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Edição 178

Cassas e Lucchesi:a transmutação da diáspora em poesia

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Data de Publicação: 4 de junho de 2008
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Elogio da delicadeza

A Sabedoria faz o seu próprio elogio.
(Eclesiástico)

A delicadeza
não faz seu elogio.
Serve-se à mesa
sem pompa e estilo:
dispõe os lugares
mostra os talheres
sacia os olhares
mas deixa o espaço
a outros concílios.
A delicadeza
não é prato cheio
é antes o vazio.
Tempos de aspereza
- em verdade - é exílio.
Onde encontrá-la
em meio ao comício
de suposto brilho?
Está não estando
- cuidando dos filhos -
sutil arabesco
desenhando a prenda
de dourado auxílio.
Está na criação
no átrio do templo:
nenhuma inscrição
orna-lhe o evento.
Tecelã da graça
tênue bailarina
gira a bola do mundo
jeito de menina.
Com suas mãos de fada
jamais nos fascina:
alivia-nos a queda
reenvia-nos pra cima.
Está na oração
no reino da água
acalma o leão
libera-nos as garças.
Com as letras do ser
imprime o alfabeto
que as luzes do éter
mostram a céu aberto.
A delicadeza
é massa de pão:
fermento e ungüento
move a inspiração.
Resplandece em Séfora
no pousar das ânforas.
Ilumina Ester
destino de conchas.
A delicadeza
opera milagres:
gentil natureza
lavra o azinhavre.
Quando fala em público
não gera tumulto.
Lançado o insulto
veste o branco-luto.
Quais os oito graus
da delicadeza?
pureza? leveza?
beleza? harmonia?
sutil transcendência?
sábia alegria?
suba-lhes os degraus
ajunte-se-lhe a nobreza
o que respiraria?
- Pura poesia!
A delicadeza
é só coração.
Única riqueza:
amar os irmãos.
Em tempos difíceis
de fome de mísseis
em que às virtudes
se toca o alaúde
e o interior lixo
polui o espírito
seu suave ofício
seja o teu vício.
(p. 80-82)

Pranto pelo
Rio Itapecuru


meus olhos não vejam
embaciem-me as lágrimas
morrendo de sede
o rio bate asas

meu canto não seja
pira funerária
à lua agoniza
a água-mortalha

grande mururu
escola das águas
lava jururu
a última anágua

líquido amniótico
nilo maranhense
não negues agônico
os seios à gente

chamem o gurupi
socorra-o o flores
que o itapecuru
naufraga em suas dores

se o rio está bêbado
secado o gargalo
mandi e anojado
bebem pra enterrá-lo

se o rio é piranha
velho caramujo
às pardas entranhas
o homem é mais sujo

se o rio é carniça
de sucuruju
à humana preguiça
roem-na os urubus

quem tosquiou o rio
e lançou-o aos cães
vingou o fastio
do leite das mães!

enterrai as canoas
no leito vazio
que ao boi as carroças
farão seu plantio

quem irá pagar
a conta suicida
de exterminar
a água da vida?

benzei as nascentes
orai às correntes
líquido hierofante
seja a nossa ponte

injete a lua cheia
sangue em profusão
circule em suas veias
nosso coração

água de menino
sede de viver
cristal de ouro fino
deixa-nos beber

casa de minha avó
velho mulundu
levanta do pó
o itapecuru

ó maracanã
estádio deserto
o grande xamã
seca a céu aberto
sapo cururu
da beira do rio
o itapecuru
morre a fome e frio
(p.42-44)

A Gota d’Água

Desconfia dos que temem a chuva
lavam as mãos sem cessar
e carregam o olhar seco nas estações
Há um rio turvo correndo neles
precisando encontrar a sua nascente!
(p. 75)

