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Edição 179

PADRE ANTÔNIO VIEIRA: 400 ANOS DE NASCIMENTO

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Data de Publicação: 18 de junho de 2008
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Imaginemos o cenário literário da Bahia no século XVII, onde viveram dois talentos extraor dinários: Gregório de Matos Guerra, vulgo “O Boca de Inferno” (1623-1696) e o padre Antônio Vieira (1608-1697).

O primeiro nasceu em Salvador, Bahia, e sua memória nos traz o poeta talentoso, repentista, irreverente, anarquista, cuja poesia irônica se celebrou através da sátira. É célebre a sátira atribuída a ele, quando de sua diplomação em Direito, pela Universidade de Coimbra:

Adeus, prolixas escolas,
Com reitor, meirinho e guarda
Lentes, bedés, secretários
Que tudo somado é nada

Adeus, Coimbra inimiga,
Dos mais honrados, madrasta,
Que eu me vou para outras terras,
Onde viva mais a larga

Ou aquela outra sátira, apimentada, dirigida a um juiz de Iguaraçu, cujos trocadilhos revelam bem o tom conceptista do poeta. O poemeto é o resultado de um incidente sobre pronome de tratamento. Gregório de Matos chamou o juiz de “tu” durante uma audiência. O juiz ficou indignado e o poeta não menos:

Se ao El-Rei se trata por vós
E a Deus se trata por tu
Como chamaremos nós
Ao juiz de Iguaraçu
– Tu é vós e vós e tu.

Às vezes, Gregório de Matos chegou à sátira escrachada, como no caso do incidente com os padres da Sé da Bahia:

A nossa Sé da Bahia
Em não sendo estribaria
É um presépio de bestas
[...]

O Padre Antônio Vieira, que nasceu em Lisboa, Portugal, mas que aos seis anos já estava na Bahia e que depois foi transferido para o Maranhão, em 1652, onde passou 9 anos, e onde também escreveu a parte mais fértil de sua produção satírica, marcou definitivamente sua passagem pela literatura brasileira, por ter sido o primeiro escritor a traçar um perfil psicológico da personalidade do maranhense, em particular, e do brasileiro de modo geral.

Os sermões que lhe deram notoriedade foram Sermão da 5ª Dominga da Quaresma e o Sermão de Santo Antônio ou O Sermão aos Peixes, ambos pregados respectivamente em 1654.

Nos dois sermões citados, Vieira estabelece particularidades típicas do brasileiro – a mentira, a ociosidade e a corrupção. Muito mais tarde, escritores modernistas, como Mário de Andrade e João Ubaldo Ribeiro, investiram na temática de retratar um brasileiro.

Ressalte-se em Vieira o estilo eminentemente barroco, com a marca do conceptismo que traduz a filosofia racionalista de época, fundada no dualismo, no paradoxo, nos contrastes ou contradições, que resultam do conflito e tensão, daí o caráter antitético que envolve o ideário barroco. Esse fusionismo também incorpora, entre outras antíteses, beleza e feiúra, sensualismo e misticismo, carne e espírito, céu e terra, ambiente noturno e ambiente de sol.

Nos dois sermões, obras primorosas, peças literárias indispensáveis ao contexto de nossa literatura, estão vários elementos essenciais da prosa modernista, ou seja, a ironia sutil, a sátira mordaz, o jogo dialético, o paralelismo, a alegoria, a fábula, os elementos grotescos.

Vieira demonstra que, embora a culpa recaia sempre sobre os menos favorecidos (os pequeninos peixes), são os nobres que praticam as ações sem nobreza da comilança que estes atribuem àqueles. Mais que tudo, esses dois sermões são o retrato do Brasil da década de 60 aos dias atuais, em particular do Maranhão, onde ainda se pensa em monarquia mesmo decorridos mais de um século de Proclamação da República. Monarquia também se escreve com o M de Vieira.

A par do gênio, ressaltem-se a coragem, o senso, a grandeza de Vieira cuja luta em defesa dos oprimidos foi incansável, apesar dos textos encomendados que escreveram sobre ele, como forma de enodoar sua imagem. Eis a reparação que a aristocracia e a burguesia cobram sempre daqueles que ousam tirar-lhes o véu.

BIOGRAFIA DO PADRE ANTÔNIO VIEIRA

Padre Antônio Vieira nasceu em Lisboa, Portugal, em 06/02/1608. Aos 6 anos de idade, veio para pó Brasil e, na adolescência, matriculou-se no colégio dos padres jesuítas da Bahia. Ordena-se em 1634 e logo se consagra por sua eloqüência e cultura, tornando-se o pregador mais elogiado do Brasil. Por causa do movimento português de restauração da Independência, que foi deflagrado a 1º de dezembro de 1640, viajou para Portugal a fim de manifestar solidariedade e lealdade ao novo monarca, D. João IV. Por causa dessa atitude, passa a gozar de grande prestígio e respeito e como conseqüência é nomeado para inúmeras embaixadas diplomáticas História do Futuro no estrangeiro. Em 1652, transfere-se da Bahia para o Maranhão, onde se dedica à catequese e conversão dos índios. Após 9 anos de estada no Maranhão, regressa a Portugal e, em Lisboa, é preso, acusado por sua ideologia de caráter sebastianista. É confinado durante 8 anos numa casa jesuítica, tendo sido cassado o seu direito de pregar. Quando, afinal, foi liberto seguiu para Roma, onde pleiteou que fosse feita a revisão de seu processo, quando se torna orador oficial do salão literário da rainha Cristina, da Suécia.

Em Lisboa, defende durante alguns anos a causa dos judeus perante a Inquisição.

Em 1681, retorna ao Brasil e passa a redigir seus sermões e outras obras. Morreu em Salvador em 18/07/1697.

Compõem suas obras: Sermões (15 volumes, 1679-1690, 1710-1718), (1718), Esperanças de Portugal (1856-1857), Clavis Prophetarum, obra inédita, e quinhentas cartas.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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