Data de Publicação: 7 de maio de 2008
MAURO CIRO FALCÃO
HOJE É DIA DE ESQUECER, JOSÉo mundo não é apenas um byte, cosmo perdido
as crianças são binárias, alma e pensamento
— quem quer embarcar para um mundo melhor?
Tu, ele, você, quem quer?
até Alice voltou para nosso país
Boi Tatá acordou cumadre, o mar pegou fogo
mesmo que minha alma fosse capturada
por câmeras digitais
não perderia minhas paixões
sou criador de meu ser, sou poesia
percorro mesmo pela wireless de Deus
sempre me desculpando pelos meus backbones
não sou máquina, sou apenas um ser http://www.pronome,substantivo, verbo
apagão!!!
esqueço que sou incapaz
derrubo as grades de laser
passeio pela LAN com meu cachorro matreiro
sem firewalls e militares
vou esquecer que sou gente
sentar e contar estrelas
para ver meu amor sorrir mais uma vez, te amo
em pouco tempo virei-me para dormir...
(Grupo Carranca, 2005)
ESTEPEdespercebida, a velocidade gira em torno de nós
gato, cansado, dorme no jacaré
chave-de-roda sentido anti-horário
meninas flertam bobagens
o calibrador da vida foge das mãos
(Grupo Carranca, 2005)
JOSOALDO LIMA REGO
NAVE-GANTESo argicida
anunciado na vacância tênue das mãos de anticléia
reverberou olhos após o simulacro e o rumor de uma imagem
f r a t u r a d a
cego, no archote seco da língua contra o mar
“só bebe com os olhos, só com os olhos come”
libações no pó da manhã
sol sob os pés, como águia eremita
carregando procela grave e vaticínio;
os homens desolados no alarido de uma rocha inaudível
(Grupo Carranca, 2005)
HAGAMENON DE JESUS
ÀS VEZES, O QUE SOU POEMA...Às vezes
em mim
este poema é só ausência
é quando sou
só
no individual discurso
azul metálico
ou vermelho
ou cinza prateado
do meu sistema.
às vezes
(ah minhas crianças de batons cintilantes, amigas minhas ou do monza!)
às vezes,
em si,
o que sou poema,
se extravia em chaves, menina,
é só ausência...
(The Problem e/ou poemas da transição, Edição do Autor, 2002)
PELOS VIDROS DAS JANELAS INTRANQÜILAS,PRECEVai amanhecer. Todas as pessoas (as outras)
estão dormindo.
Um poeta acorda seus olhos, com eles
e nossas ansiedades
aguarda a enchente dos ônibus da manhã.
(Há momentos de tanta poesia,que não se consegue escrever)
“O que se pôde carregar nos ombros da esperança?”
Ainda era algas a noite, naquele momento
quando lhe falaram
sobre pontes e eternidade,
que as pombas são como a esperança,
e que não se sentarão sobre as segundas-feiras.
Há momentos em que tudo o que se precisa
é confessar, quem sabe.
Em retalhos os passos do que lhe foi permitido,
na realidade de quem conhece as leis
e nas suas usuais certezas de vôos espaciais
e pasmo,
anda. E todo o andar é reticente,
do que sabe o quanto tudo é certo
e, é por isso, impreciso.
Os seus olhos são antigos, como um relógio,
e o seu relógio, que é como
seus olhos (antigos), não possui mostradores luminosos.
A penumbra... e estas incertezas contínuas...
“No final, nunca se sabe mesmo que horas são!”
O tempo (não se engana)
sempre foi uma estranha criatura da McDonald’s,
o tempo sempre foi
uma estranha e vertiginosa criatura
que canta pneus
e devora
a cada momento a nossa eternidade.
“É por isso que temo
ser o que sou”, ser todo como um animal
do dia. Ser como um animal do dia é ser todo o amianto...
Do metal, os metais. O Metal.
“A porra para estas metáforas alegóricas!”
O fato
é que agora o silêncio já se foi...
Aperta o pause no vídeo
(e não soube bem por que).
O homem e sua perplexidade,
a perplexidade, e o homem
por trás dos vidros das janelas
intranqüilas
ergue-se para si, o homem,
e está acordado:
homem e deus de tudo que hesita.
Mas fiquem tranqüilos,
nem todos estão dormindo...
(Uma alface nasce
para a alegria, pelo menos biológica, do pobre)
Há momentos de tanta poesia
que não se consegue escrever.
(The Problem e/ou poemas da transição, Edição do Autor, 2002)
PERDANão se perde
o Sol
que se esconde a cada dia
não se perde.
O vôo
do pássaro, desconhecido,
de gaivota
andorinha: intenção sem rastros,
não se perde,
não se perde
uma só que seja das andorinhas.
Não se perde
o fruto
da goiaba
o fruto (mesmo se está
bichado) da goiaba.
Na Natureza,
a sua transformação,
nada
se perde, em verdade,
nem os nossos ossos sem história.
Perda
só podem ser os nossos sonhos,
só podem ser os nossos desejos
indefesos
mais que o cair da tarde
mais que o cair da tarde.
