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Edição 174

A linguagem de Odorico Mendes na tradução da Odisséia: É importante notar como Odorico Mendes cinde os vários cantos da Odisséia com uma incrível muralha ou cinturão vasto de aliterações:

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Data de Publicação: 9 de abril de 2008
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Livro I

Neste primeiro trecho há a prevalência do fonema representado graficamente pela consoante S, encadeado com outros fonemas de sons similares: q, l, b, n, d, c, p, t, r, rr, e m:

Que o salso abismo sonda, o peso atura

Das colunas que a terra e o céu demarcam.

(p. 30)

No verso seguinte, a freqüência é da letra P, sitiada pelas letras c, m, v, s, n, j, s e l:

Ou com povosa esponja as mesas pulem,

(p. 32)

Livro II

Com a recorrência da consoante T, no encadeamento aliterativo estão os fonemas que representam as consoantes n, s, d, ss, p, r, f, l, m, v, lh, j, c, q, g e b:

[...]Com novo engano,

Nos disse, ao predispor fina ampla teia:

“Amantes meus, depois de morto Ulisses,

Vós não me insteis, o meu lavor perdendo,

Sem que o herói Laertes a mortalha

Toda seja tecida, para quando

No longo sono o sopitar o fado

Nenhuma Arguiva exprobe-me um funéreo

Manto rico não ter quem teve tanto.

(p.48)

À prevalência da consoante L somam-se t, sc, p, g, n, s, c, d, m, ch, d, r e v:
.
Esta desculpa ingênuos aceitamos.

Ela, um triênio, desmanchava à noite

À luz da lâmpada o lavor diurno;

Ao depois, avisou-nos uma escrava,

E a destecer a teia a surpreendemos:

Então, viu-se obrigada a concluí-la.

(p. 48)

E encrespa o turvo ressonante pego.

A vozes de Telêmaco, manobram:

De abeto o mastro levantado encaixam

Em sua base e o ligam de calabres,

Com táureas cordas brancas velas içam.

Venta em cheio; a fremir, purpúreas vagas

O buco açoitam, que as retalha e voa.

Finda a mareação, do mais extreme

Em pé crateras coroando, libam

Aos mortais, principalmente à prole

(p. 58)

Livro III

O solene festim lauto celebram.

(p. 61)

“Donde vindes cortando as salsas vagas?

Traficais ou piratas sois errantes,

Que para dano alheio a vida expondes?

(p. 62)

Caro custou seu crime a Egisto infame

Quão belo um nobre herdeiro, como Orestes,

Que o pai vingou no pérfido homicida!

(p. 66)

Há sempre que se ressaltar o fato de Odorico Mendes reproduzir as ressonâncias do poema sinfônico de Homero, em que o encadeamento aliterativo deflagra a sonoridade onomatopaica marinha, resgatando o estilo hiperbólico em português:

[...] Tonante

Solta estrídulos ventos e em montanhas

Incha escarcéus; dispersa, a frota em parte

A Creta arriba,[...]

(p. 69)

Hora é de repousar; sepulto o lume

Na opaca treva recolher-nos cumpre

(p. 70)

O exemplo seguinte ilustra outro recurso usado abundantemente no poema, o cavalgamento, a arma que impõe ao texto dinamismo e agilidade:

Por temporais jogado além do horrendo

Pélago vasto, quem nem aves podem

Num ano atravessar. [...]

(p. 70)

Ossos combustos, vísceras comidas,

picam-se as carnes, que enroscadas assam,

os pontudos espetos revirando.

(p. 74)

Prontos o assado e o banquete, os mais prestantes

O vinho em copos de ouro em pé transfundem.

(p. 74)

Livro IV

A boda em breve acerba lhe seria.

(p. 88)

Aqui a incidência do fonema F deflagra o clima ressonante de onomatopéia:

Porque falhei com justas hecatombes.

Lá Faro surge à flor da azul campina,

De foz em fora, [...]

(p. 89)

O gueirreiro Aquiles, amigo de Ulisses

Observem aqui a freqüência do fonema P, numa seqüência encadeada de sons semelhantes que comprometem os fonemas q, l, d, s, t, n, v, lh, c, r, m, j, nh, rr, ss e z

Que pelo undoso ponto os nautas leva

E a planície lhe encrespa, eu demorado,

Com poucas provisões, lassa a campanha,

Desesperava já, quando Idotéia,

Do potente Proteu marinha prole,

Ocorreu compassiva a mim sozinho;

(p. 89)

A persistência a seguir é do S, encadeado com os fonemas m, r, d, n, l e b:

Ao meridiano Sol do salso abismo,

(p. 90)

Poeta Manuel Odorico Mendes

Já neste caso prevalece o fonema R, na cadeia com os fonemas g, d, b, f e lh

[...] ruge

De rábido furor, olhos em brasa:

(p. 98)

A freqüência maior neste fragmento é do fonema C, no encadeamento com m, f, l, g, r, s, t, d, q, n, sc, t, p, v e x:

“O céu me aflige, ó caras, mais que a todas

Que nasceram comigo e se criaram:

Meu marido perdi, leão no esforço,

De virtudes complexo, espelho aos Dânaos,

(p. 99)

Temo e tremo: inimigos o insidiam,

(p. 10)

E os trechos seguintes não fogem ao cerco aliterativo:

[...] “Se é morto ou vivo

Omito, é vão discurso”. E, como vento,

Por entre a fechadura, esvaeceu-se.

