Data de Publicação: 18 de junho de 2008
Não há verdade no Maranhão
Estive considerando comigo que verdades vos diria e segundo as notícias que vou tendo desta nossa terra, resolvi-me a vos dizer uma só verdade. Mas que verdade será esta? Não gastemos tempo. A verdade que vos digo é que no Maranhão não há verdade.
Cuidavam e diziam os sábios antigos que em diferentes ilhas do mundo reinavam diferentes deidades: que em Creta reinava Júpiter, que em Delos reinava Apolo, que em Samo reinava Juno, que em Chipre reinava Vênus e assim de outras. Se o Império da Mentira não fora tão universal no mundo, pudera-se suspeitar que nesta nossa ilha tinha sua Côrte a Mentira. Todas as terras assim como têm particulares estrelas que naturalmente predominam sobre elas, assim padecem também diferentes vícios a que geralmente são sujeitas. Fingiram a este propósito os Alemães uma galante fábula. Dizem que quando o Diabo caiu do céu, que no ar se fez em pedaços e que estes pedaços se espalharam em diversas províncias da Europa, onde ficaram os vícios que nelas reinam. Dizem que a cabeça do Diabo caiu em Espanha e que por isso somos fumosos, altivos e com arrogância graves. Dizem que peito caiu em Itália e que daqui lhes veio serem fabricadores de máquinas, não se darem a entender e trazerem o coração sempre coberto. Dizem que o ventre caiu em Alemanha e que esta é a causa de serem inclinados à gula, e gastarem mais que os outros com a mesa e com a taça. Dizem que os pés caíram em França e que daqui nasce serem pouco sossegados, apressados no andar e amigos de bailes. Dizem que os braços com as mãos e unhas crescidas, um caiu em Holanda, outro em Argel e que daí lhes veio ou nos veio o serem corsários. Esta é a substância do Apólogo, nem mal formado, nem mal repartido, por que ainda que a aplicação dos vícios totalmente não seja verdadeira, tem contudo a semelhança de verdade, que basta para dar sal à sátira. E suposto que a Espanha lhe coube a cabeça, cuido eu que a parte dela que nos toca ao nosso Portugal é a língua: ao menos assim o entendem as nações estrangeiras que de mais perto nos tratam.
Os vícios da língua foram tantos que fez Dreagelio um abecedário inteiro e muito copioso deles. E se as letras deste abecedário se repartissem pelos Estados de Portugal, que letra tocaria ao nosso Maranhão? Não há dúvida que o M... M Maranhão, M murmurar, M motejar, M maldizer, M malsinar, M mexericar e, sobretudo, M mentir: mentir com as palavras, mentir com as obras, mentir com os pensamentos, que de todos e por todos os modos aqui se mente. Novelas e novelos são as duas moedas correntes desta terra: mas tem uma diferença, que as novelas armam-se sobre nada e os novelos armam-se sobre muito, para tudo ser moeda falsa(1).
Na Baía, que é a cabeça desta nossa Província do Brasil, acontece algumas vezes o que no Maranhão, quase todos os dias. Amanhece o sol muito claro, prometendo um formoso dia e, dentro em uma hora, se tolda o céu de nuvens e começa a chover como no mais entranhado inverno. Sucedeu-lhe um caso como este a Dom Fradrique de Toledo, quando veio a restaurar a Baía no ano de mil seiscentos e vinte e cinco. E tendo toda a gente da Armada em campo para lhe passar mostra, admirado da inconstância do clima, disse: En el Brasil hasta los cielos mienten. Não sei se é isto descrédito, se desculpa. Que mais pode fazer um homem, que ser tão bom como o céu da terra em que vive? Outra terra há na Europa, na qual eu estive há poucos anos, em que se experimentam cada dia as mesmas mudanças pelas quais Galeno não quis curar nela, porém ali há outra razão: porque como a terra tem jurisdição sobre o céu, segue o céu as influências da terra. Mas o que disse do Brasil por galantaria se pode afirmar do Maranhão com toda a verdade.
É experiência inaudita a que agora direi e não sei que fé lhe darão os matemáticos, que estão mais longe da linha. Quer pesar o Sol um piloto nesta cidade, onde estamos, e não no porto, onde está surto o seu navio, senão com os pés em terra: toma o astrolábio na mão com toda a quietação e segurança. E que lhe acontece? Coisa prodigiosa! Um dia acha que está o Maranhão em um grau, outro dia em meio, outro dia em dois, outro dia nenhum. E esta é a causa por que os pilotos, que não são práticos nesta costa, areiam e se têm perdido tantos nela. De maneira que o sol, que em toda a parte é a regra certa e infalível, por onde se medem os tempos, os lugares, as alturas, em chegando à terra do Maranhão, até ele mente. E terra onde até o sol mente, vede, que verdade falarão aqueles sobre cujas cabeças e corações ele influi?
Acontece-lhe aqui aos moradores o mesmo que aos pilotos que nenhum sabe em que altura está. Cuida o homem nobre hoje que está em altura de honrado e amanhã acha-se infamado e envilecido. Cuida a donzela recolhida que está em altura de virtuosa e amanhã acha-se murmurada pelas praças. Cuida o eclesiástico que está em altura de bom sacerdote e amanhã acha-se com reputação de mau homem. Enfim, um dia estais aqui em uma altura e ao outro dia noutra, porque os lábios são como o astrolábio. É isto assim? A vós mesmos o ouço, que eu não o adivinhei. Vêde se é certa a minha verdade que não há verdade no Maranhão.
