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Edição 177

Crônicas de José de Ribamar Fiquene

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Data de Publicação: 21 de maio de 2008
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Bandeira Tribuzi e Ubirajara Rayol

Quem não vê bem uma palavra não
pode ver bem uma alma.
Fernando Pessoa


As palavras, escritas ou faladas, têm sido objeto de estudos acurados. Trazem a harmonização de conceitos e plataformas, configurando a existência da beleza estética dentro das metas gramaticais: A análise léxica é o estudo da palavra isolada. A análise sintática é o estudo das palavras em conjunto.

Na língua portuguesa, por conseguinte, é preciso dar importância à gramática e à literatura, buscando os exemplos constantes da linguagem castiça, na prosa e na poesia.

Daí, torna-se imperiosa a valorização do estudo da palavra, para que a idéia e a forma possam engrandecer o vernáculo.

É certa a afirmação de que só aprende quem estuda.

É perfeito o conceito de que a Língua Portuguesa é o símbolo da pátria mais útil e necessário.

Dois grandes professores maranhenses da Língua Portuguesa têm o meu acatamento pelo mérito: Bandeira Tribuzi, no passado próximo; e Ubirajara Rayol, no presente.

Com o grande e saudoso Bandeira Tribuzi tive vários encontros na Academia do Comércio de São Luís, onde eu lecionava o idioma pátrio, no curso técnico de contabilidade (2º Grau) e Tribuzi ministrava aulas para candidatos a concursos públicos. Passei a admirá-lo pelo conhecimento profundo da gramática e pela arte sublime de ensinar. Tribuzi discorria com luzimento os mistérios da análise sintática e imprimia sempre a responsabilidade do mestre atencioso e culto. De certa feita, fui assistir a uma palestra de Bandeira Tribuzi, ainda na Academia de Comércio de São Luís e, quando ele procurou o esboço da conferência sobre a literatura luso-brasileira, não o encontrou. De repente, assume a cátedra com palavras brilhantes, do começo ao fim, e arrebata as ovações do público pela perfeição das idéias trazidas de sua cultura vasta e admirável.

Daí se justifica por que a poesia de Bandeira Tribuzi traz o estilo lapidar devidamente demonstrado com a colocação correta das palavras variáveis e invariáveis.

Já o grande professor Ubirajara Rayol, na sua Gramática Objetiva da Língua Portuguesa, bem atualizada e digna de menção honrosa, nada fica a dever a outro gramático de boa nomeada no país. Passei também a admirá-lo pela exposição excelente do conteúdo gramatical. Ele é outro artista da gramática portuguesa. E, de quando em quando, estou a fazer considerações sobre a Gramática Objetiva da Língua Portuguesa, orgulho do Maranhão.

Tudo foi perfeitamente elaborado pelo grande mestre Ubirajara Rayol: a comunicação, a semântica, a ortografia, a acentuação gráfica, a pontuação, a crase, o hífen, a fonética e a fonologia, a morfologia e a sintaxe.

O Maranhão sempre foi grande centro cultural. Nunca deixou cair o prestígio das letras do passado e do presente. É da tradição maranhense sempre fortalecer o ideal de colocar as letras na sublimitude da História.

Aos professores Bandeira Tribuzi e Ubirajara Rayol, meu preito da mais elevada honra e do mais atencioso respeito.

Depois da tempestade

Tanta chuva e tanto vento prostraram a cidade inteira de inquietação. Foi verdadeiro rebuliço. As crateras abertas nas ruas tragavam os automóveis conduzidos por motoristas desprevenidos. As águas subiram até alcançar a marca do desassossego. Ninguém se entendia. Quem podia salvar seus pertences, era admitido pela sorte. O fato é que foram seis horas de chuva torrencial, dando como resultado muitos desabrigados, com prejuízos materiais e de estimação. Joãozínho, desatento, deixou que o seu cãozinho Lulu fosse levado pela enxurrada, por tê-lo deixado na calçada para ajudar seus pais na retirada dos móveis da casa insegura pelo declive da ladeira. Maria colocava as mãos na cabeça, em desespero, porque havia perdido o arrimo e sua sobrevivência, a máquina de costura, que fora arrastada pela correnteza, desembocando na goela do rio devorador e impiedoso. António, espavorido, empurrava a canoa no rio da rua, para salvar sua mãe, diabética e asmática, conseguindo esse intento com muito custo. Adélia acenava aos berros para seu marido descer o morro, imediatamente, sob pena de ficar soterrado pela avalancha das pedras enormes. Joana, chorando muito, inquietou-se, desesperadamente, porque o seu casebre desabou por completo, não sobrando nada de sua mobília pobre. Alfredo, velho e alquebrado pelos anos, conseguiu agarrar-se no tronco de vetusta árvore, para não ser consumido pela voragem das águas. E, assim, vários acontecimentos formaram o conjunto do quadro triste deixando muitas dezenas de pessoas ao desamparo.

Mas outro dia surgiu, límpido e sereno, como devolvendo a paisagem conquistada do tempo suave e alegre.

Todos percebiam que o azul do céu irradiava a paz da comunhão espiritual, consagrando o imenso desfrutar da beleza matutina.

Ninguém se atrevia a falar do acontecimento anterior. E deram por esquecido o episódio desagradável.

O principal é a vida, que ficou, apesar dos percalços.

O principal é o congraçamento, que restou, com mais ênfase, demonstrado no entusiasmo dos homens, mulheres e crianças, salvos e protegidos por Deus.

A solidariedade se apresenta ligeira, quando a dor contamina, indistintamente, os protagonistas da comédia humana.

As lágrimas banham a alma sofrida de gente humilde, que se retempera na vontade imensa de dar continuidade à vida, mesmo perdendo tudo, na certeza de reconquistar o que perdeu, porque o que se perde, ganha-se de novo. Basta esperar e ter convicção de que Deus está presente em todos os lugares e sabe distribuir o pão de sua celsitude.

(FIQUENE, José de Ribamar. Luzes do Amanhã. Imperatriz, MA: Ética , 2004, p.116 a 117 e 126 a 127)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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