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Edição 164

ALUÍSIO AZEVEDO: De cortiços a bataclãs, favelas & narcotráficos

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Data de Publicação: 27 de outubro de 2007
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Diríamos de princípio, só pra colocar mais lenha na fogueira, que o texto literário de Aluísio Azevedo mais conseqüente, longe de ser O Mulato, é O Cortiço, sem dúvida a obra-prima de uma das maiores expressões, senão a maior, do romance brasileiro do século XIX..

Em O Cortiço, Aluísio Azevedo, com fina ironia e recorrente mordacidade, desconstrói as máscaras da hipocrisia, do preconceito e da discriminação impostos por uma sociedade de poder político e religioso e faz o retrato de uma comunidade da periferia do Rio de Janeiro, que passa a existência com o mínimo de hipocrisia, preconceito e discriminação. O povo se expõe, a nobreza se esconde e se mascara.

No romance, o escritor se impõe como ruptura de vários cânones da narrativa em voga, na época, quer românticos, quer naturalistas, e opta por uma escrita sincrética bem balanceada, que é simultaneamente decadentista, realista-psicológica, naturalista e antecipadora do Modernismo.

Com uma visão literária avançadíssima para o seu tempo, Aluísio Azevedo dá visibilidade ao Decadentismo brasileiro, quando impõe ao discurso literário uma visão fantástica da atmosfera medusesca que percorre, como um frêmito de arrepios, inúmeras páginas da obra ficcional, O Cortiço, em que a marca predominante se excele, através de um luxuriante poder de sedução. É quando ele faz uma releitura do episódio bíblico, que trata do conflito entre Salomé e João Batista.

É na personagem Rita Baiana, que o romancista incorpora o mito medusesco da Salomé que dança, sedutoramente e seminua, perante o rei, com a finalidade de seduzi-lo e desarmá-lo, para poder pedir-lhe a cabeça do apóstolo São João Batista.

Rita Baiana é uma Salomé brasileiríssima e evoca, durante uma festa típica de um cortiço, a figura do mito literário do poder da sedução da mulher fatal.

Trata-se de uma releitura que tem por base a desconstrução e o desmascaramento de um mito pomposo, transformado em peça popular. Em outras palavras, das festa solene do poema em prosa Salomé, de Oscar Wilde, passa-se a uma atmosfera folclórica de um ambiente tosco, simples e espontâneo.

Por outro lado, O Cortiço não tem um único protagonista, como era, até então, tradicionalmente individualizado, pois Aluísio Azevedo investe no drama existencial de um personagem coletivo ou múltiplo, em que o drama de cada um acaba se diluindo no drama geral, prevalecendo, então, a onisciência, o que possibilita a liberdade para deslocar o foco narrativo.

Quando se aponta Machado de Assis como o grande romancista inovador brasileiro, seria melhor retificar para um dos. Quem leu O Cortiço sabe que a exclusividade para o autor de Quincas Borba é um equívoco sem precedentes, persistindo a necessidade da polêmica em torno do assunto.

O Cortiço é, antes de tudo, um romance antecipador, pioneiro, desbravador. Com ele, Aluísio Azevedo abre o caminho para seus descendentes, como quem abre uma picada para a safra das novas gerações. E, os que vieram depois, que seguiram os seus passos e não se arrependeram, como Graça Aranha, Jorge Amado e Josué Montello, souberam o quanto ele foi importante como alguém que prepara os caminhos, como João Batista preparou-os para Cristo.

De um modo ou de outro, qualquer romancista esperto, que viesse depois de Aluísio Azevedo não poderia perder o filão e o filé de O Cortiço, cuja abordagem em termos de arte de circunavegação na criação da obra romanesca é, inequivocamente, incomparável em relação a qualquer um de seus contemporâneos ou pares brasileiros. Neste particular, Machado de Assis não foi além do maranhense.

Depois, com O Cortiço, Aluísio Azevedo se consagra como aquele que melhor captou, capturou e resgatou a maneira peculiar de o brasileiro perceber-se, extroverter-se e expor-se em público, espontaneamente. Isto o escritor exercita com uma verossimilhança impressionante.

