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Edição 178

ENTREVISTA - MARCO LUCCHESI

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Data de Publicação: 4 de junho de 2008
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Guesa Errante – Quais as bases da formação do escritor Marco Lucchesi?

Marco Lucchesi - Caro Alberico: Minhas bases, como dizê-las? A paixão de estudar, as leituras, os horizontes de busca sem achamento. Método e abertura. Disciplina e Liberdade. Essa, talvez, a minha divisa.

G.E. – Na formação intelectual e literária do autor de Bizâncio, o que pesa mais, a tradição ou a ruptura?

M.L. - Naquele momento ambas as forças ocupavam o mesmo espaço, por mais que algumas formas pudessem apontar erroneamente para uma demanda visceral de tradição. Esse viés fica mais decidido nos livros últimos como Sphera e Meridiano celeste, nos quais eu me vejo com maior intensidade. Mas não uma oposição irreconciliável entre ruptura e tradição.

G.E. – Na sua opinião, quando um tradutor pode se considerar de fato um co-autor, um transcriador ou recriador, já que versão, sem criação, qualquer pessoa que conheça a gramática do idioma da obra, em questão, pode fazer?

M.L. - A congenialidade. A simpatia. A sensibilidade e o estudo são de todo fundamentais. Conhecer a língua de chegada é muito importante. Mas não basta. O centro de irradiação do processo consiste no conhecimento mútuo das duas tradições literárias. Para que se saiba em que espaço trabalhar. Onde romper. Ou inaugurar. É preciso que se estabeleça um pacto de cumplicidade com a demanda literária. E saber para que lado o tradutor deve seguir. Não existe o tradutor em si. Mas uma vocação particular no ato de traduzir. Conhecê-la parece-me essencial.

G.E. – Decorridos 6 anos da entrevista concedida pelo escritor Marco Lucchesi à equipe de Rascunho, A cultura passada a limpo!, há mudanças de pontos de vista em concepções, hoje, sobre a construção de sua obra literária, tendo por base o tradutor, o ensaísta, o crítico, o jornalista e o poeta?

M.L. - Mudou muito. A entrevista foi feita inicialmente há mais tempo. Ampliada alguns anos depois. Mudou muito. O estilo. O horizonte de minhas perplexidades. Tanta coisa migrou que algo deve ter permanecido. Mas o que está em meus livros sonda agora outras formas, que imagino e desejo mais livres e despojadas. A tradução diminuiu. E o trabalho jornalístico também. A poesia e a prosa criativa me ocupam com maior intensidade.

G.E. – O que mais enriqueceu o escritor, após sua obra de criação literária como tradutor de Vico, Umberto Eco, Foscolo, Roberto Cotroneo, Rilke, Rumi e Khliébnikov?

M.L. - A pluralidade dessas vozes, as dimensões que inauguram, os projetos que instituem. Mas houve outros, ainda. Trakl. Quevedo. João da Cruz. E a lista podia continuar. Mas hoje a tradução ficou mais esparsa. Menos freqüentada. Mas guardei a espiral de Vico. E o Globo Terrestre de Khliébnikov.

G.E. – Marco Lucchesi é um intelectual que nos parece trabalhar numa área de situação limite, sempre em via de superação de desafios; múltiplo, transita por várias formas de discursos literários – o poema, a crítica, o ensaio, a tradução, o jornalismo. Como o escritor concilia os vários ‘eus’, para preservar no eixo pendular o poeta em seu processo alquímico?

M.L. - Caro Alberico, eu procuro antes de mais nada sondar as minhas pequenas possibilidades e a minha tenacíssima inquietação. Tenho como certo que a música que me atravessa determina as escolhas que realizo (ou serão elas que me escolhem?). Algo como a bela poesia de Luis Augusto Cassas, movido pela chama das coisas plurais. Posso ter corrido muitos riscos. Admito. Mas sou um enamorado do plural, aquele que agrega as suas partes possíveis e com elas dialoga.

G.E. – Poeta, como tem sido para você a arte de tentar aproximar as linguagens de idiomas distintos gramaticalmente em pontos básicos, como morfologia e sintaxe, tendo como saída a inspiração e a iluminação que possibilitam a criação no campo semântico?

