Data de Publicação: 9 de abril de 2008
Livro I Neste primeiro trecho há a prevalência do fonema representado graficamente pela consoante S, encadeado com outros fonemas de sons similares: q, l, b, n, d, c, p, t, r, rr, e m:
Que o salso abismo sonda, o peso atura
Das colunas que a terra e o céu demarcam.
(p. 30)
No verso seguinte, a freqüência é da letra P, sitiada pelas letras c, m, v, s, n, j, s e l:
Ou com povosa esponja as mesas pulem,
(p. 32)
Livro II Com a recorrência da consoante T, no encadeamento aliterativo estão os fonemas que representam as consoantes n, s, d, ss, p, r, f, l, m, v, lh, j, c, q, g e b:
[...]Com novo engano,
Nos disse, ao predispor fina ampla teia:
“Amantes meus, depois de morto Ulisses,
Vós não me insteis, o meu lavor perdendo,
Sem que o herói Laertes a mortalha
Toda seja tecida, para quando
No longo sono o sopitar o fado
Nenhuma Arguiva exprobe-me um funéreo
Manto rico não ter quem teve tanto.
(p.48)
À prevalência da consoante L somam-se t, sc, p, g, n, s, c, d, m, ch, d, r e v:
.
Esta desculpa ingênuos aceitamos.
Ela, um triênio, desmanchava à noite
À luz da lâmpada o lavor diurno;
Ao depois, avisou-nos uma escrava,
E a destecer a teia a surpreendemos:
Então, viu-se obrigada a concluí-la.
(p. 48)
E encrespa o turvo ressonante pego.
A vozes de Telêmaco, manobram:
De abeto o mastro levantado encaixam
Em sua base e o ligam de calabres,
Com táureas cordas brancas velas içam.
Venta em cheio; a fremir, purpúreas vagas
O buco açoitam, que as retalha e voa.
Finda a mareação, do mais extreme
Em pé crateras coroando, libam
Aos mortais, principalmente à prole
(p. 58)
Livro IIIO solene festim lauto celebram.
(p. 61)
“Donde vindes cortando as salsas vagas?
Traficais ou piratas sois errantes,
Que para dano alheio a vida expondes?
(p. 62)
Caro custou seu crime a Egisto infame
Quão belo um nobre herdeiro, como Orestes,
Que o pai vingou no pérfido homicida!
(p. 66)
Há sempre que se ressaltar o fato de Odorico Mendes reproduzir as ressonâncias do poema sinfônico de Homero, em que o encadeamento aliterativo deflagra a sonoridade onomatopaica marinha, resgatando o estilo hiperbólico em português:
[...] Tonante
Solta estrídulos ventos e em montanhas
Incha escarcéus; dispersa, a frota em parte
A Creta arriba,[...]
(p. 69)
Hora é de repousar; sepulto o lume
Na opaca treva recolher-nos cumpre
(p. 70)
O exemplo seguinte ilustra outro recurso usado abundantemente no poema, o cavalgamento, a arma que impõe ao texto dinamismo e agilidade:
Por temporais jogado além do horrendo
Pélago vasto, quem nem aves podem
Num ano atravessar. [...]
(p. 70)
Ossos combustos, vísceras comidas,
picam-se as carnes, que enroscadas assam,
os pontudos espetos revirando.
(p. 74)
Prontos o assado e o banquete, os mais prestantes
O vinho em copos de ouro em pé transfundem.
(p. 74)
Livro IVA boda em breve acerba lhe seria.
(p. 88)
Aqui a incidência do fonema F deflagra o clima ressonante de onomatopéia:
Porque falhei com justas hecatombes.
Lá Faro surge à flor da azul campina,
De foz em fora, [...]
(p. 89)
O gueirreiro Aquiles, amigo de UlissesObservem aqui a freqüência do fonema P, numa seqüência encadeada de sons semelhantes que comprometem os fonemas q, l, d, s, t, n, v, lh, c, r, m, j, nh, rr, ss e z
Que pelo undoso ponto os nautas leva
E a planície lhe encrespa, eu demorado,
Com poucas provisões, lassa a campanha,
Desesperava já, quando Idotéia,
Do potente Proteu marinha prole,
Ocorreu compassiva a mim sozinho;
(p. 89)
A persistência a seguir é do S, encadeado com os fonemas m, r, d, n, l e b:
Ao meridiano Sol do salso abismo,
(p. 90)
Poeta Manuel Odorico MendesJá neste caso prevalece o fonema R, na cadeia com os fonemas g, d, b, f e lh
[...] ruge
De rábido furor, olhos em brasa:
(p. 98)
A freqüência maior neste fragmento é do fonema C, no encadeamento com m, f, l, g, r, s, t, d, q, n, sc, t, p, v e x:
“O céu me aflige, ó caras, mais que a todas
Que nasceram comigo e se criaram:
Meu marido perdi, leão no esforço,
De virtudes complexo, espelho aos Dânaos,
(p. 99)
Temo e tremo: inimigos o insidiam,
(p. 10)
E os trechos seguintes não fogem ao cerco aliterativo:
[...] “Se é morto ou vivo
Omito, é vão discurso”. E, como vento,
Por entre a fechadura, esvaeceu-se.