Em se tratando da arte de construir um romance genial, a química proposta por Aluísio Azevedo soa como a descoberta da quintessência do texto, já que ele consegue associar, numa mesma narrativa, a paixão pelo tropicalismo, que só eclodiria muito tempo depois em obras de artistas brasileiros, como Torquato Neto, Caetano Veloso e Gilberto Gil, bem como na obra Macunaíma, de Mário de Andrade, e nos romances de Jorge Amado.

São conseqüências da atmosfera festiva de O Cortiço, obras que tenham como base a filosofia de vida antes expressa em textos fundamentais, como Satiricon, de Petrônio, e Gargantua e Pantagruel, de Rabelais, ou seja, cuja base é o carnaval, a comilança, a devoração, a festa, com a preponderância dionisíaca ou báquica. Entre essas obras, inclua-se a tetralogia de Jorge Amado, O País do Carnaval, Gabriela Cravo e Canela, Dona Flor e seus dois Maridos e A Tenda dos Milagres.

É inegável que obras como Canaã, de Graça Aranha, e Macunaíma, de Mário de Andrade, sejam por alguma razão tributárias de O Cortiço.

No primeiro caso, porque Graça Aranha trata de um problema do qual Aluísio Azevedo já havia abordado, o da inclusão do imigrante europeu, não como coadjuvante da história, mas como protagonista. Faça-se o registro de que Aluísio Azevedo enfoca o caso do comerciante portu-guês, enquanto Graça Aranha fala do imigrante alemão.

A linguagem que Aluísio Azevedo usou na construção ou criação da obra-prima do romance brasileiro da fase realista-naturalista, ainda hoje é insuperável pelo fato de ele, num tempo de linguagem ainda clássica e importada, optar pelos falares típicos das periferias, o que não tinha nada a ver com a semântica rebuscada da burguesia. Essa tese clama por uma re-visão.

Se Machado de Assis criou uma personagem feminina de olhar oblíquo e dissimulado e com os olhos de ressaca, como Capitu, ou Sofia; e Josué Montello também investiu nesse mesmo arquétipo, quando cria sua La Chinita, do Noite Sobre Alcântara, estamos diante de um achado fantástico, porém de conotação eminentemente machista. Em O Cortiço, Aluísio Azevedo investe na ambivalência ou bipolaridade, subvertendo esse olhar, que passa a ser prerrogativa de um homem, o comerciante e músico português, Jerônimo, que é, pelas mesmas razões de Capitu, Sofia e La Chinita, astuto, sagaz, oblíquo e dissimulado, vindo até a possuir, posteriormente, os olhos de ressaca. Desse modo, Aluísio Azevedo quebra a tradição machista machadiana.

O Cortiço é, por essa e outras razões, uma obra literária seminal na gênesis do romance genuinamente brasileiro, passada a fase artificial e calamitosa dos romances caramelados A Moreninha e O Guarani, obras respectivamente dos romancistas românticos Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar.

Se Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba são romances de dimensão universal, porque Machado de Assis investe, na época, num novo filão da narrativa moderna, a introspecção psicológica e o fluxo da memória, embora siga os modelos de uma linguagem clássica, estilo Luciano de Samósatra, Sterne e Xavier de Maïstre, O Cortiço, de Aluísio Azevedo, é a melhor expressão do romance urbano brasileiro com base na realidade social e psicológica das periferias. Esse discurso narrativo põe em xeque-mate toda a obra romanesca precedente do Romantismo, invalidando-a e confirmando-se como a autêntica narrativa da realidade nacional, antecipando-se de muito ao Macunaíma.

Precisava-se, na época, de um romancista que alavancasse o povo brasileiro do estado de espírito de autocomiseração e lhe desse uma razão de auto-estima. Alguém que levantasse a cortina, para mostrar, no palco da vida, um Brasil crescendo a partir das periferias, demonstrando à classe abastada que aqueles que moravam em cortiços também faziam suas pulitricas, davam suas cambalhotas, viravam suas carambelas, e sabiam rir e gargalhar, amar, se apaixonar, salvar, odiar e matar.

Mais tarde esses cortiços se transformariam, na obra de Jorge Amado, em bataclãs e, nos romances contemporâneos, em favelas, narcotráficos e carandirus, que ameaçam invadir e engolir as áreas urbanizadas, por serem excluídos delas.

