Data de Publicação: 18 de junho de 2008
Eles todos, os personagens que desfilam por este livro, foram em vida, de certo modo, insignificantes. Evidente que me refiro às pessoas, embora, de algum modo, as coisas também deixem de sê-lo quando seus significados se perdem e são reescritos ou vividos por pessoas outras, em outros tempos. Os homens e mulheres aqui descritos não realizaram nada extraordinário, viveram à margem da sociedade que lhes cercava, não de cuidados, mas de curiosidade, porque eram diferentes, porque despertavam riso ou nojo. Porque, talvez, encarnavam as dores e pecados dos demais. Toda comunidade tem lá seus bodes expiatórios, que são lançados no deserto da indiferença, como que a contrapor, fazer a contraluz, entre o doente e o são, entre o bonito e o feio, entre o que encarna a maldição e o abençoado.
Estes personagens povoaram minha infância e é com esta luz que os apresento a você, leitor. Alguns parecerão irreais, seres de outros mundos, mas existiram. Foram pessoas com histórias que se perderam em descaminhos que nunca se sabe onde começam, e destes o mundo está tão cheio que se tornam banais para a maioria de nossos olhos. Eles, neste sentido, vagueiam, confundem-se com coisas e paisagens, se mimetizam de verde, de água, de sujeira, de ruas e prédios, por isso não os notamos como gente.
O livro nasceu de maneira abrupta. Foi numa conversa corriqueira com pessoas, algumas das quais conheceram as histórias aqui relatadas. Alguém pronunciou um nome e, quando dei por mim, estava inundado de lembranças daquelas gentes, espaços e coisas. Sensações se apoderaram de mim e acreditei que estes seres deveriam voltar ao mundo, carregados com seus fardos de emoções e desditas para cutucar os vivos e, quem sabe, fazê-los rir, chorar, serem chacoalhados da mesmice e da modorra que se apodera desta vidinha de todos os dias.
Quando os vejo, penso num tempo que não existe mais, não porque estivessem num passado distante e, por artes das lembranças, voltam como assombrações benfazejas, mas de que sempre temos medo. Não nos acostumamos com coisas etéreas neste mundo duro feito de matéria que se come, que se veste, que se toca. Vejo-os como mágica, porque é assim que entendo. Uma portinhola muito pequena se abre e, como não me vêem, posso bisbilhotar e até me olhar bem pequeno, magrinho, rápido, carregado de uma alegria esquisita que só as crianças conhecem.
Os lugares retratados, como existem hoje de outras formas e são outras gentes que lhes habitam, estão pincelados com poucos detalhes, assim que serão construídos na imaginação dos leitores, de modo que haverá um mercado para cada um, uma igreja... Aquela que toda cidade pequena tem com a pracinha em frente e seus folguedos nas festas dos santos a se manifestar na fé popular e nos períodos de contrição da cidade.
O rio também será outro, até porque, diziam os antigos, nunca nos banhamos no mesmo rio. Não, nem que seja o mesmo lugar, ou como chamávamos os lugares onde se banhava e se faziam outras atividades, os portos de banho. Muito mais ainda para um rio que, ao longo destes trinta anos, tem sido açoitado por toda sorte de agressão sem que por ele ninguém fale nada.
Sobre as pessoas-personagens, se alguém me perguntasse se tenho alguma predileção, eu não saberia dizer, porque elas são só retratos, se mantenho a distância intelectual típica dos adultos. Mas, se os vejo como menino, sempre me parecerão outros seres, cada um em seu lugar, nem menos ou mais importantes que os demais, seus iguais. Cada um, a seu modo, capaz de despertar em mim, tanto tempo depois, emoções que não são saudosas, são como cheiros e sabores de que gostamos e que ficam guardados em arquivos da memória, e não importa o tempo que passe, se os provamos, em qualquer momento, somos transportados e gostamos deles como da primeira vez.
Então, esta leitura é um convite para uma viagem, para um tempo e mundo que você não conhece e nem por isso, como quando você ouvia histórias contadas pelos mais velhos, deixará de construí-los e, quem sabe, um dia desses você não topa com um Diarroba por aí...
O autor
DiarrobaPor lá, se dizia vinhado, para alguém em permanente estado de embriaguez.

Ou como chiste, chamavam a estes de “cobra de farmácia”, em alusão às antigas boticas, ainda nos tempos das farmácias, com ph, que expunham nas prateleiras coisas estranhas em vidros cheios de álcool, inclusive serpentes. Aquilo era um mundo fantástico. Fetos, animais deformados que de alguns se dizia parecer com gente, uma insinuação de que houvera conjunção carnal entre as espécies. Aqueles vidros guardavam outros mistérios que eu não conseguia decifrar. E ainda havia uma infinidade de vidrinhos de muitas formas e cores e montes de gavetinhas. Um mundo mágico e lúgubre, aquele lugar.
