneros de primeira necessidade, que atingia mesmo a São Luís, o que agravava ainda mais o quadro de abandono no qual vivia imersa a capitania:

É tão grande a necessidade, e misérias, com que se vive nesta capitania, que todos os homens geralmente, até os mais principais, andam vestidos de pano de algodão, tinto de preto; e muitos não possuem, com que o comprem, por valer preço excessivo, como são três tostões a vara, sendo que os anos passados não valia mais, que cem réis cada vara. É de considerar a miséria, a que têm chegado os moradores desta capitania, e mais pessoas dela, que vivendo há tantos anos muitos conquistadores, e povoadores desta conquista, e deitando em tantas ocasiões os inimigos da parte do norte destes rios do Curupá, e Tucuju, sujeitando com armas os gentios seus aliados, e tomando-lhes fortalezas, e artilharia, com que se guarneceu esta de Sua Majestade, lhe seja necessário comprar um escravo do gentio da terra por setenta mil-réis, como proximamente se compraram alguns... 4

Diante deste quadro, Vieira deixou muitas de suas críticas e impressões em prosa sobre a precariedade lamentável em que se vivia no Maranhão, àquela época. Mas, de todos os textos e sermões que Vieira compusera no Maranhão, o mais brilhante, mas também o mais furioso, magoado e indignado, decerto é o Sermão da Quinta Dominga da Quaresma, proferido no púlpito da igreja de Santo Antônio em abril de 1654, no qual o padre deposita toda a sua revolta e mágoa contra aquela gente que lhe parecia absurdamente desprezível e detestável. Neste sermão, como em um acerto de contas, Vieira expõe uma tese assaz interessante e contundente, ao julgar que o Maranhão teria se tornado o “reino da mentira”, cuja corte tinha sua sede na ilha de São Luís. Este sermão de Vieira, mais que uma mera peça de oratória eclesiástica, apresenta questões nodais que até hoje servem como ilustração ou metáfora de um estado de coisas que, mesmo em dias correntes, ainda se faz sentir e se perpetua na sociedade maranhense. O jesuíta conseguiu, com um lance de absoluta e cirúrgica perspicácia, desenhar o estilo predatório e de pouquíssima civilidade que bestializava os habitantes daquele rincão do império luso, decerto uma espécie de Sibéria verde para onde eram enviados e vinham os piores indivíduos da Metrópole, que governavam e usurpavam a capitania muito longe das vistas do rei, a tudo sujeitavam e punham a mão, uma vez que os próprios ofícios eram designados com este intuito, nos quais não faltavam oportunidades regaladas de furtar, como de resto em toda a Colônia. E, como o próprio Vieira irá ressaltar, a tais “colonos” não se impunha nenhuma vergonha, pois furtavam sem timidez, na frente de todos, criando toda sorte de obstáculo e rixa contra quem lhes apresentasse alguma dificuldade para a obtenção de seus intentos. Ou seja, o Maranhão, como o resto da Colônia, quiçá talvez ali mais que em qualquer outra capitania, era uma terra de ninguém. Todas as leis, toda a ordem social, toda e qualquer indicação de uma autoridade existente servia apenas para burlar a própria lei, a própria ordem, a própria autoridade. Não havia, pois, freios que retivessem, por muito tempo, a sanha gananciosa dos reinóis que para ali vieram e ali se instalaram. Apesar da permanente evocação dos princípios cristãos, os sermões de Vieira, ao que tudo indica, pouco ou nenhum efeito geraram sobre a sociedade maranhense, deixando o orador praticamente sozinho em sua pregação, evangelizando quase que apenas os indígenas:

Os vícios da língua são tantos, que fez Drexélio um abecedário inteiro e muito copioso deles. E se as letras deste abecedário se repartissem pelos estados de Portugal, que letra tocaria ao nosso Maranhão? Não há dúvida, que o M. M - Maranhão, M - murmurar, M - motejar, M - maldizer, M - malsinar, M - mexericar, e, sobretudo, M - mentir: mentir com as palavras, mentir com as obras, mentir com os pensamentos, que de todos e por todos os modos aqui se mente. Novelas e novelos são as duas moedas correntes desta terra (10), mas têm uma diferença, que as novelas armam-se sobre nada, e os novelos armam-se sobre muito, para tudo ser moeda falsa. 5