117 anos depois da publicação da primeira edição de O Cortiço, percebe-se o quanto a obra de Aluísio Azevedo é atual. Sem dúvida, foi um grito de alerta e uma denúncia para os quais os poderes públicos não deram ouvidos, optando pela incúria, ignorando os bolsões de miséria, que hoje constituem 60% da população do país do carnaval e do futebol.

Para romper com uma tradição narrativa equivocada, como a do romance romântico brasileiro, seria preciso, por baixo das máscaras de Peri e Ceci, personagens angelicais de O Guarani, de José de Alencar, criar-se uma mulher e um homem de carne e osso, à imagem e semelhança dos que, para suportarem as vicissitudes da existência, precisam de vez em quando usar o espírito carnavalesco e erótico brasileiro como meio de catarse, como o fizeram gloriosamente o português Jerônimo e Rita Baiana, esta última uma personagem tão forte, que teria ressonância na Gabriela Cravo e Canela e na Dona Flor, de Jorge Amado. A diferença entre Rita Baiana e as demais é que na dança do chorado ela é insuperável, imperdível e, sobretudo, imprevisível.

2
A Mulher Sedutora & Fatal
(ou O feitiço e o fetiche do poder do chorado, da dança e da panela)

Com Rita Baiana e o chorado, Aluísio Azevedo funda definitivamente o Decadentismo genuinamente brasileiro. Assim, ele induz o personagem português, o comerciante e músico de fado, Jerônimo, a descobrir o Brasil, a partir da magia da música e dos encantos sedutores e fatais da mulher brasileira, criando dois mitos literários nacionais, o da mulata como símbolo sexual, sensual e erótico, encarnado e incorporado em Rita Baiana; e da música tipicamente tropicaliente, o chorado e o samba, como ícones de ritmos próprios da “malandragem” carioca. E por que não dizer brasileira e, mais particularmente, maranhense?

É pretextando doença, de maneira oblíqua e dissimulada, que Jerônimo se propõe atrair Rita Baiana para merecer suas atenções e tentar seduzi-la, já que ela o seduziu, mesmo sem ter esse propósito, mortal ou fatalmente. E é por querer cortejá-la e reqüestá-la que ele vai experimentar a cachaça, as beberagens e o gosto da comida brasileira, abandonando o vinho e a culinária portuguesa.

Rita Baiana/Salomé

Aluísio Azevedo apresenta Rita Baiana como a mulher sedutora e fatal, embora, ao dançar, ela não tenha nenhum propósito deliberado como a Salomé bíblica ou a de Oscar Wilde.

É o próprio romancista quem diz [...] cheia de uma graça irresistível, simples, primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de serpente e muito de mulher.[...] (AZEVEDO, 1983, p.56) Aí está a dualidade, a dubiedade, a pureza e a lubricidade, a carnavalização. Ela é a encarnação e projeção da mulher serpentaureada. [...] num requebrado luxurioso que a punha ofegante.[...] (id.ibid., p.56)

O chorado/ a dança

[...] O chorado arrastava a todos, despoticamente, desesperando aos que não sabiam dançar. Mas ninguém como a Rita, só ela, só aquele demônio tinha o mágico segredo de cobra amaldiçoada. [...] (id.ibid.,p.57)

É bom conferir o vocabulário e a linguagem decadentista que Aluísio Azevedo usa em O Cortiço, durante o episódio da dança:

[...] demônio, mágico segredo, cobra amaldiçoada, requebros, cheiro, voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante; grande mistério, impressões, calor vermelho, aroma quente dos trevos e das baunilhas, veneno; a castanha de caju, que abre feridas com seu azeite de fogo; cobra verde e traiçoeira, lagarta viscosa, a muriçoca doida picando-lhe as artérias para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional; música feita de gemidos de prazer; cantáridas; fosforescência afrodisíaca; entorpecimento de uma desconhecida embriaguez; limosos pântanos sombrios; ofegante a resvalar voluptuosamente.[...] (id.ibid.,p. 57)

Para conferir o que dissemos sobre O Cortiço, de Aluísio Azevedo, sugerimos a leitura do texto que está entre as páginas 55 a 61.