M.L. - Sempre gostei de estudar línguas e desde a minha infância. O tempo só fez aumentar essa paixão que me leva a quase duas dezenas. Gosto de ler o original das línguas com seus poemas. Toda língua, como já disseram, é uma metafísica. Uma porta de entrada. Uma forma de sonho. E, portanto, o que me interessa é articular essa saudade do todo, as partes dispersas, as idiossincrasias, os modos de domar as forças do caos. O sonho de uma língua universal...

G.E. – Como Marco Lucchesi consegue superar, na tradução, aqueles pontos que são peculiares ao autor da obra traduzida, como estética e estilo? O tradutor tem que incorporar o autor durante o processo de desconstrução/reconstrução do texto recriado?

M.L. - Incorporar, bela palavra... E palavra de ordem. Como quem mergulha. Como quem se perde. Como quem vai adiante. Quase uma alquimia. Uma perda de fronteiras. Livre trânsito. Mas não posso dar cabo da minha subjetividade. Como esquecer de mim mesmo se esse estranho mim mesmo é o que me dá alguma consciência do leitor que sou. Nesse caso a pedra filosofal da tradução trabalha dentro do tradutor. Sempre aberto ao outro. Mas a síntese – boa ou má – de algum modo lhe pertence.

G.E. – É geralmente sabido que na América Latina só o Brasil fala e se significa em português, tal situação já é um impasse ou uma barreira para as obras literárias do nosso idioma terem projeção em países como Argentina e Chile, sem esquecer que, na América Central, em Cuba e no México também a língua é espanhola. Isto se amplia na Europa e nos Estados Unidos. Como você analisa esta situação?

M.L. - As políticas culturais devem mostrar-se mais fortes, vencendo barreiras que são menos de ordem lingüística e mais de ordem histórica. A questão da visibilidade depende muitíssimo do maior impacto de nossas missões culturais no exterior. Que são, afinal de contas, modos de afirmar a paz no seio das diferenças.

G.E. – Em termos de qualidade de obra literária, há razão para Carlos Drummond de Andrade ou João Cabral de Mello Neto serem menos conhecidos que Pablo Neruda ou Machado de Assis e Guimarães Rosa menos que Gabriel García Márquez?

M.L. - Completamente de acordo. Acho que inclusive podíamos pensar o exato oposto na correlação de forças dos autores que você apontou. Insisto que não vamos isolados pela língua. As questões são de ordem política e nos acompanham desde sempre. As coisas hoje começam a mudar. Com lentidão, é verdade. Mas estamos dando alguns passos.

G.E. – Gostaríamos que você falasse para as novas gerações sobre a experiência de um jovem escritor como tradutor, que tem levado essa prática às máximas conseqüências e com responsabilidade.

M.L. - É preciso amar as línguas. E sobretudo o modo das formas várias em que se exprimem literariamente. A tradução é trabalho árduo e fascinante. E dispõe de uma ética precisa de deslocamento de massas sonoras e palavras. E muita aventura. Portanto...

G.E. - Como você lê a produção/criação literária brasileira contemporânea?

M.L. - Há muitas alegrias. Outras que estão se fazendo e que devem acontecer em breve, independente de qualquer idéia de geração. A literatura brasileira vive um momento de mudança e , nem por isso, deixa de beber nas próprias fontes, que lhe são mais caras.

G.E. – Sabemos que o número assustador de traduções encomendadas no circuito editorial brasileiro com a pressa de faturamento é alarmante. E tal situação não passa despercebida por quem conhece o gênio de Poe, Baudelaire, Rilke, Eco, Rumi e de Shakespeare. Como você vê esse crime?

M.L. - Acompanhei de fato uma situação bem complicada que se levantou ultimamente. Não podemos concordar com esse tipo de trabalho de contrafação tradutória. Por outro lado, o crescimento das traduções no mercado brasileiro apontam para uma demanda inquieta de diálogo. Pagaremos alguns riscos. Mas é a abertura dos portos!