Para classificar o povo que vivia no Maranhão, Vieira utilizou-se de vários recursos, tais como comparações e metáforas de toda ordem, tudo para ajudar a fixar um arrazoado convincente em um todo homogêneo. Assim, não poupará comentários, alusões e ilações ao que considerará uma das mais graves características dos “colonos” aqui fixados: a preguiça. E aponta que, como muitos pecados originam outros, a mentira só poderia gerar a ociosidade, inversão de valores inquestionáveis, na tentativa de justificar a si mesmas. Como causa provável de todas estas manifestações psicológicas, Vieira faz uso de um determinismo ambiental: o clima. O Maranhão, pátria da mentira, era um caldeirão onde ferviam os miolos e amolecia-se o espírito dos homens de bem, tomando de empréstimo um pouco do estilo do próprio Vieira. Com efeito, tudo incomodava ao jesuíta nesta terra. Para Vieira, a presença de muito sol, muito calor, influía decerto no sentido de quebrar os laços sociais de solidariedade e senso comunitário, o que mais uma vez gerava preguiça e, conseqüentemente, o ócio. O clima, pois, para Vieira, oferecia um cabedal amplo de figuras e tropos para uma aguda e penetrante visão do homem colonial daquela capitania de São Luís, protótipo quiçá do homem oitocentista maranhense.

Fazendo uso de uma citação de Dom Fradique de Toledo a respeito da inconstância do clima no Brasil, 6 quando de sua passagem pela Bahia no ano de 1625, Vieira aproveita para dizer que, no Maranhão, até os céus mentem. Isto abre um leque de especulações muito grande. Seguindo de perto as ilações de Vieira, era como se o homem maranhense, na visão do jesuíta, nascido e criado naquela província, estivesse destinado a ser um indivíduo pouco ou nada industrioso, preferindo atividades que lhe impusesse o menor trabalho e esforço físico possível. Não apenas isto. Era já uma sociedade totalmente viciada e escravista, o que por certo impregnaria muito mais a cultura local em hábitos perniciosos para o progresso, entranhando o desapreço por todo trabalho que, ainda que honesto, fosse braçal ou dependesse de algum esforço físico para gerar fortuna. Com certeza, os “colonos” açorianos e portugueses aqui instalados desejavam enriquecer, mas a custo de escravaria, que lhes servisse de canga. Portanto, os braços dos indígenas foram o primeiro alvo, pois não queriam plantar nem semear, remar nem navegar, arar nem lavrar a terra. Precisavam de corpos robustos e saudáveis, mas que não fossem os seus; os indígenas, que para eles não passavam de animais, eram perfeitos para este papel. Assim, os corpos dos indígenas lhes serviam para tudo. Literalmente, tudo. Pasto sexual e canga para o lavradio.

Isto era mais que uma prática, ao que tudo indicava, dos colonos. Era na verdade uma política que tinha sido iniciada ainda no século XVI, sob os auspícios da própria Coroa, a qual agora Vieira também servia. A escravidão do indígena, desde então, passou a sustentar o pesado ônus da vida colonial, o que era visto com naturalidade, tom predominantemente sóbrio e até estilo simples, por Pero de Magalhães Gândavo, o primeiro historiador a oferecer detalhes sistemáticos sobre o Brasil, em seu Tratado da terra do Brasil, o que reforça a tese de que as descrições deste período, assim como os “tratados” e “histórias”, serviam quase que exclusivamente para atrair os colonos, antes as facilidades “excepcionais” apresentadas:

As pessoas que no Brasil querem viver, tanto que se fazem moradores da terra, por pobres que sejão, se cada hum alcançar dous pares ou meia duzia de escravos (que pode hum por outro custar pouco mais ou menos até dez cruzados) logo tem remedio pera sua sustentação; porque huns lhe pescão e cação, outros lhe fazem mantimentos e fazenda e assi pouco a pouco enriquecem os homens e vivem honradamente na terra com mais descanço que neste Reino, porque os mesmos escravos indios da terra buscam de comer pera si e pera os senhores, e desta maneira não fazem os homens despeza com seus escravos em mantimentos nem com suas pessoas. 7

Trecho que vai permanecer com poucas alterações em História da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, no capítulo IV:

E a primeira cousa que pretendem acquirir, são escravos para nellas lhes fazerem suas fazendas e si huma pessoa chega na terra a alcançar dous pares, ou meia duzia delles (ainda que outra cousa nam tenha de seu) logo tem remedio para poder honradamente sustentar sua familia: porque hum lhe pesca e outro lhe caça, os outros lhe cultivão e grangeão suas roças e desta maneira nam fazem os homens despeza em mantimentos com seus escravos, nem com suas pessoas. 8