O chorado, o samba e o mito da sensualidade da mulher brasileira

[...]

VII
Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostálgico dos desterrados, iam todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e caindo em tristeza; mas, de repente, o cavaquinho do Porfiro, acompanhado pelo violão do Firmo, romperam vibrantemente com um chorado baiano. Nada mais que os primeiros acordes da música crioula, para que o sangue de toda aquela gente despertasse logo, como se alguém lhe fustigasse o corpo com urtigas bravas. E seguiram-se outras notas, e outras, cada vez mais ardentes e mais delirantes. Já não eram dois instrumentos que soavam, eram lúbricos gemidos e suspiros soltos em torrente, a correrem serpenteando, como cobras numa floresta incendiada; eram ais convulsos, chorados em frenesi de amor: música feita de beijos e soluços gostosos; carícia de fera, carícia de doer, fazendo estalar de gozo.

E aquela música de fogo doidejava no ar como um aroma quente de plantas brasileiras, em torno das quais se nutrem, girando, moscardos sensuais e besouros venenosos, freneticamente, bêbedos do delicioso perfume que os mata de volúpia.

E à viva crepitaço da música baiana calaram-se as melancólicas toadas dos de além-mar. Assim à refulgente luz dos trópicos amortece a fresca e doce claridade dos céus da Europa, como se o próprio sol americano, vermelho e esbraseado, viesse, na sua luxúria de sultão, beber a lágrima medrosa da decaída rainha dos mares velhos.

Autocaricatura de Aluísio Azevedo
sendo apresentado aos leitores do
Rio de Janeiro, para onde se mudara
após o escândalo causado pela
publicação de O Mulato

Casa da família Azevedo, em São Luís.
No mirante, Aluísio escreveu O Mulato

Com o crescimento urbano da antiga capital
federal, milhares de pessoas passaram a viver
em cortiços no centro da cidade

Típico cortiço do Rio de Janeiro,
no final do século XIX.

Moradores em frente a um cortiço

Aluísio quando a literatura deixa de
interessá-lo, já na maturidade

Jerônimo alheou-se de sua guitarra e ficou com as mãos esquecidas sobre as cordas, todo atento para aquela música estranha, que vinha dentro dele continuar uma revolução começada desde a primeira vez em que lhe bateu em cheio no rosto, como uma bofetada de desafio, a luz deste sol orgulhoso e selvagem, e lhe cantou no ouvido o estribilho da primeira cigarra, e lhe acidulou a garganta o suco da primeira fruta provada nestas terras de brasa, e lhe entonteceu a alma o aroma do primeiro bogari, e lhe transtornou o sangue o cheiro animal da primeira mulher, da primeira mestiça, que junto dele sacudiu as saias e os cabelos.

– Que tens tu, Jeromo?... perguntou-lhe a companheira, estranhando-o.

– Espera, respondeu ele, em voz baixa: deixa ouvir!

Firmo principiava a cantar o chorado, seguido por um acompanhamento de palmas.

Jerônimo levantou-se, quase que maquinalmente e, seguido por Piedade, aproximou-se da grande roda que se formara em torno dos dois mulatos. Aí, de queixo grudado às costas das mãos contra uma cerca de jardim, permaneceu, sem tugir nem mugir, entregue de corpo e alma àquela cantiga sedutora e voluptuosa que o enleava e tolhia, como à robusta gameleira brava o cipó flexível, carinhoso e traiçoeiro.

E viu a Rita Baiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de ombros e braços nus, para dançar. A lua destoldara-se nesse momento, envolvendo-a na sua coma de prata, a cujo refulgir os meneios da mestiça melhor se acentuavam, cheios de uma graça irresistível, simples, primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de serpente e muito de mulher.

Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse à vida, soltava um gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas, descendo, subindo, sem nunca parar com os quadris, e em seguida sapateava, miúdo e cerrado freneticamente, erguendo e abaixando os braços, que dobrava, ora um, ora outro, sobre a nuca, enquanto a carne lhe fervia toda, fibra por fibra, titilando.

