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Edição 179

SERMÃO DE SANTO ANTÔNIO OU SERMÃO AOS PEIXES (1654)

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Data de Publicação: 18 de junho de 2008
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Falando dos peixes Aristóteles diz que só eles entre todos os animais se não domam, nem domesticam. Dos animais terrestres o cão é tão doméstico, o cavalo tão sujeito, o boi tão serviçal, o bugio tão amigo, ou tão lisonjeiro, e até os leões e os tigres com arte e benefícios se amansam. Dos animais do ar, afora aquelas aves que se criam e vivem conosco, o papagaio nos fala, o rouxinol nos canta, o gavião-açor nos ajuda, e nos recreia, e até as grandes aves de rapina, encolhendo as unhas, reconhecem a mão de quem recebe o sustento. Os peixes, pelo contrário, lá se vivem nos seus mares e rios, lá se mergulham nos seus pegos, lá se escondem nas suas grutas e não há nenhum tão grande, que se fie do homem, nem tão pequeno, que não fuja dele. Os Autores comumente condenam esta condição dos peixes e a deitam à pouca docilidade, ou demasiada bruteza; mas eu sou de mui diferente opinião. Não condeno, antes louvo muito aos peixes este seu retiro, e me parece, que se não fora natureza, era grande prudência.

Peixes, quanto mais longe dos homens, tanto melhor; trato e familiaridades com eles Deus vos livre. Se os animais da terra e do ar querem ser seus familiares, façam-no muito embora que com suas pensões o fazem. Cante-lhe aos homens o rouxinol, mas na sua gaiola; diga-lhe ditos o papagaio, mas na sua cadeia; vá com eles à caça o açor; mas nas suas pioses; faça-lhe bufonarias o bugio, mas no seu cepo; contente-se o cão de lhe roer um osso, mas levado onde não quer pela trela; preze-se o boi de lhe chamarem formoso ou fidalgo, mas com o jugo sobre a cerviz, puxando pelo arado e pelo carro; glorie-se o cavalo de mastigar freios dourados, mas debaixo da vara e da espora; e se os tigres e os leões lhe comem a ração da carne, que não caçaram no bosque, sejam presos e encerrados com grades de ferro. E, entretanto, vós peixes, longe dos homens e fora dessas cortesanias, vivereis só convosco, sim, mas como peixe na água. De casa e das portas a dentro tendes o exemplo de toda esta verdade, o qual vos quero lembrar, porque há filósofos, que dizem que não tendes memória.

Vede, peixes, quão grande bem é estar longe dos homens. Perguntado um grande filósofo qual era a melhor terra do mundo, respondeu que a mais deserta; porque tinha os homens mais longe. Se isto vos pregou também Santo Antônio, e foi este um dos benefícios, de que vos exortou a dar graças ao Criador, bem vos pudera alegar consigo, que quanto mais buscava a Deus, tanto mais fugia dos homens. Para fugir dos homens deixou a casa de seus pais e se recolheu, ou acolheu a uma religião, onde professasse perpétua clausura. E porque nem aqui o deixavam, os que ele tinha deixado, primeiro deixou Lisboa, depois Coimbra e, finalmente, Portugal. Para fugir e se esconder dos homens, mudou o hábito, mudou o nome e até a si mesmo se mudou, ocultando sua grande sabedoria debaixo da opinião de idiota, com que não fosse conhecido, nem buscado, antes deixado de todos, como lhe sucedeu com seus próprios irmãos no Capítulo Geral de Assis. Dali se retirou a fazer vida solitária em um ermo, do qual nunca saíra, se Deus, como por força o não manifestara e, por fim, acabou a vida em outro deserto tanto mais unido com Deus, quanto mais apartado dos homens.

§ II Sermão de Santo Antônio pregado na Cidade de São Luís do Maranhão, ano de 1654.