(The Problem e/ou poemas da transição, Edição do Autor, 2002)
GERALDO IENSEN
NÃO HÁ UMA ORDEMnão há uma ordem
somente um zelo puro
interceder de ventos, chuvas e morte
andar
como travis de win wenders
como a foto de robert frank
como jack kerouac
morrendo de pneumonia
como trens
abandonados nas estações
extenuadas amantes dos que não param
(Coletânea Poética dos Festivais Maranhenses de Poesia Falada, DAC, 2000)
NILSON CAMPOS
F.FWDNo triz do gozo
músculo é crepúsculo
onde lasciva saliva
vacila entre laivos
de siderais coisas
véspera de quando
ombro
é
escombro
(Revista Anual Sociedade Cultural Grupo Carranca, 2000)
JORGEANA BRAGARespira fundo
Vê a lua vazando?
Aspirada pelo sopro do dia,
Inalada como ópio,
E nossos corpos sobrevoados por
Anjos matutinos
Cheios de incensos
O tarot exposto em leque na mesa
Ao lado, a imperatriz de mãos dadas
Com a sacerdotisa loucamente vestida...
Teu rosto não é estranho mas nem
Falo de séculos atrás. Porque em meio
À bebedeira percebi-me enevoada pelo
Desvario e vi bem dentro de ti e do teu sorriso
Alguma coisa santa;
Teu sorriso é feito de abelhas.
(Revista Anual Sociedade Cultural Grupo Carranca, 2000)
CÉSAR WILLIAM
HIATOdo abismo a boca é farta
lâminas saltam em cápsulas de gritos
ferindo a própria fala
do abismo a boca é aço
suportando todas as línguas
parindo todas as palavras
(Revista Anual Sociedade Cultural Grupo Carranca, 2000)
VIDRO DO TEMPOos cacos da vida
vão cor
tando a minha cara
e o sangue aceso vai beijando
os olhos da calçada
da madrugada pálida de outros eus que empalidecem
desenhando pássaros de verdade
num vôo arriscado sobre a dor
tangidas asas cor
tando o medo
esmiuçando ânsias em ânsias mais ainda.
(Coletânea Poética dos Festivais Maranhenses de Poesia Falada, DAC, 2000)
RICARDO LEÃO
A FILHA DA PUTA(pela Rua da Palma)a Gilberto
Eu não quero a puta.
Quero a filha da puta.
A putinha. De seios fartos,
lábios e olhos cor de mel,
biquinhos róseos,
carne alva e trêmula
a luzir na clara escuridão
da noite, pelinhos púbicos
(dourados e tépidos)
ao suave contato das mãos
& língua. Eu quero
a filha da puta.
Seu corpo
(ainda virgem
e intocado de carícias)
aguarda-me. Deixará,
sublime e bela,
que a abrace na hora extrema,
tímida e cálida. Penetrarei
com graça e estilo
(ares de déspota
ou de sedutor)
em sua rubra morada.
Deuses entoarão cânticos,
príncipes hão de se tornar reis,
mulheres abrirão seus ventres
à minha passagem,
poetas hão de tornar
palavras ainda mais belas.
Ela aguarda-me.
De dia, de noite,
aguarda-me. Tem na pele lúcida
muitos segredos
que a boca não revela.
Traz no sexo lindo e macio
a agonia dos séculos,
a angústia, o desespero,
a morte e a eternidade.
Hei de depositar
meu sêmen vigoroso
em sua vulva suculenta,
e torná-la pura,
tão pura,
como o amor
que se prolonga,
invectivo e lento,
dentro, dentro
da tarde longa.
Eu não quero a puta.
Quero a ninfa, a nádega
resplandecente e montanhosa,
quero a curva calidoscópica
girando, girando, girando
em um movimento
que é, ao mesmo tempo,
renúncia e desesperação.
Quero o meu quinhão
de luz e êxtase,
apertá-la e descobri-la
em cima da cama, plena,
sob a pele intata do poema.
Eu não quero a puta.
Quero a filha, a deusa
clara e telúrica,
eu quero eu quero
a filha da puta.
(Simetria do Parto, Editora Cone Sul, 2000)
MEDITAÇÃO À BEIRA
DE UM PRECIPÍCIOA poesia, Fábio, deve ser um girassol.
Um fio que se rompe, calma música
que forja o silêncio no ventre do
[eterno.
Um desejo simples, inconsútil.
Uma cadela, talvez. Uma mulher que
[ama,
cujo corpo estremece, alvo, no escuro.
Um poema que transpõe,
absorto e impossível,
o tranqüilo interlúdio
entre a palavra e o nada.
A poesia, Fábio, talvez seja um pássaro
que voa.
Um fim de tarde, invisível, sem
[crepúsculo.
Um delírio, um ludíbrio. Um
[holocausto.
Talvez o desespero. Talvez a morte.
A poesia, Fábio, é um girassol.
(Simetria do Parto, Editora Cone Sul, 2000)
SONETO DA PROCURANão sou quem sou, nem sois o que sois,
nem jamais estive de onde vim,
ou ainda onde o sol jamais se pôs,
ou ainda, ou aonde, ou coisa assim,
restará, do que sou, um pó de arroz,
restará, quem sabe, nada, enfim?,
de tudo que vem antes, ou depois,
de tudo que começa e chega ao fim:
o mundo dividir-me-á em dois,
e há de ser sempre bom, ou ser ruim,
o mundo há de ser, desse modo, pois,
qualquer coisa entre o não e o sim,
como um rangido de carro de bois,
como um vácuo entre o eu e o mim.
(Simetria do Parto, Editora Cone Sul, 2000)
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