Em torno o entusiasmo tocava ao delírio; um grito de aplausos explodia de vez em quando, rubro e quente como deve ser um grito saído do sangue. E as palmas insistiam, cadentes, certas, num ritmo nervoso, numa persistência de loucura. E, arrastado por ela, pulou à arena o Firmo, ágil, de borracha, a fazer coisas fantásticas com as pernas, a derreter-se todo, a sumir-se no chão, a ressurgir inteiro com um pulo, os pés no espaço, batendo os calcanhares, os braços a querer fugirem-lhe dos ombros, a cabeça a querer saltar-lhe. E depois, surgiu também a Florinda, e logo o Albino e até, quem diria! o grave e circunspecto Alexandre.

O chorado arrastava-os a todos, despoticamente, desesperando aos que não sabiam dançar. Mas, ninguém como a Rita; só ela, só aquele demônio, tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante.

E Jerônimo via e escutava, sentindo ir-se-lhe toda a alma pelos olhos enamorados.

Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca.

Isto era o que Jerônimo sentia, mas o que o tonto não podia conceber. De todas as impressões daquele resto de domingo só lhe ficou no espírito o entorpecimento de uma desconhecida embriaguez, não de vinho, mas de mel chuchurreado no cálice de flores americanas, dessas muito alvas, cheirosas e úmidas, que ele na fazenda via debruçadas confidencialmente sobre os limosos pântanos sombrios, onde as oiticicas trescalam um aroma que entristece de saudade. E deixava-se ficar, olhando. Outras raparigas dançaram, mas o português só via a mulata, mesmo quando, prostrada, fora cair nos braços do amigo. Piedade, a cabecear de sono, chamara-o várias vezes para se recolherem; ele respondeu com um resmungo e não deu pela retirada da mulher.

Passaram-se horas, e ele também não deu pelas horas que ruíram. O círculo do pagode aumentou: vieram de lá defronte a Isaura e a Leonor, o João Romão e a Bertoleza, desembaraçados da sua faina, quiseram dar fé da patuscada um instante antes de caírem na cama; a família do Miranda pusera-se à janela, divertindo-se com a gentalha da estalagem; reunira povo lá fora na rua; mas Jerônimo nada vira de tudo isso; nada vira senão uma coisa, que lhe persistia no espírito: a mulata ofegante a resvalar voluptuosamente nos braços do Firmo.

Só deu por si, quando, já pela madrugada, se calaram de todo os instrumentos e cada um dos folgadores se recolheu à casa.

E viu a Rita levada para o quarto pelo seu homem, que a arrastava pela cintura.

Jerônimo ficou sozinho no meio da estalagem. A lua, agora inteiramente livre das nuvens que a perseguiam, lá ia caminhando em silêncio na sua viagem misteriosa. As janelas do Miranda fecharam-se. A pedreira, ao longe, por detrás da última parede do cortiço, erguia-se como um monstro iluminado na sua paz. Uma inquietação densa pairava já sobre tudo: só se distinguiam o bruxulear dos pirilampos na sombra das hortas e dos jardins, e os murmúrios das árvores que sonhavam.

Mas Jerônimo nada mais sentia, nem ouvia, do que aquela música embalsamada de baunilha, que lhe entontecera a alma; e compreendeu perfeitamente que dentro dele aqueles cabelos crespos, brilhantes e cheirosos, da mulata, principiavam a formar um ninho de cobras negras e venenosas, que lhe iam devorar o coração.

E, erguendo a cabeça, notou no mesmo céu, que ele nunca vira, senão depois de sete horas de sono, que era já quase ocasião de entrar para o seu serviço, e resolveu não dormir, porque valia a pena esperar de pé.

VIII
No dia seguinte, Jerônimo largou o trabalho à hora de almoçar e, em vez de comer lá mesmo na pedreira com os companheiros, foi para casa. Mal tocou no que a mulher lhe apresentou à mesa e meteu-se logo depois na cama, ordenando-lhe que fosse ter com João Romão e lhe dissesse que ele estava incomodado e ficava de descanso aquele dia.

– Que tens tu, Jeromo?...

– Morrinhento, filha... Vai, anda!

– Mas sentes-te mal?...

– Ó mulher! Vai fazer o que te disse e ao depois então darás à língua!