Este sermão (que todo é alegórico) pregou o Autor três dias antes de se embarcar ocultamente para o Reino, a procurar o remédio da salvação dos índios, pelas causas que se apontam no 1º sermão do 1º Tomo (Sermão da sexagésima). E nele tocou todos os pontos de doutrina (posto que perseguida) que mais necessários eram ao bem espiritual daquela terra, como facilmente se pode entender das mesmas alegorias).

Homens, como Peixes, comem-se uns aos outros

A primeira coisa, que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos: mas como os grandes comem os pequenos: não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Os homens com suas más e perversas cobiças vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros. Tão alheia coisa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer. S. Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.

Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o Sertão? Para cá, para cá: para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros, muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bolir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas: vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação, nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão de comer, e como se hão de comer.

Morreu alguns deles, vereis logo tantos sobre miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os credores: comem-no os oficiais dos órfãos, e os dos defuntos, e ausentes: comem-no o médico, que o curou, ou ajudou a morrer, come-o o sangrador, que lhe tirou o sangue, come-o a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para mortalha o lençol mais velho da casa, come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que cantando o levam a enterrar: enfim, ainda ao pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra.

Já se os homens se comerem somente depois de mortos, parece, que era menos horror, e menos matéria de sentimento. Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós. Vivo estava Jó, quando dizia: Por que me perseguis tão desumanamente, vós, que me estais comendo vivo, e fartando-vos da minha carne? Quereis ver um Jó destes? Vede um homem desses, que andam perseguidos de pleitos, ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inqueridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, e já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca não o comem os corvos, senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado, nem sentenciado, e já está comido.

E para que vejais como estes comidos na terra são os pequenos, e pelos mesmos modos, com que vós vos comeis no mar, ouvi a Deus queixando-se deste pecado.

Nonne cognoscent omnes, qui operantur iniquitatem, qui devorant plebem meam, ut ci-bum panis? (Psal 13.4) Cuidais, diz Deus, que não há de vir tempo, em que conheçam, e paguem o seu merecido aqueles que cometem a maldade? E que maldade é esta, à qual Deus singularmente chama a maldade, como se não houvera outra no mundo? E quem são aqueles que a cometem? A maldade é comerem-se os homens uns aos outros, e os que a cometem, são os maiores, que comem os pequenos: Qui devorant plebem meam, ut cibus panis (Que devoram meu povo e comem meu pão). Nestas palavras, pelo que vos toca, importa, peixes, que advirtais muito outras tantas cousas, quantas são as mesmas palavras. Diz Deus que comem os homens não só o seu povo, senão declaradamente a sua plebe: Plebem meam; porque a plebe e os plebeus, que são os mais pequenos, os que menos podem, e os que menos avultam na República, estes são os comidos. E não só diz que os comem de qualquer modo, senão que os engolem e os devoram: Qui devorant. Porque os grandes, que têm o mando das cidades e das províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos, senão que devoram e engolem os povos inteiros: Qui devorant plebem meam! E de que modo os comem? Ut cibum panis: não como os outros comeres, senão como pão.

A diferença que há entre o pão e os outros comeres é que para a carne, há dias de carne; e para o peixe, dias de peixe; e para as frutas, diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão cotidiano dos grandes: e assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo, nem fazendo ofício, em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.

Parece-vos bem isto, peixes? Representa-se-me que com o movimento das cabeças estais todos dizendo que não; e com olhardes uns para os outros, vos estais admirando e pasmando de que entre os homens haja tal injustiça e maldade! Pois isto mesmo é o que vós fazeis. Os maiores comeis os pequenos: e os muito grandes não só os comem um por um, senão os cardumes inteiros: e isto continuadamente sem diferença de tempos, não só de dia, senão também de noite, às claras e às escuras, como também fazem os homens.

(VIEIRA, Padre Antônio Vieira. Vieira Brasileiro (Antologia organizada por Afrânio Peixoto e Constâncio Alves). Paris-Lisboa: Livraria Editora Aillaud e Bertrand, 1921)
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