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Edição 177

Eudes Alencar: Vagamundos

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Data de Publicação: 21 de maio de 2008
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(ou Quando no limite mental ou em condições extremas os miseráveis ensinam a arte de ser nobre)

O livro que marca a estréia literária do contista Eudes Alencar já nos surpreende pelo título Vagamundos que soa com eufemismo em relação aos conceitos de sociedades preconceituosas, fundadas a partir de critérios rigorosos, éticos, morais e religiosos.

Referimo-nos aos personagens em que Eudes Alencar ousa investir a partir de um realismo que dá voz e vez a pessoas singulares, estranhas, sem laços e raízes do ponto de vista social.

Sem família, marginais, os protagonistas de Vagamundos oscilam entre o inacreditável ou fantástico pela crueldade de existência sem opção que marca os destinos desses “vagabundos” e o produto de uma realidade brasileira discriminatória e injusta que acaba gerando uma legião anônima e obscura de miseráveis, maltrapilhos e banidos do dito convívio social.

Monteiro Lobato, com o seu Jeca Tatu, foi o primeiro a levantar a bandeira em defesa dos menos favorecidos e, no começo do século XX, esse personagem se tornou um símbolo nacional dos marginalizados pelo controle e poder político.

Jeca Tatu é o paradigma de quantos brasileiros foram e são entregues a uma situação de abandono social do “Deus dará”.

Típico de cidadão submetido à miséria social em todos os sentidos – sem socorro educacional, de saúde, padecendo fome e morrendo de verminose.

É a partir desse tipo social, que hoje já habita as grandes periferias urbanas brasileiras, que Eudes Alencar nos fala.

Os personagens de Eudes Alencar, frutos de reminiscências da memória oral do menino que ele foi, são aquelas criaturas que, em sua cidade natal, Pedreiras, à margem do rio Mearim, de sua infância, passaram à margem do rio e da maré social.

Esses contos são memórias que buscam resgatar um universo fantástico que, enquanto matéria bruta, intocada, passaria, sem dúvida, como inverossímeis, não fosse o registro de um escritor que conseguiu mostrar a grandeza e a beleza dessas almas quase sempre cândidas que, sem casa, sem lar, sem emprego, marginalizadas e acuadas, ainda conseguem passar pelo mundo, dando, de algum modo, vida à sociedade. Assim, Eudes Alencar, em linguagem simples e despojada, nos ensina que, principalmente da tragédia, podemos tirar lições de vida.

Contos e protagonistas como Diarroba, Capadinho, Cumadinha, Matusalém, Gerusa, Cara de Peba, Salu, O Nezim do pandeiro, Maria do Pecoapá, Seu Fidulino, dentre outros, são textos que incluem Vagamundos, do escritor maranhense Eudes Alencar, entre os livros que integram a moderna contística brasileira.

Vale lembrar que Mário de Andrade, com seu Macunaíma, pelos meados do século XX, já dava atenção a esse típico personagem, que é a cara do brasileiro anônimo, marginal.

No caso Mário de Andrade, revela-se o perfil de um brasileiro particular, anti-herói ou herói sem nenhum caráter, que nos lembra o Lazarilho de Tormes da literatura espanhola medieval.

Os protagonistas de Eudes Alencar são retratos de pessoas reais que chegaram a uma condição social marginal tal que, tendo perdido suas identidades, vagam sem laços afetivos pelo mundo ou pelas ruas, sem teto. Seus nomes agora são seus apelidos, mas ainda assim eles encontram, na miséria, para se imporem, de algum modo, como parte da sociedade, chamando a atenção das pessoas, através de algum pretexto, que na indigência, a mão divina sobrenaturalmente lhes confere.

Cristo é quem nos fala em suas bem-aventuranças da graça de que são investidos esses aventureiros da escassez de tudo, quando nos lembra que inúmeras vezes passou pelas nossas casas e O ignoramos:

“Tive fome, e não me deste o que comer.