– Valha-me a Virgem! Não sei se haverá chá preto na venda! E ela saiu, aflita. Qualquer novidade no marido, por menor que fosse, punha-a doida. “Pois um homem rijo, que nunca caía doente? Seria a febre amarela?... Jesus, Santo Filho de Maria, que nem pensar nisso era bom! Credo!”

A notícia espalhou-se logo ali entre as lavadeiras.

– Foi da friage da noite, afirmou a Bruxa, e deu um pulo á casa do trabalhador para receitar.

O doente repeliu-a, pedindo-lhe que o deixasse em paz; que ele do que precisava era de dormir. Mas não o conseguiu: atrás da Bruxa correu a segunda mulher, e a terceira, e a quarta; e, afinal fez-se durante muito tempo em sua casa um entrar e sair de saias. Jerônimo perdeu a paciência e ia protestar brutalmente contra semelhante invasão, quando, pelo cheiro, sentiu que a Rita se aproximava também.

– Ah!

E desfranziu-se-lhe o rosto.

– Bons dias! Então que é isso, vizinho? Você caiu doente com a minha chegada? Se tal soubera não vinha!

Ele riu-se. E era a primeira vez que ria desde a véspera.

A mulata aproximou-se da cama.

Como principiara a trabalhar esse dia, tinha as saias apanhadas na cintura e os braços completamente nus e frios da lavagem. O seu casaquinho branco abria-lhe no pescoço, mostrando parte do peito cor de canela.

Jerônimo apertou-lhe a mão.

– Gostei de vê-la ontem dançar, disse, muito mais animado.

– Já tomou algum remédio?...

– A mulher falou aí em chá preto...

– Chá! Que asneira! Chá é água morna! Isso que você tem é uma resfriagem. Vou-lhe fazer uma xícara de café bem forte para você beber com um gole de parati, e me dirá se sua ou não, e fica depois fino e pronto para outra! Espere aí!

E saiu logo, deixando todo quarto impregnado dela.

Jerônimo, só com respirar aquele almíscar, parecia melhor. Quando Piedade tornou, pesada, triste, resmungando consigo mesma, ele sentiu que principiava a enfará-lo; e, quando a infeliz se aproximou do marido, este, fora do costume, notou-lhe o cheiro azedo do corpo. Voltou-lhe então o mal-estar e desapareceu o último vestígio do sorriso que ele tivera havia pouco.

– Mas que sentes tu, Jeromo?... Fala, homem! Não me dizes nada! Assim m’assustas... Que tens, diz’-lo!

– Não cozas o chá. Vou tomar outra coisa...

– Não queres o chá? Mas é o remédio, filhinho de Deus!

– Já te disse que tomo outra mezinha. Oh!

Piedade não insistiu.

– Queres tu um escalda-pés?...

– Toma-lo tu!

Ela calou-se. Ia a dizer que nunca o vira assim tão áspero e seco, mas receou importuná-lo. “Era naturalmente a moléstia que o punha rezinguento.”

Jerônimo fechara os olhos, para a não ver, e ter-se-ia, se pudesse, fechado por dentro, para a não sentir. Ela, porém, coitada! fora assentar-se à beira da cama, humilde e solícita, a suspirar, vivendo naquele instante, pura e exclusivamente, para o seu homem, fazendo-se muito escrava dele, sem vontade própria, acompanhando-lhe os menores gestos com o olhar, inquieta, que nem um cão que, ao lado do dono, procura adivinhar-lhe as intenções.

– ‘Stá bem, filha, não vais tratar do teu serviço?...

– Não te dê isso cuidado! Não parou o trabalho! Pedi à Leocádia que me esfregasse a roupa. Ela hoje tinha pouco que fazer e...

– Andaste mal...

– Ora! Não há três dias que fiz outro tanto por ela... E demais, não foi que tivesse o homem doente, era a calaçaria do capinzal!

– Bom, bom, filha! não digas mal da vida alheia! Melhor seria que estivesses à tua tina, em vez de ficar aí a murmurar do próximo... Anda! vai tomar conta das tuas obrigações.

– Mas estou-te a dizer que não há transtorno!...

– Transtorno já é estar eu parado; e o pior será pararem os dois!

– Eu queria ficar a teu lado, Jeromo!

– E eu acho que isso é tolice! Vai! anda!