O colono português, portanto, não vinha para instalar, porquanto não queria e muito menos era estimulado para tal pela política imperial, uma sociedade produtiva e autônoma em todos os sentidos. A lógica do trabalho escravo já trazia, em seus pressupostos, a necessidade de acúmulo rápido de riquezas, que importava mais que o florescimento de valores sociais mais permanentes; entre estes, o da produção de bens e riquezas a partir do esforço dos próprios colonos. Ora, este estado de coisas despertou a indignação do Padre Vieira. Não havia, pois, dúvida nem armistício, ao que tudo indica, em suas estocadas contra os habitantes da capitania maranhense. Neste sentido, o jesuíta escolhe figuras e tropos que vão se tornar clássicos para criar o corpo de delito daquela sociedade. Para o jesuíta, o M de Maranhão não significava apenas a sua consoante inicial, mas M de murmurar, M de motejar, M de maldizer, M de malsinar, M de mexericar e, sobretudo, M de mentir. Não apenas “mentir com as palavras”, mas “mentir com as obras, mentir com os pensamentos, que de todos e por todos os modos aqui se mente”. Com um tom supremo de ironia, Vieira afirma que “novelas e novelos, são as moedas correntes desta terra”. Ora, os novelos de algodão grosso eram a moeda adotada pelos “colonos” para a troca de mercadorias e afins. As novelas, as narrativas rocambolescas de gosto popular, assim como os novelos de algodão, eram ambas ficcionais, ou seja, duas convenções, duas mentiras. Duas coisas que, apesar de suas diferenças, estavam fundadas sobre o mesmo terreno em falso, a mentira, assim como aquela sociedade alijada das leis da igreja e da coroa.

A imaginação fértil de Vieira, deste modo, dava asas a imagens brilhantes e audaciosas, amalgamadas pelo poder de concatenação lógica que poucos prosadores, comparáveis ao jesuíta, possuíam. De nada adiantariam, entretanto, como o próprio Vieira pôde verificar, os esforços de trazer algum “bom-senso” aos “colonos” do Maranhão, menos ainda sensibilizá-los para o pietismo cristão em relação aos indígenas. O jesuíta conheceria de perto, como todos os seus confrades no Brasil, a forte oposição que os “colonos” orquestravam contra o projeto civilizatório que a Companhia de Jesus encampava e mantinha para o Brasil. Apesar disso tudo, Vieira resistiria entre os maranhenses por quase dez anos, entre 1653 a 1661, sofrendo revezes constantemente em suas empreitadas a favor do indígena e contra os “colonos”, que lutavam por afastá-lo dali, e contra o qual pouco ou nada podiam fazer, uma vez que o jesuíta gozava de grande prestígio junto ao rei. Isto, com certeza, até a intervenção de Pombal, pondo termo aos projetos do grande jesuíta.

De qualquer modo, o Sermão da Quinta Dominga da Quaresma encontra um poderoso eco até hoje. Seguindo de perto o raciocínio de Eric Hobsbawn e Terence Ranger em A invenção das tradições, Vieira parece ter conseguido “inventar” a mais antiga e talvez a mais poderosa das tradições maranhenses, ou seja, mentir. Com efeito, se o Maranhão conseguiu ser inventado como o reino da mentira, foi por obra de Antônio Vieira. De modo que hoje, no Maranhão, mente-se até quando não se quer, contra a vontade. As circunstâncias tornam as pessoas mentirosas. Quantos no Maranhão dizem a verdade, e passam por mentirosos. E quantos mentem, e até são eleitos, tornando-se paladinos da verdade. E quantos utilizam a mentira para a criação artística e literária. Eis talvez o grande legado de Antônio Vieira, o homem que talvez inventou o ser do Maranhão.

NOTAS

1 Professor, ensaísta, ficcionista e poeta, discente do programa de Pós-graduação em Teoria e História Literária, em nível de Doutorado, do Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, sob a orientação do Prof. Dr. Francisco Foot Hardman, bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

2 Jesuíta contemporâneo de Vieira, autor célebre da Companhia de Jesus que escrevia seus livros, sobretudo tratados em latim, versando sobre os mais diversos assuntos e curiosidades, como a astrologia. Chegou a escrever um tratado inteiro sobre o zodíaco, com o seguinte frontispício: “Zodiacus: totidem symbolis explicata, ab Ierem: Drexelio a Societate IESU”.

3 VIEIRA, Antônio. Cartas do Brasil (1626-1697): Estado do Brasil e Estado do Maranhão e Grã-Pará. Org. de João Adolfo Hansen. São Paulo: Hedra, 2003, p. 446.

4 BERREDO, Bernardo Pereira de. Anais históricos do Estado do Maranhão. 4ª. edição. Rio de Janeiro: Tipo Editor Ltda, 1988, p. 252.

5 VIEIRA, Antônio. Sermões: Padre Antônio Vieira. Tomo 1. Organização de Alcir Pécora. São Paulo: Hedra, 2000, pp. 519-520.

6 “En el Brasil hasta los cielos mientem”.

7 GANDAVO, Pero de Magalhães de. História da província de Sancta Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil. Lisboa, 1576, Capítulo 4, p. 15-16.

8 GANDAVO, Pero de Magalhães de. Tratado da terra do Brasil. Lisboa, s/d, p. 20.
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