Bio-bibliografia

Marco Lucchesi, 44 anos, é carioca, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Colégio do Brasil. Formado em História pela UFF, Doutor em Ciência da Literatura pela UFRJ e Pós-Doutor em filosofia da Renascença na Universidade de Colônia, Alemanha. Diretor Acadêmico do Colégio do Brasil. Professor-Visitante da Universidade de Roma ”Tor Vergata” e da Universidade de Craiova na Romênia. Publicou: Meridiano celeste & bestiário (Prêmio Alphonsus de Guimarães 2006 da Biblioteca Nacional, finalista do Prêmio Jabuti 2007), A memória de Ulisses (Prêmio UBE João Fagundes de Meneses), Sphera (Menção Honrosa do Prêmio Jabuti 2004, Prêmio UBE de Poesia Da Costa e Silva 2004 e pré-finalista do Prêmio Portugal Telecom 2004), Poemas reunidos (finalista do Prêmio Jabuti 2002), Os olhos do deserto, Saudades do paraíso, O sorriso do caos, Teatro alquímico (Prêmio Eduardo Frieiro 2000 da Academia Mineira de Letras), Faces da utopia, A paixão do infinito, Bizâncio (Comenda Espatário da Trebizonda, finalista do Prêmio Jabuti 1999). Em italiano, os livros: Poesie (Prêmio Cilento), Lucca dentro (Prêmio da Câmera de Comércio de Lucca), Hyades e La gioia del dolor. Organizou as edições da Jerusalém libertada, de Tasso, e de Leopardi: poesia e prosa, Artaud, a nostalgia do mais, Caminhos do islã (indicado ao Prêmio Portugal Telecom 2003), Viagem a Florença e O canto da unidade, em torno da poética de Rûmî. Traduziu dentre outros A Ilha do dia anterior (finalista do Prêmio Jabuti 1996) e Baudolino (finalista do Prêmio Jabuti 2002), de Umberto Eco, A ciência nova (Prêmio União Latina 2000, Prêmio Speciale del Presidente della Repubblica Carlo Ciampi: Prometeo d´Argento), de Vico, Poemas à Noite, de Rilke e Trakl (Prêmio Paulo Rónai da Biblioteca Nacional), Poemas, de Khliébnikov, Três histórias, de Patrick Süsskind, Esboço do julgamento universal, de Foscolo, A trégua, de Primo Levi, A sombra do Amado: poemas de Rûmî (Prêmio Jabuti 2001), Caligrafia silenciosa, de George Popescu, Presto con fuoco, de Roberto Cotroneo, A Teologia mística, do Pseudo-Dionísio Areopagita, e os “Versos de Iúri Jivago”, do romance Doutor Jivago, de Boris Pasternak. Dirige a coleção Fac-símile da Biblioteca Nacional, dentre cujos títulos se destacam A divina proporção, de Luca Pacioli, e Frutas do Brasil, de Frei Antonio do Rosário. Editor das revistas Poesia Sempre e Mosaico Italiano. Colabora com O Estado de São Paulo, O Globo, Jornal do Brasil e Folha de São Paulo. Trabalha como dramaturgista em montagens teatrais. Participou da criação da Universidade do Professor, no Paraná, além de organizar seminários para o Centro Cultural Banco do Brasil e Funiarte. Recebeu o Prêmio Marin Sorescu, na Romênia, o Mérito da União Brasileira de Escritores, o Premio San Paolo - Città di Torino, o Premio Nazionale per la traduzione 2001 do Ministero dei Beni Culturali da Itália, o título de Cavaliere della Stella della Solidarietà della Repubblica Italiana, as medalhas Geraldo Bezerra de Meneses, José Cândido de Carvalho e Associazione Lucchesi nel Mondo. Seus livros foram traduzidos em romeno, por George Popescu, em romeno (Grãdinile somnului - Craiova, Scrisul Românesc e Hyades – Autograf MJM), em persa, por Rafi Moussavi (Ministério do exterior – Teerã, reed. Rio, Editora Shams), em alemão, por Curt Meyer-Clason (Erwartungslicht - Berlim, Leonardo Verlag), em sueco, por por Márcia Cavalcanti Schuback (Risk- Berlim, Leonardo Verlag) e em árabe, por Safa Jubran (Shukran, iá sama multhba - Rio, Editora Shams).
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br