(p. 103)
Livro V [...] qual peixinhos
Por inquieto golfo o guincho caça,
Crebo na escuma as asas imergindo.
(p. 107)
[...] melífluas árias
Ela entoava, a teia percorrendo
Com lançadeira de ouro. Em torno à gruta,
Choupo, odoro cipreste, alno viceja;
Ali - extensas no bosque aninham-se aves,
Gaviões e bufos, linguareiras gralhas,
Ao marinho bulício afeiçoadas.
Fora, parreira de pubentes ramos
Floresce em uvas; quatro fontes regam
De água pura, chegando-se e fugindo,
Aipos e violais em moles veigas.
(p. 108)
[...] Eis move o cetro;
Procelas concitando, altera as ondas,
A praia e o mar enfusca, açula os ventos;
(p. 115)
Acabasse eu na hora em que êneas lanças
Do Aquíleo corpo em cerco me choviam!
(p. 116)
Não posso os pés firmar para evadir-me:
(p. 119)
Livro VISe te coube o infortúnio, a fronte acurva.
(p. 129)
Livro VIIVelozes qual a pluma e o pensamento.
(p. 136)
O audaz e franco, donde quer que chegue,
Vence embaraços. [...]
(p. 137)
Livro VIIIComeçam pelo curso, e da barreira
Entre nuvens de pó rápidos voam:
(p. 151)
[...] E os laços desliou de um toque.
(p. 159)
Livro IXComo as folhas vernais e as flores brotam
(p. 169)
Pelo piscoso ponto flutuando.
(p. 170)
Em fila, a salsa espuma a remos fere,
E dali pesarosos nos partimos.
(p. 171)
Livro XII“Desgraçadas, a morte é sempre feia,
mas o pior é perecer de fome.
(p. 234)
Livro XIIIJá que sós não bastamos, brinde o povo
Conosco à larga este hóspede bizarro.
(p. 240)
Sussurrantes abelhas melificam
(p. 242)
Oculta a morte pela opaca noite
(p. 247)
Livro XIVVai-se-me a vida: falta-me o capote.
(p. 267)
Livro XVCadente o Sol e escuros os caminhos,
(p. 274
Nada há pior que errar sem domicílio:
Flagela ao triste o vitupério, a fome
O rói e abate, e o pungem mil desgostos
(p. 278)
Livro XVINeste ponto do texto, bela é a força da sonoridade criada pela aliteração, resultando em onomatopéia e alegoria:
Seus gemidos estrugem, quanto os grasnos
De abutres e águias de recurvas unhas,
A quem pilhou pastor ninhada implume.
(p. 291)
Pois a força do ferro atrai o homem.
(p. 293)
Livro XVIIObservem aqui a predominância do fonema F em encadeamento com oclusivas e fricativas:
Mágoa e opróbrio não é feridos sermos
Em defesa dos bens e bois e ovelhas;
Mas Antino feriu-me, porque a fome,
Causa de infinidos males, me atormenta.
(p. 312)
Livro XVIIINesta passagem, a freqüência do R impõe mobilidade ao trecho:
[...] Os feros procos,
Alçando as mãos, de riso rebentavam;
(p. 320)
Esta belíssima passagem, que inclui cavalgamento, apresenta variado número de sons similares ou contíguos, com prevalência do R e do C:
De quanto cá respira e cá rasteja
Nada é mais lastimável do que o homem:
No seu vigor e próspera fortuna,
Com desgraça não conta, e se esta o assalta,
Não sabe suportá-la e acusa os deuses;
(p. 321)
Livro XIX Estas duas passagens dão prioridade ao fonema C:
[...] receoso
Que a cicatriz o arcano revelasse.
(p. 342)
Se aquece e cobre a cicatriz com panos.
(p. 345)
Livro XX Neste livro, há maior incidência do fonema T:
Assim de toda parte se remexe
Traçando o meio de bastar a tantos
Insolentes rivais. [...]
(p. 350)
Morre o Sol, e se esparge e adensa a treva!
(p. 359)
Livro XXI [...] calor quiçá me cumpra,
E descobrir-me o coração me pede.
(p. 367)
Livro XXIIDeixa a taça cair, de ilharga tomba
Sangue das ventas jorra, e a pés convulso
A mesa empurra; espalha-se a comida,
Suja-se a carne e o pão. Ferve o tumulto;
Erguem-se alvorotados, procurando
Em vão, pelas paredes esculpidas,
Escudo ou lança, em cólera ferviam.
(p. 376)
(MENDES, Manuel Odorico. Odisséia de Homero. São Paulo: Editora Martin Claret, 2003)
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