Ela ia retirar-se, como um animal enxotado, quando deu com a Rita, que entrava muito ligeira e sacudida, trazendo na mão a fumegante palangana de café com parati e no ombro um cobertor grosso para dar um suadouro ao doente.

– Ah! fez Piedade, sem encontrar uma palavra para a mulata. E deixou-se ficar.

Rita, despreocupadamente, alegre e benfazeja como sempre, pousou a vasilha sobre a cômoda do oratório e abriu o cobertor.

– lsso é que o vai pôr fino! disse. Vocês também, seus portugueses, por qualquer coisinha ficam logo pra morrer, com uma cara da última hora! E ai, ai, Jesus, meu Deus! Ora, esperte-se! Não me seja maricas!

– Ele riu-se assentando-se na cama.

– Pois não é assim mesmo? perguntou ela à Piedade, apontando para o carão barbado de Jerônimo. Olhe só para aquela cara e diga-me se não está a pedir que o enterrem!

A portuguesa não dizia nada, sorria contrafeita, no íntimo, ressentida contra aquela invasão de uma estranha nos cuidados pelo seu homem. Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o instinto, o faro sutil e desconfiado de toda a fêmea pelas outras, quando sente o seu ninho exposto.

– Está-me a parecer que agora te achas melhor, hein?... desembuchou afinal, procurando o olhar do marido, sem conseguir disfarçar de todo o seu descontentamento.

– Só com o cheiro! reforçou a mulata, apresentando o café ao doente. Beba, ande! beba tudo e abafe-se! Quero, quando voltar logo, encontrá-lo pronto, ouviu? – E acrescentou, falando à Piedade, em tom mais baixo e pousando-lhe a mão no ombro carnudo: – Ele daqui a nada deve estar ensopado de suor; mude-lhe toda a roupa e dê-lhe dois dedos de parati, logo que peça água. Cuidado com o vento!

IX
PASSARAM-SE semanas. Jerônimo tomava agora todas as manhãs, uma xícara de café bem grosso, à moda da Ritinha e tragava dois dedos de parati “para cortar a friagem”.

Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia-se dos seus primitivos sonhos de ambição, para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e fraco, mas amigo de gastar que de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia-se preguiçoso resignando-se, vencido às imposições do sol e do calor, muralha de fogo com que o espírito eternamente revoltado do último tamoio entrincheirou a pátria contra os conquistadores aventureiros.

E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos singelos de aldeão português; e Jerônimo abrasileirou-se. A sua casa perdeu aquele ar sombrio e concentrado que a entristecia; já apareciam por lá alguns companheiros de estalagem, para dar dois dedos de palestras nas horas de descanso, e aos domingos reunia-se gente para o jantar. A revolução afinal foi completa: a aguardente de cana substituiu o vinho; a farinha de mandioca sucedeu à broa; a carne-seca e o feijão-preto ao bacalhau, com batatas e cebolas cozidas; a pimenta-malagueta e a pimenta-de-cheiro invadiram vitoriosamente a sua mesa; o caldo verde, a açorda e o caldo de unto foram repelidos pelos ruivos e gostosos quitutes baianos, pela muqueca, pelo vatapá e pelo caruru; a couve à mineira destronou a couve à portuguesa; o pirão de fubá ao pão de rala, e, desde que o café encheu a casa com o seu aroma quente, Jerônimo principiou a achar graça no cheiro do fumo e não tardou a fumar também com os amigos.

E o curioso é que quanto mais ia ele caindo nos usos e costumes brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em detrimento das suas forças físicas. Tinha agora o ouvido menos grosseiro para a música, compreendia até as intenções poéticas dos sertanejos, quando cantam à viola os seus amores infelizes; seus olhos dantes só voltados para a esperança de tornar à terra, agora, como os olhos de um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de céu e mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz, selvagem e alegre do Brasil, e abriam-se amplamente defronte dos maravilhosos despenhadeiros ilimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espaço a espaço, surge um monarca gigante, que o sol veste de ouro e ricas pedrarias refulgentes e as nuvens tocam de alvos turbantes de cambraia, num luxo oriental de arábicos, príncipes voluptuosos.[...]

(AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. São Paulo:Editora Ática, 1983, p.55-67)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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