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Edição 175

CASA DAS MINAS

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Data de Publicação: 23 de abril de 2008
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Manoel Santos Neto

Querebentã de Zomadônu, após obra de reforma, reabre as portas para o público

“Na minha meninice abri olhos inquietos e maravilhados para as danças e cerimônias religiosas desenrolando-se no tradicional terreiro da Casa-Grande das Minas, e meus ouvidos, rudes e frágeis – como conchas bivalves à margem do Oceano -, ressoaram com as vozes dos tambores e das gargantas enchendo as noites de melodias e frases que nenhuma boca humana pôde conspurcar”.
(Nunes Pereira – A Casa das Minas)

A tradicional Casa das Minas Jeje, localizada na Rua de São Pantaleão, já foi estudada por diversos intelectuais, entre os quais Nunes Pereira e Sérgio Figueiredo Ferretti, e por grandes etnólogos, como Roger Bastide e Pierre Verger, mas muito mistério há ainda que se desvendar sobre este antigo terreiro de tradições africanas.

Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), no ano de 2002, a Casa das Minas teve de suspender parte de suas atividades em razão das condições precárias em que se encontrava. Entretanto, o Iphan, com recursos do governo federal, realizou uma ampla obra de conservação e restauro na casa, enfim reaberta com uma cerimônia realizada no dia 24 de março passado.

Pesquisadores, historiadores, folcloristas, escritores e representantes do poder público se uniram às líderes da Casa, Deni Prata Jardim e Maria Celeste Santos, para comemorar a reabertura do mais consagrado terreiro de tambor de mina do Maranhão.

“Para nós, da Casa das Minas, tudo o que foi feito no prédio ficou maravilhoso. Tudo foi reformado e ainda fizeram um mural de fotos que conta um pouco da nossa história”, declarou dona Deni Jardim, coordenadora da Casa e uma das mais antigas integrantes do terreiro, referindo-se ao Memorial da Casa das Minas, uma exposição de 22 fotografias antigas, restauradas pelo fotógrafo Francisco Otoni.

Para a superintendente do Iphan no Maranhão, Kátia Santos Bogéa, é de extrema importância a preservação da Casa das Minas para a cultura, não somente de São Luís, mas também da confluência étnica e histórica da formação do Brasil. No mesmo dia da inauguração da reforma da casa (24 de março passado), foi lançada uma publicação com textos do antropólogo Sérgio Figueiredo Ferretti, pesquisador da Casa das Minas, da historiadora Kátia Santos Bogéa, superintendente do Iphan no Maranhão, e da arquiteta da Superintendência Regional do Iphan, Stella Regina Soares Brito, ambas responsáveis pela instrução do processo de tombamento.

A primeira foto apresenta em forma de bonecos integrantes da dança caracteristica de terreiro; a segunda e a terceira apresentam respectivamente parte interna e a fachada da Casa das Minas

A obra de restauração da Casa das Minas foi iniciada em setembro de 2007 e incluiu a recuperação do telhado, rede elétrica, hidráulica, instalações sanitárias e pintura. Kátia Bogéa ressalta que, por ser uma casa de culto, todo o trabalho foi realizado considerando-se as especificidades do terreiro, em um diálogo constante com as vodunsis (integrantes da casa), adequando às orientações concernentes a uma obra realizada em edificação protegida pelo Iphan e sempre respeitando o valor histórico e os fundamentos e preceitos religiosos do templo onde são cultuadas entidades africanas.

Tombamento ­- A Casa das Minas foi tombada pelo Iphan em 2002 e abriga um conjunto de elementos de valor simbólico que fazem parte da memória cultural da sociedade brasileira. É considerada como única no país por todos os especialistas que a estudaram até hoje por cultuar divindades originárias do antigo Reino do Daomé e que tem como principal manifestação religiosa as divindades denominadas voduns, que são invocadas por meio de cânticos e danças e cuja maioria são vinculadas à família real do Daomé.

