Busca 



 


Edição 176

Antologia da jovem poesia e literatura maranhenses (II)

Diminuir corpo de texto Aumentar corpo de texto

Data de Publicação: 7 de maio de 2008
Índice Texto Anterior Próximo Texto 
MAURO CIRO FALCÃO

HOJE É DIA DE ESQUECER, JOSÉ

o mundo não é apenas um byte, cosmo perdido

as crianças são binárias, alma e pensamento

— quem quer embarcar para um mundo melhor?

Tu, ele, você, quem quer?

até Alice voltou para nosso país

Boi Tatá acordou cumadre, o mar pegou fogo

mesmo que minha alma fosse capturada

por câmeras digitais

não perderia minhas paixões

sou criador de meu ser, sou poesia

percorro mesmo pela wireless  de Deus

sempre me desculpando pelos meus backbones 

não sou máquina, sou apenas um ser http://www.pronome,substantivo, verbo

apagão!!!

esqueço que sou incapaz

derrubo as grades de laser

passeio pela LAN com meu cachorro matreiro

sem firewalls e militares

vou esquecer que sou gente

sentar e contar estrelas

para ver meu amor sorrir mais uma vez, te amo

em pouco tempo virei-me para dormir...

(Grupo Carranca, 2005)

ESTEPE
despercebida, a velocidade gira em torno de nós

gato, cansado, dorme no jacaré

chave-de-roda sentido anti-horário

meninas flertam bobagens

o calibrador da vida foge das mãos

(Grupo Carranca, 2005)

JOSOALDO LIMA REGO

NAVE-GANTES

o argicida

anunciado na vacância tênue das mãos de anticléia

reverberou olhos após o simulacro e o rumor de uma imagem

f r a t u r a d a

cego, no archote seco da língua contra o mar

“só bebe com os olhos, só com os olhos come”

libações no pó da manhã

sol sob os pés, como águia eremita

carregando procela grave e vaticínio;

os homens desolados no alarido de uma rocha inaudível

(Grupo Carranca, 2005)

HAGAMENON DE JESUS

ÀS VEZES, O QUE SOU POEMA...

Às vezes

em mim

este poema é só ausência

é quando sou



no individual discurso

azul metálico

ou vermelho

ou cinza prateado

do meu sistema.

às vezes

(ah minhas crianças de batons cintilantes, amigas minhas ou do monza!)

às vezes,

em si,

o que sou poema,

se extravia em chaves, menina,
é só ausência...
(The Problem e/ou poemas da transição, Edição do Autor, 2002)

PELOS VIDROS DAS JANELAS INTRANQÜILAS,PRECE
Vai amanhecer. Todas as pessoas (as outras)
estão dormindo.

Um poeta acorda seus olhos, com eles

e nossas ansiedades

aguarda a enchente dos ônibus da manhã.

(Há momentos de tanta poesia,que não se consegue escrever)

“O que se pôde carregar nos ombros da esperança?”

Ainda era algas a noite, naquele momento

quando lhe falaram

sobre pontes e eternidade,

que as pombas são como a esperança,

e que não se sentarão sobre as segundas-feiras.

Há momentos em que tudo o que se precisa

é confessar, quem sabe.

Em retalhos os passos do que lhe foi permitido,

na realidade de quem conhece as leis

e nas suas usuais certezas de vôos espaciais

e pasmo,

anda. E todo o andar é reticente,

do que sabe o quanto tudo é certo

e, é por isso, impreciso.

Os seus olhos são antigos, como um relógio,

e o seu relógio, que é como

seus olhos (antigos), não possui mostradores luminosos.

A penumbra... e estas incertezas contínuas...

“No final, nunca se sabe mesmo que horas são!”

O tempo (não se engana)

sempre foi uma estranha criatura da McDonald’s,

o tempo sempre foi

uma estranha e vertiginosa criatura

que canta pneus

e devora

a cada momento a nossa eternidade.

“É por isso que temo

ser o que sou”, ser todo como um animal

do dia. Ser como um animal do dia é ser todo o amianto...

Do metal, os metais. O Metal.

“A porra para estas metáforas alegóricas!”

O fato

é que agora o silêncio já se foi...

Aperta o pause no vídeo

(e não soube bem por que).

O homem e sua perplexidade,

a perplexidade, e o homem

por trás dos vidros das janelas

intranqüilas

ergue-se para si, o homem,

e está acordado:

homem e deus de tudo que hesita.



Mas fiquem tranqüilos,

nem todos estão dormindo...



(Uma alface nasce

para a alegria, pelo menos biológica, do pobre)


Há momentos de tanta poesia

que não se consegue escrever.

(The Problem e/ou poemas da transição, Edição do Autor, 2002)


PERDA
Não se perde

o Sol

que se esconde a cada dia

não se perde.

O vôo

do pássaro, desconhecido,

de gaivota

andorinha: intenção sem rastros,

não se perde,

não se perde

uma só que seja das andorinhas.

Não se perde

o fruto

da goiaba

o fruto (mesmo se está

bichado) da goiaba.

Na Natureza,

a sua transformação,

nada

se perde, em verdade,

nem os nossos ossos sem história.

Perda

só podem ser os nossos sonhos,

só podem ser os nossos desejos

indefesos

mais que o cair da tarde

mais que o cair da tarde.

