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Edição 177

Antologia da jovem poesia e literatura maranhenses (III)

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Data de Publicação: 21 de maio de 2008
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MARCO PÓLO HAICKEL

POEMA NOTURNO


No escuro, me estico na cama

e lentamente imagino meu rosto enrubescido

pela brasa do cigarro num longo trago.

Uma música melodiosa ao fundo

me entranha num torvelinho de sentimentos

A fumaça parte rumo ao inusitado, e junto

vai o meu pensamento suavemente subindo...

Assombra-me esse pensamento!

Não muito longe, respira pausadamente, meu mundo, minha espécie.

Nesse momento, o mundo na minha concepção já foi conquistado.

Só me resta – não vivê-lo, mas sim –

intensificá-lo, e assim o faço cautelosamente.

Também, nesse momento, a vida se faz completa

pois está vazia de pensamentos fixos.

Talvez um breve suspiro
um frêmito repentino me desperte desse preâmbulo

esse misto de sonho, torpor e cansaço

(...)

(Poemas de um amor ao acaso, Vírus Editora, 1994)

EDUARDO JÚLIO

PORTO


diante da eternidade deste cais

o silêncio é sobra do abandono

a ausência tem cor azul e dói

como se não fosse céu

aquele mar que pretendíamos

o próximo silêncio parece leve

mas por instantes

cala uma cumplicidade

(Poema do livro de poesia “Alguma Trilha Além”, Edição Secma, 2006)

KARINA MUALEM

MAL SECRETO


Teus olhos de esfinge

são o sarcófago de enigmas impenetráveis

– repouso à sombra dessas pálpebras –

mistérios sepultados

na garganta deserta

sacodem as marés de meu desejo

segredos imersos

na aridez dos gestos

enterram quimeras

no fundo da pirâmide da consciência

a mumificada ilusão do sentido em par

(Revista Anual Sociedade Cultural Grupo Carranca, 2000)

SAMUEL MARINHO

haicai pra minha mãe

no instante da criação

eu fui a partitura

e você era a canção.

(Pequenos Poemas sobre Grandes Amores,

Edições Carranca, 2002)

COUTO CORRÊA FILHO

AS BANDARILHAS


As bandarilhas arpoam a vida

e de par em par a esperança.

Tenebrosos punhais de Espanha.

As bandarilhas invadem a carne

e hasteiam-se como marcos de conquista.

Terríveis pavilhões da morte.

As bandarilhas abrem sulcos no couro

e dançam a tragédia do touro.

Dolorosos pingentes fúnebres.

As bandarilhas tremulam na tarde

e se esfriam adereçando o fim.

Duras hastes de metal e papel de cor.

(XIII Antologia Poética/Hélio Pinto Ferreira, São José dos Campos, 2001)

NILSEN COSTA

MEMORIAL


a Ricardo Leão

flutuante palato

do céu azul

brota o branco sorriso

soltos no ar

gavinhas em teus cabelos

(Revista Anual Sociedade Cultural Grupo Carranca, 2000)

DELIR

na ânsia de existir

dói a busca

derretem-se

as palavras

na frigideira pensante

que consome

a vida

DYLSON JUNIOR

EPIGRAMA


Quando morrer

minutos depois

morrem meus poemas

Serei apenas

fragmentos no

pensamento de alguém

Como sou um pequeno

ninguém

não haverá quem

se lembrará de mim

Morrer será

como rasgar

um poema

Um dia Deus

apagará minha

vida

Talvez seja um

desses poemas

que se escreve

e não se gosta

A borracha da vida

não apaga cicatrizes

(Coletânea Poética dos Festivais Maranhenses de Poesia Falada, DAC, 2000)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br