Outra característica peculiar da Casa é a gerontocracia feminina, na qual o poder é transferido em cadeia sucessória, de forma respeitosa e consensual de uma liderança para outra, segundo dotes de sabedoria, antigüidade no culto e equilíbrio demonstrados ao longo da convivência entre elas. Além desse terreiro maranhense, já foram tombados o Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho Ilê Axé Iyá Nassô Oká, em 1987; e o Terreiro Axé Opô Afonjá, em 1999, ambos localizados em Salvador, no estado da Bahia.

Um mistério que haverá de durar sempre

Para a maioria dos pesquisadores, a origem da Casa das Minas haverá de ser sempre um mistério. Em artigo do antropólogo Sérgio Figueiredo Ferreti, publicado no Boletim da Comissão Maranhense de Folclore, em 2002, de acordo com depoimentos de membros da casa, na década de 40 do século XIX, negros alforriados se reuniram para adquirir lotes de terra na área onde está situada atualmente (na Rua de São Pantaleão, na esquina com o Beco das Minas), para a construção do terreiro. Anteriormente, segundo a tradição oral da casa, a sede do terreiro estava localizada na Rua de Santana.

Inicialmente, foi adquirido um lote e, posteriormente, mais dois adjacentes. O primeiro foi consagrado ao dono da casa, Toi Zomadônu, vodum da primeira-chefe da Casa das Minas, a escrava alforriada Maria Jesuína, provavelmente mãe do rei Ghezo, do reino de Daomé, atual República do Benin, conforme hipótese levantada pelo pesquisador Pierre Verger. Os dois lotes adquiridos em seguida por Dona Ozana da Conceição Ferreira e seu companheiro de nação Antônio Francisco das Chagas e por uma dançante do terreiro foram dedicados a Nochê Sepazim, vodum de Dona Ozana, e ao vodum Toi Dadarrô.

Essa divisão inicial gerou subdivisões com a finalidade de abrigar todos os voduns da casa (os da família real e seus hóspedes nagôs), agrupados em famílias que habitam espaços contíguos, onde residem as vodunsis e seus familiares. Além dos espaços consagrados aos voduns e suas famílias, há outros de uso comum como a cozinha, a sala do altar (sala grande), o quarto dos santos (come ou vodumcome) e a varanda de dança (guma), além do quintal, onde está plantada a árvore sagrada da casa e onde é fixado o mastro do Divino Espírito Santo na época da festa. Desde sua fundação, em meados do século XIX, a Casa das Minas foi chefiada por seis vodunsis, das quais se destacou Mãe Andresa, que comandou o terreiro por 40 anos.

Uma casa onde ecoam tambores da velha cidade

A Casa-Grande das Minas, com o tantantã dos tambores e com as noviches, vestidas de branco, dançando em volta de Mãe Andresa, aparece logo no primeiro capítulo do romance Os Tambores de São Luís. Josué Montello descreve o querebetã como “uma casa baixa, de beiral saliente, caiada de novo, na esquina do Beco das Crioulas, com janelas de rótulas e porta de duas folhas, sobre a Rua de São Pantaleão”.

Para Montello, ninguém saberá quem assentou os alicerces da casa, com as disposições internas para os seus ritos e cerimônias. Tudo quanto se sabe não tem a limpidez do testemunho histórico: limita-se à tradição oral. Teria sido obra de negros de contrabando, ou seja: de africanos que vieram para São Luís no porão dos tumbeiros, já na fase do tráfico proibido. É pelo menos o que se conta. Esses negros é que teriam fincado no chão da velha cidade as pedras de seus voduns, no espaço reservado ao santuário e que nunca foi mudado. Entretanto há quem retroceda a Casa das Minas a eras mais distantes, como de mais longe viriam as noviches vestidas de branco, trazendo na cabeça os cântaros de barro com a água recolhida na Fonte de Apicum e que se destinava às jarras sagradas. Entre estas, sobressaía a maior de todas, consagrada ao vodum Zamadone.

As noviches, que também usam saias coloridas, algumas de pano-da-costa, não se limitam a dançar, sozinhas ou em grupos, consoante a inspiração do vodum e a marcação dos tambores – também sentam no chão como meninas e brincam com bruxas de pano, sob as vistas da nochê, como se a roda do tempo desse repentinamente para trás, devolvendo-lhes a infância perdida. Infância que nada tem de individual, pois retrocede a tempos mais longínquos, que se associam à própria raça nas selvas africanas, e de que se tem notícia pelo dialeto com que as negras conversam entre si, horas inteiras, sem que elas próprias saibam o que estão dizendo.

