Data de Publicação: 21 de maio de 2008
MARCO PÓLO HAICKEL
POEMA NOTURNONo escuro, me estico na cama
e lentamente imagino meu rosto enrubescido
pela brasa do cigarro num longo trago.
Uma música melodiosa ao fundo
me entranha num torvelinho de sentimentos
A fumaça parte rumo ao inusitado, e junto
vai o meu pensamento suavemente subindo...
Assombra-me esse pensamento!
Não muito longe, respira pausadamente, meu mundo, minha espécie.
Nesse momento, o mundo na minha concepção já foi conquistado.
Só me resta – não vivê-lo, mas sim –
intensificá-lo, e assim o faço cautelosamente.
Também, nesse momento, a vida se faz completa
pois está vazia de pensamentos fixos.
Talvez um breve suspiro
um frêmito repentino me desperte desse preâmbulo
esse misto de sonho, torpor e cansaço
(...)
(Poemas de um amor ao acaso, Vírus Editora, 1994)
EDUARDO JÚLIO
PORTOdiante da eternidade deste cais
o silêncio é sobra do abandono
a ausência tem cor azul e dói
como se não fosse céu
aquele mar que pretendíamos
o próximo silêncio parece leve
mas por instantes
cala uma cumplicidade
(Poema do livro de poesia “Alguma Trilha Além”, Edição Secma, 2006)
KARINA MUALEM
MAL SECRETOTeus olhos de esfinge
são o sarcófago de enigmas impenetráveis
– repouso à sombra dessas pálpebras –
mistérios sepultados
na garganta deserta
sacodem as marés de meu desejo
segredos imersos
na aridez dos gestos
enterram quimeras
no fundo da pirâmide da consciência
a mumificada ilusão do sentido em par
(Revista Anual Sociedade Cultural Grupo Carranca, 2000)
SAMUEL MARINHO haicai pra minha mãe
no instante da criação
eu fui a partitura
e você era a canção.
(Pequenos Poemas sobre Grandes Amores,
Edições Carranca, 2002)
COUTO CORRÊA FILHO
AS BANDARILHASAs bandarilhas arpoam a vida
e de par em par a esperança.
Tenebrosos punhais de Espanha.
As bandarilhas invadem a carne
e hasteiam-se como marcos de conquista.
Terríveis pavilhões da morte.
As bandarilhas abrem sulcos no couro
e dançam a tragédia do touro.
Dolorosos pingentes fúnebres.
As bandarilhas tremulam na tarde
e se esfriam adereçando o fim.
Duras hastes de metal e papel de cor.
(XIII Antologia Poética/Hélio Pinto Ferreira, São José dos Campos, 2001)
NILSEN COSTA
MEMORIALa Ricardo Leão
flutuante palato
do céu azul
brota o branco sorriso
soltos no ar
gavinhas em teus cabelos
(Revista Anual Sociedade Cultural Grupo Carranca, 2000)DELIR
na ânsia de existir
dói a busca
derretem-se
as palavras
na frigideira pensante
que consome
a vida
DYLSON JUNIOR
EPIGRAMAQuando morrer
minutos depois
morrem meus poemas
Serei apenas
fragmentos no
pensamento de alguém
Como sou um pequeno
ninguém
não haverá quem
se lembrará de mim
Morrer será
como rasgar
um poema
Um dia Deus
apagará minha
vida
Talvez seja um
desses poemas
que se escreve
e não se gosta
A borracha da vida
não apaga cicatrizes
(Coletânea Poética dos Festivais Maranhenses de Poesia Falada, DAC, 2000)- Próximo texto:
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