Tive sede, e não me deste de beber”.

É sobre esse assunto que Eudes Alencar nos fala com simplicidade e poesia, sem dúvida dando um soco com mão-de-luva em quantos, exercendo o controle e o poder de mando, foram ou são responsáveis pelas mazelas e misérias do mundo, às custas da promoção da festa e da farra fraudulenta, fortuita e fácil, através da fortuna decorrente da falência do bem público, alienado indevidamente do público para o particular.

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Rabelais: nobreza pode ser puro equívoco ou invenção da monarquia ou do maquiavelismo.

Rabelais, por exemplo, buscava inspiração para sua obra Gargantua e Pantagruel na arte da praça pública, em Paris. Seu nariz de satírico farejava o grotesco, o dúbio e o escatológico, para expor seu projeto literário genial - demonstrar que rei e vassalos são humanamente iguais. Assim, procurou descobrir com o povo o que na corte era causa de risco, escárnio e ridicularia. E não raro descreve as cenas escatológicas dos nobres durante banquetes homéricos.

A obra de Rabelais é conclusiva: a realeza peida e fede. Assim, o grande mérito de Rabelais foi haver desconstruído a monarquia, reduzindo os nobres, Grandgousieur, Gargamelle, Gargantua e Pantagruel, à condição de seres humanos comum, com tendência à futilidade, ao ridículo, ao riso, à baderna e à flatulência.

Rabelais nivelou, literariamente, príncipes e plebeus, reis e vassalos, ministros da corte e mendigos e transformou o rei em rei-momo e a rainha em rameira. Daí por que os nobres aparecem no texto de Rabelais plenos de depravação e devassidão, iguais às pessoas que vivem em cortiços, favelas e bordéis. E não é sem motivo que o escritor apresenta ao mundo a vida privada da nobreza como patrimônio público, do banquete à cama, da comilança à privada ou ao penico. Enfim, tirou as máscaras dos nobres, demonstrando que, privadamente, não têm preconceito ou hipocrisia, nem consideram escândalo vomitar na mesa do banquete.

Nessa linha, Eudes Alencar apresenta outro tipo de ser humano, o marginal social, o mendigo, pessoas que, embora sem laços familiares, sem nomes, sem identidade, habitantes das ruas, reduzidos a apelidos, conseguem, por alguma razão sobrenatural, chamar as atenções para si. São nobres, na alma, porque são tão simples que podem sobreviver com o mínimo, ao ponto de agirem, como se tivessem alguma felicidade, uma riqueza, uma grandeza, uma realeza particular e peculiar à miséria de quantos tiveram de perder o juízo para poderem rir na desgraça e na degradação.

O texto literário nos lembra Rabelais numa releitura por um caminho oposto, pois, ao redimir e resgatar seus personagens, Eudes demonstra que o ser humano ao tocar o extremo, o outro pólo da vida, superando todos os limites de privação e sem poder desfrutar de vida privada, é nobre em sua alienação e loucura, ao perder a noção de diferença.

Eudes Oliveira de Alencar é formado em Agronomia e Teologia, acadêmico de Psicologia, pós-graduando em Teologia e também é aluno do curso de Psicanálise. Nasceu em Pedreiras (MA), em julho de 1965. Realizou seus primeiros estudos na cidade onde nasceu e veio para São Luís aos 11 anos. Aqui, concluiu o Ensino Médio e foi aprovado nos vestibulares da Ufma (Letras) e Uema (Agronomia), sendo que optou por esta última. Morou ainda na Espanha e em Israel, onde realizou estudos na área de agronomia. É editor do jornal Nóia – uma excelente iniciativa de seus estudos no curso de Psicologia e também é colaborador do Jornal Pequeno, onde escreve artigos. É pai de Marcela, Mayra, João Marco e Yáron e é casado com a jornalista Kátia Persovisan.
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