O mestre que consagrou todo um livro sobre a Casa das Minas chamou-se Nunes Pereira, o sábio, o escritor, o antropólogo, que aqui nasceu e se criou. E é ele quem afirma, na página 210 de seu grande livro, editado em 1987 pela Vozes: “Uma das mais precisas e legítimas descrições da Casa Grande das Minas é, sem dúvida, a que devemos a Josué Montello, em seu romance Os tambores de São Luís”.

César Marques, no seu prestimoso Dicionário Histórico-Geográfico da Província do Maranhão, publicado em 1870, silencia sobre a casa. Mas quem desce a rua sinuosa, na direção do centro da cidade, depois de passar pela Igreja de São Pantaleão, vê um bando de construções primitivas, todas acachapadas, com beirais salientes e batentes de cantaria. Para identificar a Casa-Grande das Minas, não é preciso quebrar a cabeça. De dia, ali por perto, qualquer pessoa dirá onde ela fica; de noite, bastará guiar-se pelo bater dos tambores.

Lê-se em João Francisco Lisboa que, ao lado da igreja primitiva, que domina a cidade com as suas torres caiadas, agregaram-se umas casinhas agachadas e baixas. Estas, pelo visto, serviram de modelo às que se foram erguendo nos arredores, pelo tempo adiante, com as mesmas linhas toscas. A despeito dessa simplicidade desataviada, todas elas conservaram certo ar de pobreza decente. Em contraste com o casario de azulejos do patriciado maranhense, na Rua do Sol, na Rua dos Remédios, na Rua da Palma, na Rua de Nazaré ou na Rua Formosa, as moradias de São Pantaleão têm a singeleza das residências de arrabalde. Em verdade, situam-se no perímetro urbano de São Luís, umas junto das outras, como a se protegerem mutuamente contra as transformações por que vem passando a cidade.

A Casa-Grande das Minas, ou simplesmente Casa das Minas, tem outra peculiaridade, que ajuda a reconhecê-la: fica de esquina, parecendo descer ladeira abaixo, no pedaço de rua a que deu nome: o Beco das Minas. Entra-se ali pela porta da Rua de São Pantaleão. E o que logo se vê, ao chegar à varanda, depois de atravessar o corredor atijolado, são os tambores rituais, de pé, em número de três, ocupando o fundo à esquerda e compondo a base de um triângulo, cujo vértice é o encontro das paredes. Um longo banco de madeira sem recosto acompanha a parede que olha o quintal. Entretanto, ao sentar ali, o que o visitante descortina são os ramos da cajazeira, porque um muro se alteia, de pouco mais de metro e meio, na divisória da varanda. Mas esse mesmo muro se abre, mais adiante, para dar passagem ao terreiro, permitindo olhar de perto a velha árvore, toda vestida de folhas miúdas, de um verde queimado, muito escuro, e que a luz do sol tropical custa amarelecer.

Por trás do banco, está a sala fechada onde se esconde o santuário, e a que os negros só penetram em estado de pureza, na companhia da nochê, ou dona da casa, e das noviches, ou irmãs, estas últimas trazendo nos braços as pulseiras de búzios, e no pescoço os colares coloridos que a nochê lhes preparou. De noite, quando baixam os voduns, estrondam os tambores, tocados ritualmente pelos runtós, enquanto sacolejam as cabaças e retinem os ogãs, estes últimos vibrados por mãos de mulher.

“Na minha meninice abri olhos inquietos e maravilhados para as danças e cerimônias religiosas desenrolando-se no tradicional terreiro da Casa-Grande das Minas, e meus ouvidos, rudes e frágeis – como conchas bivalves à margem do Oceano -, ressoaram com as vozes dos tambores e das gargantas enchendo as noites de melodias e frases que nenhuma boca humana pôde conspurcar”. (Nunes Pereira – A Casa das Minas)

A primeira foto apresenta em forma de bonecos integrantes da dança caracteristica de terreiro; a segunda e a terceira apresentam respectivamente parte interna e a fachada da Casa das Minas
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