Data de Publicação: 18 de junho de 2008
Celebrar o quadricentenário de nascimento de um escritor pode ser um fato comum, mas no caso do Padre Antônio Vieira constitui uma comemoração extraordinária, principalmente pelos aspectos polêmicos que envolveram sua vida e sua obra de homem público destemido, tanto no Brasil quanto em Portugal.
Sabe-se que o Padre Antônio Vieira por causa de suas idéias sebastianistas e pela defesa da causa dos judeus foi preso e teve os seus direitos de sacerdote suspensos, inclusive de pregação.
No Maranhão, ressalte-se o ponto de vista que ele defendeu, demonstrando, pelo menos com argumentação dialética, conhecer a índole do brasileiro, sem as mesclas do ufanismo. Por isso, é que há um consenso sobre o porquê de a memória do Padre Antônio Vieira ser tão viva ainda hoje nos corações daqueles que cultivam o espírito livre.
Quem ao ler os Sermões não se sentirá emocionado diante de peças literárias tão autênticas, escritas do passado para o futuro? E que dizer da obra História do Futuro, que se constitui num marco do texto que conta sua própria história, enquanto declara como fará a outra que acaba não contando porque, embora seja a própria história do futuro, já foi e está contada? Assim, essa obra originalíssima e autêntica é pretexto para que ele, Vieira, possa revelar que o enciclopedismo, quando bem administrado, tenha a capacidade de tornar o escritor vidente ou profético. Esse recurso é usado como pano de fundo, para demonstrar a sua incrível habilidade estética, até hoje respeitada por escritores e críticos do Brasil e do Exterior. E o que se dirá da obra Arte de Furtar, texto anônimo atribuído a vários autores, mas singularmente a ele por causa do tipo de argumentação que a percorre?
Mas tivesse sido o Padre Antônio Vieira apenas um pregador místico, que não houvesse metido o nariz nos odores mundanos, com certeza só seria lembrado, se lembrado, por um grupo restrito de religiosos.
No entanto, é o aspecto mundano de sua obra que o traz à tona e como o mito de um sacerdote que buscou conhecer o âmago da alma do ser humano. E a partir do oposto ao místico é que pôde aproximar-se do místico, ao compreender que é na dualidade que está a essência do ser como criatura de Deus.
Através da leitura dos textos de Vieira, compreende-se que refletir sobre a memória de um povo constitui fazer parte de um processo em que as peças principais são aquelas que podem contribuir não para mudar os acontecimentos, mas para melhorá-los e encaixá-los na realidade.
Quem não sabe que o Brasil é um país do futebol, do carnaval e do bumba-meu-boi não gostará de Vieira. Qual o lado bom da situação? Um povo que tem um país tão rico e é tão pobre, ainda morre de rir. E o que é melhor: ri de si mesmo, ri dos políticos, ri da própria miséria e da miséria alheia, ri dos magistrados, ri da violência e, assim, rindo tanto quanto o maranhense do Padre Vieira que mente nas mais variadas situações, ri do ridículo rei, como rei-momo, que, sendo sósia daquele, ignora que também ri de si, sem disso sequer, como o outro, se dar conta.
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