Ele teria feito muito sucesso no rádio com sua voz de locutor de aeroporto. Mas não havia estação de rádio naquele tempo, funcionava o que no linguajar comum se chamava “A Voz”. Um equipamento tosco que fazia as vezes de uma estação com os alto-falantes encarapitados na ponta de uma vara. Todas as noites, por duas horas, ouvia-se “A Voz”. O som nos chegava ao sabor do humor do vento, que ora o trazia para bem perto e noutra o carregava para distante que quase nada se ouvia. Aquele vaivém do som emprestava um tom melancólico à noite. “A Voz” era nosso Jornal Nacional, embora raramente se soubesse notícias de outros mundos. Ouviam-se recadinhos de amor. Oferecimentos de músicas entre enamorados. Propagandas (Gripou? Tricortil cortou!). Também se anunciavam velórios. Parte da vida da cidade passava na “Voz” como o rio corria soberano e plácido ao pé do Alto São José, onde estava instalada.
Não dava para acreditar que daquele tamanho de homem saía uma voz tão grave. E era assim, com seu vozeirão, que sustentava uma vida que definhava por conta do vício do alcoolismo. Ganhava uns trocados e bebia tudo, e houve momento em que não se sabia mais se algum dia a sobriedade lhe visitara alguma vez. Vivia só, dentro de um depósito da mesma loja que o empregava, como um rato de estimação. Há muito perdera família e dignidade por causa da “marvada”.
Vestia-se de palhaço. Calças bufantes “pega-marreca”, de cor incerta e com suspensórios. É que não havia corpo em que amarrá-la. Uma camiseta do cliente anunciado, quando lhe davam, e por cima punha um paletó vermelho vivo, muito maior que seu número, mas, àquela altura, desbotado, tendendo para um acinzentado. Não usava aqueles sapatos grandes, talvez por prudência de equilibrista. Calçava umas congas gastas e rasgadas.
Firmemente amarrado com elástico no alto da cabeça, um chapéu cônico, diminuto, quebrado de lado. A cara era pintada quase sempre apenas no tom vermelho, acho que por falta do preto e branco. Às vezes, vinha com o nariz, noutras não. A tinta pintada ao redor da boca e dos olhos dava-lhe uma aparência mais severa que alegre. Para cumprir o ofício, mandaram confeccionar-lhe um megafone de lata que era tão grande que, quando colocado à altura da boca, o rosto e quase todo o corpo desapareciam, e então ele era só voz.
Sempre me intrigou seu nome: Diarroba. Até hoje nunca vi nada parecido. Desde que me dei conta, vendia de remédios a sapatos. Um único cliente, porém, na época uma grande loja de tecidos e roupas prontas que apenas começava a ganhar o mercado das costureiras - não se comprava roupa pronta, mandava-se fazer, - marcou-o de maneira indelével, a ponto de pensar que era seu funcionário. Fez um personagem só por toda a vida, o palhaço. Não recordo de tê-lo visto sem a indumentária. Teria um palhaço demoníaco absorvido aquele pequeno homem aprisionando-o num mundo sem riso?
Talvez nem pudesse reconhecê-lo sem a tinta no rosto, tal a simbiose entre o que fora um homem, devorado que foi pelo personagem. E se a gente visse seu rosto, teria uma cara encardida de tinta por tantos anos pintada? Ele não dizia gracejos, nem piadas. Não ria, limitava-se a anunciar as promoções e a dizer, com seu baixo gravíssimo, aquilo que lhe era pedido. Foi o palhaço mais triste que o mundo já viu.
Várias vezes, de tão bêbado, urinava-se na rua e a voz, seu tesouro, foi-se desmanchando pouco a pouco. O timbre estava lá, mas cada dia mais rouca e, dependendo do estado etílico, era pastosa e sem sentido. Não sei se por isso, por um tempo, carregava uma placa enorme que ele vestia por cima de seu palhaço atormentado. Nela estavam os dizeres que ele, com aparência de gárgula, carregava pendurada ao corpo. Teria o Diarroba fugido de um circo assombrado em passagem pela cidade? Quem sabe escolheu aquela cidade como seu degredo? Ou será que foi deixado para trás por alguma companhia, que não sabia mais o que fazer com um palhaço que não produzia riso nos outros?
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