Data de Publicação: 4 de junho de 2008
Alberico CarneiroA via de acesso e ascese à poesia como necessidade interior de transmutar a angústia existencial em algo que valha a pena do ponto de vista da catarse ou purgação e purificação tem sido a pedra angular de dois poetas brasileiros contemporâneos, o maranhense Luís Augusto Cassas e o carioca Marco Lucchesi.
Tendo nascido e vivido em lugares diferentes, eles têm percorrido caminhos que convergem para um estuário comum, o de uma poética em que ambos se conciliam por afinidades e identidades de percurso de leituras e/ou vivências, que funda um território novo no panorama do cânon que vige, no Brasil, há séculos. Ambos procuram encurtar as fronteiras entre o pensamento ocidental e oriental, partindo da tese que a unidade depende dos opostos. Ou seja, quem não passar pelo inferno não poderá ter de fato uma melhor compreensão do que seja humildade e simplicidade.
Sem dúvida, cada um tem um projeto poético personalíssimo em termos de criação literária e construção do poema, mas se afinam quando procuram fazer com que o texto volte às origens mais ancestrais, destituindo-o da erudição que o distancia do leitor.
Por trás do projeto poético de cada um há um trabalho gigantesco de desbravador e pioneiro, pois trabalhar ao nível da desconstrução de séculos de olhar mundos diferentes, levando em conta suas fronteiras meramente históricas, não constitui tarefa para principiantes. Cassas e Lucchesi por seus próprios talantes navegam por águas nunca dantes navegadas e estão justo num ponto do oceano da linguagem em que raros são os sobreviventes. Eles adentraram o mar vasto da poesia para unificar as várias tribos do mundo e sabem que essa bênção não virá senão pelo batismo do amor.
Como chegar ao coração dos seres humanos cerebrais com a arma do verbo senão tentando lembrar que é nos opostos que está a solução e o equilíbrio? Yn e Iang, frio e calor, sombra e luz, silêncio e voz, água e terra, dor e alegria, coração e cérebro existem como extensões uns dos outros, para quebrar as tensões e excessos.
Na realidade, Cassas e Lucchesi se propõem reler a sabedoria acumulada pelas civilizações, traduzindo-a para uma linguagem capaz de unir as polaridades. Sim, uma linguagem que torna possível o esperanto.
Eles desconstróem o que é carrancudo, apócrifo, nebuloso, investindo numa linguagem a mais despojada possível, colocando o significado como prioridade e escolhendo não os significantes mais raros, senão os mais comuns. Trata-se do processo alquímico de transformar latão em ouro, demonstrando que a quintessência, nas Letras, é possível. Sim, nas letras, como na música, nas artes plásticas, no cinema.
Por que pensar que os mistérios existem apenas para uma dúzia de escolhidos? Chega de mistérios de seitas secretas, de separação entre gnósticos e agnósticos, de livros apócrifos, de cabala como exclusividade de um grupo de seletos empombados. Cultura elitizada é egoísmo. É preciso repartir o pão dos segredos milenares, trocando as cédulas a que só tem acesso uma minoria em miúdo. E é para essa nova ceia em comunhão que nos convida o poeta Luís Augusto Cassas em vários livros de sua obra literária.
É preciso acreditar que a poesia do individualismo do mal-do-século já passou; também já chega de poetas malditos que vem desde Edgar Allan Poe até os dias atuais. É preciso atentar para os novos rumos da história da humanidade. Antenar-se e perceber que há algo de tom profético nesse buscar, através da poesia, reaproximar o ser humano da criação, reconciliando o ser com a Natureza em todos os sentidos, criatura e Criador reunidos, lado a lado serpente e pomba, lobo e cordeiro descobrindo que força e fragilidade se equilibram.
É nesse sentido que Cassas e Lucchesi representam um novo momento do texto literário brasileiro. Eles estão propondo que repensemos o passado e se não é bom mudar da linguagem pedante para um texto sem máscaras. Écomo se eles dissessem basta à era dos poetas malditos, para instaurar-se a era dos poetas da comunhão e da confraternização universal. Como diria Drummond, vamos todos de mãos dadas.
Por optarem por um outro viés poético é claro que estão pagando um preço, já que o novo incomoda, porque também exige um novo olhar de leitor e crítica.
Na segunda metade do século XIX pagaram pesado ônus os escritores naturalistas, realistas, simbolistas e decadentistas. Depois, no início do século XX, os poetas e artistas plásticos, durante a Semana de Arte Moderna de 1922, foram vaiados no Teatro Municipal de São Paulo. Hoje, há quase uma unanimidade de crítica sobre a importância das obras de Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Cruz e Sousa, Maranhão Sobrinho, Sousândrade, Manuel Bandeira, Mário e Oswald de Andrade e Anita Malfatti.
Na realidade, Cassas vem construindo com obras como O Retorno da Aura, Em Nome do Filho e Evangelho dos Peixes para a Ceia de Aquário, dentre outras, um outro percurso no contexto da literatura maranhense e brasileira contemporânea.
Percebe-se que, através de seus textos, ele encetou uma longa viagem do interior para o exterior, que deve ser fruto de leituras, vivência, sofrimento e superação, através da catarse, pois pelo que parece ele conseguiu unir literariamente os contrários numa boa receita para tentar a via da felicidade e da paz.
Para que se possa avaliar a dimensão da obra literária do professor e escritor Marco Lucchesi, publicamos, neste Suplemento, a entrevista que ele concedeu ao Guesa Errante.
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