(p. 103)

Livro V

[...] qual peixinhos

Por inquieto golfo o guincho caça,

Crebo na escuma as asas imergindo.

(p. 107)

[...] melífluas árias

Ela entoava, a teia percorrendo

Com lançadeira de ouro. Em torno à gruta,

Choupo, odoro cipreste, alno viceja;

Ali - extensas no bosque aninham-se aves,

Gaviões e bufos, linguareiras gralhas,

Ao marinho bulício afeiçoadas.

Fora, parreira de pubentes ramos

Floresce em uvas; quatro fontes regam

De água pura, chegando-se e fugindo,

Aipos e violais em moles veigas.

(p. 108)

[...] Eis move o cetro;

Procelas concitando, altera as ondas,

A praia e o mar enfusca, açula os ventos;

(p. 115)

Acabasse eu na hora em que êneas lanças

Do Aquíleo corpo em cerco me choviam!

(p. 116)

Não posso os pés firmar para evadir-me:

(p. 119)

Livro VI

Se te coube o infortúnio, a fronte acurva.

(p. 129)

Livro VII

Velozes qual a pluma e o pensamento.

(p. 136)

O audaz e franco, donde quer que chegue,

Vence embaraços. [...]

(p. 137)

Livro VIII

Começam pelo curso, e da barreira

Entre nuvens de pó rápidos voam:

(p. 151)

[...] E os laços desliou de um toque.

(p. 159)

Livro IX

Como as folhas vernais e as flores brotam

(p. 169)

Pelo piscoso ponto flutuando.

(p. 170)

Em fila, a salsa espuma a remos fere,

E dali pesarosos nos partimos.

(p. 171)

Livro XII

“Desgraçadas, a morte é sempre feia,

mas o pior é perecer de fome.

(p. 234)

Livro XIII

Já que sós não bastamos, brinde o povo

Conosco à larga este hóspede bizarro.

(p. 240)

Sussurrantes abelhas melificam

(p. 242)

Oculta a morte pela opaca noite

(p. 247)

Livro XIV

Vai-se-me a vida: falta-me o capote.

(p. 267)

Livro XV

Cadente o Sol e escuros os caminhos,

(p. 274

Nada há pior que errar sem domicílio:

Flagela ao triste o vitupério, a fome

O rói e abate, e o pungem mil desgostos

(p. 278)

Livro XVI

Neste ponto do texto, bela é a força da sonoridade criada pela aliteração, resultando em onomatopéia e alegoria:

Seus gemidos estrugem, quanto os grasnos

De abutres e águias de recurvas unhas,

A quem pilhou pastor ninhada implume.

(p. 291)

Pois a força do ferro atrai o homem.

(p. 293)

Livro XVII

Observem aqui a predominância do fonema F em encadeamento com oclusivas e fricativas:

Mágoa e opróbrio não é feridos sermos

Em defesa dos bens e bois e ovelhas;

Mas Antino feriu-me, porque a fome,

Causa de infinidos males, me atormenta.

(p. 312)

Livro XVIII

Nesta passagem, a freqüência do R impõe mobilidade ao trecho:

[...] Os feros procos,

Alçando as mãos, de riso rebentavam;

(p. 320)

Esta belíssima passagem, que inclui cavalgamento, apresenta variado número de sons similares ou contíguos, com prevalência do R e do C:

De quanto cá respira e cá rasteja

Nada é mais lastimável do que o homem:

No seu vigor e próspera fortuna,

Com desgraça não conta, e se esta o assalta,

Não sabe suportá-la e acusa os deuses;

(p. 321)

Livro XIX

Estas duas passagens dão prioridade ao fonema C:

[...] receoso

Que a cicatriz o arcano revelasse.

(p. 342)

Se aquece e cobre a cicatriz com panos.

(p. 345)

Livro XX

Neste livro, há maior incidência do fonema T:

Assim de toda parte se remexe

Traçando o meio de bastar a tantos

Insolentes rivais. [...]

(p. 350)

Morre o Sol, e se esparge e adensa a treva!

(p. 359)

Livro XXI

[...] calor quiçá me cumpra,

E descobrir-me o coração me pede.

(p. 367)

Livro XXII

Deixa a taça cair, de ilharga tomba

Sangue das ventas jorra, e a pés convulso

A mesa empurra; espalha-se a comida,

Suja-se a carne e o pão. Ferve o tumulto;

Erguem-se alvorotados, procurando

Em vão, pelas paredes esculpidas,

Escudo ou lança, em cólera ferviam.

(p. 376)

(MENDES, Manuel Odorico. Odisséia de Homero. São Paulo: Editora Martin Claret, 2003)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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