Data de Publicação: 23 de abril de 2008
? DYL PIRES
PLANGER na cor acesa
do inexpressivo
concebo um coração
de curvas
póstumas
saciando o despedaçado sentido
entranhado
entre dois
corpos
um impulso secreto
no cego pulsar
busca na face noviça
o ancoradouro das máscaras dos séculos
línguas de fogo crepitando
na boca
íntima
do mistério se penetram
algemadas no próprio espanto
na cor acesa
do inexpressivo
os olhos
são um belo par de murmúrios
revelando
o avesso fundo da criatura
a carne prenhe de uma sina obscura
(Círculo das Pálpebras, Edições FUNC, 1999)
DA VELHICE A breve infância sempre foi
Um inaugural coice de espanto e prazer
Agora retorna como o cavalo manco da eternidade
(O Perdedor de Tempo, inédito, 2007)
DO DESASSOSSEGO Há dias em que o desassossego
É um enigma insuspeito
Sorrateiramente esticando-se
Na agoniada noite da carne
(O Perdedor de Tempo, inédito, 2007)
? ROSEMARY RÊGO
PEDRAS A dor que me lambe os ossos
Já não é mais como a agonia dos loucos,
Já não é mais como a solidão das pedras.
A dor que me lambe os ossos
Agora é como a geografia dos corpos
Que se enroscam e se encaixam na célebre
Canção dos dias.
A dor que me lambe os ossos é como o suor
do espírito, como a carne que surge do amanhecer
A dor que me lambe os ossos é como o gozo
atormentado de ser poeta
A dor que me lambe os ossos agora é feita: sss de pedra e cal
(Coletânea Poética dos Festivais Maranhenses de Poesia Falada, DAC, 2000)
POEMA PARA SÃO LUÍS A cidade repousa os braços do final da tarde
o alarido crepuscular encandesce segredos
de mirantes e casarios.
(A moinha existência está na cidade)
O mar mesmo que absorto eterniza meus dias
nas pálpebras da cidade.
Os ossos flamejam na eternidade das ladeiras,
despertam na noite a vaga lembrança da cidade que
vivera sob a égide das putas.
A cidade ainda que nova, é velha ante o sorriso
do tempo.
O ócio da cidade esconde-se por entre casarões
e ruínas.
Ergue-se em mim a cidade
e desvirgina-se no tempo a cidade.
(Coletânea Poética dos Festivais Maranhenses de Poesia Falada, DAC, 2000)
ESPERA A sala em penumbra não cabe dentro da alma
o papel exposto sobre a pequena mesa de cedro
espera o poema que não deseja sair precocemente.
A máquina absorta no canto do quarto há muito
não abre os dentes há tempo a poesia não chega.
A máquina no canto do quarto é tácita,
é como se estivesse velando um cadáver de noventa anos.
(O ergástulo gozo da palavra, Edição do autor, 2004)
? ANTONIO AÍLTON
TELÚRICO eu quero o anjo
não o anjo-rinoceronte
nem o anjo das coisas
eu quero a anja
eu quero o anjo
não o anjo psicodélico
que repousa
no lado escuro da lua,
o anjo lilás no sobejo do defunto...
eu quero o anjo tão delicado quanto possa
agarrá-lo
eu quero o anjo recolhido dos crisântemos
durante o sono do céu:
nada me toca mais que a ternura do orvalho
nas asas do anjo
eu quero o anjo
não o anjo-qualquer, seduzido ao
descuido,
nem o Anjo Branco – Deus o tenha! Quero
A ANJA
(que voe nas profundezas do inferno da minha boca)
eu quero o
Anjo-anja
que pulsa
na eternidade volátil
- a mulher
(As habitações do Minotauro, Edições FUNC, 2000)
DELIRIUM TREMENS horrível tendência para o sono
nada é quieto ao sono de quem vive
o mar eternamente varrendo o sono
está sempre suspeitando o próprio verde
longo caminho que me leva à tempestade
um destino se imagina dono de meus pés
não tenho força alguma dentro de minha alma
(mar de estranho verde que teima em derramar)
luvas lavradas em impuras lavras
pesam demais no horizonte do vento
é noite de tempestade e eu a obedeço
tão elementar quanto a agulha
na ferida
- do cego
nada poderá deter meu envelhecimento
ninguém suspeitará de minha voluntariedade
aproveitarei este momento
em que tudo cai de uma ponte
para dormir nas folhas verdes do meu poema
(As habitações do Minotauro, Edições FUNC, 2000)
? BIOQUE MESITO
A PENÚLTIMA CASA 1.eu não lerei o último
poema meu
talvez seja anacrônico
ou até mesmo contrabandista
2.terá por certo a perfeita alusão
de mim
sem me desvendar
3.cicatrizes no peito
olhos bem espantados
2,20 m de curiosidade
4.suave como borboletas
no cio
metade eterno por todo tempo
metade orgasmo por insatisfeito
(A inconstante órbita dos extremos, Editora Cone Sul, 2001)
ANTOLÓGICO não naufrago
em poemas sadios
minhas mãos
mulheres são
suadas pelo ferro
do silêcio
(A inconstante órbita dos extremos, Editora Cone Sul, 2001)
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