(The Problem e/ou poemas da transição, Edição do Autor, 2002)

GERALDO IENSEN

NÃO HÁ UMA ORDEM

não há uma ordem

somente um zelo puro

interceder de ventos, chuvas e morte

andar

como travis de win wenders

como a foto de robert frank

como jack kerouac

morrendo de pneumonia

como trens

abandonados nas estações

extenuadas amantes dos que não param

(Coletânea Poética dos Festivais Maranhenses de Poesia Falada, DAC, 2000)

NILSON CAMPOS

F.FWD

No triz do gozo

músculo é crepúsculo

onde lasciva saliva

vacila entre laivos

de siderais coisas

véspera de quando

ombro

é

escombro

(Revista Anual Sociedade Cultural Grupo Carranca, 2000)

JORGEANA BRAGA
Respira fundo

Vê a lua vazando?

Aspirada pelo sopro do dia,

Inalada como ópio,

E nossos corpos sobrevoados por

Anjos matutinos

Cheios de incensos

O tarot exposto em leque na mesa

Ao lado, a imperatriz de mãos dadas

Com a sacerdotisa loucamente vestida...

Teu rosto não é estranho mas nem

Falo de séculos atrás. Porque em meio

À bebedeira percebi-me enevoada pelo

Desvario e vi bem dentro de ti e do teu sorriso

Alguma coisa santa;

Teu sorriso é feito de abelhas.

(Revista Anual Sociedade Cultural Grupo Carranca, 2000)

CÉSAR WILLIAM

HIATO

do abismo a boca é farta

lâminas saltam em cápsulas de gritos

ferindo a própria fala

do abismo a boca é aço

suportando todas as línguas

parindo todas as palavras

(Revista Anual Sociedade Cultural Grupo Carranca, 2000)

VIDRO DO TEMPO
os cacos da vida

vão cor

tando a minha cara

e o sangue aceso vai beijando

os olhos da calçada

da madrugada pálida de outros eus que empalidecem

desenhando pássaros de verdade

num vôo arriscado sobre a dor

tangidas asas cor

tando o medo

esmiuçando ânsias em ânsias mais ainda.

(Coletânea Poética dos Festivais Maranhenses de Poesia Falada, DAC, 2000)

RICARDO LEÃO

A FILHA DA PUTA

(pela Rua da Palma)

a Gilberto

Eu não quero a puta.

Quero a filha da puta.

A putinha. De seios fartos,

lábios e olhos cor de mel,

biquinhos róseos,

carne alva e trêmula

a luzir na clara escuridão

da noite, pelinhos púbicos

(dourados e tépidos)

ao suave contato das mãos

& língua. Eu quero

a filha da puta.

Seu corpo

(ainda virgem

e intocado de carícias)

aguarda-me. Deixará,

sublime e bela,

que a abrace na hora extrema,

tímida e cálida. Penetrarei

com graça e estilo

(ares de déspota

ou de sedutor)

em sua rubra morada.

Deuses entoarão cânticos,

príncipes hão de se tornar reis,

mulheres abrirão seus ventres

à minha passagem,

poetas hão de tornar

palavras ainda mais belas.

Ela aguarda-me.

De dia, de noite,

aguarda-me. Tem na pele lúcida

muitos segredos

que a boca não revela.

Traz no sexo lindo e macio

a agonia dos séculos,

a angústia, o desespero,

a morte e a eternidade.

Hei de depositar

meu sêmen vigoroso

em sua vulva suculenta,

e torná-la pura,

tão pura,

como o amor

que se prolonga,

invectivo e lento,

dentro, dentro

da tarde longa.

Eu não quero a puta.

Quero a ninfa, a nádega

resplandecente e montanhosa,

quero a curva calidoscópica

girando, girando, girando

em um movimento

que é, ao mesmo tempo,

renúncia e desesperação.

Quero o meu quinhão

de luz e êxtase,

apertá-la e descobri-la

em cima da cama, plena,

sob a pele intata do poema.

Eu não quero a puta.

Quero a filha, a deusa

clara e telúrica,
eu quero eu quero

a filha da puta.

(Simetria do Parto, Editora Cone Sul, 2000)

MEDITAÇÃO À BEIRA

DE UM PRECIPÍCIO

A poesia, Fábio, deve ser um girassol.

Um fio que se rompe, calma música

que forja o silêncio no ventre do

[eterno.

Um desejo simples, inconsútil.

Uma cadela, talvez. Uma mulher que

[ama,

cujo corpo estremece, alvo, no escuro.

Um poema que transpõe,

absorto e impossível,

o tranqüilo interlúdio

entre a palavra e o nada.

A poesia, Fábio, talvez seja um pássaro

que voa.

Um fim de tarde, invisível, sem

[crepúsculo.

Um delírio, um ludíbrio. Um

[holocausto.

Talvez o desespero. Talvez a morte.

A poesia, Fábio, é um girassol.

(Simetria do Parto, Editora Cone Sul, 2000)

SONETO DA PROCURA
Não sou quem sou, nem sois o que sois,

nem jamais estive de onde vim,

ou ainda onde o sol jamais se pôs,

ou ainda, ou aonde, ou coisa assim,

restará, do que sou, um pó de arroz,

restará, quem sabe, nada, enfim?,

de tudo que vem antes, ou depois,

de tudo que começa e chega ao fim:

o mundo dividir-me-á em dois,

e há de ser sempre bom, ou ser ruim,

o mundo há de ser, desse modo, pois,

qualquer coisa entre o não e o sim,

como um rangido de carro de bois,

como um vácuo entre o eu e o mim.

(Simetria do Parto, Editora Cone Sul, 2000)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br