O Discurso do
Peixe na Sinagoga


não sejais
perfeitos
pra que à tona não retorneis
vossos defeitos
em tudo ultrapassai
a cota do profano
mas não sejais divinos
apenas humanos

não separeis
prazer e transcendência:
mas vivei
a transcendência do prazer
e o prazer na transcendência
de tudo fazei
arte e ciência

buscai sabedoria e amor
mas amai
a sabedoria do amor
e o amor da sabedoria:
seguindo essa romaria
tereis sempre alegria

se disserdes: não!
perdereis o coração!
se disserdes: sim!
sereis atraídos a mim!
seja o ter do ser
vosso viver
e lazer

e eu vos digo
em nome do eterno
não repartir a luz é o inferno:
e a glória que redime
e vence todo o ciúme
é ser sublime

não guerreeis
não cloneis
sobretudo não lanceis
jogos de armar
só um peixe conhece outro peixe
só um mar conhece outro mar
(p. 76-77)

(CASSAS, Luís Augusto. Evangelho dos Peixes para a Ceia de Aquário. Rio de Janeiro: Imago Editora, 2008)

POEMAS DE LUCCHESI

Dualismo

Teu rosto é claro se meu sonho é escuro,
só vens me visitar quando não quero,
andas perdido quando te procuro,
se mais confio em ti mais desespero,
se buscas o passado sou futuro,
Se dizes a verdade és insincero,
se temo tua face estou seguro,
se chegas ao encontro não te espero.
Bem sei que em nosso olhar refulge o nada,
que somos, afinal, a negação
mais funda, mais sombria e desolada.
Como lograr, meu Deus, reparação,
enquanto segues longe pela estrada,
de nossa irreparável solidão?  

De Rerum Natura

Alheios ao destino
dos mortais 
além das nuvens
claras e sombrias
vivem os deuses
raros nas alturas
livres de enganos
dores nostalgias
da morte vil
que aos poucos nos invade;
da chuva de átomos
em que se evade
indefinidamente
a natureza
em sua eterna
mas avara empresa
de reunir 
os átomos-enxame
seguindo a força rude
do cliname,
compostos provisórios
que se desfazem
noutros repertórios:
estrelas, águas
nuvens, tempestades,
cristais, abelhas,
glórias ou cidades,
e flores, pedras
corpos, consciências 
– figuram
como pálida aparência ...
e acima desse
mundo sempre em guerra
acima
da miragem dessa terra
repousam
esquecidos nos meatos
mais livres
os celestes, mais beatos

Cantiga de Amor

Quando os objetos da Terra perdiam seu encanto, estavam para mim os céus...
(Johann Lambert)

Acima de nós
tudo é silêncio

erram planetas
insones

abismos
devoram estrelas

lagos
de hidrogênio
se resfriam

supernovas
cantam
como cisnes

e o silêncio
revela
outro silêncio...

- olha para o céu
Amada

Olha
E não diz nada

E a soma das distâncias

Que me ferem
Mal

Se compara ao
Silêncio

Que
Me assalta

(LUCCHESI, Marco. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000)

Sobre a poesia de Marco Lucchesi

Capaz de vôos vertiginosos e inéditos, com a publicação de seus Poemas reunidos, Marco Lucchesi nos oferece a possibilidade de experimentar alturas e abismos, que transformam nosso olhar e modo irreversível. Em sua obra, as fronteiras são desfeitas: culturas diversas se aproximam, inesperadas, num diapasão musical de novas tessituras. Versos que anunciam uma nova lógica poética, que não aceita exclusões, como quem persegue desertos e estrelas, de uma poesia forte e original.[...] 

Constança Hertz 

Uma sutil integração do universo-idéia dessa alta poesia.  

Carlos Drummond de Andrade

Encantei- me com Bizâncio. Invejável perfeição no soneto, tão contemporâneo na sua linguagem arcaica. 

Carlos Nejar 

São hinos penetrantes. O triunfo maior, a meu ver, é a sua atemporalidade. Mais do que uma poesia é uma poética.

Armando Freitas Filho  

Muito me impressionou a variedade da forma entre essencialidade negada e ritmo rápido e musical, sonho e visão. Poesia de uma rara originalidade e visão.

Giorgio Barberi- Squarotti  

Li os poemas com muita participação, pela riticimidade pouco habitual, por essa língua ao mesmo tempo tão fresca e tão culta.

Giuseppe Conte
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br