(1) A moeda corrente nesta terra são novelos de fio de algodão (nota à margem).
( II Sermão da Quinta Dominga da Quaresma na Igreja Maior da cidade de São Luís do Maranhão. Ano de 1654)
Ociosidade Influi MentiraOra, eu me pus a especular a causa, porque o clima e o céu desta terra influem tanta mentira e parece-me que achei a causa verdadeira e natural. Assim como o céu com uma virtude influi outra virtude, assim o clima, que também se chama céu, com um vício influi outro vício. Ponhamos o exemplo na verdade que é a virtude contrária da mentira. Diz David: A verdade nasceu da terra. E logo advertiu que a terra, de que falava, não era toda a terra, senão a sua. Mas donde lhe veio uma virtude tão singular no mundo, que nascesse dela a verdade? O mesmo profeta o disse: Toda esta virtude da terra veio-lhe do céu. Influiu o céu na terra a justiça e nasceu nela a verdade. A verdade é filha legítima da justiça; porque a justiça dá a cada um o que é seu. E isto é o que faz e o que diz a verdade: ao contrário da mentira. A mentira, ou vos tira o que tendes ou vos dá o que não tendes: ou vos rouba ou vos condena. A verdade, não; a cada um dá o seu, como a justiça. E porque o céu influiu naquela terra a justiça, por isso influiu e nasceu nela a verdade. Influiu uma virtude e nasceu outra. O mesmo passa nos vícios. Se o clima influi soberba, nasce a inveja; se influi gula, nasce luxúria; se influi cobiça, nasce a avareza; se influi ira, nasce a vingança; e para nascer a mentira, que é o que influi? Ociosidade. Onde o clima influi ócio, dá-se a mentira a perder. Nasce, cresce, espiga e de um não sei que tamanho como um grão de trigo, podeis colher mentiras aos alqueires. Estes são os dois vícios do Maranhão, estas as duas influências deste clima: ócio e mentira. O ócio é a primeira influência, a mentira a segunda, o ócio a causa, a mentira o efeito. Não há terra no mundo, que mais incline ao ócio, ou à preguiça, como vós dizeis, e esta é a semente de que nasce tão má erva. Ouvi a São Paulo. Fala o Apóstolo da ilha de Creta que é a Candia, que hoje vai conquistando o Turco, e diz assim: Cretenses sempre mendaces, ventres pigri (os Cretenses têm dois vícios, que sempre se acham neles: mentirosos e preguiçosos). Pudera dizer mais, se falara nossa ilha e de toda esta terra? Digam-no os naturais. Nem a sua diligência, nem a sua verdade o pode negar. Não há gente mais mentirosa nem mais preguiçosa no mundo. Deitados na sua rede: Ventres pigri. Ouvidos nas suas palavras: sempre mendaces. Mas como estas virtudes vêm do céu, como são influências do clima, pegaram-se também aos portugueses. Falta a verdade, porque sobeja a ociosidade. Dai-me vós homens ociosos que eu vo-los darei mentirosos.
[...] Senhores meus, se algum sermão não tinha necessidade de exortação era este. Só vos digo como a homens, e como a cristãos, que não só por consciência, mas por conveniência se deve aborrecer a mentira e amar a verdade. Por conveniência, porque viveis em uma terra muito pequena. Em toda a parte fazem muito mal as mentiras, mas nas terras grandes têm saca e têm muito por onde se espalhar; nas terras pequenas, todas aí ficam. Em Lisboa muita mentira se diz, mas repartem-se as mentiras por todo o Reino e por todo o mundo.
Chegou navio de levante, fala-se nas guerras do Turco, nas do Veneziano, nas do Tártaro, nas do Polaco; fala-se no Papa, nos Cardeais, nos outros Príncipes e Potentados de Itália, dizem-se muitas mentiras, mas repartem-se: umas caem em Constantinopla, outras em Veneza, outras em Roma, outras na Toscana, Saboia, etc.
Vem navio do Norte, fala-se em El-Rei de França, no Imperador, no Sueco, no Parlamento de Inglaterra, nos Estados de Holanda e Flandres; dizem-se muitas mentiras, mas repartem-se por Paris, Londres, por Viena d’Austria, por Amsterdão, por Estokolmo, etc. Partem também os nossos correios todos os sábados e levam grande cópia das mentiras por todo o Reino e o mesmo é das Frotas do Brasil e da índia: porém as mentiras do Maranhão não têm, nem outra parte donde vir, nem outra parte para onde ir: aqui nascem, e aqui ficam e quando as mentiras todas ficam na terra e todas vos caem em casa, ainda por conveniência e razão de estado, as haveis de lançar fora. E se não, fazei-me por curiosidade duas contas, as quais eu agora não posso fazer. Uma é quantas mentiras se dirão cada dia no Maranhão? A outra, quantas casas há nesta cidade: logo reparti as mentiras e vereis quantas cabem a cada casa. E que será em uma semana, que será em um mês, que será em um ano?
(§§ VI-VII Id. id.)
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